Às
vezes o psiquiatra conclui ser o nervosismo de uma paciente causado
muito mais pelo insuficiente trabalho de seu fígado do que por sua
infeliz relação com o marido. O jovem que parece deprimido em
conseqüência da reprovação no vestibular, realmente o está por
conta da escassa produção de tiroxina por sua glândula tireoide.
A irritabilidade excessiva do velho advogado é devida mais à sua
renitente prisão de ventre do que à recente derrota que sofreu no
fórum. A insuficiente respiração da mocinha pode ter-se agravado
com o fora
do
namorado, mas em realidade não existiria se seus músculos
respiratórios não estivessem atrofiados.
Se há
causas orgânicas fazendo a pessoa nervosa, é preciso removê-las. A
psicoterapia não deve ser desprezada, mas feita simultaneamente com
o tratamento orgânico, que na Hatha Yoga pode ser chamado de
fisioterápico.
A
fisioterapia yóguica é muito eficaz e, praticamente, isenta de
riscos. Depende de ser bem conduzida. Pode-se, com ela, ativar um
fígado lerdo, reduzir a superprodução de uma glândula ou, ao
contrário, estimular uma outra a trabalhar mais. Um centro nervoso,
prejudicado pela fadiga ou mal condicionado, pode vir a ser
corrigido. Os males decorrentes de escassa oxigenação podem ser
curados. A anômala irrigação de um centro nervoso pode vir a ser
normalizada. O nervosismo dos portadores de bico-de-papagaio é
superado facilmente quando, através de exercícios, se livram das
dores.
O
tratamento yóguico fisioterápico, por outro lado, é válido também
por cooperar com as outras frentes de tratamento. Os exercícios
mentais, como a meditação, serão profundamente facilitados, quando
o praticante consiga o "silêncio do corpo" isto é,
levá-lo a um estado de arogya
(saúde
tranquila e positiva), quando os desconfortos orgânicos já não
forem obstáculos ao aprofundamento da consciência, rumo à zona de
maior felicidade no Reino Interno de cada um.
Quem
desfruta de arogya
consegue
ser espontaneamente bom. Quer bem a todos e a tudo, sem se esforçar
para isto. Ao contrário, o irascível sofredor do fígado, infeliz
em suas mazelas, presa da inveja, com facilidade se irrita, pode ser
mesquinho, vingativo, estourado... exatamente por causa de suas
condições de indigência orgânica.
O homem
sadio irradia sua paz, sua saúde, sua confiança e seu amor. Pureza,
contentamento, sinceridade, liberalidade, coragem, alegria são
naturais naqueles que têm arogya.
Quem é sadio tem uma filosofia muito diversa de quem vive fustigado
de incômodos, de carências, de disfunções, de anomalias
orgânicas.
Temos
observado radicais mudanças no psiquismo, no comportamento moral e
na orientação filosófica de alunos nossos, que, através de
práticas ensinadas nas aulas ou em meus livros atingiram um estado
de saúde que antes não conheciam.
Em
Natal, um velho ateu, através de "Autoperfeição com Hatha
Yoga", descobriu os primeiros esplendores de Deus, até então
ocultos a seu olhos espirituais, que as enfermidades mantinham
míopes, para poder enxergar beleza, bondade, grandeza, amor, pureza,
felicidade, justiça, verdade e bem. Abandonou o velho hábito do
chope e aprendeu a ser feliz meditando.
No Rio,
um funcionário aposentado, vítima de uma enxaqueca, tão velha
quanto ele mesmo, mudou inteiramente o rumo de sua vida. Até então
irascível, intransigente, instável, não obstante ter passado dos
cinqüenta, mudou o caráter. A responsável por seus sofrimentos foi
sua moral de combatente incansável e destemido pelo que achava
direito. Com o tratamento yogaterápico, libertando-se da longa
enfermidade, manteve e mantém e talvez ainda
mais consolidou seus princípios, mas agora sem criar tensões. Sua
moral foi suavizada em seu tom e ao mesmo tempo fortalecida. Já não
lhe pesa. Já não lhe cria padecimento. Ele mudou. Tornou-se suave,
espontânea e saudável sua maneira de conceituar o mundo, as
pessoas, os fatos e de conceituar-se a si mesmo. Ele hoje é bom,
tranqüilo e generoso. Foram-se a agressividade e a tensão de quem
padecia de uma enxaqueca, que resistira a todos os tratamentos.
As
técnicas fisioterápicas do Yoga agrupam-se sob os nomes:
— âsanas:
posturas
corporais que beneficiam órgãos, sistemas orgânicos, articulações,
glândulas, centros nervosos, vísceras, músculos, podendo, assim,
corrigir disfunções;
— pranayamas:
exercícios
energéticos, que corrigem defeitos metabólicos, através
principalmente de controle respiratório;
— bandhas:
automassagens,
que atingem até mesmo as regiões mais profundas do corpo;
— kriyas:
técnicas
de purificação orgânica.
Em seu
aspecto fisioterápico, o Yoga é facilmente confundido com a
ginástica vulgar. Mas quem se aprofunda na comparação conclui
tratar-se de um sistema de características inconfundíveis.
Âsana,
literalmente,
significa, postura, pose. "As âsanas
mexem
com músculos, articulações, órgãos, que raramente se
movimentam
(no sentido conveniente à saúde). Algumas, pressionando
um
conjunto de vísceras, provocam massagens naturais;
outras,
flexionando o que comumente é rígido e reto,
constituem
verdadeiras fontes de prazer (tão gostosas como
verdadeiros
espreguiçamentos)... constituem farmacopeia mecânica,
assegurando
saúde, flexibilidade e o frescor característico
do
corpo jovem... Ao iniciar o aprendizado, o praticante
não
consegue naturalmente movimentação harmônica, devido à
rigidez
do corpo..." (Hermógenes; Autoperfeição com Hatha
Yoga),
mas, mesmo que seja superficial e grotesca a execução,
traz
ao organismo danificado pelo sedentarismo imediatos e
surpreendentes
benefícios.
Numa
âsana bem feita: a mente deve estar concentrada no que o corpo faz; a
execução é lenta e isenta de esforços e forçamentos, o que vale
dizer, é presidida pela máxima suavidade;
é mantida, mas sem constrangimento, sem desconforto, sem violentar a
natureza; as partes anatômicas, principalmente os músculos, não
envolvidos no movimento e na pose, conservam-se em relax; é
agradável, como um bom espreguiçamento.
Uma
sessão de "Hatha Yoga" é composta de uma seqüência
inteligentemente, cientificamente organizada, de âsanas,
pranayamas,
bandhas
e
kriyas.
O
critério na organização de uma sessão deve levar em conta muitos
fatores tais como: as necessidades e limitações do praticante; a
posologia; as contra-indicações; a seqüência conveniente...
finalmente, uma série de considerações muito severas, a fim de que
aquilo que é buscado como remédio não se transforme em veneno.
Os erros
que professores improvisados cometem no tratamento dos casos estão
se tornando freqüentes e colocando a prática da "ginástica
yogue" no rol das coisas perigosas. Em obras especializadas,
ensino várias séries, que longa experiência e criteriosa
observação me indicaram como as mais produtivas e isentas de
riscos.

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