9.3.17

TIPOS DE SUICÍDIO E SUAS CONSEQUÊNCIAS – Ramatis

Tomemos para exemplo aqueles que ingerem arsênico, ácido sulfúrico, potassa, formicida, que são violentos corrosivos que atacam as contrapartes etéricas do corpo carnal, pois já vos explicamos que todas as coisas, substâncias e seres possuem o que convencionamos chamar de "duplo-etérico".

Embora vos pareça absurdidade, os venenos também atacam e depredam terrivelmente a tessitura do perispírito do suicida, pois produzem nele lesões astrais que se prolongam pelas encarnações seguintes, causando incessante aflição e enfermidade no futuro corpo de carne.

O eterismo remanescente e destrutivo do corrosivo continua a circular pela fisiologia do perispírito do suicida ainda muito tempo depois de haver desencarnado.

Além do sofrimento dantesco que o suicida tem de suportar após a sua morte tresloucada - vivendo incessantemente todo o fenômeno de sua agonia final, que só se extingue quando também atinge o limite exato que lhe restava para viver fisicamente - ele não pode se furtar a efeitos daninhos e enfermidades que ainda se prolongarão vigorosamente pela encarnação seguinte.

A sensação permanente de "acidez etérica" circulante no perispírito permanece longo tempo atuando no espírito desencarnado, mesmo depois que já tenha ultrapassado o prazo em que deveria desencarnar naturalmente, na Terra, e que interrompeu pelo suicídio. O fenômeno é facilmente explicável, pois se trata da própria contraparte etérica, ou seja, do remanescente fluídico da substância material utilizada pelo suicida, que se dissemina e adere fortemente à delicada fisiologia astral do perispírito, nas regiões onde fisicamente também produziu maior dano.

Então a Lei Cármica providencia para que, através de outra encarnação, o tóxico etérico seja condensado pelo corpo carnal e depois drenado para a terra, quando o cadáver se desmantelar no sepulcro. Daí o fato de em posterior existência serem muitos ex-suicidas portadores de organismos enfermiços e lesados principalmente no sistema nervoso e circulatório, ou nos principais órgãos atingidos, como sejam a faringe, a laringe, o esôfago ou o estômago.

Inúmeros epilépticos, parkinsonianos, coréicos ou neuróticos, que não gozam harmonia no seu sistema nervoso são ex-suicidas, trânsfugas das vidas anteriores, vitimados pelos tóxicos e corrosivos que ingeriram um momento de loucura. Por isso ainda sofrem presentemente o efeito pernicioso do energismo etérico do veneno, que ainda se conserva na contextura do perispírito e perturba o seu ajuste harmonioso ao novo organismo carnal.

Se os suicidas em potencial, do vosso mundo, pudessem entrever, num segundo, o panorama e a situação pavorosa que os aguardam no Além, após a fuga covarde da vida humana, extinguir-se-ia neles definitivamente qualquer laivo de rebeldia ao sentido educativo da vida.

Aqueles que rompem o cérebro com a bala mortífera ou com qualquer objeto perfurante também deformam o seu duplo-etéreo astral, ou seja, o cérebro do perispírito, que é exata contraparte do organismo de carne. Quando, na encarnação seguinte, o perispírito tiver de aglutinar o novo conjunto de moléculas e as fibras neurocerebrais, para a formação de outro corpo de carne, nas regiões lesadas do perispírito essa aglutinação se processa na forma de calosidade, estenose ou deformações. As superposições dos átomos físicos se dificultam e perturbam a harmonia do pavilhão auricular e da região da glote, que são intimamente ligados e se ajustam para o equilíbrio sensato entre as faculdades de ouvir e falar.

São essas contrapartes etéricas que mais sofrem diante dos impactos arrasadores do suicídio que destrói a região cerebral, pois ficam perturbadas na sua aglutinação e se tornam incapazes de organizar a perfeita conexão molecular entre os órgãos auditivos e o aparelhamento de fonação necessários à nova existência carnal! E assim a criança vem à luz da vida física congenitamente surda e muda, em face do desarranjo existente no cérebro do seu perispírito, que não pôde harmonizar as células responsáveis por tais faculdades humanas.

Aqueles que se enforcam ou se afogam num momento de desespero também fotografam na memória etérica do seu perispírito, durante as vascas de sua agonia, todos os tremendos esgares, repuxos, aflições e sufocamentos, criando-se então os estigmas perispirituais deformativos, que são alimentados pela mente revoltada.

