24.6.19

O QUE TORNA SHAMBHAVI MUDRA UMA PRÁTICA DE MEDITAÇÃO SEM IGUAL – Sadhguru



A palavra meditação é usada para tantas coisas. Geralmente, se você se concentra em algo, as pessoas dizem que você está meditando. Se você está pensando numa coisa continuamente, as pessoas dizem que você está meditando. Se você pronunciar apenas um som, um mantra ou seja o que for, isso também é chamado de meditação. Ou se você está alerta a coisas que estão acontecendo ao seu redor ou dentro de seu sistema fisiológico, isso também é chamado de meditação.

Shambhavi não pertence a nenhuma dessas categorias. É por isso que o chamamos de mudra ou kriya. O que é um mudra? A palavra  “mudra” literalmente significa um selo, um fecho. No mundo de hoje mais que nunca, o maior problema que os seres humanos têm é a dissipação de energia, porque nosso sistema sensório é estimulado  mais do que nunca foi anteriormente na história da humanidade.

Por exemplo, hoje podemos nos sentar a noite inteira sob luzes brilhantes. Nossos olhos não foram preparados para isso. Eles foram feitos para doze horas de luz e doze horas de escuridão, ou de uma luz muito fraca. Agora seu aparelho visual é loucamente estimulado.

Em épocas anteriores, para você ouvir qualquer som, um leão tinha que rugir, ou um elefante tinha que trompetear, ou algum outro som tinha de acontecer. Do contrário, haveria silêncio. Agora há sons acontecendo o tempo todo. Seus ouvidos estão sobrecarregados com esses sons. Antigamente, para ver algo colorido, você tinha de esperar pelo amanhecer. Agora se você liga a televisão, vê todo tipo de cor, em rápida sucessão, para ofusca-lo o tempo todo. 

Portanto a quantidade de absorção dos sentidos é maior que nunca. A menos que se crie um poderoso processo dentro de si, no mundo atual a maioria dos seres humanos não conseguirá sentar-se de olhos fechados sem sonhar acordada. 

Daí a necessidade de Shambhavi, porque é um selo. Quando você põe o selo e fecha, suas energias tomarão por si mesmas uma direção completamente diferente. Então as coisas acontecerão. Raramente uma prática espiritual mexe com as pessoas desde a primeira vez como faz Shambhavi Mahamudra. Se você praticar corretamente o Mahamudra, suas energias se voltarão para uma direção a que normalmente nunca se voltam.


Do contrário, suas energias se dissipam em reação ao que os sentidos absorvem. Se você presta atenção a algo, após algum tempo fica cansado. Não apenas os olhos – você fica cansado, porque perde energia. Se um raio de luz vem a você, para vê-lo há uma perda de energia. Se um som vem a você, para ouvi-lo há uma perda de energia. Precisamos reverter isso, de modo que haja ganho.

A prática de Shambhavi por vinte e um minutos é para deixa-lo nesse nível de receptividade. Se você praticar Shambhavi por pelo menos noventa dias ao despertar de manhã, terá grandes resultados. Sua resposta anti-inflamatória vai melhorar muito. Seu DNA mostrará que, após noventa dias de prática, você estará 6 anos mais jovem do que era, a nível celular. Tudo isso já foi demonstrado por cientistas responsáveis.

E acima de tudo, o nível de calma interior aumentará enormemente, ao mesmo tempo que o cérebro permanecerá ativo. Esta é uma qualidade única de Shambhavi. 

As pesquisas feitas sobre a meditação budista indicam que a pessoa se torna mais calma e satisfeita; ao mesmo tempo que a atividade cerebral diminui. Com Shambhavi, as pessoas se tornam mais calmas e satisfeitas, e ao mesmo tempo a atividade cerebral aumenta.

