3.3.16

FÉ EM DEUS – Prof. Hermógenes


Tenho fé em Deus que minha mãe ficará boa - repetia o rapaz aflito, esperando de mim um conforto, uma palavra de esperança, para acalmar-lhe um pouco a dor. A mãe estava nas últimas. Cancerosa.
É bom que você tenha fé. Tenha fé principalmente na Sabedoria de Deus - disse-lhe eu, querendo fazê-lo compreender que não se entristecesse e nem se sentisse traído se a mãe não conseguisse ficar boa.

Manter a mais perfeita convicção de que Deus sabe o que faz é, no meu entender, a mais verdadeira e amadurecida forma de ter fé. Muitos deixam de ter fé exatamente porque Deus não os poupou de uma grande perda, quando confiaram em que tal coisa, pela graça de Deus, não aconteceria. Tais pessoas se sentem muito decepcionadas porque Ele "falhou". Antes diziam que tinham fé. Mas não era bem fé. Era mais um desejo que Deus lhes atendesse aos rogos.

Ter fé não quer dizer esperar firmemente que Deus, que é a Lei Universal, se violente, se desrespeite a si mesmo, a fim de atender a um interesse ou uma necessidade pessoal. Fé em Deus, em verdade, só existe quando não criamos obstáculos à Sua ação, mediante o reconhecimento de sua Onisciência. Consiste na certeza de que Deus dá a mais justa, sábia e perfeita providência em todos os casos.

Ter fé não se expressa por palavras, mas por atitude psicológica, por obras e ações. Se alguém me afirmar "eu creio na levitação", tenho o direito de dizer: “Então demonstre-o. Pule desta janela do 12º andar. Se você não se esborrachar lá embaixo, eu vejo que realmente você crê na levitação".

Da mesma forma, se você diz que tem fé em Deus, pule a janela de seu egoísmo e entregue-se total e absolutamente aos desígnios divinos. Como você vê, isto representa um estado psicológico muito raro em pessoas como eu e você, que ainda estamos limitados pelo egoísmo e por velhas e enraizadas desconfianças e incertezas.

À medida que formos vencendo tais obstáculos, quebrando as velhas grades e grilhões mentais, iremos conquistando o bem-aventurado estado de fé e, conseqüentemente, Deus, presente e atuante, realizará tudo aquilo que é sábio e justo. A graça de Deus será então manifesta. Só assim ocorre o milagre.

A quem tem fé, os vendavais não abatem, a hecatombe não vence e a morte não amedronta. Fé é certeza de que a Onipresença, a Onipotência e a Onisciência de Deus estão atuando em nossas vidas. É Conquista, Evolução, Transformação e Libertação.





YOGA E ALIMENTAÇÃO – Prof. Hermógenes


Nossos nervos, como parte do corpo, em última análise, são feitos do que comemos e funcionam com o que comemos. Assim, serão fortes e sadios ou doentes e esgotados conforme seja inteligente ou não nosso regime alimentar.

Regimes onde faltem sais de cálcio, de fósforo e de ferro, bem como vitaminas, principalmente as da família B, elementos indispensáveis à boa constituição e ao bom funcionamento dos nervos, por certo determinam as chamadas doenças carenciais, provocando perturbações verdadeiramente alarmantes no sistema nervoso.

Uma dieta carregada de alimentos tóxicos e excitantes como a carne deve naturalmente ser evitada pelos nervosos agitados. Alimentos energéticos e vitalizantes dos nervos, por outro lado, devem fazer parte do tratamento dos deprimidos.

As pessoas nervosas em geral são intoxicadas, desmineralizadas, sofrendo de deficiências de vitaminas; necessitam, portanto, de regimes equilibrados, atóxicos, ricos de sais minerais (fósforos, cálcio etc), de vitaminas, de proteínas suficientes, sem excitantes.

Um aluno, depois de algumas semanas de aula, reclamou de sua escassa melhora. Continuava nervoso, inquieto, agitado, não obstante os relaxes e os demais cuidados do sistema de vida que eu lhe ensinara. Não foi difícil descobrir, depois de alguma conversa, que seus múltiplos cafezinhos diários, tomados automática e sofregamente, lhe faziam grande dano. Reduzidos estes, as melhoras se fizeram evidentes.

