Equilíbrio
é tudo aquilo que consegue harmonizar os opostos e essa harmonia é
basicamente resultado de uma consciência que ilumina tanto para
dentro, quanto para fora da pessoa. Consciência que ilumina para
dentro é a lucidez que leva uma pessoa a compreender-se a si mesma,
com todas as suas possibilidades e impossibilidades, aquilo que
espera do mundo e de si mesma e aquilo que tem ou não capacidade
para realizar; e consciência que ilumina para fora é a lucidez que
faz a pessoa compreender o mundo exterior, o pensamento das outras
pessoas, de que maneira o mundo reage diante da multiplicidade de
solicitações, o que é tolerável e aceito pelo mundo, pelas
pessoas com quem ela convive e pelo tempo e lugar em que ela vive.
Se a
pessoa continuar avançando na sua prática, mais alto e sutil será
o nível de qualidade da quietude.
Esse
modelo de comportamento mostra que o taoísmo não encara um
Iluminado como se ele fosse uma lâmpada acesa, que precisasse ficar
o tempo todo lançando raios de luz para todas as direções,
procurando iluminar tudo que considera obscuro; pelo contrário, a
pessoa iluminada é aquela que acende, de fato, no seu interior uma
luz que não se apaga, mas deixa transparecer essa claridade no
exterior demonstrando capacidade em conduzir sua vida sem atritos.
Para isso, a pessoa não necessita, nem mesmo, ser um religioso ou
místico, basta apenas ter a consciência expandida no nível da
completa lucidez, mas para alcançar esse grau de consciência é
preciso começar o processo cultivando a quietude, que se expressa em
níveis diferentes de qualidade.
Se
quietude para uma pessoa, no início da prática da meditação
significa manter a calma quando, por exemplo, alguém lhe dirige uma
palavra de falsidade ou um gesto descortês que a deixa abalada
internamente, depois de alguns anos de prática, a quietude será
algo muito mais sutil, a ponto desse mesmo gesto não lhe causar
qualquer aborrecimento. Mas se a pessoa continuar avançando na sua
prática, mais alto e sutil será o nível de qualidade da quietude
que alcançará até chegar a um estágio em que passa a compreender
aquele gesto hostil, considerando o contexto e a circunstância em
que foi praticado.

Prosseguindo
com a meditação, a pessoa subirá de nível e finalmente alcançará
o estágio de consciência em que enxerga aquele gesto como uma
expressão do universo que tem manifestações distintas, dependendo
da característica de cada pessoa. Isso mostra que depois de alguns
anos meditando, a pessoa percebe que está alcançando degraus cada
vez mais altos de quietude, que ela vai galgando na medida em que se
mantém com constância no Caminho. A pessoa muda de nível porque a
própria quietude também muda de qualidade e assim o praticante vai
ampliando sua lucidez e passando a enxergar um universo cada vez
maior, que existe ‘do outro lado do muro’.
Quando
o muro deixa de existir, o Mistério é revelado.
No
taoísmo entendemos que a vida se apresenta como se estivesse cercada
por um muro que impede as pessoas de conhecerem o que existe do outro
lado. Na medida em que amplia o nível de sua consciência, no
entanto, a pessoa vai derrubando aos poucos essa barreira e começa a
enxergar cada vez mais longe.
Os muros
são infinitos, cada vez mais sutis, de uma dimensão cada vez maior
e colocados um atrás do outro; assim, conforme um praticante da
meditação do silêncio vai entrando em experiências místicas mais
profundas, seus muros vão sendo retirados e aparecendo outros mais
sutis, num universo que se amplia infinitamente. É nesse universo
ampliado que o Mistério se revela, aos poucos, porque se Mistério é
tudo aquilo que está ‘do outro lado do muro’, quando o muro
deixa de existir, o Mistério é revelado. Com isso, a pessoa começa
a ter contato com um universo cada vez mais amplo e sua compreensão
vai se ampliando também, até alcançar o estado da Absoluta
Iluminação.
A
busca da restauração da lucidez interior, ou Iluminação, é o
caminho do taoísmo.
Quem
chega a esse estágio de lucidez passa a agir com um grau de
consciência mais elevado, que a levará ao equilíbrio e harmonia na
convivência de ‘eu comigo mesmo’, ‘eu com os outros’ e ‘os
outros comigo’. A harmonia interior gera menos atritos. Se toda a
humanidade conseguir diminuir os atritos que surgem na convivência
entre as pessoas, haverá mais afeto e paz no mundo. Mas, para chegar
a esse ponto, é preciso, primeiro, expandir a consciência para
restaurar a lucidez interior. Essa busca da restauração dessa
lucidez interior ou Iluminação, é o caminho do taoísmo.

Para
encontrar a lucidez interior, até chegar à infinitude, precisamos
começar cultivando a quietude interior.
Da mesma
forma que a alma de uma pessoa está aprisionada dentro do seu corpo,
a consciência de cada pessoa está aprisionada dentro de um mundo de
impermanência, incerteza e ignorância. Para romper essa barreira e
conseguir encontrar a lucidez interior, que vai permitir a ela
enxergar o que está além da fronteira da vida e da morte, até
chegar à infinitude, ela precisa começar cultivando a quietude
interior.
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