Em busca da espiritualidade, as pessoas se sentam e repetem  “Ram, Ram” ou algum outro mantra. Mesmo que você ficar repetindo “ding dong ding,” você ficará calmo. É como uma canção de ninar. Se ninguém canta para você, você canta para si mesmo. Ajuda.

Todo mundo está usando esses truques, dizendo algo a si mesmo repetidamente. Seja um som chamado sagrado ou uma coisa sem sentido, se você continuar repetindo, surgirá um certo embotamento. Esse embotamento é confundido com paz. 

O único problema que o aflige agora é a atividade cerebral. Se você parar a atividade cerebral, estará calmo, mas sem possibilidades. Essencialmente, o problema humano é simplesmente este: as pessoas estão experimentando suas possibilidades como problemas. Se você anular a possibilidade, se anular metade do cérebro, logicamente o problema acaba.

Aumentar as possibilidades e ainda assim não ter problemas com isso – essa é a característica única de Shambhavi Mahamudra.

____________________________________________

Nota: a prática moderada de pranayama ajuda a concentrar a mente antes de Shambhavi. Para maiores informações sobre a técnica, recomenda-se visitar os sites de Isha Foundation: ishayoga.org ; ishafoundation.org ; isha.sadhguru.org


17.6.19

REFLEXÕES SOBRE PAUL BRUNTON – Paul Cash



Certo dia, na primavera de 1981, P.B. (como Paul Brunton era afetuosamente conhecido) estava caminhando comigo em direção a um restaurante vegetariano em Lausanne, Suíça. Um libanês de uns vinte e poucos anos rapidamente atravessou a rua e se aproximou de nós.

"Olá," ele disse, e após um longo tempo P.B. respondeu, "Sim?"
"Posso, por favor, passar algum tempo com você?"
P.B. olhou para ele silenciosamente por um momento e então perguntou, "Por que você quer fazer isso?"
"Não sei," o jovem respondeu. "Sinto que, se fizer isso, algo maravilhoso pode acontecer."
"Se algo maravilhoso acontecer," P.B. respondeu, “será por causa de de você. Eu nada faço."

O jovem trabalhava no restaurante para o qual estávamos nos dirigindo. Até a noite anterior, ele não tinha tido interesse em coisas espirituais; mas naquela noite um amigo lhe tinha dado para ler o livro “Encontro com Homens Notáveis”, de Gurdjieff, e ele tinha passado a noite toda lendo. "Quando vi você cruzar a rua," ele explicou, "eu disse a mim mesmo, 'Não sei como sei, mas aquele é um daqueles homens!’"

Aquele foi o primeiro de vários encontros que tivemos com o jovem, cujo nome era Nouki. Quando chegamos para o terceiro encontro na casa de chá de Lausanne, ele estava tão exuberante que seu rosto parecia não ser grande bastante para conter seu sorriso. P.B. perguntou-lhe o que o fazia tão feliz. Nouki respondeu que estar com P.B. o enchia de amor.

"Por que você acha que é isso?" perguntou P.B.
"Talvez porque você ama a todos", Nouki respondeu.
"Não," P.B. respondeu. "Não sou tão avançado. Não amo a todos."

Mais tarde naquele dia, quando P.B. e eu estávamos a sós, P.B. disse de Nouki: "Aquele jovem já tem metade de sua riqueza em seu temperamento. Agora ele apenas precisa de compreensão intelectual." Naquela ocasião Nouki nem mesmo conhecia o nome de P.B. ou que ele tinha escrito livros.

Certa manhã, quando nós três estávamos caminhando juntos, um suíço que escrevia sobre tópicos espirituais aproximou-se. Ele conhecia os livros de P.B. e queria fazer algumas perguntas. P.B. parecia estar um pouco relutante, mas finalmente disse, "Tudo bem, tomarei uma xícara de chá com você."