Todos os meus alunos, que, lentamente, se libertam dos bifes, tornam-se mais calmos, mais controlados, mais serenos e suaves.

Nossa dieta deve fornecer calor e energia; deve construir os tecidos e reparar os gastos, mas, para ser ideal, precisa também atender às seguintes condições:
não lhe faltem elementos essenciais;
não tenha, ao contrário, excesso de tais elementos;
não dê trabalho à digestão;
não seja de assimilação difícil ou precária;
seja sem problemas de eliminação;
tenha valor terapêutico ou profilático.





O DESEQUILÍBRIO DAS GUNAS – Prof. Hermógenes


Gunas são as forças, os atributos ou qualidades componentes de cada ser, bem como de todos os mundos. Em Yoga diz-se que Prakriti (a natureza) é triguna, isto é, formada por três atributos: satva, rajas e tamas.

Satva é a qualidade da sabedoria, da harmonia, luz, paz, leveza, tranqüilidade, equilíbrio, sobriedade, saúde, santidade, liberdade, coerência, imperturbabilidade, contentamento. . .

Rajas é o atributo da força, da luta, domínio, conquista, energia, ação, dinamismo, violência, agitação, inquietude, agressividade...

Tamas é a guna sombria: da inércia, da preguiça, da estagnação, da indolência, da pobreza, da ignorância, da treva, da lerdeza, da depressão, da negatividade, do desânimo, da astenia. . .

Cada ser, objeto e até mesmo cada fenômeno ou estado de ser resulta do jogo das gunas. Há sempre uma dominante, enquanto as duas outras são secundárias e concomitantes. Quando numa pessoa satva domina, ela é boa, feliz, sábia, sóbria, tranqüila, harmoniosa, sã e santa, embora em todo santo reste ainda vestígios de intranqüilidade ou de indolência, alguma coisa ainda não santa.

Rajásico é o homem bruto, inquieto, conquistador, insatisfeito, lutador, agressivo, sem paz, sem pouso, ansioso, agitado. . . No entanto, o mais rajásico dos ditadores, é a custo que sufoca raros sátvicos impulsos de generosidade e, vez por outra, sente a tamásica necessidade de repouso e solicitações à indolência.

Ninguém, de igual modo, é totalmente tamásico, isto é, inerte, indiferente, parado, amorfo, abatido e sem força.

As pessoas são, assim, de três tipos: sátvicas, rajásicas e tamásicas. São normais quando sua fórmula triguna se mantém em razoável estabilidade. O equilíbrio do tamásico é de nível inferior. É um homem vencido, normalmente desanimado. O equilíbrio do combativo rajásico é uma oitava acima, mas é tenso, instável e sofrido. O homem sátvico é o próprio símbolo de maturidade, da calma e do equilíbrio.

As práticas de Hatha Yoga aumentam a dimensão rajásica no tamásico, tirando-o do equilíbrio inferior, sacudindo-o para um viver menos estagnado, levando-o a produzir algo. De início, isto acarreta sofrimento, pois nada mais doloroso para o indolente do que o toque do despertador a retirá-lo da inércia. Ele perde um pouco da cômoda negatividade, a fim de que possa caminhar para a frente.

Ao sempre agitado homem rajásico, as práticas do Yoga aumentam a dimensão sátvica, dando-lhe maior clareza e harmonia ao agir.

No sentido contrário ao do Yoga, o viver inconsciente e desarvorado esvazia o homem de sua dose de satividade, comunicando- lhe agitação febril ou fazendo-o cair na inércia e na depressão e ele, assim, é apanhado pela desarmonia e pela enfermidade.

O rajásico, de tanto exaurir-se na ação sem inteligência, por sua vez acaba se fatigando e adoece em tamas. Para manter-se sempre feliz, eficaz e sadio, o homem rajásico nunca deveria esquecer-se de aumentar sua dimensão sátvica, isto é, aquela que o manterá sereno, portanto mais criativo e eficaz em seu agir.

