6.6.18

O SIGNIFICADO DE BRAHMACHARYA – Swami Chidananda


Em seu sentido mais restrito, brahmacharya significa completo celibato, mas em seu sentido mais amplo, pode ser aplicado ao chefe de família como moderação e autodomínio, não abusar da função sexual e ser estritamente fiel à parceira.

O ser humano é uma mistura de três ingredientes: primeiro, um animal com todos seus desejos físicos; segundo, o nível humano e racional; e terceiro, a Divindade adormecida interior. Toda a vida espiritual é uma gradual eliminação do animal interior e a purificação da natureza humana para que ela comece a tomar uma direção ascendente.

Quando a natureza humana é direcionada para cima, a pessoa começa a despertar a Divindade adormecida com a ajuda das práticas espirituais. Os antigos diziam que a energia cósmica mantém os corpos celestes em seu curso. Esses corpos se mantêm em movimento por meio desta misteriosa energia.

E consideravam esta energia como algo divino, sem começo e sem fim. Ela é eterna e impregna todas as coisas. Não há lugar onde não esteja. E esta energia que mantém em movimento este e inúmeros outros universos é que está presente nos seres vivos como força sexual.

Por isso os hindus consideravam esta energia como sagrada, como algo digno de ser adorado, pois ela é a manifestação da Mãe Divina, a energia cósmica. Portanto, ela deve ser considerada com reverência.

Esta força cósmica se manifesta em nosso sistema como prana (energia vital, força vital). E o prana é a reserva preciosa do buscador. Qualquer atividade ou experiência dos sentidos consome muito prana. E a atividade que consome a maior quantidade de prana é o ato sexual.

Swami Sivananda disse muito enfaticamente: “O ato sexual destrói o sistema nervoso inteiro.” Porque ele cria grande excitação, grande agitação, e tal intensidade de sentimento deixa a pessoa exausta e vazia.

A meta mais elevada da vida humana – a evolução espiritual – requer o máximo disponível de energia prânica em todos os níveis: mental, intelectual e emocional. É através de prana que se controlam os sentidos. É através de prana que se acalma a atividade da mente. É através de prana que se pode juntar os raios dispersos da mente e torna-la concentrada. É através de prana que se pode concentrar a mente no objeto da meditação.

Prana é necessário para a reflexão espiritual e a discriminação. O pensamento deve ser agudo e o intelecto penetrante. E esse entendimento se desenvolve através de brahmacharya (celibato). O celibato assegura uma abundância de reserva de prana disponível para o buscador.

Se você conserva esta energia vital e a dirige ao processo espiritual de contemplação, sua meditação se torna bem sucedida, porque você concentrou sua força e é capaz de dirigir a força concentrada para suas práticas espirituais. Preservada, concentrada e dirigida para um canal específico, ela opera milagres.

Se você é um buscador espiritual, deve perceber que desperdiçar essa força é trabalhar contra si mesmo. Você tem de liberar sua consciência dos níveis mais inferiores e ir levando-a cada vez mais para cima, para níveis mais refinados da mente. Se você quer ir para o norte, significa que deve se afastar do sul.

A vida espiritual começa quando você reconhece que, enquanto se mantém correndo atrás da satisfação e prazer sensual, não dará um passo naquela direção. Tudo será apenas conhecimento acadêmico ou teórico.

Um dos yogas onde o celibato é absolutamente essencial é kundalini yoga. Desde o começo o celibato é absolutamente essencial e indispensável. De outro modo esse yoga é perigoso, uma vez que é baseado em pranayama, mudras, bandhas e âsanas.


No entanto, existem estágios em que a pessoa pode ser altamente espiritual e ao mesmo tempo levar uma vida sexual normal. Isso é verdadeiro especialmente no caminho da devoção, do amor a Deus. Este caminho não faz qualquer distinção entre um brahmachari celibatário e um chefe de família.

No caminho da devoção (bhakti), o celibato total não é exigido. Mas porque o ato sexual consome uma grande quantidade de energia prânica, naturalmente o autodomínio é também importante. Jamais o sexo irrestrito foi olhado com benevolência. Deve haver autocontrole e fidelidade nas relações sexuais com o parceiro (a). O marido deve olhar todas as outras mulheres como mães, e a esposa deve considerar que tem e terá apenas um parceiro em sua vida. Desse modo, a vida sexual não é contrária à vida espiritual.

Brahmacharya, portanto, não é nem evitar nem reprimir a sexualidade. É deixa-la naturalmente para que o potencial e o poder do processo sexual possam ser usados para algo tão maravilhoso que, comparado a isso, o sexo se torna insignificante. Brahmacharya é usar a potência sexual para algo dez vezes, cem vezes maior.

Se o sexo for suprimido ou reprimido, pode trazer mudanças indesejáveis na personalidade. Se brahmacharya é forçado e contra a vontade e inclinação de uma pessoa, podem resultar condições anormais em sua personalidade.

Parte do motivo da obsessão mundial com o sexo atualmente é a sua exploração por causa de interesses comerciais e da propaganda. Para vender, anunciam o fenômeno “garota-encontra-garoto” – vendem a ideia de que o corpo de uma garota deve ser desfrutado, e assim ela tem de cultivar um corpo que possa atrair o mais possível – como se o sexo fosse a única coisa importante da vida.

Os interesses comerciais distorcem completamente o propósito básico do sexo. Quanto mais cedo se reconhece isso, mais fácil será de se manter brahmacharya. Se a mente é dirigida a coisas superiores, automaticamente brahmacharya se torna fácil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário