14.6.18

DOR E PODER – Yogue Ramacháraka

O objetivo da filosofia é pôr fim à dor. O medo tem, atrás de si, a fuga à dor. Então a dor é para ser evitada? Edward Carpenter, em seu belo poema "O Homem e Satã" diz: "Cada dor que sofri num corpo tornou-se um poder que dominei no próximo." Poder é a dor transmutada.
Leia a vida de Napoleão. Ali você vê a grande manifestação de poder. Este homem pequeno e insignificante comandou rudes soldados como se fossem crianças. Por exemplo: ao ouvir que os Bourbons estavam governando mal seu país, ele retornou de seu exílio em Elba. As tropas foram mandadas para mata-lo. Todo o exército foi mandado para atirar nele. Os soldados estavam ali com suas armas mirando em seu peito, prontos para receber o comando de atirar.
Napoleão estava a pé, sozinho, sem defesa e sem armas, e caminhou em direção às tropas com um andar medido, olhando diretamente nos olhos dos soldados. A ordem “Fogo” foi gritada. Um único tiro o teria matado. Se o exército tivesse obedecido à ordem, quarenta mil balas teriam entrado no peito de Napoleão.
Mas esse homem não vacilou e ficou a alguns metros encarando a todos. O exército inteiro hesitou. Como poderiam atirar naquele homem? Estavam sob sua fascinação. Ninguém obedeceu à ordem. Todos atiraram suas armas ao solo e correram para ele gritando "Viva o Imperador!"
Se você analisar a vida deste homem, verá que impôs a si as mais dolorosas tarefas. Durante vários dias ficava sem dormir, descansar e comer, profundamente absorvido em seus estudos. Sua aparência, às vezes, era horrível de se contemplar por causa de suas duras privações. Mas havia um raio em seus olhos que queimavam com o fogo do espírito. Verdadeiramente, era a dor transmutada em poder.
O yogue cujas austeridades deixam mudo de horror o ocidental, domina os tigres e leões da floresta com um único olhar. Todos os yogues avançados têm este e milhares de tais poderes maravilhosos.

Além disso, a dor purifica. Durante eras as propensões animais foram desenvolvidas. A menos que métodos drásticos sejam empregados, estas propensões se tornam impossíveis de subjugar. Nada há como a dor para ensinar, porque ela purifica. Uma vez que sua natureza passou pelo fogo do sofrimento, você terá conhecido o lado sério da vida.
Disse o grande Swami Vivekananda sobre suas viagens a pé através da Índia: “Durante muitos dias estive nas garras da morte, faminto, cansado, com os pés feridos. Durante dias não tinha nada para comer nem conseguia dar mais um passo. Sentava-me à sombra de uma árvore e sentia que minha vida se apagava. Não conseguia falar, nem quase pensar, mas finalmente a mente voltava à ideia: não tenho medo da morte, não tenho fome nem sede. Nem toda a natureza pode me destruir; ela é minha servidora. E dizia a mim mesmo: Afirmai vossa força, ó vós Senhor dos Senhores! Recuperai vosso reino perdido! Levantai e caminhai! E então eu me levantava com nova força e aqui estou eu, vivendo hoje.”
Este homem viveu nas cavernas dos Himalayas durante anos. Subiu as montanhas a pé até o Tibete. E ele não foi o único.

O PARAMAHANSA DE DESASWAMEDH – Yogue Ramacháraka

Às margens do rio Ganges em Benares, perto do Gath Desaswamedh (ghat é uma escadaria que desce até o rio), senta-se um homem de aproximadamente 70 anos. Está desnudo. Vestido com a roupa que a natureza lhe deu, o Paramahansa (sábio divino) permanece sentado naquele local, de manhã, à tarde e à noite.
Olhe seu rosto. Tem uma aparência séria. Sua testa é semelhante a uma abóboda que se ergue sobre seus olhos, os quais são claros, serenos e brilham com o fogo da alma. Seus lábios são firmes. Seus olhos calmos e pensativos, sua testa nobre e suas feições gerais indicam grande calma e autocontrole e imenso poder da vontade.