O tamásico precisa vencer sua inércia, isto é, aumentar sua dose de rajas, e, sob pena de o fazer com imprudência, também precisa conquistar cada vez
maior satividade.

Chamo nervoso rajásico aquele que, por falta de sabedoria, transformou a vida num inferno pelo tanto que realizou e realiza, pelo tanto que andou ambicionando e ainda deseja, pelo tanto que juntou para si e pelo sobressalto de guardar tanto, pelo exaustivo e agitado viver que o obsedia. Ele é inquieto, exaltado, violento, às vezes instável, medroso, reagindo emocionalmente com exagero a tudo, sem medida nem lógica. É inseguro. Vive em luta e apavorado contra o que o ameaça. Tem imaginação fértil. É hipertenso e vem a dar o agitado. Nele, portanto, o característico é a energia — rajas — em excesso e confusão.

Nervoso tamásico é quieto. É parado. É autista (virado para dentro), astênico, calado, deprimido, isolado, abatido, apático. Sem forças, sua única expressão é a máscara de desânimo. É o símbolo da inércia — tamas. Sua pressão é baixa; seus músculos de baixo tono e sem energia.

O homem sátvico jamais é um nervoso. É feliz e harmonioso sempre. A orientação geral para o tratamento de um nervoso rajásico é exatamente a redução de seu excitamento, nunca de sua energia. É a redução de sua tensão e desgaste e não de suas forças. É um tratamento tranqüilizante, sedante, relaxante, equanimizante.

O tratamento dos tamásicos é exatamente oposto: consiste em esquentar, em estimular, em despertar o enfermo, aumentando-lhe a dosagem de rajas, isto é, vibracidade. É tratamento antidepressivo, estimulante e energizante.

Tanto num caso como noutro, isto é, quer se trate do agitado quer do deprimido, a psicoterapia é indispensável. Chama-se psicoterapia o tratamento do psiquismo, isto é, o da mente. O que o psicoterapeuta visa é a dar à mente enferma um estado e um funcionamento mais harmonioso, claro, sadio e livre de perturbações. Em outras palavras, a psicoterapia consiste em dar satvidade à mente tumultuada e impura.

Os psiquiatras vêm tratando seus pacientes com psicotrópicos, isto é, medicamentos (fármacos), que atuam sobre os nervos e sobre a mente. Aos abatidos prescrevem drogas que produzam psicoanalepsia e neuroanalepsia, isto é, estimulantes da atividade mental (psicotônicos) e são neuro-energizantes ou antidepressivos e, assim, rajasificam os tamásicos, exercendo
ação antipsicótica.

Aos agitados, ao contrário, tratam de levá-los à psicolepsia e neurolepsia, através de drogas calmantes, ataráxicas, tranqüilizantes, hipnóticas, sedantes... conseguindo, destarte, reduzir a agitação rajásica e relaxar tensões.

Com o mesmo critério, visando aos mesmos efeitos, a yogaterapia aplica suas técnicas psicolépticas ou psicanalépticas, isto é, tranqüilizantes e estimulantes, respectivamente a nervosos rajásicos e nervosos tamásicos.

Enquanto que as drogas acarretam efeitos colaterais indesejáveis, inclusive a "dependência" ou vício e a intoxicação, as técnicas da Hatha Yoga, ao contrário, colaboram, sem quaisquer riscos ou prejuízos, para a libertação satvizante do enfermo.

Visando aos mesmos efeitos — tranqüilizantes para o rajásico e antidepressivos para o tamásico — também a yogaterapia, em todos os aspectos da vida, prescreve: pensamentos, sentimentos, comportamentos, diversões, música, esportes, alimentos, artes etc...

Há sentimentos estimulantes. Também os há tranqüilizantes. Certas músicas fazem dormir ou relaxar; outras atiçam e irritam. Alguns alimentos excitam; outros acalmam.

Cada tipo de nervoso — rajásico ou tamásico — precisa optar sobre o que comer, qual a diversão, atividade, forma de artes, cores, e emoções a evitar ou cultivar.





