7.3.17

A ALEGRIA, A HABITAÇÃO E AS ROUPAS - "O Profeta" de Khalil Gibran

Então uma mulher disse: "Fala-nos da Alegria e da Tristeza."

E ele respondeu:
"Vossa alegria é vossa tristeza desmascarada.
E o mesmo poço que dá nascimento a vosso riso foi muitas vezes
preenchido por vossas lágrimas.
E como poderia não ser assim?
Quanto mais profundamente a tristeza cravar a sua garra em vosso ser,
tanto mais alegria podereis conter.
Não é a taça que contém vosso vinho a mesma que foi queimada no
forno do oleiro?
E não é a lira que acaricia vossa alma a própria madeira que foi
entalhada a faca?
Quando estiverdes alegres, olhai no fundo de vosso coração, e achareis
que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria.
E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis
que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constituiu vosso deleite.
Alguns dentre vós dizeis: "A alegria é maior que a tristeza", e outros
dizem: "Não, a tristeza é maior."
Porém, eu vos digo que elas são inseparáveis.
Vêm sempre juntas, e, quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos
de que a outra dorme em vossa cama.
Em verdade, vós estais suspensos como os pratos de uma balança entre
vossa tristeza e vossa alegria.
É somente quando estais vazios que estais equilibrados.
Quando o guarda do tesouro vos suspende para pesar seu ouro e sua
prata, então deve a vossa alegria ou a vossa tristeza subir ou descer."

Então um pedreiro aproximou-se e disse: "Fala-nos das Habitações."

E ele respondeu e disse:
"Construí com vossos sonhos um abrigo no deserto, antes de construir
uma moradia no recinto da cidade.
Porque da mesma forma por que voltais para casa no crepúsculo, assim
faz o viajante que vive em vós, o sempre distante e solitário.
Vossa casa é vosso corpo mais largo.
Cresce ao sol e dorme no silêncio da noite, e ela também tem sonhos.
Vossa casa não sonha e, sonhando, escapa da cidade para o bosque ou a colina?
Se eu pudesse enfeixar vossas casas na minha mão e, como um
semeador, dispersá-las nas florestas e nas campinas!
Fossem os vales vossas ruas e as veredas verdejantes vossas aléias, para
que pudésseis procurar-vos um ao outro através dos vinhedos e voltar com a
fragrância da terra nas vossas roupas.
Porém, o tempo dessas coisas ainda não chegou.
No seu temor, vossos pais juntaram-vos demasiadamente perto uns dos
outros. E esse medo sobreviverá algum tempo ainda. E durante esse tempo, as
muralhas de vossas cidades separarão vossos campos.
E dizei-me, povo de Orphalese, que possuís vós nessas habitações? E que
objetos guardais atrás dessas portas trancadas?
Acaso possuís a paz, esse impulso tranqüilo que revela vossa potência?
Possuís as recordações, essas abóbadas cintilantes que amarram os
cumes do espírito?
Possuís a beleza que conduz o coração dos objetos confeccionados com
madeira e pedra para a montanha sagrada?
Dizei-me, possuís tudo isto em vossas casas?
Ou tendes somente o conforto e a cobiça do conforto — esse desejo
furtivo que entra em casa como visita, e depois torna-se hóspede, e depois dono?
Sim, e torna-se também domador e, com forcado e açoite, reduz a títeres
vossos desejos mais amplos.
Embora suas mãos sejam de seda, seu coração é de ferro.
Ele embala-vos até dormirdes, só para rondar vosso leito e zombar da
dignidade de vossos corpos zomba também de vossos sentidos normais e deitados
na penugem macia como um vaso frágil.
Na verdade, vossa paixão pelo conforto assassina as paixões mais nobres
de vossa alma e, depois, zombeteira, marcha no seu enterro.
Mas vós, filhos do espaço, vos os inquietos no repouso, vós não caireis
em armadilhas nem sereis domesticados.
Vossa casa não será uma âncora, mas um mastro.
Não será uma fita reluzente que recobre um ferimento, mas uma
pálpebra que protege o olho.
Não dobrareis as asas para poder atravessar as portas, nem curvareis as
cabeças para não bater nos tetos, nem retereis vossa respiração para não
sacudir e abalar as paredes.
Não morareis em tumbas feitas pelos mortos para os vivos.
E apesar de sua magnificência e esplendor, vossa casa não conterá vosso
segredo nem abrigará vossa nostalgia.
Pois aquilo que é ilimitado em vós mora no castelo do céu cuja porta é a
bruma da aurora e cujas janelas são os cânticos e os silêncios da noite."

