Conheci
um homem rico que sempre adquiria carro do último tipo, o mais caro.
Adorava o carro como um apaixonado qualquer à sua amada. Dava-lhe
tratamento extremamente cuidadoso. O brilho do carro era-lhe
obsessão.
Uma
noite, o carro estacionado, estando ele no cinema, algum malvado fez
um risco no lindo capô. O pobre homem "adoeceu de raiva".
Não é apenas uma expressão popular. Adoeceu mesmo. De raiva de
quem fizera aquilo, e de dor, por ver estragado seu carro. O risco
não fora apenas no automóvel, mas em seus próprios nervos, pois, a
rigor, o carro não era dele — o carro era ele mesmo.
Aquele
pobre homem abastado é o símbolo da identificação.
Sua
tranqüilidade, sua saúde, sua felicidade dependiam
"dele"
— do carro. Era portanto uma pessoa muito vulnerável.
Semelhante
a milhões de outros seres humanos. Era vulnerável
como
seu carro. Enguiço, sujeira, arranhão, batida, a que todo
automóvel
está sujeito, atingia-o em seu psicossomatismo, isto é,
faziam-no
sofrer mental e organicamente.
A
identificação
mais
normal,
isto
é, mais generalizada é aquela às coisas externas e mais ou menos
vulneráveis quanto um automóvel. Podemos identificar-nos a um
objeto, a um outro ente
humano,
como a namorada, ao filho, a um emprego ou à ribalta.
Somos
identificados às coisas quando nos sentimos infelizes
com
a perda, o desgaste ou a corrupção de tais coisas.
A
felicidade
de
muitos está ligada, às vezes, a acontecimentos em si
insignificantes,
como a vitória do time de futebol ou do partido
político,
mas também à manutenção de um emprego ou posição
de
destaque social ou artístico, ao triunfo das idéias ou ideais
que
professam.
O
"normal" é o indivíduo sentir-se miserável e perdido só
porque caiu doente. Muitas senhoras esnobes
se
danam quando a cronista deixou de citar seu nome na coluna social.
Aquilo
que quando nos falta nos dá infelicidade é objeto de nossa
identificação. Somos identificados ao que ansiosa e desastrosamente
queremos conservar, melhorar, desenvolver. . . Somos uns perdidos de
nós mesmos porque nos identificamos a uma variedade sem conta de
coisas, posições e pessoas. Nossa segurança e paz dependem de tudo
isto com que nos identificamos.
Segundo
o Yoga, uma das maiores fontes de sofrimento é o identificar-nos com
os níveis mais densos e materiais de nosso ser. Os que se
identificam com o corpo, e somos quase todos, costumam dizer: "eu
estou doente".
O
yoguin, já desidentificado com o corpo, usa outra linguagem e diz:
"meu corpo está doente". O yoguin, em sua sabedoria, diz
que seu corpo morre, pois sendo realmente um agregado de substâncias,
algum dia se desfará, mas afirma que ele, em Realidade, é o Eterno,
o Imutável, o Imóvel, o Perfeito, e portanto, jamais morrerá. Pode
haver medo da morte para quem assim pensa?
Enquanto
o homem comum adoece com os arranhões em seu carro ou em sua saúde,
o sábio, desidentificado do grosseiro e do falível, mantém-se
imperturbável, identificado que é
com
o incorruptível e imortal. Enquanto o pobre homem identificado é
joguete ao sabor das circunstâncias incontroláveis na tempestuosa
atmosfera da matéria, o yoguin vivendo no Espírito, não se deixa
apanhar nas malhas da ansiedade e não cai presa da "coisa".
Uma das
principais vias do Yoga ou união é o desidentificar- se com o mundo
de Deus e identificar-se com Deus do mundo. Este caminhar é
libertação
pelos
resultados. É iluminação
quanto ao processo psicológico.
À
medida que avança nesta desidentificação, o homem vai se tornando
cada vez mais invulnerável aos acontecimentos, às coisas, aos fatos
e às pessoas.
Um
imaturo vai ao cinema e goza e sofre respectivamente com as vitórias
e derrotas do herói ao qual se identifica.
Seus
nervos, glândulas e vísceras são fundamente sacudidos pelos
acontecimentos do mundo mítico criado pela fita.
Uma
pessoa de espírito crítico e amadurecido, conhecedora da técnica e
arte cinematográficas,
sabe "dar o desconto", e assiste ao filme, dizendo para si
mesmo: "não é comigo"; "eu não sou aquele
personagem"; "tudo isto é ilusão".
O mundo
que nos rodeia só é realidade na medida em que nos identificamos
com ele, pois nos impõe dor ou prazer, pesar ou alegria, confiança
ou medo. . . Desde que conheçamos o que é realmente
o
mundo, começaremos a sentir a equanimidade do espectador de
mentalidade evoluída, sem sofrer nem gozar, sem tentar fugir ou
buscar, sem medo, sem ódio e sem tédio.
Reflexão:
Eu
não sou meu emprego. Mesmo que venha a perdê-lo, continuarei
invencível. Eu não sou minha casa, meu automóvel, minha fazenda ou
todos os "meus tesouros", que andei acumulando, pois
continuarei invulnerável se o destino os arrancar de mim. Eu não
sou nada disso. Eu não sou meu corpo, que adoece, envelhece, fenece,
falece. Não sou nada disso que faz tantos sofrerem.
Eu Sou o
Imortal, Perfeito, Eterno e Infinito Princípio. Tenho sofrido, em
conseqüência da miopia espiritual que me confundia com tudo isto
que me cerca. Hoje, curado, vejo cada vez mais que Eu Sou Tu, Pai
Celestial. Meus tesouros já não são os "meus". Meu
tesouro és Tu, que Eu Sou.
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