A YOGATERAPIA – Prof. Hermógenes


Às vezes o psiquiatra conclui ser o nervosismo de uma paciente causado muito mais pelo insuficiente trabalho de seu fígado do que por sua infeliz relação com o marido. O jovem que parece deprimido em conseqüência da reprovação no vestibular, realmente o está por conta da escassa produção de tiroxina por sua glândula tireoide. A irritabilidade excessiva do velho advogado é devida mais à sua renitente prisão de ventre do que à recente derrota que sofreu no fórum. A insuficiente respiração da mocinha pode ter-se agravado com o fora do namorado, mas em realidade não existiria se seus músculos respiratórios não estivessem atrofiados.

Se há causas orgânicas fazendo a pessoa nervosa, é preciso removê-las. A psicoterapia não deve ser desprezada, mas feita simultaneamente com o tratamento orgânico, que na Hatha Yoga pode ser chamado de fisioterápico.

A fisioterapia yóguica é muito eficaz e, praticamente, isenta de riscos. Depende de ser bem conduzida. Pode-se, com ela, ativar um fígado lerdo, reduzir a superprodução de uma glândula ou, ao contrário, estimular uma outra a trabalhar mais. Um centro nervoso, prejudicado pela fadiga ou mal condicionado, pode vir a ser corrigido. Os males decorrentes de escassa oxigenação podem ser curados. A anômala irrigação de um centro nervoso pode vir a ser normalizada. O nervosismo dos portadores de bico-de-papagaio é superado facilmente quando, através de exercícios, se livram das dores.

O tratamento yóguico fisioterápico, por outro lado, é válido também por cooperar com as outras frentes de tratamento. Os exercícios mentais, como a meditação, serão profundamente facilitados, quando o praticante consiga o "silêncio do corpo" isto é, levá-lo a um estado de arogya (saúde tranquila e positiva), quando os desconfortos orgânicos já não forem obstáculos ao aprofundamento da consciência, rumo à zona de maior felicidade no Reino Interno de cada um.

Quem desfruta de arogya consegue ser espontaneamente bom. Quer bem a todos e a tudo, sem se esforçar para isto. Ao contrário, o irascível sofredor do fígado, infeliz em suas mazelas, presa da inveja, com facilidade se irrita, pode ser mesquinho, vingativo, estourado... exatamente por causa de suas condições de indigência orgânica.

O homem sadio irradia sua paz, sua saúde, sua confiança e seu amor. Pureza, contentamento, sinceridade, liberalidade, coragem, alegria são naturais naqueles que têm arogya. Quem é sadio tem uma filosofia muito diversa de quem vive fustigado de incômodos, de carências, de disfunções, de anomalias orgânicas.

Temos observado radicais mudanças no psiquismo, no comportamento moral e na orientação filosófica de alunos nossos, que, através de práticas ensinadas nas aulas ou em meus livros atingiram um estado de saúde que antes não conheciam.

Em Natal, um velho ateu, através de "Autoperfeição com Hatha Yoga", descobriu os primeiros esplendores de Deus, até então ocultos a seu olhos espirituais, que as enfermidades mantinham míopes, para poder enxergar beleza, bondade, grandeza, amor, pureza, felicidade, justiça, verdade e bem. Abandonou o velho hábito do chope e aprendeu a ser feliz meditando.



No Rio, um funcionário aposentado, vítima de uma enxaqueca, tão velha quanto ele mesmo, mudou inteiramente o rumo de sua vida. Até então irascível, intransigente, instável, não obstante ter passado dos cinqüenta, mudou o caráter. A responsável por seus sofrimentos foi sua moral de combatente incansável e destemido pelo que achava direito. Com o tratamento yogaterápico, libertando-se da longa enfermidade, manteve e mantém e talvez ainda mais consolidou seus princípios, mas agora sem criar tensões. Sua moral foi suavizada em seu tom e ao mesmo tempo fortalecida. Já não lhe pesa. Já não lhe cria padecimento. Ele mudou. Tornou-se suave, espontânea e saudável sua maneira de conceituar o mundo, as pessoas, os fatos e de conceituar-se a si mesmo. Ele hoje é bom, tranqüilo e generoso. Foram-se a agressividade e a tensão de quem padecia de uma enxaqueca, que resistira a todos os tratamentos.