Um tecelão disse: "Fala-nos das Roupas."

E ele respondeu:
"Vossos trajes ocultam muito de vossa beleza, porém não escondem o
que não é belo.
Embora procureis em trajes a proteção libertadora de vossa intimidade,
neles podeis encontrar arreios e cadeias.
Pudésseis enfrentar o sol e o vento com mais epiderme e menos roupas;
Pois o sopro da vida está na luz do sol e a mão da vida está no vento.
Alguns dentre vós dizeis: "O vento do Norte foi quem teceu os trajes que vestimos."
Eu, porém, vos digo: Sim, foi o vento do Norte.
Mas a desonra foi o seu tear e o relaxamento dos nervos, o seu fio.
E quando completou seu trabalho, ele riu na floresta.
Não esqueçais que a modéstia é um escudo contra o olhar do impuro.
E quando o impuro desaparecer, que será a decência senão um obstáculo
e uma mancha na alma?
E não esqueçais que a terra se rejubila de sentir vossos pés desnudos e
que os ventos anseiam por brincar com vossos cabelos."


Poet'anarquista: PINTURA - KHALIL GIBRAN

A DÁDIVA, O ALIMENTO E O TRABALHO - "O Profeta" de Khalil Gibran

Então um homem opulento disse: "Fala-nos da Dádiva."

E ele respondeu:
"Vós pouco dais quando dais de vossas posses.
É quando derdes de vós próprios, que realmente dais.
Pois, o que são vossas posses, senão coisas que guardais por medo de
precisardes delas amanhã?
E amanhã, que trará o amanhã ao cão ultraprudente que enterra ossos
nas areias movediças, enquanto segue os peregrinos para a cidade santa?
E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade?
Não é vosso medo da sede, quando vosso poço está cheio, a sede insaciável?
Há os que dão pouco do muito que possuem, e fazem-no para serem
elogiados, e seu desejo secreto desvaloriza seus presentes.
E há os que pouco têm e dão-no inteiramente.
Esses confiam na vida e na generosidade da vida, e seus cofres nunca se
esvaziam.
E há os que dão com alegria, e essa alegria é sua recompensa.
E há os que dão com pena, e essa pena é seu batismo.
E há os que dão sem sentir pena nem buscar alegria e sem pensar na virtude:
Dão como, no vale, o mirto espalha sua fragrância no espaço.
Pelas mãos de tais pessoas. Deus fala, e, através de seus olhos, Ele sorri
para o mundo.
É belo dar, quando solicitado; é mais belo, porém, dar sem ser solicitado,
por haver apenas compreendido;
E, para os generosos, procurar quem receberá é uma alegria maior ainda
que a de dar.
E existe alguma coisa que possais conservar?
Tudo que possuís será um dia dado.
Dai, portanto, agora para que a época da dádiva seja vossa e não de
vossos herdeiros.
Dizeis muitas vezes: "Eu daria, mas somente a quem merece."
As árvores de vossos pomares não falam assim, nem os rebanhos de
vossos pastos.
Dão para continuar a viver, pois reter é perecer.
Certamente, quem é digno de receber seus dias e suas noites é digno de
receber de vós tudo o mais.
E quem mereceu beber do oceano da vida, merece encher sua taça em
vosso pequeno córrego.
E que mérito maior haverá do que aquele que reside na coragem e na
confiança, mais ainda, na caridade de receber?
E quem; sois vós para que os homens devam expor seu íntimo e
desnudar seu orgulho a fim de que possais ver seu mérito despido e seu orgulho
rebaixado?
Procurai ver, primeiro, se vós próprios mereceis ser doadores e
instrumentos do dom.
Pois, na verdade, é a Vida que dá à Vida — enquanto vós, que vos julgais
doadores, sois simples testemunhas.
E vós que recebeis — e vós todos recebeis — não assumais nenhum
encargo de gratidão, a fim de não pordes um jugo sobre vós e vossos
benfeitores.
Antes, erguei-vos juntos com eles, sobre asas feitas de suas dádivas;
Pois se ficardes demasiadamente preocupados com vossas dívidas,
estareis duvidando da generosidade daquele que tem a terra liberal por mãe e
Deus por pai."

