23.4.17

DEVOÇÃO E CULTO – Krishnamurti


Devoto: A devoção não é um caminho que leva a Deus? O sacrifício da devoção não purifica o coração? A devoção não é uma parte essencial da vida?

Krishnamurti: O que entendeis por devoção?

Devoto: O amor ao Ser Supremo; a oferta de uma flor diante da imagem do símbolo de Deus. A devoção é absorção integral, amor que transcende o amor carnal. Já tenho passado muitas horas seguidas, completamente absorvido no amor de Deus. Nesse estado nada sou e nada sei. Nele, a vida toda é uma só vida, o gari e o rei são um só. É um estado maravilhoso. Por certo, vós o conheceis.

Krishnamurti: Devoção é amor? É algo que está separado de nossa existência diária? É um ato de sacrifício o consagrar-se a um objeto, ao saber, ao trabalho social ou à ação? É sacrifício de si mesmo estar absorvido na devoção? Devoção é a adoração de uma imagem, uma pessoa, um símbolo? A realidade tem algum símbolo? Pode um símbolo representar a verdade? O símbolo é estático; pode o que é estático representar o que vive?

Passais muitas horas por dia embebido nisso que chamais contemplação de Deus. Isso é devoção? O homem que dedica sua vida à melhoria das condições sociais é devotado a seu trabalho. O general, cuja função é planejar a destruição, também é devotado a seu trabalho. É devoção isso? Se me permitis dizê-lo, vós passais o tempo a embriagar-vos com a imagem ou a ideia de Deus, e outros se embriagam de maneira diferente. Existe distinção entre vós e estes?

Devoto: Mas esta devoção a Deus empolga toda minha existência. Nada mais conheço senão Deus. Ele ocupa todo meu coração.

Krishnamurti: O homem que tem devoção a seu trabalho, a seu líder, sua ideologia, esse homem também está empolgado por aquilo com que se ocupa. Vós encheis o coração com a palavra Deus e outro homem enche com sua atividade. E isso é devoção? Sentis felicidade com vossa imagem, vosso símbolo; outros a sentem com seus livros, ou ouvindo música. E isso é devoção? Um homem é devotado a sua esposa, por várias razões, que proporcionam agrado, satisfação; e satisfação é devoção?

Devoto: Mas o devotar-me todo a Deus não causa mal a ninguém. Pelo contrário, não só me ponho fora do caminho do mal, como também não faço mal a outros.

Krishnamurti: Isso pelo menos já é alguma coisa. Mas embora não façais mal algum exteriormente, a ilusão, num nível mais profundo, não é danosa, tanto para vós como para a sociedade?

Devoto: Não tenho interesse na sociedade. Minhas necessidades são poucas; refreei minhas paixões e passo meus dias à sombra de Deus.

Krishnamurti: Não achais importante investigar se, atrás dessa sombra, existe alguma substância? Adorar a ilusão é estar apegado à satisfação de si mesmo.

Devoto: Sois muito perturbador, e eu nem sei ao certo se desejo continuar esta nossa conversa. Vim aqui para prostrar-me, junto convosco, diante do mesmo altar. Mas vejo que vossa devoção é completamente diferente, e o que dizeis está fora de meu alcance. Entretanto desejaria saber onde está a beleza de vossa devoção. Não tendes quadros, nem imagens, nem rituais, mas deveis ter uma devoção. De que natureza é ela?

Krishnamurti: O adorador é o próprio objeto da adoração. Adorar a outro é adorar a si mesmo. A imagem, o símbolo, é uma projeção de nós mesmos. Afinal, vosso ídolo, vosso livro, vossa prece, são reflexos de vosso próprio “fundo”; são criações vossas, ainda que feitos por outro. Vossa imagem é o vinho com que vos embriagais, e ela foi esculpida com material de vossa própria memória. Estais adorando a vós mesmo, através da imagem criada por vosso próprio pensamento.

Vossa devoção é o amor que tendes a vós mesmo, disfarçado pelas cantigas de vossa mente. Tal devoção é uma forma de automistificação, que só leva ao sofrimento, ao isolamento, que é morte.

A busca é devoção? Buscar uma coisa não é achar; buscar a Verdade não é achar a Verdade. Fugimos de nós mesmos por meio da busca, que é ilusão. Procuramos por todos os modos fugir daquilo que somos. Dentro de nós, somos insignificantes, essencialmente nulos, e a adoração de algo maior do que nós é tão pouco significativa e tão estúpida quanto nós mesmos.

O pequeno que busca o grande só achará aquilo que é capaz de achar. As fugas são muitas e variadas, mas a mente em fuga é sempre uma mente medrosa, estreita, ignorante. Para compreender o que é, a mente deve estar em silêncio.

Devoto: O que se entende por “o que é”?

Krishnamurti: “O que é” é o que existe momento por momento. A compreensão de todo o processo de vossa adoração, vossa devoção àquilo que chamais Deus, é percebimento de “o que é”. Mas não desejais compreender o que é; porque vossa fuga ao que é – fuga que chamais devoção – é a fonte de um prazer maior, e nessas condições a ilusão se torna mais significativa do que a Realidade. A compreensão do que é não depende do pensamento, porque o pensamento também é fuga.

Pensar no problema não é compreender o problema. É só quando a mente está em silêncio que se revela a verdade contida em “o que é”.

Devoto: Estou satisfeito com o que tenho. Sou feliz com meu Deus, meu cântico, minha devoção. A devoção a Deus é o cântico do meu coração, e minha felicidade está toda nesta canção. Vossa canção será mais clara, mais espontânea, mas quanto eu canto meu coração está completamente cheio. Pode um homem desejar mais alguma coisa quando tem o coração cheio? Na minha canção nós dois somos irmãos, e eu não me deixo perturbar por vossa canção.

Krishnamurti: Quando a canção é real, não existe nem vós nem eu, mas apenas o silêncio do Eterno. A canção não é um som, senão silêncio. Não deixeis o som de vosso cantar encher-vos o coração.



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