4.3.16

NÃO SE RENDA AOS VÍCIOS – Prof. Hermógenes


"Tenho que deixar isto, que está me matando", dizia ele sob um ataque de tosse brônquica e meio afogado em gosma, mostrando um toco de cigarro entre os dedos amarelados de nicotina. Ele é o símbolo do homem acorrentado. Seus grilhões são feitos de fumo. De outros, podem ser de álcool.

Todos os grilhões são fortíssimos, e o são exatamente na medida da fragilidade dos acorrentados. A maioria deles quer libertar-se ou necessita de libertar-se porque, seja o fumo, seja o tranqüilizante, seja o álcool, o jogo ou alguns maus hábitos, seus tiranos lhe trazem enfermidade, sofrimento e, às vezes, abjeção.

Todos os grilhões causam prejuízos ao psiquismo, mercê de demonstrarem ao próprio homem que ele está vencido, que é escravo, tíbio e sem vontade. Quem quer que chegue a esta condição sofre muito com o reconhecimento de sua servidão, que considera ser sem esperança. Diante de cada frustrada tentativa de resistir, mais infeliz se torna e mais vencido se sente.

Seja toxicômano, alcoólatra, tabagista, viciado em jogo ou vítima de comportamentos compulsivos, pensamentos obsessivos e tiques nervosos, o homem é presa de um círculo vicioso que inexoravelmente o domina e o deprecia.

O álcool, os tóxicos e o fumo, além do mais, interferem também destrutivamente sobre o próprio organismo. E este efeito nefando provoca medo no viciado. O viciado conhece o mal que o vício lhe faz e, no entanto, não consegue deixá-lo.

Nesta situação, é comum o viciado recorrer ao que a psicanálise chama uma racionalização, isto é, usar a razão para forjar "razões" consoladoras e explicativas, para com elas "justificar-se" diante de si mesmo e dos outros, pelos atos que é coagido a praticar, que não pode evitar, mercê de compulsões subconscientes.

A primeira forma de vencer o vício, é não permitir que nasça. A segunda, é impedir que cresça. A terceira é a erradicação progressiva e inteligente. Evitar que a semente daninha caía em seu quintal é a mais eficiente maneira de não precisar arrancar a frondosa árvore depois.

Um vício se forma aos poucos, seguindo estágios. O primeiro cigarro que se fuma, com certo desprazer, é o início de um processo que poderá vir a tomar conta da vítima. O meninote acendeu seu primeiro cigarro, por força da sugestão dos de sua idade e também porque o cigarro representa para ele a masculinidade que, ainda imaturo, deseja ter.

O início de um vício é quase sempre destituído de prazer, e especialmente no caso do cigarro e do álcool, chega até a ser desagradável. Constitui mesmo um sacrifício necessário àquele que deseja "se mesmificar" isto é, ficar igual aos outros.

A segunda fase surge quando, imperceptivelmente, o desagrado vai cedendo e já não há sacrifício. Aquilo que era mal recebido pelo organismo, por ser antinatural, começa a ser aceito. Podemos dizer que o fumo ou o álcool, nesta fase, nem dá prazer nem desprazer. São neutros. Ainda aqui é simples cortar o processamento.

Está-se entrando na terceira fase quando já se fuma ou bebe com certo gosto. Agora mais fortes vão se tornando as correntes e o indivíduo começa a capitular de sua condição de agente livre, de ser humano dono de si mesmo.

A quarta fase é aquela na qual o organismo, já condicionado, só se sente normal quando é atendido em suas necessidades do agente condicionante. Daí por diante, também o psiquismo só se acalma depois que o viciado cumpre o "ritual". O viciado, embora se sentindo covarde e desgraçado, embora sabendo que está minando o corpo e a alma, não tem como resistir às imposições da necessidade de aplacar seu psiquismo e seu corpo sedentos do objeto do vício: seja o copo, o cigarro ou o barbitúrico. É a fase da dependência orgânica e psíquica.

No caso do jogo o processamento é semelhante, atendendo, naturalmente às peculiaridades. O fascínio pelo risco de perder e a esperança de ganhar ou recuperar o que já perdeu, prisioneiro mantém o jogador, que embora veja que está sacrificando tempo, energias, nervos, saúde, dinheiro, família e, às vezes, dignidade, é impotente para afastar-se da mesa do vício.

O bêbedo de hoje poderia ser pessoa sóbria e com autodomínio se, em certo momento do passado, não tivesse cedido à "iniciação". Ele já não se lembra em que reuniãozinha social, para mostrar-se igual aos outros, cretinamente bebeu seu primeiro gole, sentindo abominável o gosto, mas tendo de aparentar que estava gostando (segundo a moda).

O tabagista de hoje, baixado ao hospital para operar o pulmão, não se recorda daquele dia na infância em que, para parecer adulto e igual aos outros, deu as primeiras baforadas num cigarro que um colega lhe dera. Pode ser dito o mesmo em relação àquele que se degradou com as '"bolinhas" ou cigarros de maconha.

Em todos estes casos, o início é sempre sob a persuasão dos outros; e sob imitação, isto é, filiação à moda. Na origem, todos os "iniciados" já eram pessoas comumente chamadas "fracas de espírito", ou seja, os de personalidade e mente amorfas, vidas inconscientes que buscam segurança, aceitação e prestígio no meio em que vivem, renunciando conseqüentemente ao dever de serem autênticas. O medo de ser diferente, leva o fraco a imitar os do grupo. Quando o grupo é de gente viciada, o resultado é viciar-se.

Se você conhecer e sentir a inexpugnável fortaleza e o tesouro de paz e ventura que há em você, nunca buscará sua segurança nos integrantes de seu grupo e terá a sábia coragem de ser diferente. Só os que são diferentes têm condições de não apenas se sobrepor, mas de liderar.

Se você quiser continuar senhor de si e ganhar condições de ajudar aos outros, negue-se à vulgarização, tendo a coragem de ser diferente. Na próxima reunião, quando todos, igualados, bem "normaizinhos", bem "mesmificados", estiverem bebericando, fumando, e fazendo uso indevido da faculdade da palavra, sem pretender afrontá-los nem parecer melhor do que eles, não tenha medo de ser diferente.

Quando todos os amigos de seu grupo o convidarem para uma noitada de pôquer, lembre-se do imenso valor que representam seu equilíbrio, sobriedade, seu tempo e sua saúde, e, convide-os para fazer algo melhor. Tenha a coragem de ser diferente.

É provável que a vulgaridade não entenda nem perdoe alguém que se nega a vulgarizar-se, e agrida você. Mas você deve lembrar-se, de que os raros autênticos são indispensáveis para servirem de esteio, de pontos de apoio, de orientação ao homem comum, escorregadiço e amorfo.

Não queira ser igual, em troca de ser aceito. Não ceda ao alcoolismo, ao tabagismo, aos narcóticos, às noitadas de dissipação. Só os psiquicamente adolescentes, por inseguros, o fazem. Revele sua maturidade, recusando-se, sem ofender aos vulgares, a segui-los em suas "normais" reuniões de vício.




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