As técnicas fisioterápicas do Yoga agrupam-se sob os nomes:
âsanas: posturas corporais que beneficiam órgãos, sistemas orgânicos, articulações, glândulas, centros nervosos, vísceras, músculos, podendo, assim, corrigir disfunções;
pranayamas: exercícios energéticos, que corrigem defeitos metabólicos, através principalmente de controle respiratório;
bandhas: automassagens, que atingem até mesmo as regiões mais profundas do corpo;
kriyas: técnicas de purificação orgânica.

Em seu aspecto fisioterápico, o Yoga é facilmente confundido com a ginástica vulgar. Mas quem se aprofunda na comparação conclui tratar-se de um sistema de características inconfundíveis.

Âsana, literalmente, significa, postura, pose. "As âsanas mexem com músculos, articulações, órgãos, que raramente se movimentam (no sentido conveniente à saúde). Algumas, pressionando um conjunto de vísceras, provocam massagens naturais; outras, flexionando o que comumente é rígido e reto, constituem verdadeiras fontes de prazer (tão gostosas como verdadeiros espreguiçamentos)... constituem farmacopeia mecânica, assegurando saúde, flexibilidade e o frescor característico do corpo jovem... Ao iniciar o aprendizado, o praticante não consegue naturalmente movimentação harmônica, devido à rigidez do corpo..." (Hermógenes; Autoperfeição com Hatha Yoga), mas, mesmo que seja superficial e grotesca a execução, traz ao organismo danificado pelo sedentarismo imediatos e surpreendentes benefícios.

Numa âsana bem feita: a mente deve estar concentrada no que o corpo faz; a execução é lenta e isenta de esforços e forçamentos, o que vale dizer, é presidida pela máxima suavidade; é mantida, mas sem constrangimento, sem desconforto, sem violentar a natureza; as partes anatômicas, principalmente os músculos, não envolvidos no movimento e na pose, conservam-se em relax; é agradável, como um bom espreguiçamento.

Uma sessão de "Hatha Yoga" é composta de uma seqüência inteligentemente, cientificamente organizada, de âsanas, pranayamas, bandhas e kriyas. O critério na organização de uma sessão deve levar em conta muitos fatores tais como: as necessidades e limitações do praticante; a posologia; as contra-indicações; a seqüência conveniente... finalmente, uma série de considerações muito severas, a fim de que aquilo que é buscado como remédio não se transforme em veneno.

Os erros que professores improvisados cometem no tratamento dos casos estão se tornando freqüentes e colocando a prática da "ginástica yogue" no rol das coisas perigosas. Em obras especializadas, ensino várias séries, que longa experiência e criteriosa observação me indicaram como as mais produtivas e isentas de riscos.





O RELAXAMENTO COMO TERAPIA – Prof. Hermógenes


Chama-se relaxamento o estado oposto à tensão, isto é, a ausência de contrações e esforços. Estando relaxados os músculos, os nervos que os comandam não transmitem mensagem alguma. Inativos, feito fios elétricos desligados, por eles não transitam impulsos, possibilitando, assim, repouso aos centros nervosos. Nesta condição, os reflexos se acalmam. O corpo fica igual a um aparelho elétrico desligado da corrente.

Hoje é comum que, ao invés de comprimidos e injeções, o médico recomende: relaxe. Tem sido receitado para fatigados, neuróticos, aflitos, insones, cardíacos, dispépticos e convalescentes. Nos casos de doença psicogênica (engendrada pela mente) é freqüente o médico receitar: "Vá para casa. Nada de aborrecimentos. Descanse. Relaxe!"

Relaxar é remédio eficaz. Mas como é difícil! É muito mais fácil tomar certas poções abomináveis, ser picado de agulha e engolir bolinhas.

Sem pertinaz treinamento e Hatha Yoga não é possível relaxar. Digo-o para que o neófito, necessitado e de boa-fé, não venha a se desanimar perante as dificuldades iniciais, que vai encontrar.

Relaxar é afrouxar-se. É desligar-se. É abandonar-se. É derramar-se passivamente. Ausentar-se por uns instantes da ansiedade e da luta. Relaxar é economizar esforços. É despojar- se da normal e eficiente stressora auto-afirmação. Relaxar é gozar repouso. É amolecer-se. É desfrutar os inefáveis prazeres do fazer absolutamente nada.

