Devoto: A
devoção não é um caminho que leva a Deus? O sacrifício da
devoção não purifica o coração? A devoção não é uma parte
essencial da vida?
Krishnamurti:
O que entendeis por devoção?
Devoto: O
amor ao Ser Supremo; a oferta de uma flor diante da imagem do símbolo
de Deus. A devoção é absorção integral, amor que transcende o
amor carnal. Já tenho passado muitas horas seguidas, completamente
absorvido no amor de Deus. Nesse estado nada sou e nada sei. Nele, a
vida toda é uma só vida, o gari e o rei são um só. É um estado
maravilhoso. Por certo, vós o conheceis.
Krishnamurti:
Devoção é amor? É algo que está separado de nossa existência
diária? É um ato de sacrifício o consagrar-se a um objeto, ao
saber, ao trabalho social ou à ação? É sacrifício de si mesmo
estar absorvido na devoção? Devoção é a adoração de uma
imagem, uma pessoa, um símbolo? A realidade tem algum símbolo? Pode
um símbolo representar a verdade? O símbolo é estático; pode o
que é estático representar o que vive?
Passais muitas
horas por dia embebido nisso que chamais contemplação de Deus. Isso
é devoção? O homem que dedica sua vida à melhoria das condições
sociais é devotado a seu trabalho. O general, cuja função é
planejar a destruição, também é devotado a seu trabalho. É
devoção isso? Se me permitis dizê-lo, vós passais o tempo a
embriagar-vos com a imagem ou a ideia de Deus, e outros se embriagam
de maneira diferente. Existe distinção entre vós e estes?
Devoto:
Mas esta devoção a Deus empolga toda minha existência. Nada mais
conheço senão Deus. Ele ocupa todo meu coração.
Krishnamurti:
O homem que tem devoção a seu trabalho, a seu líder, sua
ideologia, esse homem também está empolgado por aquilo com que se
ocupa. Vós encheis o coração com a palavra Deus e outro homem
enche com sua atividade. E isso é devoção? Sentis felicidade com
vossa imagem, vosso símbolo; outros a sentem com seus livros, ou
ouvindo música. E isso é devoção? Um homem é devotado a sua
esposa, por várias razões, que proporcionam agrado, satisfação; e
satisfação é devoção?
Devoto:
Mas o devotar-me todo a Deus não causa mal a ninguém. Pelo
contrário, não só me ponho fora do caminho do mal, como também
não faço mal a outros.
Krishnamurti:
Isso pelo menos já é alguma coisa. Mas embora não façais mal
algum exteriormente, a ilusão, num nível mais profundo, não é
danosa, tanto para vós como para a sociedade?
Devoto:
Não tenho interesse na sociedade. Minhas necessidades são poucas;
refreei minhas paixões e passo meus dias à sombra de Deus.
Krishnamurti:
Não achais importante investigar se, atrás dessa sombra, existe
alguma substância? Adorar a ilusão é estar apegado à satisfação
de si mesmo.
Devoto:
Sois muito perturbador, e eu nem sei ao certo se desejo continuar
esta nossa conversa. Vim aqui para prostrar-me, junto convosco,
diante do mesmo altar. Mas vejo que vossa devoção é completamente
diferente, e o que dizeis está fora de meu alcance. Entretanto
desejaria saber onde está a beleza de vossa devoção. Não tendes
quadros, nem imagens, nem rituais, mas deveis ter uma devoção. De
que natureza é ela?
Krishnamurti:
O adorador é o próprio objeto da adoração. Adorar a outro é
adorar a si mesmo. A imagem, o símbolo, é uma projeção de nós
mesmos. Afinal, vosso ídolo, vosso livro, vossa prece, são reflexos
de vosso próprio “fundo”; são criações vossas, ainda que
feitos por outro. Vossa imagem é o vinho com que vos embriagais, e
ela foi esculpida com material de vossa própria memória. Estais
adorando a vós mesmo, através da imagem criada por vosso próprio
pensamento.
Vossa devoção
é o amor que tendes a vós mesmo, disfarçado pelas cantigas de
vossa mente. Tal devoção é uma forma de automistificação, que só
leva ao sofrimento, ao isolamento, que é morte.
A busca é
devoção? Buscar uma coisa não é achar; buscar a Verdade não é
achar a Verdade. Fugimos de nós mesmos por meio da busca, que é
ilusão. Procuramos por todos os modos fugir daquilo que somos.
Dentro de nós, somos insignificantes, essencialmente nulos, e a
adoração de algo maior do que nós é tão pouco significativa e
tão estúpida quanto nós mesmos.
O pequeno que
busca o grande só achará aquilo que é capaz de achar. As fugas são
muitas e variadas, mas a mente em fuga é sempre uma mente medrosa,
estreita, ignorante. Para compreender o que é, a mente deve estar em
silêncio.
Devoto: O
que se entende por “o que é”?
Krishnamurti:
“O que é” é o que existe momento por momento. A compreensão
de todo o processo de vossa adoração, vossa devoção àquilo que
chamais Deus, é percebimento de “o que é”. Mas não desejais
compreender o que é; porque vossa fuga ao que é – fuga que
chamais devoção – é a fonte de um prazer maior, e nessas
condições a ilusão se torna mais significativa do que a Realidade.
A compreensão do que é não depende do pensamento, porque o
pensamento também é fuga.
Pensar no
problema não é compreender o problema. É só quando a mente está
em silêncio que se revela a verdade contida em “o que é”.
Devoto:
Estou satisfeito com o que tenho. Sou feliz com meu Deus, meu
cântico, minha devoção. A devoção a Deus é o cântico do meu
coração, e minha felicidade está toda nesta canção. Vossa canção
será mais clara, mais espontânea, mas quanto eu canto meu coração
está completamente cheio. Pode um homem desejar mais alguma coisa
quando tem o coração cheio? Na minha canção nós dois somos
irmãos, e eu não me deixo perturbar por vossa canção.
Krishnamurti:
Quando a canção é real, não existe nem vós nem eu, mas apenas o
silêncio do Eterno. A canção não é um som, senão silêncio. Não
deixeis o som de vosso cantar encher-vos o coração.