3.3.16

IDENTIFICAÇÃO – Prof. Hermógenes


Conheci um homem rico que sempre adquiria carro do último tipo, o mais caro. Adorava o carro como um apaixonado qualquer à sua amada. Dava-lhe tratamento extremamente cuidadoso. O brilho do carro era-lhe obsessão.

Uma noite, o carro estacionado, estando ele no cinema, algum malvado fez um risco no lindo capô. O pobre homem "adoeceu de raiva". Não é apenas uma expressão popular. Adoeceu mesmo. De raiva de quem fizera aquilo, e de dor, por ver estragado seu carro. O risco não fora apenas no automóvel, mas em seus próprios nervos, pois, a rigor, o carro não era dele — o carro era ele mesmo.

Aquele pobre homem abastado é o símbolo da identificação. Sua tranqüilidade, sua saúde, sua felicidade dependiam "dele" — do carro. Era portanto uma pessoa muito vulnerável. Semelhante a milhões de outros seres humanos. Era vulnerável como seu carro. Enguiço, sujeira, arranhão, batida, a que todo automóvel está sujeito, atingia-o em seu psicossomatismo, isto é, faziam-no sofrer mental e organicamente.

A identificação mais normal, isto é, mais generalizada é aquela às coisas externas e mais ou menos vulneráveis quanto um automóvel. Podemos identificar-nos a um objeto, a um outro ente humano, como a namorada, ao filho, a um emprego ou à ribalta. Somos identificados às coisas quando nos sentimos infelizes com a perda, o desgaste ou a corrupção de tais coisas.

A felicidade de muitos está ligada, às vezes, a acontecimentos em si insignificantes, como a vitória do time de futebol ou do partido político, mas também à manutenção de um emprego ou posição de destaque social ou artístico, ao triunfo das idéias ou ideais que professam.

O "normal" é o indivíduo sentir-se miserável e perdido só porque caiu doente. Muitas senhoras esnobes se danam quando a cronista deixou de citar seu nome na coluna social.

Aquilo que quando nos falta nos dá infelicidade é objeto de nossa identificação. Somos identificados ao que ansiosa e desastrosamente queremos conservar, melhorar, desenvolver. . . Somos uns perdidos de nós mesmos porque nos identificamos a uma variedade sem conta de coisas, posições e pessoas. Nossa segurança e paz dependem de tudo isto com que nos identificamos.

Segundo o Yoga, uma das maiores fontes de sofrimento é o identificar-nos com os níveis mais densos e materiais de nosso ser. Os que se identificam com o corpo, e somos quase todos, costumam dizer: "eu estou doente".

O yoguin, já desidentificado com o corpo, usa outra linguagem e diz: "meu corpo está doente". O yoguin, em sua sabedoria, diz que seu corpo morre, pois sendo realmente um agregado de substâncias, algum dia se desfará, mas afirma que ele, em Realidade, é o Eterno, o Imutável, o Imóvel, o Perfeito, e portanto, jamais morrerá. Pode haver medo da morte para quem assim pensa?

Enquanto o homem comum adoece com os arranhões em seu carro ou em sua saúde, o sábio, desidentificado do grosseiro e do falível, mantém-se imperturbável, identificado que é com o incorruptível e imortal. Enquanto o pobre homem identificado é joguete ao sabor das circunstâncias incontroláveis na tempestuosa atmosfera da matéria, o yoguin vivendo no Espírito, não se deixa apanhar nas malhas da ansiedade e não cai presa da "coisa".

Uma das principais vias do Yoga ou união é o desidentificar- se com o mundo de Deus e identificar-se com Deus do mundo. Este caminhar é libertação pelos resultados. É iluminação quanto ao processo psicológico.

À medida que avança nesta desidentificação, o homem vai se tornando cada vez mais invulnerável aos acontecimentos, às coisas, aos fatos e às pessoas.

Um imaturo vai ao cinema e goza e sofre respectivamente com as vitórias e derrotas do herói ao qual se identifica. Seus nervos, glândulas e vísceras são fundamente sacudidos pelos acontecimentos do mundo mítico criado pela fita.

Uma pessoa de espírito crítico e amadurecido, conhecedora da técnica e arte cinematográficas, sabe "dar o desconto", e assiste ao filme, dizendo para si mesmo: "não é comigo"; "eu não sou aquele personagem"; "tudo isto é ilusão".

O mundo que nos rodeia só é realidade na medida em que nos identificamos com ele, pois nos impõe dor ou prazer, pesar ou alegria, confiança ou medo. . . Desde que conheçamos o que é realmente o mundo, começaremos a sentir a equanimidade do espectador de mentalidade evoluída, sem sofrer nem gozar, sem tentar fugir ou buscar, sem medo, sem ódio e sem tédio.

Reflexão: Eu não sou meu emprego. Mesmo que venha a perdê-lo, continuarei invencível. Eu não sou minha casa, meu automóvel, minha fazenda ou todos os "meus tesouros", que andei acumulando, pois continuarei invulnerável se o destino os arrancar de mim. Eu não sou nada disso. Eu não sou meu corpo, que adoece, envelhece, fenece, falece. Não sou nada disso que faz tantos sofrerem.


Eu Sou o Imortal, Perfeito, Eterno e Infinito Princípio. Tenho sofrido, em conseqüência da miopia espiritual que me confundia com tudo isto que me cerca. Hoje, curado, vejo cada vez mais que Eu Sou Tu, Pai Celestial. Meus tesouros já não são os "meus". Meu tesouro és Tu, que Eu Sou. 

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