Então um velho estalajadeiro disse: "Fala-nos do Comer e Beber."

E ele respondeu:
"Pudésseis viver do perfume da terra e, como uma planta, nutrir-vos da luz.
Mas, já que deveis matar para comer e roubar do recém-nascido o leite
de sua mãe para saciar vossa sede, fazei disso um ato de adoração.
E que vossa mesa seja um altar onde os puros e os inocentes da floresta
e da planície são sacrificados àquilo que é ainda mais puro e mais inocente no
homem.
Quando matardes um animal, dizei-lhe no vosso coração:
"Pelo mesmo poder que te imola, eu também sou imolado, eu também
servirei de alimento para outros;
Pois a lei que te entregou às minhas mãos me entregará a mãos mais poderosas.
Teu sangue e meu sangue nada são senão a seiva que nutre a árvore do céu."
E quando morderdes uma maçã, dizei-lhe no vosso coração:
"Tuas sementes viverão no meu corpo, E os brotos de teus amanhãs
florescerão no meu coração,
E teu perfume será meu hálito,
E, juntos, regozijar-nos-emos em todas as estações."
E no outono, quando colherdes a uva de vossos vinhedos para o lagar,
dizei-lhe no vosso coração:
"Eu também sou um vinhedo, e minha fruta será recolhida para o lagar,
E, como um vinho novo, serei guardado em vasos eternos."
E no inverno, quando beberdes o vinho, que haja no vosso coração uma
canção para cada taça;
E que haja na canção um pensamento para os dias do outono, para o
vinhedo e para o lagar."

Então, um lavrador disse: "Fala-nos do Trabalho."

E ele respondeu, dizendo:
"Vós trabalhais para acompanhar o ritmo da terra, e da alma da terra.
Porque ser indolente é tornar-se um estranho às estações e afastar-se do
cortejo da vida, que avança com majestade e orgulhosa submissão rumo ao
infinito.
Quando trabalhais, sois uma flauta através da qual o murmúrio das horas
se transforma em melodia.
Quem de vós aceitaria ser um caniço mudo e surdo quando tudo o mais
canta em uníssono?
Sempre vos disseram que o trabalho é uma maldição; e o labor, uma desgraça.
Mas eu vos digo que, quando trabalhais, realizais parte do sonho mais
longínquo da terra, desempenhando assim uma missão que vos foi designada
quando esse sonho nasceu.
E, apegando-vos ao trabalho, estais na verdade amando a vida. E quem
ama a vida através do trabalho, partilha do segredo mais íntimo da vida.
Mas se, em vossas dores, chamais o nascimento uma aflição e a
necessidade de suportar a carne, uma maldição inscrita na vossa fronte, então
eu vos direi que só o suor de vossa fronte lavará esse estigma.
Disseram-vos que a vida é escuridão; e no vosso cansaço, repetis o que
os cansados vos disseram.
E eu vos digo que a vida é realmente escuridão, exceto quando há um impulso.
E todo impulso é cego, exceto quando há saber.
E todo saber é vão, exceto quando há trabalho.
E todo trabalho é vazio, exceto quando há amor.
E quando trabalhais com amor, vós vos unis a vós próprios e uns aos
outros, e a Deus.
E que é trabalhar com amor?
É tecer o tecido com fios desfiados de vosso próprio coração, como se
vosso bem-amado tivesse que usar esse tecido.
É construir uma casa com afeição, como se vosso bem-amado tivesse
que habitar essa casa.
É semear as sementes com ternura e recolher a colheita com alegria,
como se vosso bem-amado fosse comer-lhe os frutos.
É pôr em todas as coisas que fazeis um sopro de vossa alma.
E saber que todos os abençoados mortos vos rodeiam e vos observam.
Muitas vezes ouvi-vos dizer como se estivésseis falando em sonho:
"Aquele que trabalha no mármore e encontra na pedra a forma de sua alma, é
mais nobre do que aquele que lavra a terra.
E aquele que agarra o arco-íris e o estende na tela em formas humanas,
é superior àquele que confecciona sandálias para nossos pés."
Porém eu vos digo, não em sono, mas no pleno despertar do meio-dia,
que o vento não fala com maior doçura aos carvalhos gigantes do que à menor
das folhas da relva;
E grande é somente aquele que transforma o ulular do vento numa
canção tornada mais suave pelo seu próprio amor.
O trabalho é o amor feito visível.
E se não podeis trabalhar com amor, mas somente com desgosto, melhor
seria que abandonásseis vosso trabalho e vos sentásseis à porta do templo a
solicitar esmolas daqueles que trabalham com alegria.
Pois se cozerdes o pão com indiferença, cozereis um pão amargo, que
satisfaz somente à metade da fome do homem.
E se espremerdes a uva de má vontade, vossa má vontade se destilará
no vinho como veneno.
E ainda que canteis como os anjos, se não tiverdes amor ao canto, tapais
o ouvido do homem às vozes do dia e às vozes da noite."

