27.10.17

O APEGO ÀS SENSAÇÕES SEXUAIS – P. Yogananda


A verdade é que apenas os tolos são apegados ao mundo. Tolos são os que vivem na ignorância, aqueles para quem o mundo é real, porque pensam ser este o único modo de vida.

O apego é como um eczema. Quanto mais você tenta obter alívio e cede à exigência de coçá-lo, mais ele coça; e quanto mais você o deixa quieto, menos o eczema incomoda.

É por isso que Krishna diz a Arjuna no Bhagavad Gita: “Saia deste mar de sofrimento”. Esteja no mundo e faça sua parte, mas não se deixe apanhar nem ficar preso às ilusões, ou será escravizado.


Os que vivem o tempo todo no plano sexual acham que não podem viver sem sexo. Mas os que praticam abstinência e conseguem transmutar essa energia, jamais o desejam. O fumo traz a mesma ilusão. As pessoas que nunca fumaram ou que cortaram esse hábito nunca sentem falta do tabaco.

CHAVES PARA A SABEDORIA: TANTRA YOGA - SHIVA E SHAKTI (4ª PARTE)

20.10.17

OS PODERES MÍSTICOS DO YOGUE – P. Yogananda



Quando você conhece Deus, pode até não possuir poderes milagrosos, mas tem a seu comando todo o poder do Universo, se precisar. Deus me deu muitos poderes nesta vida, mas eu os devolvi a Ele e só os uso quando Ele me ordena.

Há a história do encontro de Madhusudan com Gorakhnath, o santo de Gorakhpur, onde meu corpo nasceu. Quando ouvi a história, fiquei curado de qualquer desejo por poderes milagrosos que pudesse ter.

Gorakhnath tinha conseguido todos os oito poderes de um yogue plenamente iluminado (o poder de ser tão pequeno quanto um átomo, o poder de ser tão grande quanto o espaço, o poder de ser tão leve quanto algodão, o poder de ser tão pesado quanto chumbo, o poder de chegar em qualquer lugar ou qualquer planeta, o poder de ter todos os seus desejos realizados, o poder de criar e o poder de ter domínio sobre tudo).

Na hora de deixar o corpo, Gorakhnath quis transmitir os poderes a uma alma merecedora. Os mestres podem fazer isso, assim como o manto do poder de Elias foi passado a Eliseu.
Certo dia, Gorakhnath teve a visão de um jovem, uma alma muito espiritualizada, à beira do Ganges em Varanasi. Tendo o poder de se transportar astralmente de um lugar a outro, ele apareceu diante do jovem, que se chamava Madhusudan, que ao levantar o olhar e ver o santo, disse:


- Por favor, não fiques na minha frente. Estás tapando o sol.

O santo retrucou:

- Não sabes quem sou? Meu nome é Gorakhnath.

- Eu sei – disse o jovem -, mas agora estou fazendo minhas devoções.

Após algum tempo o devoto perguntou ao santo:

- O que queres de mim?

Gorakhnath explicou:
- Tenho oito poderes e aquele a quem eu der esta chintámani (pedra mística que concede todos os desejos) terá todos esses poderes. Quero oferece-los a ti.

Madhusudan respondeu:
- Muito bem, podes me dar.

Mas assim que recebeu a pedra mística, e para grande espanto de Gorakhnath, atirou-a para bem longe no meio das águas do Ganges.
- Por que fizeste isto? – quis saber o santo.

Então o jovem disse:
- Ainda ilusão, ainda ilusão. Os poderes me foram dados para eu fazer o que me aprouvesse, não é mesmo? Bem, esta é a única utilidade que tenho para eles. Nada são, comparados Àquilo que já possuo.

O grande Gorakhnath curvou-se diante do jovem e disse:
- Tu me libertaste da última ilusão que ainda me mantinha afastado de Deus.

Às vezes, até os grandes Seres se desviam do Objetivo. Gorakhnath estava tão apaixonado por seus poderes que não tinha ido além deles em direção a Deus. Mas quando finalmente renunciou ao apego a essa posse tão estimada, alcançou a união com Deus.


