Às
margens do rio Ganges em Benares, perto do Gath Desaswamedh (ghat é
uma escadaria que desce até o rio), senta-se um homem de
aproximadamente 70 anos. Está desnudo. Vestido com a roupa que a
natureza lhe deu, o Paramahansa (sábio divino) permanece sentado
naquele local, de manhã, à tarde e à noite.
Olhe
seu rosto. Tem uma aparência séria. Sua testa é semelhante a uma
abóboda que se ergue sobre seus olhos, os quais são claros, serenos
e brilham com o fogo da alma. Seus lábios são firmes. Seus olhos
calmos e pensativos, sua testa nobre e suas feições gerais indicam
grande calma e autocontrole e imenso poder da vontade.
Por
mais de oito anos ele tem estado ali. No queimante sol de meio-dia do
verão, quando o piso da escadaria parece pegar fogo, e no amargo
frio do inverno, ele se senta ali. As pessoas vêm até ele às
centenas, diariamente, trazem-lhe comida o suficiente para encher
trinta estômagos, curvam-se a ele e lhe contam suas aflições. Sua
resposta é apenas um sim com a cabeça e um olhar em seus olhos. Ele
come algumas frutas e bebe um pouco de leite, e o resto distribui
entre pessoas que anseiam em receber. Ele nunca conversa, nunca ri
nem sorri. Sua face é sempre solene, calma e em êxtase.
Se
você se aproxima dele, sente sua presença imediatamente. Essa
presença é ao mesmo tempo magnética, poderosa e uma personalidade
completamente espiritual.
Agora
siga-me até o mercado de peixes. São oito horas da manhã. Não
menos de duzentas pessoas estão ali. Meu primeiro sentimento é de
náusea, pois há um forte e abominável odor no lugar. Os pescadores
trazem muitos peixes, alguns ainda vivos, de suas redes. Começam
batendo os peixes vivos contra o chão duro do mercado. Disputa,
pechincha, abusos, cuspes são vistos por todo lado. O mau cheiro não
é nada para eles, é como se fosse o cheiro de rosas.
Saio
dali, ou melhor, corro para fora. Vejo muitos homens e mulheres
saindo do mercado; seus olhos são pálidos e vazios; sua pele
gruda-se frouxa sobre seus ossos; seus rostos denotam cobiça e
desejo. Não vejo ninguém que tenha um olhar saudável, firme,
autoconfiante. Parecem um monte de mendigos que tropeçaram num pouco
de dinheiro que precisam gastar com peixe.
Agora
compare esses homens sem vida com o Santo, qual conclusão você
tira? Eles são homens animais, o outro um homem divino.
Nos
primeiros, o medo, a cobiça, o desejo, a superstição fizeram seu
lar. Os horrores de um matadouro de animais não os chocam. Seus
sentidos são grosseiros. No outro, Deus se manifesta. Ele não é
atingido pelo calor ou frio, pelo desejo ou paixão. Se um raio
caísse sobre ele, não perderia sua calma nem mesmo por uma fração
de segundo.
Não
é isso a verdadeira felicidade? Realizar que você não é o corpo,
que você jamais pode morrer, que nada pode tocá-lo, que o fogo não
pode queimá-lo, a espada não pode cortá-lo, a água não pode
molhá-lo; realizar sua independência e domínio sobre o corpo.
A
vida espiritual é Amor. Esse amor não vem fácil. Apenas quando já
sofremos muito, pensamos muito, só então alguns clarões deste Amor
Universal brilham sobre nós. Esse é o amanhecer da divindade, do
despertar espiritual.
Chega
um tempo em que sentimos esta verdade, e uma simpatia pelos
sofrimentos dos outros é o primeiro sinal. Servir os outros é um
grande privilégio. Deus nos concede esta oportunidade para nos
purificarmos; nenhum passo mais elevado pode ser tomado a menos que
tenhamos aprendido a lição do serviço.
A
felicidade não é a meta da vida, nem o gozo. Deus é a meta da
vida. Realizando a Deus, realizamos a felicidade. "Tamanho é o
poder do bem, que mesmo o menor bem feito aos outros traz os maiores
resultados."
Antes
que você tenha ido muito longe neste longo caminho, a paz estenderá
suas asas sobre você. O medo cessará. A preocupação não mais
será conhecida.
Portanto
treine-se para prestar serviços, mesmo que seja para uma única
alma. Se você tem um pai, uma mãe, ou outra pessoa que depende de
você, sirva-os de todo o coração. Não se importe se são gratos;
isso é problema deles. Em pouco tempo, sua Natureza Superior se
afirmará e se tornará sua segunda natureza.
Viva
de acordo com esses ideais. Se tropeçar, levante-se novamente, e
sempre uma vez mais. Seja firme neste caminho e a força seguramente
virá. Olhe sempre para cima e para frente.
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