Resultado de imagem para pinturas de khalil gibran  Gibran

4.3.17

O AMOR, O MATRIMÔNIO E OS FILHOS – “O Profeta” de Khalil Gibran


Então Almitra perguntou ao Profeta: "Fala-nos do Amor."

E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão; e um silêncio caiu sobre eles, e com uma voz forte, dirigiu-se a eles, dizendo:

"Quando o amor vos chamar, segui-o.
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe, Embora a espada oculta 
na sua plumagem
possa ferir-vos; E quando ele vos falar, acreditai nele, Embora sua voz possa
despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma por que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica.
E da mesma forma por que ele contribui para vosso crescimento, ele trabalha
para vossa poda.
E da mesma forma por que ele sobe à vossa altura e acaricia vossos
ramos mais tenros que se embalam ao sol, Assim também ele desce até vossas
raízes e as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor a vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma no pão místico do
banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós para que conheçais os
segredos de vossos corações e, com esse conhecimento, vos convertais no pão
místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor procurardes somente a paz e o gozo do amor.
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez e abandonásseis
a eira do amor, para entrar no mundo sem estações, onde rireis, mas não todos
os vossos risos, e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio e nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui e não se deixa possuir.
Pois ele basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga: "Deus está no meu coração", mas
que diga antes: "Eu estou no coração de Deus."
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos
achar dignos, determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo, senão o de atingir sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos, sejam estes vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho que canta sua melodia
para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir a ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor;
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado e agradecerdes por um
novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia, e meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado, e nos
lábios uma canção de bem-aventurança."

Então, Almitra falou novamente e disse:
"E que nos dizes do Matrimônio, mestre?"

E ele respondeu, dizendo:
"Vós nascestes juntos, e juntos permanecereis para todo o sempre.
Juntos estareis quando as brancas asas da morte dissiparem vossos dias.
Sim, juntos estareis até na memória silenciosa de Deus.
Mas que haja espaços na vossa junção.
E que as asas do céu dancem entre vós.
Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão:
Que haja, antes, um mar ondulante entre as praias de vossas almas.
Enchei a taça um do outro, mas não bebais na mesma taça.
Dai do vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço.
Cantai e dançai juntos, e sede alegres; mas deixai cada um de vós estar sozinho.
Assim como as cordas da lira são isoladas e, no entanto, vibram na
mesma harmonia.
Dai vossos corações, mas não os confieis à guarda um do outro.
Pois somente a mão da Vida pode conter vossos corações.
E vivei juntos, mas não vos aconchegueis demasiadamente;
Pois as colunas do templo erguem-se separadamente,
E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro."

E uma mulher que carregava seu filho nos braços disse: "Fala-nos dos Filhos."