Para um neurótico inquieto e ansioso, relaxar é difícil. Compreende-se. Representa um ato de coragem, de crença, de segurança, que exatamente ele não tem. É um entregar-se todo, sem restrições, sem preocupação com um sistema de segurança.

E isso é impossível. O neurótico, vivendo exausto, em guarda, a defender-se de misterioso e supostamente presumível assalto, não consegue, com facilidade, mandar dormir todas as sentinelas que tem colocado ao redor para sua defesa. Por outro lado, se o neurótico, insistindo e tirando proveito de outras técnicas, conseguir aprimorar a arte de relaxar, conseqüente e simultaneamente, estará se libertando da neurose. Estará vencendo o medo, acalmando a ansiedade, ganhando coragem e estímulos de vida.

Na mesma medida que o neurótico sente dificuldades em relaxar, o homem verdadeiramente religioso sente grande possibilidade e enorme prazer. Com o religioso, tudo é fácil, pois ele tem fé. Entrega-se todo, facilmente, graças à crença que tem na onipresença, onisciência e onipotência do Ser Supremo. Sabe convictamente que melhores serão os resultados desde que mais intensa e incondicionalmente se abandone nas mãos da Consciência Suprema, remédio para todos os males, solução para todos os problemas, paz para todos os conflitos, alívio para todas as angústias, ajuda em todas as aflições.

Ele sabe que Deus é energia para suprir seu esvaziamento, a chave misteriosa com que há de abrir as cadeias de suas servidões, o lenitivo para todos seus ais, a alegria, até então ausente, a coragem para levantar-se e avançar. . . O verdadeiro religioso faz do relax um ato essencialmente místico, porquanto consiste em doar-se, em oferenda, no altar do Onipresente.

Para ele o relax é um modo prático, concreto e vivencial de rezar o "seja feita a Vossa Vontade". No relax, confia-se a Deus, sabendo que Ele cuidará de tudo melhor do que seu egozinho, meio esfacelado na luta quotidiana, tem feito.

Também para o entendido em fisiologia, o relax se torna mais fácil porque ele vê as razões científicas do processo. Quem tiver curiosidade de saber, procure ler em minhas obras "Autoperfeição com Hatha Yoga" ou “Yoga para Nervosos”, nas quais apresento um estudo mais ou menos detalhado da fisiologia do sistema nervoso e suas relações com o endócrino.

Aqui, posso dizer resumidamente que os centros da base do cérebro, principalmente o hipotálamo, têm a seu cargo a regulação das funções vegetativas, isto é, aquelas como a digestão, tensão sangüínea, ritmo cardíaco, assimilação, e muitas outras, que nos fogem ao controle voluntário. Tais centros, por muitas causas e razões, inclusive a fadiga, a toxidez, traumas psíquicos e mesmo físicos, se perturbam em seus deveres e passam a emitir comandos neurais bem disparatados e impróprios, mercê de verdadeiros curto-circuitos ou ligações anômalas, provocando, assim, mil e um transtornos funcionais, não obstante os órgãos estejam normais.

Estas ligações errôneas podem ser corrigidas. Mas a vida de tensão, ao contrário, lhes dá mais condições de ser. Reativam-se. Reafirmam-se. Revigoram-se. . . O relax pode apagar tais sulcos, desfazer tais ligações, corrigir os defeitos instalados nesses centros nervosos.

A dose diária de minutos de inatividade por relax, pouco a pouco, reduzirá não só os efeitos, mas suas próprias causas. De maneira semelhante, o relax atua sobre a glândula hipófise, a maestrina de todo sistema endócrino, e, assim, consegue fazer as demais glândulas retomarem o ritmo de saúde.

Conseqüentemente, corrigem-se todos os padecimentos causados pelos excessos ou carências de hormônios no corpo. Não é apenas sobre os centros de comando neuro-hormonal que o relax atua, corrigindo-os. Age também — como que abençoado alívio — sobre os músculos, glândulas, vísceras e órgãos, sobre os quais tais centros exercem comando. Quando em relax, um órgão se comporta como um soldado dormindo e, assim, não cumpre a ordem estapafúrdia de um superior hierárquico meio perturbado.

