3.3.16

A YOGATERAPIA – Prof. Hermógenes


Às vezes o psiquiatra conclui ser o nervosismo de uma paciente causado muito mais pelo insuficiente trabalho de seu fígado do que por sua infeliz relação com o marido. O jovem que parece deprimido em conseqüência da reprovação no vestibular, realmente o está por conta da escassa produção de tiroxina por sua glândula tireoide. A irritabilidade excessiva do velho advogado é devida mais à sua renitente prisão de ventre do que à recente derrota que sofreu no fórum. A insuficiente respiração da mocinha pode ter-se agravado com o fora do namorado, mas em realidade não existiria se seus músculos respiratórios não estivessem atrofiados.

Se há causas orgânicas fazendo a pessoa nervosa, é preciso removê-las. A psicoterapia não deve ser desprezada, mas feita simultaneamente com o tratamento orgânico, que na Hatha Yoga pode ser chamado de fisioterápico.

A fisioterapia yóguica é muito eficaz e, praticamente, isenta de riscos. Depende de ser bem conduzida. Pode-se, com ela, ativar um fígado lerdo, reduzir a superprodução de uma glândula ou, ao contrário, estimular uma outra a trabalhar mais. Um centro nervoso, prejudicado pela fadiga ou mal condicionado, pode vir a ser corrigido. Os males decorrentes de escassa oxigenação podem ser curados. A anômala irrigação de um centro nervoso pode vir a ser normalizada. O nervosismo dos portadores de bico-de-papagaio é superado facilmente quando, através de exercícios, se livram das dores.

O tratamento yóguico fisioterápico, por outro lado, é válido também por cooperar com as outras frentes de tratamento. Os exercícios mentais, como a meditação, serão profundamente facilitados, quando o praticante consiga o "silêncio do corpo" isto é, levá-lo a um estado de arogya (saúde tranquila e positiva), quando os desconfortos orgânicos já não forem obstáculos ao aprofundamento da consciência, rumo à zona de maior felicidade no Reino Interno de cada um.

Quem desfruta de arogya consegue ser espontaneamente bom. Quer bem a todos e a tudo, sem se esforçar para isto. Ao contrário, o irascível sofredor do fígado, infeliz em suas mazelas, presa da inveja, com facilidade se irrita, pode ser mesquinho, vingativo, estourado... exatamente por causa de suas condições de indigência orgânica.

O homem sadio irradia sua paz, sua saúde, sua confiança e seu amor. Pureza, contentamento, sinceridade, liberalidade, coragem, alegria são naturais naqueles que têm arogya. Quem é sadio tem uma filosofia muito diversa de quem vive fustigado de incômodos, de carências, de disfunções, de anomalias orgânicas.

Temos observado radicais mudanças no psiquismo, no comportamento moral e na orientação filosófica de alunos nossos, que, através de práticas ensinadas nas aulas ou em meus livros atingiram um estado de saúde que antes não conheciam.

Em Natal, um velho ateu, através de "Autoperfeição com Hatha Yoga", descobriu os primeiros esplendores de Deus, até então ocultos a seu olhos espirituais, que as enfermidades mantinham míopes, para poder enxergar beleza, bondade, grandeza, amor, pureza, felicidade, justiça, verdade e bem. Abandonou o velho hábito do chope e aprendeu a ser feliz meditando.



No Rio, um funcionário aposentado, vítima de uma enxaqueca, tão velha quanto ele mesmo, mudou inteiramente o rumo de sua vida. Até então irascível, intransigente, instável, não obstante ter passado dos cinqüenta, mudou o caráter. A responsável por seus sofrimentos foi sua moral de combatente incansável e destemido pelo que achava direito. Com o tratamento yogaterápico, libertando-se da longa enfermidade, manteve e mantém e talvez ainda mais consolidou seus princípios, mas agora sem criar tensões. Sua moral foi suavizada em seu tom e ao mesmo tempo fortalecida. Já não lhe pesa. Já não lhe cria padecimento. Ele mudou. Tornou-se suave, espontânea e saudável sua maneira de conceituar o mundo, as pessoas, os fatos e de conceituar-se a si mesmo. Ele hoje é bom, tranqüilo e generoso. Foram-se a agressividade e a tensão de quem padecia de uma enxaqueca, que resistira a todos os tratamentos.

As técnicas fisioterápicas do Yoga agrupam-se sob os nomes:
âsanas: posturas corporais que beneficiam órgãos, sistemas orgânicos, articulações, glândulas, centros nervosos, vísceras, músculos, podendo, assim, corrigir disfunções;
pranayamas: exercícios energéticos, que corrigem defeitos metabólicos, através principalmente de controle respiratório;
bandhas: automassagens, que atingem até mesmo as regiões mais profundas do corpo;
kriyas: técnicas de purificação orgânica.

Em seu aspecto fisioterápico, o Yoga é facilmente confundido com a ginástica vulgar. Mas quem se aprofunda na comparação conclui tratar-se de um sistema de características inconfundíveis.

Âsana, literalmente, significa, postura, pose. "As âsanas mexem com músculos, articulações, órgãos, que raramente se movimentam (no sentido conveniente à saúde). Algumas, pressionando um conjunto de vísceras, provocam massagens naturais; outras, flexionando o que comumente é rígido e reto, constituem verdadeiras fontes de prazer (tão gostosas como verdadeiros espreguiçamentos)... constituem farmacopeia mecânica, assegurando saúde, flexibilidade e o frescor característico do corpo jovem... Ao iniciar o aprendizado, o praticante não consegue naturalmente movimentação harmônica, devido à rigidez do corpo..." (Hermógenes; Autoperfeição com Hatha Yoga), mas, mesmo que seja superficial e grotesca a execução, traz ao organismo danificado pelo sedentarismo imediatos e surpreendentes benefícios.

Numa âsana bem feita: a mente deve estar concentrada no que o corpo faz; a execução é lenta e isenta de esforços e forçamentos, o que vale dizer, é presidida pela máxima suavidade; é mantida, mas sem constrangimento, sem desconforto, sem violentar a natureza; as partes anatômicas, principalmente os músculos, não envolvidos no movimento e na pose, conservam-se em relax; é agradável, como um bom espreguiçamento.

Uma sessão de "Hatha Yoga" é composta de uma seqüência inteligentemente, cientificamente organizada, de âsanas, pranayamas, bandhas e kriyas. O critério na organização de uma sessão deve levar em conta muitos fatores tais como: as necessidades e limitações do praticante; a posologia; as contra-indicações; a seqüência conveniente... finalmente, uma série de considerações muito severas, a fim de que aquilo que é buscado como remédio não se transforme em veneno.

Os erros que professores improvisados cometem no tratamento dos casos estão se tornando freqüentes e colocando a prática da "ginástica yogue" no rol das coisas perigosas. Em obras especializadas, ensino várias séries, que longa experiência e criteriosa observação me indicaram como as mais produtivas e isentas de riscos.





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