E ele disse:
"Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da Vida por si mesma.
Eles vêm através de vós mas não de vós,
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podereis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis
visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós;
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda Sua
força para que Suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como Ele ama a flecha que voa, também ama o arco que
permanece estável."


:

A BRISA NA CAVERNA – Robert Adams


Certa vez, um homem aproximou-se de uma caverna e sentiu uma linda brisa vindo dela. E quis encontrar a fonte dessa linda brisa. Ele era muito gordo e a entrada da caverna era um pequeno buraco onde não conseguiria entrar.

Ele estava tão maravilhado com a brisa e sua fragrância, que só pensava em encontrar a fonte dessa brisa. Então começou a jejuar, perdeu peso, mas ainda assim não conseguia entrar. E abandonou tudo: seu emprego, seu lar, sua família.

Seu único pensamento era, "Tenho de encontrar a fonte dessa brisa que possui tanta fragrância." Ele mal se alimentava. Estava determinado a encontrar a fonte da brisa.

Finalmente transformou-se num esqueleto e conseguiu passar metade de seu corpo pelo buraco, mas ficou preso ali. Não conseguir entrar nem sair. Então desistiu de seu objetivo e disse, "Fiz tudo que podia. Não há mais nada que possa fazer." Então o Eu Divino o puxou através do buraco e ele se tornou iluminado, auto-realizado.

Essa história ilustra que, quando paramos de lutar, de tentar mudar as coisas, de tentar fazer as coisas acontecerem e deixamos tudo fluir, dependendo da Vontade Divina, da realidade absoluta, então o Eu Divino nos puxa para si. Em outras palavras, você se torna auto-realizado.

Mas enquanto você depender de uma pessoa, lugar ou coisa, então enfrentará suas batalhas sozinho. É por isso que a verdadeira espiritualidade não é para todos. As pessoas ainda querem apegar-se às coisas.

Enquanto este mundo o fizer sentir-se bem ou mal, você é mundano e tem batalhas a enfrentar. Mas quando o bem e o mal não o impressionar mais, então estará livre.

Muitas pessoas buscam a verdade apenas quando estão doentes, ou falidos, ou loucos, ou desanimados. Mas se conseguem o que querem, esquecem sua busca e saem para se divertir. Mas lembre-se que as coisas mudam como sempre, e essas pessoas poderão deixar o corpo amanhã, ou na semana que vem. Nunca se sabe. E novamente serão atraídas à reencarnação.


Resultado de imagem para CAVERNA


A ENTREGA AO DIVINO – Robert Adams


Pergunta: Robert, pode me dar um exemplo da atitude correta de auto-entrega?

Robert: Quando você se entrega, está entregando o ego. Isso é feito olhando para o mundo com humildade, olhando para o mundo com amor e paz. Dizendo para si mesmo, "Não a minha vontade, mas a Tua." Sentindo que você não tem mais vontade própria. Não tem perguntas, não tem necessidades, não tem desejos, e deixa que tudo isso se dissolva em seu coração.

Você para de se preocupar, para de tentar adquirir coisas ou mudar as coisas. Percebe que existe um poder maior que o seu. E assim, tudo que vinha carregando consigo todos estes anos, você entrega. Tudo deve ir, tudo.

Você pode dizer algo como, "Toma isso, Deus. Dou a Ti. Toma minha vida. Toma as coisas que possuo. Toma minha família. Toma meus problemas. Toma minhas qualidades. Toma tudo. Apenas quero a Ti."

Essa é a entrega perfeita, quando você dá tudo a Deus, tudo. Não se apega a nada e fica nu perante Deus. Então algo maravilhoso acontecerá a você. Mas não há muitas pessoas que podem fazer isso. Muitos podem entregar certas coisas de que não gostam. Mas as coisas de que gostam, não entregarão. Pensam que vão perder algo.

É isso que o impede de progredir. A entrega perfeita é quando você dá tudo, tudo a Deus, incluindo seu corpo. E diz, “Faz o que quiseres comigo. Faz o que quiseres com meu corpo, com minha mente, com meus negócios, com tudo. Não se faça minha vontade, mas a Tua.”

Tente. É difícil porque você tem medo do que lhe acontecerá após essa entrega. Acredita que tudo será tomado de você. Este é o pensamento humano. Pare de ser humano. Entregue-se e seja totalmente livre.