Resultado de imagem para paul brunton  P. Brunton

Naquela tarde, nós quatro nos encontramos para o chá. Nouki, como sempre, estava se deliciando com o fato de estarmos juntos. O escritor estava ansioso em perguntar a P.B. sobre certas questões filosóficas, particularmente sobre os ensinamentos de Krishnamurti. P.B. parecia mais interessado em ouvir o que o suíço achou de seu chá, mas a única resposta que teve foi um rápido "Oh, é ótimo" e o escritor continuou persistindo em obter as respostas que queria.
Quando terminou de beber seu chá, P.B. disse que era hora de terminar o encontro. O escritor ficou frustrado e infeliz com as respostas evasivas que obteve. Ao partirmos, P.B. lhe disse gentilmente, "Eu disse que tomaria uma xícara de chá com você, mas parece que você não queria tomar uma xícara de chá comigo."

A primeira vez que encontrei P.B. foi em 1977 quando ele estava visitando meu professor, Anthony Damiani, em Nova York. Anthony era devotado a P.B. desde os anos 1940 e obtinha dele grande inspiração, mesmo tendo P.B. a opinião de que não seria guru de ninguém. P.B. sempre se apresentava simplesmente como "um escritor e investigador, com alguma experiência nesses assuntos – apenas isso". Mas Anthony bem sabia que P.B. colocava a palavra "investigador" com mais significado do que a maioria dos ouvintes poderia entender.

Em 1971, Anthony tinha fundado o Centro de Estudos Filosóficos em  Valois, Nova York. Ele gostava de ter fotos de santos e sábios de várias tradições nas paredes. Quando P.B. visitou o lugar pela primeira vez e viu sua foto na sala de meditação, ele a retirou imediatamente. E nos disse que colocar ali sua foto era inapropriado, recomendando-nos que usássemos a foto de Rámana Maharshi naquele lugar.

Em minha primeira entrevista com ele, perguntei-lhe como cultivar e reconhecer a orientação interior. Ele respondeu que há dois passos.

"Primeiro," ele disse, "você tem que ser capaz de se fazer completamente humilde. Se não puder fazer isso, não haverá qualquer orientação." E fez uma longa pausa para que eu entendesse que humildade significava algo mais profundo do que eu tinha entendido.

"Se não puder fazer isso," ele continuou, "então deve ser capaz de fazer nada. Fazer nada  significa ser ativo e atento interiormente. Pode continuar com suas tarefas normais, mas deve evitar qualquer decisão ou ação com respeito àquilo para o que você procura a orientação.Não se pode dizer quanto tempo terá que esperar. Mas se agir certo, então quando a orientação vier não haverá dúvida sobre ela. Você terá plena certeza. E também a força para segui-la."
Na mesma entrevista, ele me perguntou, "Qual aspecto particular da palavra 'verdade' é mais significativo para você?"

Na época eu tinha vinte e nove anos e a palavra verdade não significava nada para mim. Talvez eu entendesse a palavra "honestidade"; mas "verdade" me parecia demais para entender.

Mas enquanto me sentava ali com P.B., comecei a perceber que algo dentro de mim sabia do que ele estava falando. Depois daquele dia, não tive dúvidas de que a palavra ‘verdade’ tem um significado próprio e que sua compreensão é uma parte essencial para ser plenamente humano.

Na presença de P.B. aquela palavra tomou nova dimensão. Outros que se entrevistaram com ele também tiveram experiências similares.

Aqui estão alguns dos trechos de seus diários publicados postumamente de que mais gosto:

“O ponto onde o ser humano encontra o infinito é o Eu Superior, onde ele, o finito, responde ao que é absoluto, onde ele reage Àquilo que transcende sua própria existência – esse é o Deus pessoal que ele experimenta e com o qual entra em relação. Neste sentido sua crença em Deus Pessoal é justificável”.


Imagem relacionada

“O Eu Superior é o ponto onde a Mente Universal é recebida na consciência. É o Eu livre de limites, pensamentos, carne, paixão e emoção – isto é, do ego pessoal”.