18.10.17

COMO VIVER EM MAYA – Swami Atulananda



(Swami Atulananda, que era holandês e vivia nos Himalayas, escreve uma carta a uma senhora americana)

A vida é um mistério; não estamos certos de nada, não podemos prever nada, estamos quase sempre errados ao julgarmos os outros, não podemos acreditar em nada – nem mesmo em nossos sentidos – não podemos desacreditar em nada. Maya de fato! 

Mas há um caminho de saída, que leva para fora de Maya. Esse é nosso consolo. Olho a vida de um modo mais impessoal. Os erros dos outros não me angustiam em absoluto.

Alguns de nossos swamis são santos, outros tiveram de ser expulsos da Missão Ramakrishna. Tudo é igualmente interessante, tudo é fonte de estudo, tudo é o jogo da Mãe Divina. Ninguém para se louvar, ninguém para se criticar – todos são filhos da Mãe. Um passo correto, um passo falso – tudo é parte do jogo. 

É por isso que me divirto quando você esconde coisas, quando quer proteger a reputação das pessoas. Eu nem acredito, nem desacredito. Vejo e ouço, e tudo já se foi. Deixo os outros formarem opiniões, julgar, criticar. Para mim a vida é um filme. Veja e esqueça. Não feche os olhos, não tome partido.

O que quero agora é ser capaz de me incluir no jogo, ser uma mera testemunha de mim mesmo também – na dor, no prazer, na saúde e na doença, nas boas ações e nas más ações. E sei que não sou nada disso – sou livre, o Atman. Todos são livres, o Atman.

O que vemos são os atores representando – hoje mendigo, amanhã rei, hoje pecador, amanhã santo. É sempre a mesma pessoa representando diferentes papeis. Portanto é difícil chocar-me ou fazer-me sentir diferente com relação a outras pessoas, mesmo se cometeram um erro.

Veja M. por exemplo. Estou convencido de que ele representa o papel de uma criatura irresponsável. Então me protejo. Mas meus sentimentos para com ele não mudam. Eu o recebo quando vem, como antes. Se você me perguntar se posso confiar nele, digo: seja cuidadosa. Ele pode enganá-la. Mas isso não significa que lhe desejo o mal. Apenas sei que se emprestar-lhe algum dinheiro, há uma boa chance de não ver mais o dinheiro. Mas se poupar algum, posso dar a ele. Por que não? Deixe-o divertir-se, ter sua experiência. Filho da Mãe, jogo da Mãe.

Fico contente de encontrar todo tipo de gente, os maus e os bons. Deixe o jogo continuar. Turiyananda certa vez me disse que leu no Mahabhárata que Krishna, ao desenhar sua capital, reservou uma parte da cidade para as prostitutas viverem. E ele ficou horrorizado. Por que Krishna permitiu prostitutas em sua cidade ideal?

Swami Turiyananda Quotes — PURIWAVES | | | Swami Turiyananda ...  Turiyananda

Mais tarde, ele entendeu. Elas também têm o direito de viver, têm de ocupar seu lugar no jogo, representar seu papel na peça teatral. Sem elas, a peça não seria completa. Deixe cada um escolher seu próprio papel; e que ele o represente bem. E quando escolher mudar sua parte, tudo bem: outros tomarão seu lugar. Cada papel traz seus próprios resultados, cada papel tem seu próprio pagamento.

Nenhum swami afirma ser perfeito. Muitos dizem, "Apenas pela graça da Mãe Divina não sou pior do que sou." Isto é sabedoria, conhecimento da vida. Mas apenas as almas velhas e experientes sabem disso.

Por que as pessoas se sentem atraídas por um patife e fogem dum santo? Porque o patife é sincero; e uma pessoa toda santificada é um mito. Se ela é considerada perfeita por seus amigos e protetores, sabemos que estamos sendo enganados.

Swami Vivekananda não se importava se uma pessoa era boa ou má, mas odiava pessoas dissimuladas. Certa vez realizei que somos todos Atman, almas, e que nossas individualidades terrenas são apenas reflexos das almas. E veio-me o conhecimento de que esta vida é irreal, e que somos tolos em leva-la a sério, odiar, invejar e disputar etc. Vi que é tudo loucura, pois na realidade somos todos iguais, Espírito, bem-aventurados, além do amor e do ódio, todos igualmente livres, perfeitos, além de todos os desejos.