Em conseqüência, posteriormente esses infelizes podem renascer corcundas, gibosos, atrofiados e mesmo terrivelmente asfixiados pela asma brônquica, que os tortura, durante toda a existência.

Os que se suicidam através de quedas e se estatelam arrebentados sobre o solo, ou que se atiram sob as rodas dos veículos que lhes trituram as carnes, comumente tornam a se encarnar vitimados por cruciantes enfermidades, que se situam na patologia dos artritismos e reumatismos deformantes, sofrendo as dores dos ossos que estalam, nervos que se rompem e músculos que se rasgam. Alguns se arrastam penosamente como aleijados congênitos, com os corpos quebrados e os músculos torcidos.

Outros, que atearam fogo ao seu corpo e preferiram abandonar o mundo sob a destruição pelas chamas, quase sempre retornam ao meio de onde fugiram, reproduzindo em si mesmos a terrível forma patológica do pênfigo foliáceo, ou seja, a moléstia popularmente conhecida como "fogo selvagem".

Esses sofrem intermitentemente, na carne nova, as angústias e a causticidade da loucura suicida da existência física anterior quando, rebelando-se contra a Lei da Vida, se consumiram nas chamas ardentes. Atravessam a encarnação seguinte com a sensação atroz do combustível destruidor, que ainda parece queimar-lhes as carnes destruídas pela revolta contra a vida dada por Deus.

O punhal fatídico ou o tiro mortal que dilacera o coração do trânsfuga da vida humana deixa-lhe no perispírito a marca fatal e lesiva para a outra existência, criando-lhe o pesado fardo da incurável lesão cardíaca a torturá-lo incessantemente com a ameaça da morte.

O chacra cardíaco, como órgão intermediário do duplo-etérico, responsável pela diástole e sístole do coração físico, não se desenvolve a contento na zona cardíaca do perispírito violentado pelo suicídio da última existência. Então se vê obrigado a reduzir a sua função dinâmica costumeira, mantendo-se em débil rotação energética durante o comando do novo coração carnal do ex-suicida, atendendo-lhe apenas ao mínimo de vida exigível para as suas relações com o mundo exterior da matéria.


Resultado de imagem para suicídio



7.3.17

OS TRÊS PASSOS PARA A AUTO-REALIZAÇÃO – Robert Adams


Eu recebo muitos telefonemas, como vocês sabem, de algumas pessoas do mundo todo. Sempre gosto de partilhar algumas histórias com vocês. Recebi recentemente uma chamada de Denver e o cavalheiro me perguntou, “Robert, pode me dizer qual é o caminho mais fácil para se tornar auto-realizado? Qual é o caminho direto, realmente direto, um no qual eu não precise fazer nenhum esforço? Quero me tornar auto-realizado. Estou praticando atma-vichara já há dezesseis anos. Antes disso pratiquei a meditação vipassana. Fiz yoga e tudo o mais, mas nada acontece. Existe um caminho onde eu possa despertar com uma prática simples?”

Eu ri e pensei, “É interessante notar que a maioria dos ocidentais querem ser iluminados num fim-de-semana.” Vocês que estão aqui, quantos anos levaram para estar onde estão agora! Mesmo praticando por tantos anos, ainda são o que são. Todo o esforço é como se fosse uma gota num balde.

Há um modo para despertar, que é parar de pensar. E há três passos para controlar a mente:
O primeiro, é parar de falar. Pare de falar.
O segundo, é não ter opinião a favor ou contra.
O terceiro, é a fórmula vedântica neti-neti (isto não, isto não).

Vamos começar com o “parar de falar”. Toda sua conversa, desde que nasceu, fez alguma diferença neste mundo? Esse mundo se tornou um lugar melhor para se viver com sua conversa? Você realmente conseguiu algo falando? Às vezes parece que você consegue algo, mas na verdade não.

Oração a Nossa Senhora do Silêncio

Falando você consegue muito pouco. Os asiáticos, os hindus, falam muito pouco. A maioria deles percebe que falar é um desperdício de tempo. Só quando se tornam ocidentalizados que começam a falar como nós. Eles se tornam parte de uma gigantesca escola do falar. Vão falando sem fim, sem nunca parar.

Alguns de vocês me falam de seus problemas. Tudo bem. Estou aqui para ouvir. Mas se perceberem, eu nunca respondo. Apenas faço um grunhido. Apenas digo, "Oh", que significa que estou ouvindo, ouço o que vocês dizem, mas isso nada significa. Então eu faço um grunhido.