“Por causa da natureza dual que o Eu Superior possui, é muito difícil tornar claro o conceito do Eu Superior. Os seres humanos estão ligados à Mente Universal através do Eu Superior, o qual por isso se relaciona por um lado com um mundo vibratório e por outro de uma existência que está acima de todas as relações”.

Perguntei certa vez a P.B. se alguém poderia ir a um sábio buscando ajuda e o sábio ser incapaz de ajuda-lo. Ele respondeu que às vezes a intuição vem, às vezes não vem; e explicou que quando ela não vem, o sábio sabe que nada pode fazer por aquela pessoa.

"Você deve entender," ele disse, "o Eu Superior não está sempre à sua disposição para atender o que lhe pede. Mas há uma condição na qual você pode estar à disposição para sempre atender o Eu Superior. Essa é a condição que devemos lutar para alcançar."


KUNDALINI – Jan Barendrecht




A expansão da consciência é simultânea à ascensão da Kundalini. Mais sensibilidade, visões, precognição, empatia são alguns de seus efeitos.

Como uma pessoa vai lidar com a subida da Kundalini depende inteiramente de sua própria perspectiva. Se a pessoa ficou face a face com a morte muitas vezes e não tem medo, isso é uma grande vantagem. Se a pessoa passou por fases difíceis na vida, durante as quais desejou sinceramente estar isento de todo sentimento, também é uma grande vantagem.

Kundalini não pode fazer mal quando não mais existe "desejo de viver e gozar a vida", quando todo condicionamento se foi.

Purohit Swami comenta:"Perguntei a um grande Mahatma o que despertaria a Kundalini e ele disse, ‘Renúncia’. É uma terrível experiência quando a Kundalini desperta. No primeiro dia que ela acendeu seu fogo em mim, pensei que ia morrer, todo o corpo ficou como que em chamas, a mente ficou em pedaços, os ossos pareciam estar sendo esmagados, eu não entendia o que estava acontecendo. Durante esse período, não conseguia me sentar, deitava-me na cama e repetia o nome do Senhor Dattatreya".


Os estágios da Kundalini:
1 – Começam sensações queimantes no segundo chakra
2 – Sente-se perfurar o chakra do coração
3 – Ela alcança o chakra do topo da cabeça. O fenômeno elétrico que acompanha esse evento causa a sensação de parada cardíaca. Nesse estágio parece que o ego nunca existiu. OM é experimentado.
4 – A Kundalini desce ao centro do coração espiritual (do lado direito do peito, que não é o chakra cardíaco). A pessoa permanece em constante samadhi.

Acredito que a Kundalini não seja uma experiência má para todos. O despertar da Kundalini não é a meta final, mas apenas uma meta intermediária. Vários yogues tiveram sua Kundalini despertada, com consequências até piores do que as mencionadas, mas a suportaram pacientemente, conhecendo a meta real por trás.

Kundalini é uma experiência individual que vai diferir para cada pessoa. No caminho da devoção, o chakra do coração se abre primeiro, mas deve haver pureza. Nesse caminho o despertar é uma experiência agradável e bem-aventurada.

Resultado de imagem para KUNDALINI

Também a pessoa pode ter experiências com a subida de prana (energia vital). Esse não é o despertar da Kundalini, mas sim energia sexual transmutada. Os vários chakras estão conectados com a mente consciente e inconsciente. Como a autoentrega a Deus ‘liquefaz’ o inconsciente, o prana flui como água por um canal reto. Apenas os nós dos chakras são percebidos como resistência.

As pessoas que não possuem a estrutura mental adequada podem perder o autocontrole, por não serem capazes de resistir à força do inconsciente se expressando. Apenas aqueles com suficiente inteligência para entender sua condição podem ser adequadamente ajudados, desde que quem ajude seja um yogue realizado.

Durante milênios, o conhecimento da Kundalini esteve disponível em muitas culturas. Mas a sociedade atual tem prioridades erradas e como resultado paga um algo preço por sua ignorância.