Tipos de meditação: escolha a que mais combina com você


COMBINAR MEDITAÇÃO EU-SOU COM VICHARA – Robert Adams


Pergunta: É possível combinar a meditação Eu-Sou com a vichara, ou a pessoa tem de escolher entre os dois métodos?

Robert: "Quem sou eu?" é algo que você faz o dia todo, 24 horas por dia. Se você está falando sobre outros métodos espirituais, depende de como você usa a vichara. Mas "Quem sou eu?" vai além de tudo isso. Vai além da meditação. Além de outras formas de espiritualidade. Vai direto ao coração da questão.

Por isso, se você está praticando "Quem sou eu?", não há tempo de praticar mais nada. Isso toma todo seu tempo, se você o fizer o dia inteiro. Mas se desejar combinar com outras formas de espiritualidade, depende de você. Você tem a ferramenta de "Quem sou eu?" para trabalhar. Isso é tudo que você precisa. Não precisa de mais nada.


Logicamente depende de como você se sente. Se deseja combinar práticas, pode combinar. É você que escolhe, deve fazer o que quer.

Pergunta: Robert, talvez a pessoa que fez essa pergunta esteja confundindo a meditação Eu-Sou, que você nos ensinou, com "Quem sou eu?". Porque você ensinou ambos os métodos.

Robert: A meditação Eu-Sou também pode ser praticada em todos os momentos. Você pode mudar de vez em quando. Se ficar cansado de fazer a vichara, pratique a meditação Eu-Sou. A auto-investigação não é meditação. É um método de negar todo o universo e permitir que a realidade entre em sua vida. Portanto a auto-investigação é na verdade o melhor método.

Mas no início da prática, você pode ficar um pouco frustrado com ela, ficar um pouco cansado dela, então pratique a meditação Eu-Sou. Se estiver fazendo qualquer prática espiritual, você saberá o que fazer. A intuição virá por si mesma.

Isso é interessante. Se você for realmente sincero e estiver fazendo uma prática espiritual, algo dentro de você lhe dirá. Algo mostrará o caminho, lhe dirá o que fazer. Mas se apenas estiver perguntando qual prática deve fazer, e não praticar em absoluto, então sempre estará confuso.

Comece a praticar algo e seja sincero na prática. Então algo lhe acontecerá e você saberá o que deve fazer. Virá por si mesmo.




3.3.17

IMPRESSÕES DE UM MONGE NOS HIMALAYAS – Swami Akhandananda


(essas são as impressões de um monge da Ordem Ramakrishna ao visitar os Himalayas pela primeira vez em 1887)

Deixei Mussouri com a agradável idéia de estar mais próximo de meu destino e iniciei a jornada para Tehri com ótima disposição. Percorri alguns quilômetros e então voltei meus olhos para o Norte. Diante de mim desdobrou-se uma visão magnífica. O Himalaya, “a medida de aferição do mundo”, surgia em toda sua vastidão, branco e imaculado.

Meus pés recusaram-se a andar. Sentei-me ali por algum tempo, os olhos banqueteando-se na glória do Himalaya, a cordilheira coberta de neves eternas. Um arrepio percorreu meu corpo, enquanto sentia uma alegria sem limites. Disse a mim mesmo, “Olhe, isso é o Himalaya. O Mestre (Ramakrishna) recomendava a todos um vislumbre dessa montanha celestial”.

Ali, a Natureza na forma de Párvati encontra-se com Shiva, no lar do pai da Mãe Divina (Himavat, a divindade dos Himalayas). Nunca pensei que a primeira visão do Himalaya me deixaria tão maravilhado. Tive a sensação de que o mundo mortal ficara lá embaixo e que chegara ao reino dos céus.

Kedartaal, Indian Himalayas | Himalayas, India tourist, Tours

Impaciente, queria entrar na morada celeste. Notei o sereno silêncio que pairava por toda parte. A cordilheira branca era cercada por extensas florestas. Eu me senti arrebatado pelos sentimentos sublimes que a visão da magnífica criação do Senhor provocava em mim. Com a mente apaziguada e calma, fiz repetidas reverências ante os pés da majestosa montanha – a encarnação da supremacia e glória divinas.

