3.12.17

COMO APRENDI O ESSENCIAL DA VIDA - Emil Nykvist


Todo mundo no bloco de apartamentos em que eu morava sabia quem era o “Feio”. Feio era o gato sem dono que vivia por ali. Feio amava três coisas neste mundo: brigar, comer as sobras das latas de lixo e, vamos dizer, namorar.

A combinação destas coisas com uma vida vivida em liberdade teve um efeito em Feio. Para começar, ele tinha apenas um olho e no lugar do outro olho havia um buraco. Também não tinha uma orelha, sua pata esquerda parecia ter sido quebrada no passado, o que o deixou com um andar desajeitado.

O rabo ele o tinha perdido há muito tempo, deixando apenas um pequeno pedaço, que ele constantemente mexia. Feio era cinza escuro, malhado e listrado, exceto nas cicatrizes de feridas que cobriam sua cabeça e pescoço.

Toda vez que alguém encontrava o Feio, a reação era a mesma: “Aquele é o gato Feio!” Todas as crianças eram avisadas para não tocá-lo, os adultos jogavam pedras e água quando ele se aproximava de suas casas, ou o espantavam para longe quando ele não se afastava.

Feio sempre tinha a mesma reação. Se você lhe jogasse água com a mangueira, ele ficava ali, se encharcando até que você parasse e o deixasse em paz. Se você jogasse pedras, ele enrolava o corpo como que perdoando.

Quando ele via crianças, vinha correndo e miando, e esfregava a cabeça em suas mãos, suplicando amor e querendo ser acariciado. Se você o pegasse, começava a lamber seu rosto e ronronar.




Um dia Feio resolveu partilhar seu amor com dois cães da vizinhança. Mas eles não o trataram com gentileza e Feio ficou muito machucado. De meu apartamento podia ouvir seus gritos e gemidos, e então corri para socorrê-lo. Quando cheguei lá, ele estava deitado no chão, e ficou evidente que a triste vida de Feio estava chegando ao fim.

Suas costelas tinham marcas de mordidas. Quando o peguei e tentei leva-lo para casa, podia ouvir seu chiado e respiração ofegante, e podia senti-lo lutando pela vida. Devia estar terrivelmente ferido.

Então senti uma leve lambida em minha orelha: Feio, mesmo sofrendo terrivelmente e à beira da morte, estava tentando me agradar, lambendo meu rosto e ronronando. Puxei-o mais para perto de mim e ele esfregou a cabeça na palma de minha mão.

Mesmo na maior dor, aquele gato feio e marcado pelas batalhas da sobrevivência estava pedindo apenas um pouco de afeto, talvez alguma compaixão. Naquele momento pensei que Feio era a criatura mais bela e amável que já tinha visto. Em nenhum momento ele tentou me morder ou unhar, nem mesmo fugir de mim. Feio apenas me olhava com perfeita confiança para que lhe aliviasse a dor.

Feio morreu em meus braços antes que eu pudesse entrar em casa, mas sentei-me ali e fiquei segurando-o por um longo tempo, pensando como um gato cheio de cicatrizes e deformado podia mudar minha visão sobre o que significa ter pureza de espírito para amar total e verdadeiramente.

Feio me ensinou mais sobre doar-me e ser compassivo que mil livros e palestras poderiam fazê-lo, e por causa disso serei sempre grato. Ele tinha cicatrizes por fora, mas eu as tinha por dentro, e para mim era hora de mudar e aprender a amar verdadeira e profundamente. Dar tudo de mim para aqueles por quem eu era responsável.

Muitas pessoas querem ser mais ricas, ter mais sucesso, ser mais apreciadas e belas, mas para mim sempre vou tentar ser como o gato Feio.





Nenhum comentário:

Postar um comentário