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Por mais de oito anos ele tem estado ali. No queimante sol de meio-dia do verão, quando o piso da escadaria parece pegar fogo, e no amargo frio do inverno, ele se senta ali. As pessoas vêm até ele às centenas, diariamente, trazem-lhe comida o suficiente para encher trinta estômagos, curvam-se a ele e lhe contam suas aflições. Sua resposta é apenas um sim com a cabeça e um olhar em seus olhos. Ele come algumas frutas e bebe um pouco de leite, e o resto distribui entre pessoas que anseiam em receber. Ele nunca conversa, nunca ri nem sorri. Sua face é sempre solene, calma e em êxtase.
Se você se aproxima dele, sente sua presença imediatamente. Essa presença é ao mesmo tempo magnética, poderosa e uma personalidade completamente espiritual.
Agora siga-me até o mercado de peixes. São oito horas da manhã. Não menos de duzentas pessoas estão ali. Meu primeiro sentimento é de náusea, pois há um forte e abominável odor no lugar. Os pescadores trazem muitos peixes, alguns ainda vivos, de suas redes. Começam batendo os peixes vivos contra o chão duro do mercado. Disputa, pechincha, abusos, cuspes são vistos por todo lado. O mau cheiro não é nada para eles, é como se fosse o cheiro de rosas.
Saio dali, ou melhor, corro para fora. Vejo muitos homens e mulheres saindo do mercado; seus olhos são pálidos e vazios; sua pele gruda-se frouxa sobre seus ossos; seus rostos denotam cobiça e desejo. Não vejo ninguém que tenha um olhar saudável, firme, autoconfiante. Parecem um monte de mendigos que tropeçaram num pouco de dinheiro que precisam gastar com peixe.
Agora compare esses homens sem vida com o Santo, qual conclusão você tira? Eles são homens animais, o outro um homem divino.
Nos primeiros, o medo, a cobiça, o desejo, a superstição fizeram seu lar. Os horrores de um matadouro de animais não os chocam. Seus sentidos são grosseiros. No outro, Deus se manifesta. Ele não é atingido pelo calor ou frio, pelo desejo ou paixão. Se um raio caísse sobre ele, não perderia sua calma nem mesmo por uma fração de segundo.
Não é isso a verdadeira felicidade? Realizar que você não é o corpo, que você jamais pode morrer, que nada pode tocá-lo, que o fogo não pode queimá-lo, a espada não pode cortá-lo, a água não pode molhá-lo; realizar sua independência e domínio sobre o corpo.
A vida espiritual é Amor. Esse amor não vem fácil. Apenas quando já sofremos muito, pensamos muito, só então alguns clarões deste Amor Universal brilham sobre nós. Esse é o amanhecer da divindade, do despertar espiritual.
Chega um tempo em que sentimos esta verdade, e uma simpatia pelos sofrimentos dos outros é o primeiro sinal. Servir os outros é um grande privilégio. Deus nos concede esta oportunidade para nos purificarmos; nenhum passo mais elevado pode ser tomado a menos que tenhamos aprendido a lição do serviço.
A felicidade não é a meta da vida, nem o gozo. Deus é a meta da vida. Realizando a Deus, realizamos a felicidade. "Tamanho é o poder do bem, que mesmo o menor bem feito aos outros traz os maiores resultados."
Antes que você tenha ido muito longe neste longo caminho, a paz estenderá suas asas sobre você. O medo cessará. A preocupação não mais será conhecida.
Portanto treine-se para prestar serviços, mesmo que seja para uma única alma. Se você tem um pai, uma mãe, ou outra pessoa que depende de você, sirva-os de todo o coração. Não se importe se são gratos; isso é problema deles. Em pouco tempo, sua Natureza Superior se afirmará e se tornará sua segunda natureza.
Viva de acordo com esses ideais. Se tropeçar, levante-se novamente, e sempre uma vez mais. Seja firme neste caminho e a força seguramente virá. Olhe sempre para cima e para frente.

6.6.18

CHAKRAS E EVOLUÇÃO – Swami Chidananda


Na atualidade, a grande maioria dos seres humanos são apenas animais humanos; estão totalmente imersos na consciência do corpo. Por isso, o yogue diz que a consciência deles se move apenas nos três chakras inferiores, que correspondem à comida, sexo e eliminação.

Se essas pessoas conseguem algum despertar e desenvolvem compaixão pelos outros, espírito de serviço, então a consciência ocasionalmente se manifesta no quarto chakra (do coração), o centro do sentimento.