O falar nada faz por você. É quando você para de falar que as coisas começam a acontecer. Toda vez que você fala, usa muita energia. Tem de pensar no que vai dizer. Cada palavra que diz tem um pensamento que a precede. Em outras palavras, você tem de pensar nas palavras que está dizendo.

Sempre que você fala, está pondo sua mente em desordem enchendo-a de coisas, até ela se tornar agitada. Isso nunca lhe faz bem. Pense em toda conversa que fez desde que nasceu. Pense em toda a conversa dos políticos, advogados, doutores, e o mundo está pior por causa disso.

Se a pessoa nunca disser uma palavra, o poder que conhece o caminho se apodera da situação e a alegria reina no mundo. Por exemplo, veja uma laranjeira. Ela fala sobre produzir laranjas? Ou discute isso com a laranjeira do lado? A laranjeira não diz uma palavra. Mesmo assim lindas laranjas se desenvolvem na laranjeira por si mesmas. E assim o trigo cresce nos campos, as bananas crescem nas bananeiras. O sol brilha corretamente e mantém tudo de modo grandioso. Não há nenhuma conversa. Nada acontece, mas tudo acontece. E assim é conosco.

A importância do silêncio no combate ao estresse | Personare

Quando aprendemos a ficar quietos, e ficar quietos mentalmente também, as coisas acontecem por si mesmas. Tudo é predeterminado nas coisas que ocorrem. Por isso tudo vai se desenvolver do modo que deve. Nada precisa de sua ajuda. Cada passo em sua vida já foi desenhado. Por isso não precisa discutir sobre nada. Apenas se mantenha tranqüilo.

Este é o significado de “Fique tranquilo e saiba que Eu Sou Deus”. Ramana Maharshi nunca costumava falar. Os sábios e jnanis dificilmente falam. Eu costumava me sentar no salão de Ramanasramam, num canto, e observar Sri Rámana lidar com as pessoas. Elas faziam fila para conversar com ele, para vê-lo. Ele as fitava e ouvia seus problemas. Ele nada dizia. Às vezes pronunciava algumas palavras que eram necessárias.

Pensamos ter problemas, algo errado em nossas vidas. Mas na realidade todos os seus problemas são apenas nuvens. Eles escondem o Ser. Enquanto você se identificar com os problemas e com as nuvens, você se torna cada vez mais doente, cobrindo mais e mais seu Ser, e assim esquece de pensar nesse Ser.

Sua mente está continuamente em seus problemas e seus afazeres. Pare de falar. Na realidade nada há para se dizer. Tudo acontece no silêncio. Tudo está acontecendo no mundo invisível, tudo. Pense em todas as belas palavras que foram escritas em livros para nós: Sócrates, Platão, Aristóteles, Emerson, Thoreau, Walt Whitman, e muitos outros. Como são belas suas palavras, mas fizeram diferença no mundo?

Olha para o mundo. O que eles fizeram por esse mundo? Seria melhor se nunca tivéssemos ouvido falar nessas pessoas em absoluto. Pois as pessoas se refugiam nas palavras deles, e o mundo se torna cada vez pior. Por isso chegamos à conclusão de que falar não é a resposta. Ganhar uma discussão com argumentos não é a resposta. Pare de falar.

Então vamos para o segundo passo: controle mental. Não tenha sentimentos a favor nem contra nada. Olhe para tudo da mesma maneira. Dessa maneira você pode se reconciliar com todo o Universo, com o reino mineral, o reino vegetal, o reino animal, o reino humano.

Embora seja difícil para a maioria das pessoas, se você quer despertar não veja diferenças nas pessoas ou coisas. É como ir num teatro. Ali uma pessoa é a boa e a outra é a ruim. Você toma o lado do cara bom. Então a peça termina, e você vê que nunca houve um cara bom ou um cara ruim. Foi apenas uma peça teatral, os atores fazendo seu papel. Portanto a diferença estava em sua mente. É sua mente que cria as diferenças.

Agora chegamos ao terceiro passo, a formula vedântica neti-neti, isto não, isto não. Se você quer despertar, negue o mundo todo. O mundo todo tem de ser negado por você. Em outras palavras tudo que você vê tem de ser negado. Desde o momento em que sai da cama, todos os pensamentos que lhe vêm, tudo que seus olhos vêem, que seus ouvidos ouvem, que sua boca saboreia, que seu nariz cheira, tudo tem de ser negado.

Todas essas coisas nada têm a ver comigo, e eu nada tenho a ver com essas coisas. Sou pura consciência. Não sou o corpo nem a mente. Sou pura consciência. Continue negando seus pensamentos. Negue sua vida. Negue tudo que vê ao redor de si.