Pense como a vida seria para mim um paraíso, se eu conseguisse reter aquela consciência. Teria havido apenas amor, amor por todos e por tudo. Nenhum mal, nenhum bem, a vida apenas um jogo de sombra para desfrutar, se a percebermos como tal.

Sou a alma, sou imortal; a vida é minha própria sombra neste mundo de Maya. Esta é a verdade e esta é minha religião, a única coisa da religião de que estou certo. Tenho tido momentos em que você poderia cortar meu corpo em pedaços, e ainda assim eu estaria rindo. Eu estaria sendo uma testemunha, desapegado do corpo, desfrutando do jogo. E agora, quando tenho uma dor de dente ou uma dor de cabeça, fico perdido. Este mundo se tornou real novamente.

Mesmo assim, sei que esse mundo é relativo, enquanto que o Espírito-Realidade é absoluto. A religião significa apenas a tentativa de conseguir a consciência do Espírito e retê-la. Tudo o mais na religião é um disparate, ou como Swami Vivekananda diz, "uma verdade menor".

Vedanta Monks and Nuns – Vedanta Society of St. Louis  Atulananda

 

MINHAS MEMÓRIAS DA ÍNDIA – Swami Atulananda




(Swami Atulananda era holandês e foi o primeiro swami da Ordem Ramakrishna de origem ocidental. Conheceu pessoalmente Vivekananda, Brahmananda e outros discípulos diretos de Sri Ramakrishna)

Vedanta Monks and Nuns – Vedanta Society of St. Louis  Atulananda

Eu costumava ficar incomodado com a atitude de Sri Ramakrishna e com suas respostas a perguntas. Seu "Não sei." "A Mãe sabe." "A Mãe pode fazer tudo." Vejo a maravilhosa sabedoria disso agora. Quem sabe algo nessa massa de mistério? Certas coisas podem ter acontecido durante um milhão de anos, e chamamos isso de lei da natureza. Mas o que é um milhão de anos para Deus? É menos de um segundo.

Se a mente humana mudasse ao menos um pouco, veria um novo universo com diferentes leis. Eu costumava combater a ideia de que algo pudesse acontecer sem estar de acordo com a leis naturais. A velha história na vida de Sri Ramakrishna da flor branca num arbusto de flores vermelhas...

Hoje acredito que tudo é possível. Acredito em milagres. Como Swami Saradananda uma vez me disse, não conhecemos as leis sutis da natureza. O devoto entra em contato com essas leis mais sutis. Daí que elas parecem milagres misteriosos para as outras pessoas.

Swami Saradananda – Vedanta Society of St. Louis  Saradananda

Todas as experiências de Ramakrishna são opostas à ciência atual. A ciência diz, "Impossível" e rejeita. "Mãe, você sabe tudo, pode fazer tudo. Quero te amar e ser teu filho." Isso para mim parece ser sabedoria. E deixe os cientistas combaterem, deixe os fundamentalistas combaterem, é bom para eles. Todos nós temos combatido. Agora vamos ter um pouco de paz. Vamos nos retirar da arena, nos tornarmos espectadores e desfrutar.

Se ao menos pudéssemos olhar a vida e considera-la uma diversão, em vez de levar as coisas tão a sério. "Encare a vida com alegria," diz Nivedita, "e saiba que tudo é um jogo da Mãe Divina." Aí está o segredo! A Mãe ri porque não está apegada. Nós choramos porque estamos apegados. Ela se retrai e se expande novamente. E acha que é uma grande diversão. Nós nos envolvemos e nos enredamos, e então choramos e lamentamos cheios de autopiedade durante o processo de apegar-se e libertar-se.

Sister Nivedita - Wikiquote  Nivedita

"Conheça o Atman e seja livre." Então poderá jogar como quiser. É assim que a vida deve ser. Então a vida inteira se torna bela. É apenas uma questão de ângulo de visão. Se temos a visão correta, não existe o mal, nem a fealdade, nem a tristeza. É tudo parte de uma maravilhosa peça teatral ou sonho. Como tudo parece diferente quando nos colocamos de lado como testemunhas!