Se a consciência persistir em seu caminho ascendente de evolução espiritual, ela chega ao vishuddha-chakra (da garganta) onde a pessoa pode ter muitas experiências subjetivas, visões etc. Mas essas experiências não são constantes e a consciência se move para cima e depois volta a descer.

Se a consciência sobe ao ajna-chakra (terceiro olho), a pessoa se torna mais estável, porque é o centro da mente, o centro psíquico. Mas é apenas quando a consciência chega ao sahasrara (topo do crânio) que então não há mais o perigo de uma queda. A pessoa fica acima da consciência do corpo. Ela não está mais consciente de si como corpo. Não pensa mais em si como uma entidade física. Mas até se chegar a esse estágio, há sempre necessidade de ser vigilante.

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O SIGNIFICADO DE BRAHMACHARYA – Swami Chidananda


Em seu sentido mais restrito, brahmacharya significa completo celibato, mas em seu sentido mais amplo, pode ser aplicado ao chefe de família como moderação e autodomínio, não abusar da função sexual e ser estritamente fiel à parceira.

O ser humano é uma mistura de três ingredientes: primeiro, um animal com todos seus desejos físicos; segundo, o nível humano e racional; e terceiro, a Divindade adormecida interior. Toda a vida espiritual é uma gradual eliminação do animal interior e a purificação da natureza humana para que ela comece a tomar uma direção ascendente.

Quando a natureza humana é direcionada para cima, a pessoa começa a despertar a Divindade adormecida com a ajuda das práticas espirituais. Os antigos diziam que a energia cósmica mantém os corpos celestes em seu curso. Esses corpos se mantêm em movimento por meio desta misteriosa energia.

E consideravam esta energia como algo divino, sem começo e sem fim. Ela é eterna e impregna todas as coisas. Não há lugar onde não esteja. E esta energia que mantém em movimento este e inúmeros outros universos é que está presente nos seres vivos como força sexual.

Por isso os hindus consideravam esta energia como sagrada, como algo digno de ser adorado, pois ela é a manifestação da Mãe Divina, a energia cósmica. Portanto, ela deve ser considerada com reverência.

Esta força cósmica se manifesta em nosso sistema como prana (energia vital, força vital). E o prana é a reserva preciosa do buscador. Qualquer atividade ou experiência dos sentidos consome muito prana. E a atividade que consome a maior quantidade de prana é o ato sexual.

Swami Sivananda disse muito enfaticamente: “O ato sexual destrói o sistema nervoso inteiro.” Porque ele cria grande excitação, grande agitação, e tal intensidade de sentimento deixa a pessoa exausta e vazia.

A meta mais elevada da vida humana – a evolução espiritual – requer o máximo disponível de energia prânica em todos os níveis: mental, intelectual e emocional. É através de prana que se controlam os sentidos. É através de prana que se acalma a atividade da mente. É através de prana que se pode juntar os raios dispersos da mente e torna-la concentrada. É através de prana que se pode concentrar a mente no objeto da meditação.

Prana é necessário para a reflexão espiritual e a discriminação. O pensamento deve ser agudo e o intelecto penetrante. E esse entendimento se desenvolve através de brahmacharya (celibato). O celibato assegura uma abundância de reserva de prana disponível para o buscador.

Se você conserva esta energia vital e a dirige ao processo espiritual de contemplação, sua meditação se torna bem sucedida, porque você concentrou sua força e é capaz de dirigir a força concentrada para suas práticas espirituais. Preservada, concentrada e dirigida para um canal específico, ela opera milagres.

Se você é um buscador espiritual, deve perceber que desperdiçar essa força é trabalhar contra si mesmo. Você tem de liberar sua consciência dos níveis mais inferiores e ir levando-a cada vez mais para cima, para níveis mais refinados da mente. Se você quer ir para o norte, significa que deve se afastar do sul.

A vida espiritual começa quando você reconhece que, enquanto se mantém correndo atrás da satisfação e prazer sensual, não dará um passo naquela direção. Tudo será apenas conhecimento acadêmico ou teórico.

Um dos yogas onde o celibato é absolutamente essencial é kundalini yoga. Desde o começo o celibato é absolutamente essencial e indispensável. De outro modo esse yoga é perigoso, uma vez que é baseado em pranayama, mudras, bandhas e âsanas.