Em outras palavras, os tecidos em estado de yoganidra (letargia), não reagem aos comandos anormais e perturbadores. Ficam quase inertes e amolecidos. E, assim, os sintomas não conseguem se manifestar.

Os estudiosos de fisiologia têm razões para acreditar na relaxoterapia. Vêem o relax corrigir, por quase inação, os centros de comando. Vêem o relax sustar a execução das ordens insanas partidas dos centros fatigados. Vêem o relax agir corretivamente, ao mesmo tempo, sobre toda escala hierárquica da fisiologia: sobre os que regulam e sobre os regulados. Vêem o relax restaurar a homeostase perdida.



A TENSÃO E O RELAXAMENTO – Prof. Hermógenes


Aprenda primeiro a observar nos outros. Repare nos olhos.Você pode distinguir quando há um estado de tensão nos olhos de seu interlocutor. Repare nas rugas da testa. Observe os estados dos músculos faciais e suas contrações, seus movimentos automáticos (tiques).

Fique parado numa calçada qualquer de uma rua bastante movimentada e repare nas fisionomias dos que passam. Veja esta procissão triste de pessoas avassaladas pela tensão. Note como andam apressadas. Na maioria, a pressa é sem necessidade, motivada quase sempre pela tensão muscular e nervosa generalizada. Repare nos gestos dos transeuntes. São gestos maquinais, inconscientes, não determinados por exata finalidade.

Observe como fumam. Os tensos fumam sem parar, sem reparar que estão fumando demais, ou melhor, que estão sendo fumados. Veja como os fumantes — raríssimos não são tensos — em realidade, são manejados e se comportam como se fossem máquinas. Veja como a delicadeza, a bondade, a suavidade desertaram das calçadas.

Repare como trocam palavras, gestos e olhares de ódio dois motoristas que mutuamente se atrapalham no tráfego. Note como aquele senhor faz mil e tantos gestos absolutamente injustificáveis: sentado, uma perna sobre a outra, a repetir chutes no ar; tamborila os dedos na mesa de trabalho; espicha o queixo como a desafogar-se de um colarinho inexistente, pois veste camisa esporte, sem gola...

Já reparou, num restaurante, como as pessoas comem? Olhe só aquele gorducho cortando o bife. De olhos esbugalhados, age como a impedir o bife de fugir do prato. Seu companheiro de mesa não mastiga. Engole os pedaços e, para ajudar automaticamente, vai derramando cerveja pela goela abaixo. . .

Observe o tom e a rapidez com que as pessoas falam. Voz aveludada, sem pressa, expressiva, compassada, delicada, comunicativa é coisa que você raramente ouve. Ao contrário, note seu próximo interlocutor. É provável que evidencie seu estado de tensão pela voz metálica e fina, pela má articulação das palavras, pela exuberância de gesticulação, pela participação exagerada dos olhos, da face, das veias do pescoço, da disritmia da respiração, quando não da gagueira aflita. . .

Tudo isto é o que mais se vê em todos, e serve para evidenciar o caráter epidêmico da tensão, bem como a necessidade de um aprendizado do pobre homem moderno para defender-se desta coisa ruim.

Depois de ter observado nos outros, nada melhor do que uma autognose, isto é, conscientização de si mesmo, neste aspecto fundamental da vida. Agora será mais fácil. Será que você também está com o hábito de andar apressado, de falar apressado, de comer apressado? Será que, você agora mesmo, está lendo este artigo enquanto sua mão inquieta bate no braço da cadeira ou então o agarra com esforço desnecessário?

Será que você já perdeu a capacidade de sentar-se e ficar com o corpo quieto, as mãos soltas e paradas, os olhos límpidos expressando paz, o rosto descontraído?!. . . Você é também dos que olham para o relógio de forma tão maquinal, que se lhe perguntarem a hora, terá de voltar a ver o mostrador?