Dia chegará quando você se tornará absolutamente livre. Pois não haverá mais ninguém apegado a pessoas, lugares ou coisas. Você não mais reagirá às vicissitudes da vida. Você se libertou totalmente e completamente. É isso que você deve fazer.

Pare de falar, não tenha opinião a favor ou contra, e negue tudo que vê.


Imagem relacionada


UM OCIDENTAL EM RAMANASRAMAM – Robert Adams


Lembro-me de quando estava com Ramana Maharshi, eu costumava ficar à porta do velho salão, observando as pessoas que iam ouvi-lo, vê-lo. Eu estava interessado nas pessoas que iam vê-lo. E porque eu era um ocidental, os ocidentais paravam e conversavam comigo.

Eram muito engraçados. Eles me perguntavam, “Rámana vai falar hoje? Sobre qual assunto ele vai falar?” Certo ocidental me perguntou, “Rámana fala como J. Krishnamurti?” Eu apenas sorria e dizia, “Vá e ouça por si mesmo”. Então eles entravam no salão e se sentavam, e Ramana ficava recostado em seu sofá lendo um jornal, nada dizendo em absoluto. Ele olhava para algumas pessoas, e então voltava a ler seu jornal.

E aqueles ocidentais se sentiam insultados. Eles se levantavam e partiam. Alguns falavam, "Este é apenas um velho tonto. Nada tem a dizer." E ele nada tinha a dizer. Estou dizendo isso porque muitos de vocês pensam que têm de encontrar um sábio que lhes dê profundas palestras. Ou lhes dê certas técnicas.

Sempre se lembrem de que um sábio não é um yogue. Ele não ensina práticas de meditação ou hatha yoga, raja yoga, ashtanga yoga. O sábio nada faz em absoluto. O sábio é uma concha vazia. Uma concha vazia que caminha, fala, vai ao banheiro, come, e a maioria das pessoas não gosta de ver isso.

Elas dizem, “Como esta pessoa pode ser um sábio? Ele age como nós.” Como você quer que o sábio aja? O que você espera de um sábio? Sua expectativa é errônea. Não espere nada e consiga tudo. Apenas seja você mesmo. Não finja nada, não se imagine espiritual, seja você mesmo.



Resultado de imagem para ramanasramam

O PRAZER, A BELEZA, A RELIGIÃO E A MORTE - "O Profeta" de Khalil Gibran

Então um ermitão que visitava a cidade uma vez por ano, acercou-se e
disse: "Fala-nos do Prazer."

E ele respondeu, dizendo:
"O prazer é uma canção de liberdade.
Mas não é a liberdade.
É o desabrochar de vossos desejos,
Mas não a sua fruta.
É um abismo olhando para um cume.
Mas não é nem o abismo nem o cume.
É o engaiolado ganhando o espaço,
Mas não é o espaço que o envolve.
Sim, na verdade, o prazer é uma canção de liberdade.
E de bom grado eu vos ouviria cantá-la de todo vosso coração; porém,
não gostaria que perdêsseis vossos corações no canto.
Alguns de vossos jovens procuram o prazer como se fosse tudo na vida,
e são condenados e repreendidos.
Eu preferiria nem condená-los, nem repreendê-los, mas deixá-los procurar.
Pois encontrarão o prazer, mas não só ele:
Sete são suas irmãs, e a última dentre elas é mais bela que o prazer.
Não ouvistes falar do homem que cavava a terra à procura de raízes e
descobriu um tesouro?
E alguns de vossos anciões recordam, seus prazeres com remorso, como
se fossem erros cometidos num estado de embriaguez.
Mas o remorso é o escurecimento da alma e não o seu castigo.
Deveriam, antes, recordar seus prazeres com gratidão, como recordariam
uma colheita de verão.
Todavia, se acharem conforto no remorso, deixemo-los se confortarem.
E há entre vós aqueles que não são jovens para procurar, nem velhos
para recordar;
E no seu temor de procurar e recordar, desprezam todos os prazeres por
medo de afugentar ou ofender o espírito.
Porém, na sua renúncia está seu prazer.
E, assim, eles também descobrem um tesouro embora cavem com as
mãos trêmulas à procura de raízes.
Mas dizei-me quem é que pode ofender o espírito?
Ofende o rouxinol a quietude da noite, ou o pirilampo as estrelas?
E poderá vossa flama ou vossa fumaça sobrecarregar o vento?
Credes que o espírito é um poço tranqüilo que podeis perturbar com um bastão?
Muitas vezes, ao negardes a vós mesmos um prazer, nada mais fazeis do
que armazená-lo nos recessos de vosso Eu.
E quem sabe se o que parece omitido hoje não espera pelo amanhã?
Mesmo vosso corpo conhece sua herança e seus direitos, e vós não o
podereis iludir.
E vosso corpo é a harpa de vossa alma;
A vós pertence tirar dele música melodiosa ou ruídos dissonantes. !
E agora vós perguntais em vosso coração:
"Como distinguiremos o que é bom no prazer do que é mau?"
Ide, pois, aos vossos campos e pomares e, lá, aprendereis que o prazer
da abelha é de sugar o mel da flor,
Mas que o prazer da flor é de entregar o mel à abelha.
Pois, para a abelha, uma flor é uma fonte de vida.
E para a flor, uma abelha é uma mensageira de amor.
E para ambas, a abelha e a flor, dar e receber o prazer é uma
necessidade e um êxtase.
Povo de Orphalese, nos vossos prazeres, imitai as flores e as abelhas."