No entanto, existem estágios em que a pessoa pode ser altamente espiritual e ao mesmo tempo levar uma vida sexual normal. Isso é verdadeiro especialmente no caminho da devoção, do amor a Deus. Este caminho não faz qualquer distinção entre um brahmachari celibatário e um chefe de família.

No caminho da devoção (bhakti), o celibato total não é exigido. Mas porque o ato sexual consome uma grande quantidade de energia prânica, naturalmente o autodomínio é também importante. Jamais o sexo irrestrito foi olhado com benevolência. Deve haver autocontrole e fidelidade nas relações sexuais com o parceiro (a). O marido deve olhar todas as outras mulheres como mães, e a esposa deve considerar que tem e terá apenas um parceiro em sua vida. Desse modo, a vida sexual não é contrária à vida espiritual.

Brahmacharya, portanto, não é nem evitar nem reprimir a sexualidade. É deixa-la naturalmente para que o potencial e o poder do processo sexual possam ser usados para algo tão maravilhoso que, comparado a isso, o sexo se torna insignificante. Brahmacharya é usar a potência sexual para algo dez vezes, cem vezes maior.

Se o sexo for suprimido ou reprimido, pode trazer mudanças indesejáveis na personalidade. Se brahmacharya é forçado e contra a vontade e inclinação de uma pessoa, podem resultar condições anormais em sua personalidade.

Parte do motivo da obsessão mundial com o sexo atualmente é a sua exploração por causa de interesses comerciais e da propaganda. Para vender, anunciam o fenômeno “garota-encontra-garoto” – vendem a ideia de que o corpo de uma garota deve ser desfrutado, e assim ela tem de cultivar um corpo que possa atrair o mais possível – como se o sexo fosse a única coisa importante da vida.

Os interesses comerciais distorcem completamente o propósito básico do sexo. Quanto mais cedo se reconhece isso, mais fácil será de se manter brahmacharya. Se a mente é dirigida a coisas superiores, automaticamente brahmacharya se torna fácil.

25.5.18

COMO REALIZAR SEUS DESEJOS – Sri N. Ananthanarayanan



O ser humano é movido pelo desejo. A vida é mantida pela esperança de conseguir realizar os desejos.

Desejos instintivos, desejos impulsivos, desejos racionais, desejos irracionais, desejos mundanos, desejos espirituais – eles caçam o ser humano por toda sua vida. Até mesmo uma pessoa idosa, cujo fim da vida se aproxima, têm inúmeros desejos em sua mente. Como Swami Sivananda diz, "A capacidade de realizar o desejo pode não existir mais, mas o desejo permanece".

"Seja sem desejos" diz o instrutor espiritual, mas ele mesmo frequentemente deseja mais dinheiro, mais seguidores, maior reputação.

É quase impossível permanecer sem desejos. É por isso que o buscador espiritual deve substituir os maus desejos por bons desejos, e mais tarde,  substituir a todos os desejos pelo desejo do Divino.

Como conseguir realizar os bons desejos? Qual é o segredo do sucesso para conseguir suas ambições, para realizar suas aspirações e esperanças?  O ser humano se preocupa com a resposta a esta pergunta.

Se você deseja algo, deve trabalhar para realiza-lo. Todos entendem isso. Mas o que confunde as pessoas frequentemente é como elas falham, após repetidos esforços, em conseguir o resultado desejado.

"Destino!" diz o instrutor espiritual, "Não está no seu destino conseguir isso". Então ele continua explicando a lei do karma para o homem desapontado. Mas isso quase não lhe serve de consolo!

Será que não existe um método para se conseguir realizar os desejos? Existe. É o método dos Mantras. Existem tantos Mantras quantos são os desejos. Repita o Mantra apropriado com fé e devoção e consiga o que você quer.

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Eu sugeri o mantra de Sarasvati a uma pessoa que era quase analfabeta. Hoje ela possui mais sabedoria que muitos eruditos. Coloquei o mantra de Lakshmi perante um homem desempregado. Ele arrumou emprego em seis meses. Recomendei o mantra de Katyayani a uma mulher solteira de quarenta anos cujo único problema era um defeito nas combinações planetárias em seu horóscopo. Essa mulher casou-se dois anos depois de começar a repetir o mantra.

