3.3.16

O DESEQUILÍBRIO DAS GUNAS – Prof. Hermógenes


Gunas são as forças, os atributos ou qualidades componentes de cada ser, bem como de todos os mundos. Em Yoga diz-se que Prakriti (a natureza) é triguna, isto é, formada por três atributos: satva, rajas e tamas.

Satva é a qualidade da sabedoria, da harmonia, luz, paz, leveza, tranqüilidade, equilíbrio, sobriedade, saúde, santidade, liberdade, coerência, imperturbabilidade, contentamento. . .

Rajas é o atributo da força, da luta, domínio, conquista, energia, ação, dinamismo, violência, agitação, inquietude, agressividade...

Tamas é a guna sombria: da inércia, da preguiça, da estagnação, da indolência, da pobreza, da ignorância, da treva, da lerdeza, da depressão, da negatividade, do desânimo, da astenia. . .

Cada ser, objeto e até mesmo cada fenômeno ou estado de ser resulta do jogo das gunas. Há sempre uma dominante, enquanto as duas outras são secundárias e concomitantes. Quando numa pessoa satva domina, ela é boa, feliz, sábia, sóbria, tranqüila, harmoniosa, sã e santa, embora em todo santo reste ainda vestígios de intranqüilidade ou de indolência, alguma coisa ainda não santa.

Rajásico é o homem bruto, inquieto, conquistador, insatisfeito, lutador, agressivo, sem paz, sem pouso, ansioso, agitado. . . No entanto, o mais rajásico dos ditadores, é a custo que sufoca raros sátvicos impulsos de generosidade e, vez por outra, sente a tamásica necessidade de repouso e solicitações à indolência.

Ninguém, de igual modo, é totalmente tamásico, isto é, inerte, indiferente, parado, amorfo, abatido e sem força.

As pessoas são, assim, de três tipos: sátvicas, rajásicas e tamásicas. São normais quando sua fórmula triguna se mantém em razoável estabilidade. O equilíbrio do tamásico é de nível inferior. É um homem vencido, normalmente desanimado. O equilíbrio do combativo rajásico é uma oitava acima, mas é tenso, instável e sofrido. O homem sátvico é o próprio símbolo de maturidade, da calma e do equilíbrio.

As práticas de Hatha Yoga aumentam a dimensão rajásica no tamásico, tirando-o do equilíbrio inferior, sacudindo-o para um viver menos estagnado, levando-o a produzir algo. De início, isto acarreta sofrimento, pois nada mais doloroso para o indolente do que o toque do despertador a retirá-lo da inércia. Ele perde um pouco da cômoda negatividade, a fim de que possa caminhar para a frente.

Ao sempre agitado homem rajásico, as práticas do Yoga aumentam a dimensão sátvica, dando-lhe maior clareza e harmonia ao agir.

No sentido contrário ao do Yoga, o viver inconsciente e desarvorado esvazia o homem de sua dose de satividade, comunicando- lhe agitação febril ou fazendo-o cair na inércia e na depressão e ele, assim, é apanhado pela desarmonia e pela enfermidade.

O rajásico, de tanto exaurir-se na ação sem inteligência, por sua vez acaba se fatigando e adoece em tamas. Para manter-se sempre feliz, eficaz e sadio, o homem rajásico nunca deveria esquecer-se de aumentar sua dimensão sátvica, isto é, aquela que o manterá sereno, portanto mais criativo e eficaz em seu agir.

O tamásico precisa vencer sua inércia, isto é, aumentar sua dose de rajas, e, sob pena de o fazer com imprudência, também precisa conquistar cada vez
maior satividade.

Chamo nervoso rajásico aquele que, por falta de sabedoria, transformou a vida num inferno pelo tanto que realizou e realiza, pelo tanto que andou ambicionando e ainda deseja, pelo tanto que juntou para si e pelo sobressalto de guardar tanto, pelo exaustivo e agitado viver que o obsedia. Ele é inquieto, exaltado, violento, às vezes instável, medroso, reagindo emocionalmente com exagero a tudo, sem medida nem lógica. É inseguro. Vive em luta e apavorado contra o que o ameaça. Tem imaginação fértil. É hipertenso e vem a dar o agitado. Nele, portanto, o característico é a energia — rajas — em excesso e confusão.

Nervoso tamásico é quieto. É parado. É autista (virado para dentro), astênico, calado, deprimido, isolado, abatido, apático. Sem forças, sua única expressão é a máscara de desânimo. É o símbolo da inércia — tamas. Sua pressão é baixa; seus músculos de baixo tono e sem energia.

O homem sátvico jamais é um nervoso. É feliz e harmonioso sempre. A orientação geral para o tratamento de um nervoso rajásico é exatamente a redução de seu excitamento, nunca de sua energia. É a redução de sua tensão e desgaste e não de suas forças. É um tratamento tranqüilizante, sedante, relaxante, equanimizante.

O tratamento dos tamásicos é exatamente oposto: consiste em esquentar, em estimular, em despertar o enfermo, aumentando-lhe a dosagem de rajas, isto é, vibracidade. É tratamento antidepressivo, estimulante e energizante.

Tanto num caso como noutro, isto é, quer se trate do agitado quer do deprimido, a psicoterapia é indispensável. Chama-se psicoterapia o tratamento do psiquismo, isto é, o da mente. O que o psicoterapeuta visa é a dar à mente enferma um estado e um funcionamento mais harmonioso, claro, sadio e livre de perturbações. Em outras palavras, a psicoterapia consiste em dar satvidade à mente tumultuada e impura.

Os psiquiatras vêm tratando seus pacientes com psicotrópicos, isto é, medicamentos (fármacos), que atuam sobre os nervos e sobre a mente. Aos abatidos prescrevem drogas que produzam psicoanalepsia e neuroanalepsia, isto é, estimulantes da atividade mental (psicotônicos) e são neuro-energizantes ou antidepressivos e, assim, rajasificam os tamásicos, exercendo
ação antipsicótica.

Aos agitados, ao contrário, tratam de levá-los à psicolepsia e neurolepsia, através de drogas calmantes, ataráxicas, tranqüilizantes, hipnóticas, sedantes... conseguindo, destarte, reduzir a agitação rajásica e relaxar tensões.

Com o mesmo critério, visando aos mesmos efeitos, a yogaterapia aplica suas técnicas psicolépticas ou psicanalépticas, isto é, tranqüilizantes e estimulantes, respectivamente a nervosos rajásicos e nervosos tamásicos.

Enquanto que as drogas acarretam efeitos colaterais indesejáveis, inclusive a "dependência" ou vício e a intoxicação, as técnicas da Hatha Yoga, ao contrário, colaboram, sem quaisquer riscos ou prejuízos, para a libertação satvizante do enfermo.

Visando aos mesmos efeitos — tranqüilizantes para o rajásico e antidepressivos para o tamásico — também a yogaterapia, em todos os aspectos da vida, prescreve: pensamentos, sentimentos, comportamentos, diversões, música, esportes, alimentos, artes etc...

Há sentimentos estimulantes. Também os há tranqüilizantes. Certas músicas fazem dormir ou relaxar; outras atiçam e irritam. Alguns alimentos excitam; outros acalmam.

Cada tipo de nervoso — rajásico ou tamásico — precisa optar sobre o que comer, qual a diversão, atividade, forma de artes, cores, e emoções a evitar ou cultivar.





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