Um poeta disse: "Fala-nos da Beleza."

E ele respondeu:
"Onde procurareis a beleza e como a podereis encontrar a menos que ela
mesma seja vosso caminho e vosso guia?
E como podereis falar a menos que ela mesma teça vossas palavras?
Os aflitos e os feridos dizem: "A beleza é amável e suave.
Como uma jovem mãe, meio encabulada na sua glória, ela caminha entre nós."
Os apaixonados dizem: "Não, a beleza é uma força poderosa e temível.
Como a tempestade, ela sacode a terra abaixo e o céu acima."
Os cansados e os gastos dizem: "A beleza é um murmúrio suave. Ela fala
em nosso espírito.
Sua voz cede aos nossos silêncios como uma luz tênue que treme por
medo da sombra."
Mas os turbulentos dizem: "Nós a ouvimos gritar entre as montanhas,
E com seus gritos chegavam o tropel de cavalos, o bater de asas e o
rugir de leões."
A noite, os guardas da cidade dizem: "A beleza despontará do Oriente,
com a aurora."
E, ao meio-dia, os trabalhadores e os transeuntes dizem: "Nós a temos
visto inclinada sobre a terra, das janelas do poente."
No inverno, os prisioneiros da neve dizem: "Ela virá com a primavera,
pulando sobre as colinas."
E no calor do verão, os ceifeiros dizem: "Nós a vimos dançar com as
folhas do outono, e havia neve no seu cabelo."
Todas essas coisas, vós dissestes da beleza.
Porém, na verdade, não falastes dela, mas de desejos insatisfeitos.
E a beleza não é um desejo, mas um êxtase.
Não é uma boca sequiosa, nem uma mão vazia que se estende,
Mas, antes, um coração inflamado e uma alma encantada.
Ela não é a imagem que desejais ver, nem a canção que desejais ouvir,
Mas, antes, a imagem que contemplais com olhos velados e a canção que
ouvis com ouvidos tapados.
Não é a seiva por baixo da cortiça enrugada, nem uma asa atada a uma garra.
Mas, sim, um pomar sempre em flor, e uma multidão de anjos em vôo.
Povo de Orphalese, a beleza é a vida quando a vida desvela seu rosto sagrado.
Mas vós sois a vida, e vós sois o véu.
A beleza é a eternidade olhando para si própria num espelho.
Mas vós sois a eternidade, e vós sois o espelho."

Então um velho sacerdote disse: "Fala-nos da Religião." E ele disse:

"Tenho eu falado de outra coisa hoje?
Não é a religião todas as nossas ações e reflexões?
E tudo o que não é ação nem reflexão, mas aquele espanto e aquela
surpresa sempre brotando na alma, mesmo quando as mãos talham a pedra ou
manejam o tear?
Quem pode separar sua fé de suas ações, ou sua crença de seus afazeres?
Quem pode espalhar suas horas perante si, dizendo: "Esta é para Deus, e
essa é para mim; esta é para minha alma, e essa é para meu corpo?"
Todas vossas horas são asas que adejam através do espaço, passando de
um Eu ao outro.
Aquele que veste sua moralidade como veste seus melhores trajes,
melhor seria que andasse desnudo.
O vento e o sol não cavarão buracos na sua pele.
E aquele que traça sua conduta pela ética, encarcera seu pássaro cantor
numa gaiola.
A mais livre canção não chega através de barras e arames.
E aquele para quem a adoração é uma janela a abrir, mas também a
fechar, não visitou ainda o santuário de sua alma, cujas janelas permanecem
abertas de aurora a aurora.
Vossa vida cotidiana é vosso templo e vossa religião.
Todas as vezes que penetrais nela, levai convosco todo o vosso ser.
Levai o arado, a forja, o macete e a lira,
Todas as coisas que modelastes por necessidade ou por prazer:
Pois nos vossos sonhos, não podeis elevar-vos acima de vossas
realizações nem cair abaixo de vossos fracassos.
E levai convosco todos os homens:
Pois na vossa adoração, não podeis voar acima de suas esperanças nem
aviltar-vos abaixo de seu desespero.
E se quereis conhecer a Deus, não procureis transformar-vos em
decifradores de enigmas.
Olhai, antes, à vossa volta e encontrá-Lo-eis a brincar com vossos filhos.
E erguei os olhos para o espaço e vê-Lo-eis caminhando nas nuvens,
estendendo Seus braços no relâmpago e descendo na chuva.
E o vereis sorrindo nas flores e agitando as mãos nas árvores."