Mas devo confessar que a fé destas três pessoas na potência do mantra era até maior que a minha. E agora o sucesso delas aumentou minha própria fé nos Mantras e seus poderes.

Se você não gosta do método dos Mantras, tome o método da oração, feita de todo coração, vinda do mais profundo de sua alma, e não apenas de seus lábios. Você deve sentir que Deus está ouvindo sua oração, sentir que Ele tem o poder e a compaixão para responder. Então sua oração será respondida.

Um outro método de conseguir os objetos desejados é abandonar o desejo por eles. É paradoxal, mas verdadeiro. A lei espiritual que governa a operação desse paradoxo é mais acurada que as leis matemáticas e físicas. Essa lei determina: "Deseje uma coisa e ela se afasta de você. Abandone algo e isso vem para você sem que o procure".

Imagem relacionada  Katyayani Devi, um aspecto de Durga 

Mas esse abandono deve ser total e espontâneo. Se você disser com sua boca, "Abandono meu desejo por riqueza", mas acalentar o desejo em seu coração, a riqueza não virá. Mas se realmente não se importar em nada com a riqueza, então o dinheiro virá de todos os lados. E o mesmo se dá com os outros objetos do desejo.

Quando você está farto dos objetos do desejo, então eles aparecerão à sua volta. Mas nesse momento, mesmo tendo-os à disposição, não verá mais utilidade neles. Não precisa mais deles. Esse é o estado do monge.



18.5.18

A MÃE TERRA É GENEROSA – Sadhguru



Toda vez que ouço alguém se referir ao solo como sujo, não posso concordar. Particularmente nos Estados Unidos ouço muitas pessoas chamando a terra de suja.

O que você chama de “meu corpo” é apenas um pedaço do planeta – um acúmulo do alimento que você comeu. Você é apenas um pequeno afloramento desta terra, nada mais, nada menos. Neste momento você é um afloramento  que circula por aí. Após algum tempo você será um montículo. Assim, se você suja a matéria-prima, o produto será sujo.

Na Índia, chamamos o solo de Mãe Terra. Ali vemos tudo como ingredientes da vida. É por isso que nos curvamos para o alimento, para a água, o ar, o céu, o sol, a lua, uma pedra, uma árvore - tudo! Não vemos nada como uma mercadoria, como algo que você usa e joga fora. Você não pode usar e descartar coisa alguma nesta vida. As coisas passam por você, ficam com você por um certo tempo e depois se tornam uma outra coisa.

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O corpo que você carrega tem sido parte de milhões de corpos no passado. Foi um inseto, um animal, uma cobra, um macaco, um ser humano. É o solo passando por diversas formas de vida. Portanto o solo não é uma mercadoria, mas sim algo mais antigo que você, mais sábio que você, muito mais inteligente e capaz que você. Você é apenas um pequeno personagem neste jogo total que está se desenrolando.
A educação moderna foca no uso e exploração de nosso ambiente físico – cada criatura e cada substância. Nada oferece para melhorar a maneira com que experimentamos a vida. Temos aprendido a usar tudo ao nosso redor, mas o bem-estar mental não ocorreu.
Atualmente estamos construindo uma estrutura médica de tal modo que parecemos esperar que todos estarão seriamente doentes algum dia. Houve um tempo em que havia um médico para toda uma cidade, e era o suficiente. Isso mostra como estamos vivendo.
Se queremos viver bem, devemos ser reverentes para com a terra sobre a qual caminhamos, para com o ar que respiramos, a água que bebemos, a comida que comemos, as pessoas com quem entramos em contato e tudo que usamos, incluindo o corpo e a mente. Isso nos levará a uma possibilidade diferente em relação à maneira que podemos viver.
A terra sobre a qual caminhamos tem um sentido de inteligência e memória. Mesmo que você viva numa selva de concreto, é importante manter-se em contato com a terra. Procure de alguma forma fazer isso. Se você ficar com pés e mãos nuas – particularmente a palma das mãos  e a sola dos pés – e entrar em contato com a terra diariamente, isso harmonizará o processo fisiológico em seu sistema.
Tente passar ao menos alguns minutos no jardim, descalço, tocando plantas e árvores com as mãos, porque a terra é a base da vida. Essa é uma maneira simples de conectar-se com a terra.
Particularmente nos dois dias que antecedem a lua nova, a lua cria um certo tipo de inércia, e seu corpo e suas energias estão muito mais conectados com a terra. Nesses dias caminhe descalço e sente-se no chão. Isso traz uma profunda conexão de energia e cria a experiência de ser uma parte da terra.
É bom estar consciente de cada respiração que você faz. Quando você respira, esteja consciente de que está respirando um certo aspecto do planeta. Quando come algo, esteja consciente de que está comendo uma parte do planeta. Quando bebe água, esteja consciente de que está bebendo uma parte deste planeta.
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7.5.18

