Trecho de palestra de Krishnamurti a estudantes na Índia em 1952:
Quantas
vezes passais por camponeses a transportarem pesados fardos! O que
sentis nessas ocasiões? O que sentis por essas pessoas, por aquelas
pobres mulheres esfarrapadas, esquálidas, suarentas, mal nutridas,
que trabalham dia após dia, sem garantia alguma, em troca de um
magro salário? Andais tão assustados, tão ocupados com vós
mesmos, vossas preocupações, vossa aparência, vossas roupas, que
nunca lhes dais um pouco de atenção.
Sentis
que sois muito melhores, que sois uma classe diferente e, por isso,
vós não lhes prestais a mínima atenção. Mas quando os vedes
passar, o que sentis? Não sentis nenhum desejo de ajudá-los?
Dar-lhes ajuda? Isso indica vossa maneira de pensar. Estais tão
embotados pela tradição, por vossos pais e mães, pela prática
secular da opressão, que porque sois um rapaz ou uma moça de certa
classe, achais que lhes deveis não dar atenção.
Estais
deveras tão asfixiados que não sabeis o que se passa ao derredor?
Assim gradualmente, o medo – medo do que dizem os pais, do que
dizem os mestres, medo da tradição, medo da vida – destroi a
sensibilidade. Sabeis o que é a sensibilidade? É ser sensível,
receptivo, compreensivo, é ter compaixão pelos que sofrem, ser
capaz de afeição, estar consciente do que se passa ao redor de nós.
Ouvis
soar o sino do templo; prestais atenção a isso? Escutais o som?
Vedes os reflexos do sol nas águas? Vedes os pobres, os aldeãos, há
séculos dominados e pisados por exploradores? Sois sensível a tudo
o que se passa em torno de vós? Ao verdes uma criada levando um
pesado tapete, vós a ajudais? Tudo isso implica sensibilidade.
Como
vedes, a sensibilidade se destroi quando uma pessoa é disciplinada,
quando sente medo, só se preocupa consigo. Sabeis o que significa
uma pessoa que só cuida de si? É uma pessoa que só cuida de sua
própria aparência, de suas roupas, que só pensa em si, a todas as
horas – como o faz a maioria de nós, de um ou outro modo – de
maneira que sua mente e seu coração se fecham e ela perde toda
capacidade de apreciar o belo.
Ser
realmente livre implica muita sensibilidade. Não há liberdade se
vos fechais pela prática de várias disciplinas. Como quase tudo que
fazeis na vida é imitação, perdeis a sensibilidade, perdeis a
liberdade. É importantíssimo que, enquanto aqui estais nesta
escola, seja lançada a semente da liberdade para que, em toda a
vossa vida prevaleça a inteligência, que é liberdade. Com essa
inteligência podereis examinar todos os problemas da vida.

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