Então Almitra falou, dizendo: "Gostaríamos de interrogar-te a respeito da Morte."

E ele disse:
"Quereis conhecer o segredo da morte.
Mas como poderíeis descobri-lo se não o procurardes no coração da vida?
A coruja, cujos olhos, feitos para a noite, são velados ao dia, não pode
descortinar o mistério da luz.
Se quereis realmente contemplar o espírito da morte, abri amplamente
as portas de vosso coração ao corpo da vida.
Pois a vida e a morte são uma e a mesma coisa, como o rio e o mar são
uma e a mesma coisa,
Na profundidade de vossas esperanças e aspirações dorme vosso
silencioso conhecimento do além;
E como sementes sonhando sob a neve.
Assim vosso coração sonha com a primavera.
Confiai nos sonhos, pois neles se ocultam as portas da eternidade.
Vosso temor da morte é semelhante ao temor do camponês quando se
encontra diante do rei, e este estende-lhe sua mão em sinal de consideração.
O camponês não se regozija, apesar do seu temor, de receber as
insígnias do rei?
Contudo, não está ele mais atento ao seu temor que à distinção recebida?
Pois, que é morrer senão expor-se, desnudo, aos ventos e dissolver-se no sol?
E que é cessar de respirar senão libertar o hálito de suas marés agitadas,
a fim de que se levante e se expanda e procure a Deus livremente?
É somente quando beberdes do rio do silêncio que podereis realmente cantar.
É somente quando atingirdes o cume da montanha que começareis a subir.
É quando a terra reivindicar vossos membros que podereis
verdadeiramente dançar."


Resultado de imagem para pinturas de khalil gibran

O TEMPO, O BEM E O MAL, E A PRECE - "O Profeta" de Khalil Gibran

Então um astrônomo: disse; “Mestre, que dizeis do Tempo?"

E ele respondeu:
"Gostaríeis de medir o tempo, o ilimitado e o incomensurável.
Gostaríeis de ajustar vosso comportamento e mesmo reger o curso de
vossa alma de acordo com as horas e as estações.
Do tempo gostaríeis de fazer um rio, na margem do qual sentaríeis para
observar correr as águas.
Contudo, o que em vós escapa ao tempo sabe que a vida também escapa ao tempo.
E sabe que ontem é, apenas, a recordação de hoje e amanhã, o sonho de hoje.
E aquilo que canta e medita em vós continua a morar dentro daquele
primeiro momento em que as estrelas foram semeadas no espaço.
Quem, dentre vós, não sente que seu poder de amar é ilimitado?
E, porém, quem não sente esse amor, embora ilimitado, circunscrito
dentro do seu próprio ser, e não se movendo de um pensamento amoroso a
outro, e de uma ação amorosa a outra?
E não é o tempo, exatamente como o amor, indivisível e insondável?
Contudo, se em vossos pensamentos deveis dividir o tempo em estações,
que cada estação envolva todas as outras estações,
E que vosso presente abrace o passado com nostalgia e o futuro com
ânsia e carinho."

UM DOS anciãos da cidade disse: "Fala-nos do Bem e do Mal."