Se a mente e os canais sutis (nadis) são purificados, se os motivos do praticante são sinceros, a Kundalini irá ascender como uma chama quase invisível; o calor será imenso, mas a pessoa apenas perceberá que os nós de shushumna estão sendo perfurados. Sob estas condições, a experiência com a Kundalini é uma grande alegria.







BUDISMO E CELIBATO – Mary Talbot



Sendo celibatária budista, sempre ouço de amigos e colegas, incluindo alguns budistas, que provavelmente ainda estou abalada pelo fim de meu casamento (que acabou há sete anos atrás), que mudarei de ideia sobre o celibato, que não sei que irresistível ligação romântica o futuro pode me trazer, que estou silenciando meus reais sentimentos.

Abster-se de toda atividade sexual é um dos oito preceitos seguidos por budistas leigos durante certos dias do ciclo lunar, ou por dedicados monges, afiliados a monastérios, que querem devotar toda sua energia para meditação e estudo.
Seguir estes preceitos parece algo aberrante às pessoas. A maior parte de nós opera com a ideia de que devemos viver a dois  para sermos felizes. A palavra celibato, de fato, significa “estar só”, e solidão é algo que buscamos evitar.
Imagem relacionada
Em nenhum lugar nos ensinamentos de Buddha, ele proíbe as pessoas leigas de terem sexo, ou lhes diz que o celibato é um pré-requisito para a iluminação. Ao contrário, os ensinamentos estão cheios de histórias sobre os benefícios da prática sexual dentro dos limites de um relacionamento estável e respeitável.
O mestre tailandês Ajahn Maha Boowa comparou o sexo conjugal ao fogo da cozinha: “Ambos são necessários para estabelecer e manter uma família bem-sucedida,” ele disse. “O casamento é necessariamente uma parceria sexual, enquanto o fogo da cozinha é indispensável para preparar o alimento da família. Se ambos são usados com cuidado, podem preencher as necessidades básicas das pessoas na vida.”
Mas se Buddha deixou as pessoas leigas fazerem suas próprias escolhas no campo do sexo e do romance, sua visão do celibato para os monásticos era clara. Ele ensinou que a atividade sexual era parte do desejo sensual, que é uma das causas do sofrimento e do apego, um obstáculo à meditação e à liberação.
Potaliya Sutta, por exemplo, usa uma série de analogias para descrever a frustração de buscar felicidade confiável no prazer sensório. “Suponha um cão esfomeado entrando num açougue, e ali lhe dão alguns ossos, sem nenhuma carne. O cão poderá satisfazer sua fome?” Porque aqueles ossos não oferecem nenhum alimento, assim como os prazeres sensórios, o cão não satisfará sua fome.
Resultado de imagem para BUDDHIST MEDITATION
Do mesmo modo, eu percebi que viver solteira e sem sexo me faria mais feliz que qualquer relacionamento romântico que pudesse ter. Eliminar o sexo e o romance, e principalmente o pensamento e a busca dessas coisas, de minha lista de preocupações abriu tremendo espaço mental em mim, espaço que era usado para planejar, analisar, lamentar e agonizar.
Fui inspirada por monges e monjas que conheço, e pela promessa de Buddha, que embora uma vida celibatária possa parecer drasticamente reduzida vista pelo exterior, a vida interior do renunciante floresce e se expande exponencialmente. Minha existência como mãe que trabalha e mora numa cidade me impede de fazer a maior parte do que monges e monjas fazem durante um dia num monastério, mas o celibato é um pedaço da vida monástica, juntamente com a meditação, que posso praticar na privacidade de meu próprio lar.
Tive relacionamentos, lícitos e não lícitos; tive dois filhos a quem amo; e nunca pensei seriamente no celibato até passar por algumas experiências na vida.Quando eu era mais jovem, ficar bêbada, matar insetos, trazer para casa objetos do escritório, dizer mentiras e dormir com pessoas que nada tinham a ver comigo faziam parte de minha vida.
Até mesmo o casamento foi acompanhado de segredos, traição, ressentimento e insatisfação. Achei que podia adotar os preceitos budistas intelectualmente e segui-los quando fosse conveniente.
Levei muito tempo para ver como eu causava sofrimento a mim mesma, e estava arrastando as pessoas que amo comigo. Eu meditava mas não via resultados. Finalmente, comecei a prestar atenção no chicote que cortava minha carne. Seguir os preceitos requer constante automonitoramento, discernimento e esforço. Mas com o tempo, violar os preceitos é que se torna difícil.
O celibato, no budismo, é descrito como levando à “libertação do perigo, da inimizade e opressão.” Desde que me tornei celibatária, tenho experimentado um sentimento de leveza e conforto que não conhecia antes. Minha concentração se tornou mais estável e algo da energia em meu corpo parece ter se transformado numa vitalidade mais luminosa e profunda.
Nossa sociedade celebra o ideal do prazer sexual como superior a toda forma de gratificação – é a máquina feroz da cultura do consumismo e permeia todo aspecto da produção cultural. Nesse contexto, o celibato tem principalmente um significado ruim. É certo que a desilusão e a repressão gostam de se disfarçar de castidade.
Quando um professor budista examina se um estudante deve ou não se tornar celibatário, ele o adverte para examinar sua intenção com cuidado. “É algo para o qual está preparado? Ou está usando isso para se distanciar de algo doloroso?”
Às vezes me pergunto se o celibato vai me parecer diferente quando meus filhos saírem de casa e eu não tiver o constante calor de sua presença, e minha atenção não mais for atraída para o dia-a-dia de suas vidas.
Com ou sem celibato, a felicidade vem e se vai. Meu mundo do lar ainda acena. A panela espera na pia. As crianças têm seus deveres de escola, seus estresses e demandas. Meu aluguel está vencido. Mas o futuro, minha mente e minha respiração são totalmente meus.