As coisas mundanas amorteceram-se e cobri uns trinta quilômetros quase em transe, sem qualquer fadiga. Encontrei um ou outro viajante no caminho entremeado de árvores cobertas de flores vermelhas, que contêm mel.

Em Jamunotri, vi pela primeira vez a forma dourada do Himalaya, suas neves refulgindo aos raios do sol poente. Sempre coberta de imaculada brancura, a montanha revestia-se agora de ouro líquido. Tomado de assombro ante tal grandiosidade pensei, “Que visão esplêndida! Amarelo brilhante e branco como a flor do champak (magnólia amarela)”.

5 Himalayan mysteries that'll make you question logic | Times of ...

Himagiri, a montanha de neve, surgia como Hemagiri, a montanha de ouro. Emudeci ante a gloriosa beleza, excessiva para ser descrita. Metade da montanha mostrava-se branca como a cânfora, como a prata, e a outra metade brilhava como ouro puro. Como a união de Shiva e Párvati, pensei.

Somente nessas montanhas se pode ver a indescritível união de Shiva e Párvati. Contemplei o belo panorama e pensei que Himavan, o pai de Párvati, esquecera a dor da separação de sua filha e agora fundia-se a Shiva ao meditar constantemente sobre a forma de Ardhanariswara (divindade que é metade Shiva e metade a Mãe Divina).

Via-se ali a serena beleza da Mãe Universal e o terrível aspecto de Shiva pronto a efetuar a dissolução do mundo! Ali estava a terra de Nara e Narayana cultuada pelos sábios, a sagrada terra conhecida como Badarikashram, nas vizinhanças do rio Alakananda; o território purificado por incontáveis sábios, siddhas (seres perfeitos), charanas (cantores celestiais), yakshas (anjos), kinnaras (semideuses) e gandharvas (músicos celestiais), que moraram lá.

O canto de diversos pássaros coloridos ressoava pela mata de árvores quase divinas, com galhos pesados de frutos maduros e flores cheirosas, e uma trepadeira chamada soma, cuja seiva revivia os moribundos. Por ali vagava o veado almiscareiro, entre lagoas e lagos de beleza sobrenatural e águas cristalinas perfumadas pelas flores caídas das árvores à sua volta.

Aquela sim, pensei, era de fato a morada da beleza, da paz e da felicidade, onde Párvati, a Mãe Universal, abençoava todas as criaturas do mundo. Ocorreu-me de novo que os Himalayas eram a verdadeira forma de Shiva; os rochedos pontiagudos e escarpados cobertos de neve, de onde descia uma corrente caudalosa de água irrompendo sobre as pedras, formando lá embaixo lagos límpidos como o cristal, profundos como o próprio abismo, e penhascos rochosos, alcantilados, com despenhadeiros cheios de cavernas – tudo sendo, de fato, as formas de Shiva espalhadas por toda parte em mil aspectos distintos, erguendo-se até as nuvens. Parecia que Shiva estava prestes a começar a dança que abalava o mundo.

Ninguém pode ser insensível a ponto de não reconhecer que uma visita ao Himalaya é na realidade uma visita ao lar celestial de Párvati e Shiva, que realizam os desejos de seus devotos ao surgirem para eles como uma forma viva.

Em lugar algum me deparei com um espetáculo tão arrebatador como o grandioso Himalaya, fascinante e inspirador! Contemplei as diferenças entre Shiva e Párvati, sentindo uma felicidade indescritível!

Quem nunca visitou o Himalaya deveria fazê-lo pelo menos uma vez na vida, para que sua existência terrena tenha sentido.

Enquanto prosseguia ao longo da estrada para Gangotri, a magnificência do Himalaya começou a desdobrar-se perante meus olhos novamente. A imensa cordilheira em forma de tartaruga, coberta de neve imaculada, ergueu-se diante de mim. Dessa montanha precipitava-se o rio Ganges em curvas bruscas e águas borbulhantes como se cantasse “Hara, Hara” (Shiva, Shiva).

