Professor:
O moderno sistema educativo falhou completamente, pois produziu duas
guerras devastadoras e a mais aterradora miséria. Aprender ler e
escrever, a aquisição de diferentes técnicas, o cultivo da
memória, não são suficientes porque têm produzido males
inenarráveis. O que considerais ser a finalidade da educação?
Krishnamurti:
Não é a de produzir um indivíduo integrado? Devemos perceber
claramente se o indivíduo existe para a sociedade, ou a sociedade
para o indivíduo. Se a sociedade necessita e faz uso do indivíduo
para seus próprios fins, não tem então nenhum interesse na
formação do ente humano integrado; o que ela quer é uma máquina
eficiente, um cidadão obediente e respeitável e isso só requer uma
integração muito fuperficial.
Enquanto o
indivíduo for obediente e se deixar condicionar totalmente, a
sociedade o achará útil e gastará tempo e dinheiro com ele. Mas se
a sociedade existe para o indivíduo, cabe-lhe então ajudá-lo a
libertar-se da influência condicionadora dela própria.
Professor: O que
entendeis por ente humano integrado?
Krishnamurti:
Dizer o que é um ente humano integrado é criar um padrão, um
molde, um exemplo que se tentará imitar. E a imitação de um padrão
não é um sinal de desintegração? Não há dúvida de que a
imitação é um processo de desintegração. Não é isso que está
acontecendo no mundo? Estamos nos tornando excelentes discos de
repetição, repetindo o que as chamadas religiões nos ensinaram ou
o que disse o mais moderno líder político, econômico ou religioso.
Estamos apegados
a ideologias e acorremos em massa aos comícios políticos ou feitos
esportivos. E há a devoção em massa, a hipnose em massa. Isto é
sinal de integração? Ajustamento não é integração, é?
Professor: Isso
nos leva à questão da disciplina. Sois contrário à disciplina?
Krishnamurti: O
que entendeis por disciplina?
Professor: Há
muitas formas de disciplina; a disciplina escolar, a disciplina
cívica, a disciplina partidária, as disciplinas sociais e
religiosas, e a disciplina que o indivíduo impõe a si próprio. A
disciplina tanto pode ser ditada por uma autoridade interior como por
uma autoridade exterior.
Krishnamurti:
Toda disciplina implica um certo ajustamento, não é verdade?
Ajustamento a um ideal, obediência à autoridade. Disciplina é
processo de isolamento, seja o isolamento num dado grupo ou o
isolamento próprio da resistência individual.
Professor:
Quereis dizer que a disciplina destroi a integração? Que
aconteceria se não houvesse disciplina nas escolas?
Krishnamurti: O
medo é a base de toda disciplina. O medo de não ser bem sucedido,
medo de ser punido, medo de não ganhar, e assim por diante.
Disciplina é imitação, repressão, resistência, e quer
consciente, quer inconsciente, ela é o resultado do medo. O medo não
é um dos fatores da desintegração?
Professor: O que
ofereceríeis para substituir a disciplina? Sem disciplina haveria um
caos maior ainda do que o atual.
Krishnamurti:
Compreender o falso como falso, perceber o verdadeiro no falso,
reconhecer o verdadeiro como verdadeiro, eis o começo da
inteligência. Não é questão de substituição. Não se pode
substituir o medo por outra coisa. Se o fazemos, o medo continua a
existir. A eliminação do medo e não a procura de um substituto
para ele é que é importante.
O medo precisa
ser observado, estudado, compreendido. Compreender não é oferecer
resistência ou oposição. A disciplina, no seu sentido mais amplo e
profundo, não constitui um fator de desintegração? O medo, com sua
concomitante imitação e repressão, não é uma força
desintegradora?
Professor: Mas
como se pode eliminar o medo? Como é possível manter a ordem numa
classe numerosa, a não ser que haja uma certa disciplina, ou se
preferirdes, medo?
Krishnamurti:
Mantendo-se poucos estudantes em cada classe e ministrando-lhes a
educação correta. Isto, naturalmente, é impossível quando ao
Estado só interessa a “produção em massa” de cidadãos. O
Estado prefere a educação em massa; os dirigentes não querem que
se estimule a insatisfação, porque sua posição logo se tornaria
insustentável.
O Estado
controla a educação; ingere-se na vida dos indivíduos e condiciona
a entidade humana, para seus próprios fins. E a maneira mais fácil
de fazer isso é por meio do medo, da disciplina, da ameaça de
punição ou promessa de recompensa. A libertação do medo é outra
questão; o medo precisa ser compreendido, e por isso não devemos
resistir-lhe, reprimi-lo ou sublimá-lo.

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