A NAÇÃO DO NEPAL – Sadhguru



Grande parte da Índia foi como o Nepal no passado, toda a geografia do Nepal foi criada como um corpo vivente. Assim como existem chakras num corpo humano vivo, do mesmo modo foi feito ali, muitos reis patrocinaram essas grandes aventuras de transformar todo o reino do Nepal num corpo espiritual, para que nenhum ser vivo escapasse desse processo espiritual.

O processo espiritual ali não é apenas para aqueles que se sentam,  fecham seus olhos e os voltam para cima; ninguém deve escapar a esse processo, essa é a intenção.
Pode-se dizer que este é o mais alto nível da compaixão, quando você não quer que nem mesmo uma minhoca permaneça intocada por essa energia, e isso faz de toda a geografia um processo espiritual.

A maior parte dessa obra fenomenal que foi feita no norte da Índia foi destruída porque essa região viu invasões após invasões, e a primeira coisa que se buscou foi isto, uma vez que quando se quebra esse processo a mente do povo também se quebra, seu espírito se quebra.

No sul da Índia também ocorreu algo disso, não por causa de um invasor externo, mas por causa da invasão da ignorância, que é mais perigosa que qualquer invasor, e o processo se dissipou.

No sul ainda se pode ver algo da estrutura desse processo espiritual, mas ele não é muito ativo. Algumas coisas ainda estão vivas, mas a maior parte se foi.

O Nepal é um lugar onde esse processo é muito mais vivo do que na Índia, simplesmente porque a cultura inteira o apóia. Ainda hoje 98% da população se dedica a esse processo. Ainda hoje, para 98% da população do Nepal, ir ao templo e buscar mukti (liberação do ciclo de nascimento e morte) ainda são as coisas mais importantes em sua mente, o que se perdeu na Índia.

Na Índia hoje mukti não é a coisa mais importante; ir para a América é a coisa mais importante. Desse modo, quando a psicologia de uma civilização está completamente voltada para a liberação última, estas coisas podem acontecer, a própria geografia do país pode ser convertida num corpo espiritual vivo.

Por isso, Kathmandu, que é a morada de Pashupatinath, onde fica o templo de Pashupatinath, é considerada em certas tradições o templo do planeta. O templo de Pashupatinath tem milhares de anos de antiguidade. Seu linga data de um período de pelo menos 8.000 anos atrás.

Portanto, Pashupatinath é considerada como a testa de Shiva e seu corpo flui, uma parte para o sul, outra para o oeste. Uma cabeça, dois corpos. Esses dois corpos representam dois sistemas fundamentais do Tantra. O corpo do sul é a mão direita, o corpo do oeste é a mão esquerda.

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Templo de Pashupatinath, Nepal

Quando digo Tantra, não me refiro à promiscuidade. Hoje em dia, a palavra Tantra evoca todo tipo de pensamento erótico nas mentes das pessoas, porque a maior parte da informação que se tem sobre o Tantra vem da América. Até mesmo na Índia, se você entrar numa livraria, verá que a maior parte dos livros sobre Tantra são escritos por autores americanos.

Tantra, na verdade, significa uma técnica ou tecnologia de ser capaz de desfazer a vida e fazê-la de novo. E qual o propósito disso? O corpo humano é a máquina mais sofisticada que existe, representa o maior desafio. Se você puder desmontar seu cérebro e colocá-lo a funcionar novamente, será como o próprio Criador em muitos aspectos.

Assim, foram criados dois corpos com uma cabeça. A testa está aqui em  Pashupatinath.  Sahasrara, o topo da cabeça, está em Kalpanath, o que está acima disso está em Muktinath, o que está além é Kailash.



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Kailash, montanha sagrada considerada a morada de Shiva.