E ele respondeu:
"Do bem que está em vós, poderei falar, mas não do mal.
Pois que é o mal senão o próprio bem torturado por sua fome e sede?
Em verdade, quando o bem sente fome, procura alimentos até nos antros
escuros, e quando sente sede, desaltera-se até em águas estagnadas.
Vós sois bons quando vos identificais com vós próprios.
Porém, quando não vos identificais com vós próprios, não sois maus.
Pois a casa que se divide não se torna antro de ladrões; é, apenas, uma
casa dividida.
E um navio sem leme pode vaguear sem rumo entre recifes perigosos, e
não se afundar.
Vós sois bons quando vos esforçais por dar de vós próprios.
Porém, não sois maus quando vos limitais a procurar o lucro.
Pois, quando lutais pelo lucro, sois simplesmente raízes que se agarram à
terra e sugam seu seio.
Certamente a fruta não pode dizer à raiz: "Sê como eu, madura e plena,
e sempre generosa de tua abundância."
Pois, para a fruta, dar é uma necessidade como, para a raiz, receber é
uma necessidade.
Vós sois bons quando falais plenamente acordados.
Porém, não sois maus quando adormeceis enquanto vossa língua
tartamudeia sem propósito.
E mesmo um discurso gaguejante pode fortalecer uma língua débil.
Vós sois bons quando andais rumo a vosso objetivo, firmemente e com
passos intrépidos.
Porém, não sois maus quando ides coxeando.
Mesmo aqueles que coxeiam não andam para trás.
Mas vós que sois fortes e velozes, guardai-vos de coxear por
complacência na presença dos coxos.
Vós sois bons de inumeráveis maneiras, e não sois maus quando não sois bons.
Estais apenas ociosos e indolentes.
Pena que as gazelas não possam ensinar a velocidade às tartarugas.
Na vossa ânsia pelo vosso Eu-gigante está vossa bondade: e essa ânsia
está em todos vós.
Mas em alguns, essa ânsia é uma torrente que se precipita
impetuosamente para o mar, carregando os segredos das colinas e as canções
da floresta.
Em outros, é uma corrente preguiçosa que se perde em meandros, e
serpenteia, arrastando-se, antes de atingir a costa.
Mas que aquele que muito deseja se guarde de dizer àquele que pouco
deseja: "Por que és lento e atrasado?"
Pois o verdadeiramente bom não pergunta ao desnudo: "Onde está tua
roupa?" nem ao desabrigado:
"Que aconteceu à tua casa?"

Então uma sacerdotisa disse: "Fala-nos da Prece."

E ele respondeu, dizendo:
"Vós rezais nas vossas aflições e necessidades; pudésseis também rezar
na plenitude de vossa alegria e nos dias de abundância.
Pois que é a oração senão a expansão de vosso ser para o éter vivente?
E se constitui conforto exalar vossas trevas no espaço, maior conforto
sentireis quando exalardes a aurora de vosso coração.
E se não podeis reter vossas lágrimas quando vossa alma vos chama
para orar, ela vos deveria esporear repetidamente, embora chorando, até que
aprendêsseis a orar com alegria.
Quando rezais, vos elevais até encontrardes, nas alturas, aqueles que
estão orando à mesma hora, e que, fora da oração, talvez nunca encontrásseis.
Portanto, que vossa visita a esse templo invisível não tenha nenhuma
outra finalidade senão o êxtase e a doce comunhão.
Pois se penetrardes no templo unicamente para pedir, nada recebereis.
E se nele entrardes para vos curvar, ninguém vos erguerá.
E mesmo se aí fordes para mendigar favores para outros, não sereis atendidos.
É bastante que entreis no templo invisível.
Não vos posso ensinar a rezar com palavras.
Deus não escuta vossas palavras, exceto quando Ele próprio as pronuncia
através de vossos lábios.
E não vos posso ensinar a oração dos mares e das florestas e das montanhas.
Mas vós que nascestes das montanhas, e das florestas, e dos mares,
podeis encontrar suas preces no vosso coração.
E se somente escutardes na quietude da noite, ouvi-los-eis dizendo em silêncio:
"Deus nosso, que és nosso Eu alado, é Tua vontade em nós que quer.
É Teu desejo em nós que deseja.
É Teu impulso em nós que pode transformar nossas noites, que Te
pertencem, em dias que, também Te pertencem.
Nada Te podemos pedir, pois Tu conheces nossas necessidades antes
mesmo que nasçam em nós.
Tu és nossa necessidade; e dando-nos mais de Ti, Tu nos dás tudo."


Resultado de imagem para pinturas de khalil gibran

O AUTOCONHECIMENTO, O ENSINO E A CONVERSAÇÃO - "O Profeta" de Khalil Gibran

Um homem disse: "Fala-nos do Conhecimento de Si Próprio."