Será que você tomou consciência dos seus últimos movimentos físicos? Será que, sendo fumante, toma consciência de quando vai acender um novo canudinho de veneno? Procure sentir seu semblante. Ele está agora todo desenrugado? Tome consciência de si mesmo quando come, quando dialoga com alguém, quando anda, quando trabalha, quando repousa (ou melhor, tenta repousar).

Não deixe de observar-se. Pratique Hatha Yoga para relaxar. Faça permanente a auto-observação, procurando diagnosticar se está agindo feito máquina ou como um ser livre; se está agindo mais do que o necessário; se está agindo na direção e na medida certas. Não se descuide de perscrutar-se sempre, para saber se está sendo dominado pela tensão, e se está sendo envolvido no manto negro do bandido — o stress.

Procure ver se está tenso. Não para lastimar-se e contrair-se mais, o que seria infantil e ruim, mas para descobrir o que fazer para safar-se, isto é, descobrir a área do corpo ou de sua vida ou de sua ação onde é preciso comandar: relaxe!

Com o identificar a presença da tensão você está se defendendo, e se libertando também. Sua capacidade de, em certas situações da vida, ver que está ficando tenso e profilático, isto é, pode aumentar sua imunidade contra uma imensidade de incômodos, como enxaqueca, insônia, hipertensão, disritmia, mal-estar indefinido, úlcera gástrica, gastrite, prisão de ventre, rinite alérgica, finalmente todos os diferentes modos da tensão que martirizam os seres humanos.

Aprenda a descobrir quais os músculos seus que estão enrijecidos, contraídos, se desgastando à toa e em seu prejuízo. Assim, verá crescer sua imunidade contra o medo, a ansiedade, a angústia, o ódio e a insegurança. Se você se torna capaz de ver que está para estourar, ou melhor ainda, verificar que está acumulando cargas emocionais explosivas, estará automaticamente se defendendo da hiperemotividade, que poder causar desastres; romper amizades; quebrar objetos por incontida fúria; lançar o carro contra outro, por estúpida exasperação; bater injustamente num filho; ou ofender a pessoa que mais ama, por causa da agressividade mal liberada.. .

Será que preciso ainda insistir para que você procure, serena e terapeuticamente, diagnosticar suas tensões, seus estados de perigoso e nocivo engatilhamento? Você verá que, aprendendo a fazer isto, dormirá melhor, maior será sua assimilação, seus piores sintomas serão minimizados. Conhecerá então uma vida nova.

É como, se, até aqui, estivesse na caminhada da vida carregando um fardo pesado, estúpido e inútil e agora o largasse onde deve ficar, isto é, na beira da estrada. Que desembaraço! Que alívio! Que beleza! Que paz você vai gozar sem esta carapaça frustradora que é a tensão! Mas ainda melhor do que a auto-observação é a preciosa capacidade de relaxar-se. Daí a necessidade da Hatha Yoga. 

22.2.16

OS CAMINHOS DIFERENTES PARA O UNO – Jon Peniel


Existem tantos caminhos para se voltar à Fonte de nosso ser, quantos são os indivíduos. Cada pessoa é o que é, por causa de seu caminho particular e experiências que teve (e criou) até chegar num determinado ponto no tempo e no espaço.

Do mesmo modo, cada entidade tem seu próprio caminho particular para voltar à Fonte a partir daquele ponto. Temos como exemplo uma montanha. De todos os lados dessa grande montanha existem caminhos, milhões de caminhos. Estes caminhos foram criados por pessoas que partiram do topo, que é o ponto da Unidade e do Espírito Universal.

E todos estes caminhos descem sinuosamente montanha abaixo, em direção à separatividade e materialidade. Em cada um destes caminhos está uma pessoa. Estas pessoas estão em lugares diferentes em seu caminho. Algumas estão na base da montanha e algumas perto do topo. Algumas não se importam em subir a montanha, e algumas querem subir porque perceberam que devem chegar ao topo para encontrar a Unidade e a paz.

À medida que nos aproximamos do topo, alguns caminhos convergem. Estes caminhos que convergem são os caminhos das almas gêmeas e os caminhos dos grupos de almas. Grupos de almas são outros seres que pertencem a nossa família espiritual, aqueles que viveram conosco em vidas anteriores e se tornaram íntimos de nós por uma razão ou outra.