5.6.19

ENSINAMENTOS DE MEU GURU - Nisargadatta Maharaj




Quando encontrei meu guru, ele me disse: "Você não é o que acha que é. Encontre o que você é. Observe a sensação “Eu sou”, encontre seu verdadeiro Eu”. Eu obedeci, porque confiava nele. Fiz como ele me disse. Todo meu tempo livre eu passava olhando para mim mesmo em silêncio. E que diferença isso fez, e muito depressa!

Meu guru me disse para agarrar a sensação “Eu sou” tenazmente e não me desviar dela nem por um momento. Fiz o melhor que pude para seguir seu conselho e em pouco tempo realizei dentro de mim mesmo a verdade de seu ensinamento. Tudo que eu fazia era relembrar seu ensinamento, sua face, suas palavras constantemente. Isso trouxe um fim à mente; na quietude da mente vi a mim mesmo como Eu Sou.

Simplesmente segui a instrução de meu mestre para focalizar a mente no puro ser “Eu sou”, e permanecer nele. Eu costumava sentar-me horas seguidas, com nada em minha mente a não ser “Eu sou” e logo a paz, a alegria e um profundo amor se tornaram meu estado normal. Nesse estado tudo desaparecia – eu mesmo, meu guru, a vida que eu vivia, o mundo ao meu redor. Apenas a paz permanecia, bem como um silêncio insondável.

Imagem relacionada  Nisargadatta ao centro

Meu guru me ordenou para prestar atenção à sensação “Eu sou” e a nada mais. Simplesmente obedeci. Não pratiquei nenhum pranayama, meditação ou estudo das escrituras. Qualquer coisa que acontecia, eu tirava minha atenção daquilo e permanecia na sensação “Eu sou”. Isso pode parecer muito simples, até mesmo grosseiro. Minha única razão para fazer isso era que meu guru me tinha dito para fazer. E mesmo assim funcionou! A obediência é um poderoso solvente de todos os desejos e medos.