E ele respondeu, dizendo:
"Vossos corações conhecem em silêncio os segredos dos dias e das noites.
Mas vossos ouvidos anseiam ouvir o que vossos corações sabem.
Desejais conhecer em palavras aquilo que sempre conhecestes em pensamento.
Quereis tocar com os dedos o corpo nu de vossos sonhos.
E é bom que vós o desejeis.
A fonte secreta de vossa alma precisa brotar e correr, murmurando, para o mar;
E o tesouro de vossas profundezas ilimitadas precisa revelar-se a vossos olhos.
Mas não useis balanças para pesar vossos tesouros desconhecidos;
E não procureis explorar as profundidades de vosso conhecimento com
uma vara ou uma sonda.
Porque o Eu é um mar sem limites e sem medidas.
Não digais: "Encontrei a verdade." Dizei de preferência: "Encontrei uma verdade."
Não digais: "Encontrei a senda da alma." Dizei de preferência: "Encontrei
a alma andando em meu caminho."
Porque a alma anda por todos os caminhos.
A alma não caminha numa linha reta nem cresce como um caniço.
A alma desabrocha, tal um lótus de inúmeras pétalas."

Então um professor disse: "Fala-nos do Ensino."

E ele disse:
"Nenhum homem poderá revelar-vos nada senão o que já está meio
adormecido na aurora do vosso entendimento.
O mestre que caminha à sombra do templo, rodeado de discípulos, não
dá de sua sabedoria, mas sim de sua fé e de sua ternura.
Se ele for verdadeiramente sábio, não vos convidará a entrar na mansão
de seu saber, mas antes vos conduzirá ao limiar de vossa própria mente.
O astrônomo poderá falar-vos de sua compreensão do espaço, mas não
vos poderá dar sua compreensão.
O músico poderá cantar para vós o ritmo que existe em todo o universo,
mas não vos poderá dar o ouvido que capta a melodia, nem a voz que a repete.
E o versado na ciência dos números poderá falar-vos do mundo dos
pesos e medidas, mas não vos poderá levar até lá.
Porque a visão de um homem não empresta suas asas a outro homem.
E assim como qualquer de vós se mantém só no conhecimento de Deus,
assim cada um de vós deve ter sua própria compreensão de Deus e sua própria
interpretação das coisas da terra."
Pois o que vós amais nele pode tornar-se mais claro na sua ausência,
como para o alpinista a montanha aparece mais clara, vista da planície.
E que não haja outra finalidade na amizade a não ser o amadurecimento do espírito.
Pois o amor que procura outra coisa a não ser a revelação de seu próprio
mistério não é amor, mas uma rede armada, e somente o inaproveitável é nela
apanhado.
E que o melhor de vós próprios seja para vosso amigo.
Se ele deve conhecer o fluxo de vossa maré, que conheça também o seu refluxo.
Pois, que achais seja vosso amigo para que o procureis somente a fim de
matar o tempo?
Procurai-o sempre com horas para viver.
Pois o papel do amigo é o de encher vossa necessidade, e não vosso vazio.
E na doçura da amizade, que haja risos e o partilhar dos prazeres.
Pois no orvalho de pequenas coisas, o coração encontra sua manhã e se
sente refrescado."

Então um literato disse: "Fala-nos da Conversação."

E ele respondeu:
"Vos falais quando deixais de estar em paz com vossos pensamentos;
E quando não podeis mais viver na solidão de vosso coração, procurais
viver nos vossos lábios, e encontrais então uma diversão e um passatempo nas
vibrações emitidas.
E em grande parte de vossas conversações, o pensamento é meio assassinado.
Pois o pensamento é uma ave do espaço que, numa gaiola de palavras,
pode abrir suas asas mas não pode voar.
Há entre vós aqueles que procuram os faladores, por medo da solidão.
O silêncio da solidão revela-lhes seu Eu desnudo, e eles preferem escapar-lhe.
E há aqueles que falam e, sem saber ou prever, revelam uma verdade
que eles próprios não compreendem.
E há aqueles que possuem a verdade dentro de si, mas não a expressam em palavras.
No íntimo de tais pessoas, o espírito habita num silêncio rítmico.
Quando encontrardes vosso amigo na rua ou no mercado público, deixai
que o espírito que está em vós ponha em movimento vossos lábios e dirija vossa língua.
E que a voz escondida na vossa voz fale ao ouvido de seu ouvido;
Pois sua alma guardará a verdade de vosso coração, como é lembrado o
sabor do vinho,
Mesmo depois que a sua cor houver sido esquecida, e a taça que o
continha não mais existir."

Khalil Gibran (con imágenes) | Kalil gibran, Pinturas, Dibujos