Eu nunca quis a Verdade por causa da Verdade, mas porque ela traz felicidade. Sei que a verdadeira felicidade consiste em conhecer a mim mesmo, meu  Atman. Não encontro felicidade no mundo. Portanto tento realizar o Atman. E o caminho de Jnana me atrai porque leva ao autoconhecimento, e parece mais razoável para mim.

Você sabe que os santos cristãos advertem contra a sensualidade. Mas temos de passar por isso. É apenas quando realizamos nosso Atman que nos elevamos acima da sensualidade. Então só existe a Bem-Aventurança. É um estado absoluto em que os sentimentos comuns cessam.

Portanto a beleza mundana é uma coisa, a beleza espiritual outra. Swami Turiyananda apreciava a beleza. Vi isso em nossas peregrinações. Ele amava belas paisagens. Mesmo assim ele me disse, "Não me importo com a beleza exterior. Quero a beleza interior."

A beleza espiritual, que vem da realização espiritual, tem um efeito duradouro. Ela muda a pessoa para melhor, enquanto que a beleza exterior não tem esse efeito. Ela me deixa como sou agora.

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13.10.17

O PODER DE BRAHMACHARYA – do Mahabhárata



(o sábio Sanatsujata instrui o rei Dhritarashtra)

Ó magnânimo rei, este cosmo surgiu da Alma Suprema através da união de condições pertinentes ao nome, forma e outros atributos. Os Vedas também declaram o mesmo, ensinando que a Alma Suprema e o cosmo são diferentes, não idênticos. A fim de alcançar a Alma Suprema, os Vedas ordenam o autodomínio e sacrifícios, e é assim que o homem sábio adquire virtude.

Ira, desejo, avareza, ignorância do que é certo ou errado, descontentamento, crueldade, má intenção, vaidade, pesar, amor pelo prazer, inveja e falar mal dos outros são geralmente os erros dos seres humanos. Esses doze erros deveriam ser sempre evitados pelos homens. Qualquer um deles pode sozinho causar a destruição da pessoa. Cada um deles espera uma oportunidade no meio dos homens, como um caçador espera uma oportunidade para caçar o veado.

Declarar-se superior aos outros, desejar a companhia das esposas dos outros, humilhar os outros devido ao excesso de orgulho, maldade, inconstância e recusar-se a honrar os que merecem – esses seis atos são sempre realizados pelo pecador, que despreza todos os perigos aqui e no além.

Aquele que considera a gratificação dos desejos o objetivo da vida, que é extremamente orgulhoso, que sofre ao dar algo, que nunca gasta seu dinheiro, que persegue seus súditos com impostos detestáveis – esses também são malvados.

Honradez, sinceridade, autodomínio, ascetismo, deleite na felicidade alheia, modéstia, paciência, amor fraterno, sacrifício, dádivas, perseverança e conhecimento das escrituras – estas virtudes constituem a prática dos Brahmanas. Aquele que possui três, duas ou mesmo uma dessas virtudes pode ser considerado como um ser celestial.

Falsidade, má intenção, desejo, cobiça, ira, pesar, avareza, fraude, alegrar-se com a infelicidade alheia, inveja, prejudicar outros, lamentar-se, aversão por atos de piedade, esquecimento do dever, caluniar outros e vaidade – aquele que está livre desses defeitos tem autodomínio. 

O conhecimento da Alma Suprema é possível através da ajuda de um intelecto puro e de brahmacharya (continência sexual). Ao adquirir esse conhecimento, o yogue renuncia ao mundo. 

Aqueles que praticam a austeridade de brahmacharya, ao deixar o corpo se unem à Alma Suprema. Através de brahmacharya os seres celestiais adquiriram sua divindade e os sábios obtiveram o reino de Brahman. Através de brahmacharya os gandharvas (músicos celestiais) e apsarás (dançarinas celestiais) adquiriram sua notável beleza pessoal. Quem se torna perfeito em brahmacharya é capaz de obter qualquer coisa que deseje.