Por entre altas montanhas e suas encostas superiores cobertas de neve corre o rio Ganges, e abaixo dos cumes nevados vêem-se imensos pinheiros. Dos dois lados do rio há rochas brancas, lisas como mármore, empilhadas umas sobre as outras como um altar védico.

Tão tocante era o panorama que me abandonei inteiramente a ele, sentindo que não estava mais na terra. Andei sobre as rochas, sentando ora em uma, ora em outra, pois achava que jamais veria semelhante paisagem novamente. Através da visão e outros sentidos absorvi o máximo da divina beleza e da serenidade do Himalaya, que preencheram meu coração até a borda.

Sem noção de que o dia quase terminara, eu não conseguia abandonar o local. Vendo-me nesse estado de transe, o monge que eu encontrara antes de chegar a Bharava Zola conseguiu despertar-me, levando-me com ele para Gangotri.

Em seguida, ao chegar em Uttarkashi, fui acometido por uma forte diarréia e abriguei-me em seus arredores, às margens do Ganges. Durante dois dias, não pude sequer visitar a cidade, situada um pouco distante. No terceiro dia, pensei em voltar à cidade, mas sentia-me extremamente fraco. Mal acabara de pensar nisso, notei um homem daquela região que se aproximava.

Com as roupas um pouco sujas, perguntou como me sentia. Quando tomou conhecimento de meu estado lastimável nos últimos dois dias, seus olhos se encheram de lágrimas. Comovido com sua solidariedade, pensei “Quem será esse homem? Quem o terá enviado aqui? Por que se dá o trabalho de me confortar?”

Com muito cuidado me ajudou a levantar, e amparando-me conduziu-me lentamente a sua pequena cabana numa extremidade da cidade. Seus únicos pertences eram duas ou três panelas de barro e uma lareira composta de três pedras. Depois cozinhou um pouco de arroz e alimentou-me afetuosamente.

Quando terminei a refeição, ele se mostrou muito contente. Meu coração se enche de gratidão quando lembro esse incidente. Que satisfação tinha aquele homem de alimentar o hóspede! Talvez ninguém conhecesse esse homem bondoso, de sentimentos tão generosos. Possivelmente todos o consideravam louco. Embora fosse bem bonito, era indiferente à própria aparência; não penteava o cabelo e suas roupas não eram muito limpas. Mas tinha um brilho natural no rosto e parecia estar sempre sorrindo, o que levava outros a considerá-lo maluco.

Contudo achei que se fingia de louco para que não percebessem sua grandeza espiritual e sua verdadeira natureza. Ao falar com as outras pessoas, costumava divagar incoerentemente, embora jamais falasse assim comigo. Quando se dirigia a mim, era sempre muito simples e lógico.

Sob os cuidados desse homem, recuperei-me inteiramente em dois ou três dias. Não consigo imaginar como ele pôde ter sabido de mim e da minha doença, nem o que o fez ir àquele local solitário e se dar ao trabalho de cuidar de mim até recobrar a saúde. Contudo sua bondade não se voltava apenas a mim; feliz, servia qualquer um que necessitasse, oferecendo-lhe comida que costumava coletar para si mesmo. Tinha sempre no rosto uma expressão plácida e serena.

Quando parti, o santo homem me acompanhou até determinado ponto do caminho. Vendo sua sincera afeição por mim, fiquei bastante comovido. Não sabia como retribuir o que fizera por mim. Como se entendesse o que eu estava pensando, ele comentou que aquela região era muito gelada e disse, “Jamais usei um cobertor em toda minha vida”.
Ao ouvi-lo dizer isso, fiquei muito aliviado, ali estava a solução do meu problema. Coloquei meu cobertor em suas costas e disse a mim mesmo, “Que sorte a minha poder satisfazer um desejo tão insignificante de alguém bom e gentil”. Finalmente nos separamos e prossegui sozinho.

Pensei, “Tenho certeza que, embora aparentemente louco, esse homem é um grande sábio disfarçado.” Quando garoto, contaram-me que grandes sábios comportam-se como loucos para continuarem incógnitos entre as pessoas.

Resultado de imagem para swami akhandananda ramakrishna  Swami Akhandananda