"Tenho
que deixar isto, que está me matando", dizia ele sob um ataque
de tosse brônquica e meio afogado em gosma, mostrando um toco de
cigarro entre os dedos amarelados de nicotina. Ele é o símbolo do
homem acorrentado. Seus grilhões são feitos de fumo. De outros,
podem ser de álcool.
Todos os
grilhões são fortíssimos, e o são exatamente na medida da
fragilidade dos acorrentados. A maioria deles quer libertar-se ou
necessita de libertar-se porque, seja o fumo, seja o tranqüilizante,
seja o álcool, o jogo ou alguns maus hábitos, seus tiranos lhe
trazem enfermidade, sofrimento e, às vezes, abjeção.
Todos os
grilhões causam prejuízos ao psiquismo, mercê de demonstrarem ao
próprio homem que ele está vencido, que é escravo, tíbio e sem
vontade. Quem quer que chegue a esta condição sofre muito com o
reconhecimento de sua servidão, que considera ser sem esperança.
Diante de cada frustrada tentativa de resistir, mais infeliz se torna
e mais vencido se sente.
Seja
toxicômano, alcoólatra, tabagista, viciado em jogo ou vítima de
comportamentos compulsivos, pensamentos obsessivos e tiques nervosos,
o homem é presa de um círculo vicioso que inexoravelmente o domina
e o deprecia.
O
álcool, os tóxicos e o fumo, além do mais, interferem também
destrutivamente sobre o próprio organismo. E este efeito nefando
provoca medo no viciado. O viciado conhece o mal que o vício lhe faz
e, no entanto, não consegue deixá-lo.
Nesta
situação, é comum o viciado recorrer ao que a psicanálise chama
uma racionalização,
isto
é, usar a razão para forjar "razões" consoladoras e
explicativas, para com elas "justificar-se" diante de si
mesmo e dos outros, pelos atos que é coagido a praticar, que não
pode evitar, mercê de compulsões subconscientes.
A
primeira forma de vencer o vício, é não permitir que nasça. A
segunda, é impedir que cresça. A terceira é a erradicação
progressiva e inteligente. Evitar que a semente daninha caía em seu
quintal é a mais eficiente maneira de não precisar arrancar a
frondosa árvore depois.
Um vício
se forma aos poucos, seguindo estágios. O primeiro cigarro que se
fuma, com certo desprazer, é o início de um processo que poderá
vir a tomar conta da vítima. O meninote acendeu seu primeiro
cigarro, por força da sugestão dos de sua idade e também porque o
cigarro representa para ele a masculinidade que, ainda imaturo,
deseja ter.
O início
de um vício é quase sempre destituído de prazer, e especialmente
no caso do cigarro e do álcool, chega até a ser desagradável.
Constitui mesmo um sacrifício
necessário àquele
que deseja "se mesmificar" isto é, ficar igual aos outros.
A
segunda fase surge quando, imperceptivelmente, o desagrado vai
cedendo e já não há sacrifício. Aquilo que era mal recebido pelo
organismo, por ser antinatural, começa a ser aceito. Podemos dizer
que o fumo ou o álcool, nesta fase, nem dá prazer nem desprazer.
São neutros. Ainda aqui é simples cortar o processamento.
Está-se
entrando na terceira fase quando já se fuma ou bebe com certo gosto.
Agora mais fortes vão se tornando as correntes e o indivíduo começa
a capitular de sua condição de agente livre, de ser humano dono de
si mesmo.
A quarta
fase é aquela na qual o organismo, já condicionado, só se sente
normal quando é atendido em suas necessidades do agente
condicionante. Daí por diante, também o psiquismo só se acalma
depois que o viciado cumpre o "ritual". O viciado, embora
se sentindo covarde e desgraçado, embora sabendo que está minando o
corpo e a alma, não tem como resistir às imposições da
necessidade de aplacar seu psiquismo e seu corpo sedentos do objeto
do vício: seja o copo, o cigarro ou o barbitúrico. É a fase da
dependência
orgânica
e psíquica.
No caso
do jogo o processamento é semelhante, atendendo, naturalmente às
peculiaridades. O fascínio pelo risco de perder e a esperança de
ganhar ou recuperar o que já perdeu, prisioneiro mantém o jogador,
que embora veja que está sacrificando tempo, energias, nervos,
saúde, dinheiro, família e, às vezes, dignidade,
é impotente para afastar-se da mesa do vício.
O bêbedo
de hoje poderia ser pessoa sóbria e com autodomínio se, em certo
momento do passado, não tivesse cedido à "iniciação".
Ele já não se lembra em que reuniãozinha social, para mostrar-se
igual
aos outros, cretinamente
bebeu seu primeiro gole, sentindo abominável o gosto, mas tendo de
aparentar que
estava gostando (segundo a moda).
O
tabagista de hoje, baixado ao hospital para operar o pulmão, não se
recorda daquele
dia na infância em que, para parecer adulto e igual
aos outros, deu
as primeiras baforadas num cigarro que um
colega
lhe dera. Pode ser dito o mesmo em relação àquele que
se
degradou com as '"bolinhas" ou cigarros de maconha.
Em
todos
estes casos, o início é sempre sob a persuasão dos outros;
e
sob imitação, isto é, filiação à moda. Na origem, todos os
"iniciados"
já eram pessoas comumente chamadas "fracas de
espírito",
ou seja, os de personalidade e mente amorfas, vidas
inconscientes
que buscam segurança, aceitação e prestígio no
meio
em que vivem, renunciando conseqüentemente ao dever
de serem autênticas. O
medo de ser diferente, leva o fraco a
imitar
os do grupo. Quando o grupo é de gente viciada, o
resultado
é viciar-se.
Se você
conhecer e sentir a inexpugnável fortaleza e o tesouro
de
paz e ventura que há em você, nunca buscará sua
segurança
nos integrantes de seu grupo e terá a sábia coragem
de ser diferente. Só
os que são diferentes têm condições de
não
apenas se sobrepor, mas de liderar.
Se você
quiser continuar senhor de si e ganhar condições de ajudar aos
outros, negue-se à vulgarização, tendo a coragem
de
ser diferente.
Na próxima reunião, quando todos, igualados, bem "normaizinhos",
bem "mesmificados", estiverem bebericando, fumando, e
fazendo uso indevido da faculdade da palavra, sem pretender
afrontá-los nem parecer melhor do que eles, não
tenha medo
de ser diferente.
Quando
todos os amigos de seu grupo o convidarem para uma noitada de pôquer,
lembre-se do imenso valor que representam seu equilíbrio,
sobriedade, seu tempo e sua saúde, e, convide-os para fazer algo
melhor. Tenha a coragem
de
ser diferente.
É
provável que a vulgaridade não entenda nem perdoe alguém que se
nega a vulgarizar-se, e agrida você. Mas você deve lembrar-se, de
que os raros autênticos são indispensáveis para servirem de
esteio, de pontos de apoio, de orientação ao homem comum,
escorregadiço e amorfo.
Não
queira ser igual, em troca de ser aceito. Não ceda ao alcoolismo, ao
tabagismo, aos narcóticos, às noitadas de dissipação. Só os
psiquicamente adolescentes, por inseguros, o fazem. Revele sua
maturidade, recusando-se, sem ofender aos vulgares, a segui-los em
suas "normais" reuniões de vício.
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