23.4.17

EDUCAÇÃO E INTEGRAÇÃO – Krishnamurti


Professor: O moderno sistema educativo falhou completamente, pois produziu duas guerras devastadoras e a mais aterradora miséria. Aprender ler e escrever, a aquisição de diferentes técnicas, o cultivo da memória, não são suficientes porque têm produzido males inenarráveis. O que considerais ser a finalidade da educação?

Krishnamurti: Não é a de produzir um indivíduo integrado? Devemos perceber claramente se o indivíduo existe para a sociedade, ou a sociedade para o indivíduo. Se a sociedade necessita e faz uso do indivíduo para seus próprios fins, não tem então nenhum interesse na formação do ente humano integrado; o que ela quer é uma máquina eficiente, um cidadão obediente e respeitável e isso só requer uma integração muito fuperficial.

Enquanto o indivíduo for obediente e se deixar condicionar totalmente, a sociedade o achará útil e gastará tempo e dinheiro com ele. Mas se a sociedade existe para o indivíduo, cabe-lhe então ajudá-lo a libertar-se da influência condicionadora dela própria.

Professor: O que entendeis por ente humano integrado?

Krishnamurti: Dizer o que é um ente humano integrado é criar um padrão, um molde, um exemplo que se tentará imitar. E a imitação de um padrão não é um sinal de desintegração? Não há dúvida de que a imitação é um processo de desintegração. Não é isso que está acontecendo no mundo? Estamos nos tornando excelentes discos de repetição, repetindo o que as chamadas religiões nos ensinaram ou o que disse o mais moderno líder político, econômico ou religioso.

Estamos apegados a ideologias e acorremos em massa aos comícios políticos ou feitos esportivos. E há a devoção em massa, a hipnose em massa. Isto é sinal de integração? Ajustamento não é integração, é?


Professor: Isso nos leva à questão da disciplina. Sois contrário à disciplina?

Krishnamurti: O que entendeis por disciplina?

Professor: Há muitas formas de disciplina; a disciplina escolar, a disciplina cívica, a disciplina partidária, as disciplinas sociais e religiosas, e a disciplina que o indivíduo impõe a si próprio. A disciplina tanto pode ser ditada por uma autoridade interior como por uma autoridade exterior.

Krishnamurti: Toda disciplina implica um certo ajustamento, não é verdade? Ajustamento a um ideal, obediência à autoridade. Disciplina é processo de isolamento, seja o isolamento num dado grupo ou o isolamento próprio da resistência individual.

Professor: Quereis dizer que a disciplina destroi a integração? Que aconteceria se não houvesse disciplina nas escolas?

Krishnamurti: O medo é a base de toda disciplina. O medo de não ser bem sucedido, medo de ser punido, medo de não ganhar, e assim por diante. Disciplina é imitação, repressão, resistência, e quer consciente, quer inconsciente, ela é o resultado do medo. O medo não é um dos fatores da desintegração?

Professor: O que ofereceríeis para substituir a disciplina? Sem disciplina haveria um caos maior ainda do que o atual.

Krishnamurti: Compreender o falso como falso, perceber o verdadeiro no falso, reconhecer o verdadeiro como verdadeiro, eis o começo da inteligência. Não é questão de substituição. Não se pode substituir o medo por outra coisa. Se o fazemos, o medo continua a existir. A eliminação do medo e não a procura de um substituto para ele é que é importante.

O medo precisa ser observado, estudado, compreendido. Compreender não é oferecer resistência ou oposição. A disciplina, no seu sentido mais amplo e profundo, não constitui um fator de desintegração? O medo, com sua concomitante imitação e repressão, não é uma força desintegradora?

Professor: Mas como se pode eliminar o medo? Como é possível manter a ordem numa classe numerosa, a não ser que haja uma certa disciplina, ou se preferirdes, medo?

Krishnamurti: Mantendo-se poucos estudantes em cada classe e ministrando-lhes a educação correta. Isto, naturalmente, é impossível quando ao Estado só interessa a “produção em massa” de cidadãos. O Estado prefere a educação em massa; os dirigentes não querem que se estimule a insatisfação, porque sua posição logo se tornaria insustentável.

O Estado controla a educação; ingere-se na vida dos indivíduos e condiciona a entidade humana, para seus próprios fins. E a maneira mais fácil de fazer isso é por meio do medo, da disciplina, da ameaça de punição ou promessa de recompensa. A libertação do medo é outra questão; o medo precisa ser compreendido, e por isso não devemos resistir-lhe, reprimi-lo ou sublimá-lo.




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