Não há propósito em nada que faço. As coisas acontecem por si mesmas, não porque as faço acontecer, mas porque Eu Sou elas acontecem. Na realidade nada jamais acontece. Quando a mente está inquieta, ela faz a dança de Shiva, como as águas inquietas de um lago fazem a dança da lua. É tudo aparência, devido a ideias erradas.

Em qualquer papel que esteja representando e qualquer função que realize, permaneço o que sou: o “Eu sou” imóvel, inabalável, independente.

Quando digo “Eu sou”, não me refiro a uma entidade separada com um corpo como seu núcleo. Eu me refiro à totalidade do ser, ao oceano da consciência, ao universo inteiro de tudo que existe e conhece. Nada tenho a desejar, pois estou completo para sempre.

As palavras escondem seu vazio. O real não pode ser descrito, ele deve ser experimentado. Não posso encontrar palavras melhores para o que sei. O que digo pode parecer ridículo. Mas o que as palavras transmitem é a mais alta verdade. Tudo é um, e tudo é feito para satisfazer a fonte única e meta de todo desejo, a qual todos conhecemos como o “Eu sou”.

Resultado de imagem para meditação eu sou

Assim como o sol é refletido em um bilhão de gotas de orvalho, assim aquilo que é sem tempo é eternamente repetido. Quando repito: “Eu sou, Eu sou”, simplesmente reafirmo um fato sempre presente. Vocês se cansam de minhas palavras porque não veem a verdade viva atrás delas. Entrem em contato com essa verdade e descobrirão o pleno significado das palavras e do silêncio – ambos.

Confiei em meu guru. O que ele me disse para fazer, eu fiz. Disse que me concentrasse no “Eu sou” – eu o fiz. Disse-me que “Eu sou” está além de tudo que é percebido e pensado – eu acreditei. Você pode escolher o caminho espiritual que melhor se adequa a você. Sua determinação em seguir esse caminho vai determinar o grau de seu progresso.

Em primeiro lugar, estabeleça um contato constante com seu ser interior, esteja com seu ser o tempo todo. Na autoconsciência todas as bênçãos fluem. Comece como um centro de observação, de deliberado conhecimento, e cresça até tornar-se um centro de amor em ação. “Eu sou” é uma pequena semente que vai crescer até se tornar uma poderosa árvore – de modo completamente natural, sem nenhum esforço.

Estabeleça-se firmemente na consciência do “Eu sou”. Este é o começo e também o fim de todo esforço.

Resultado de imagem para i am meditation

Agarre-se à sensação do “Eu sou” excluindo tudo o mais. Quando a mente se torna assim completamente silenciosa, ela brilha com uma nova luz e vibra com um novo conhecimento. Tudo vem espontaneamente, você apenas precisa agarrar-se ao “Eu sou”.

Recuse todos os pensamentos, exceto um: o pensamento “Eu sou”. A mente vai se rebelar no início, mas com paciência e perseverança ela vai se submeter e se aquietar. Quando você estiver na quietude, as coisas começam a acontecer espontânea e naturalmente, sem nenhuma interferência de sua parte.

Apenas mantenha na mente o sentimento “Eu sou”, mergulhe nele, até que sua mente e seu sentimento se tornem um. Através de repetidas tentativas você vai se estabelecer no correto equilíbrio entre atenção e afeição e sua mente estará firmemente concentrada no pensamento-sentimento “Eu sou”. Em tudo que você pensar, disser ou fizer, essa sensação imutável e afetiva de ser permanece como o pano de fundo sempre presente de sua mente.

Para saber quem você é, deve primeiro investigar e saber o que não é. E para saber o que você não é, deve observar cuidadosamente a si mesmo, rejeitando tudo que necessariamente não acompanha o fato básico: “Eu sou”. Separe de modo consistente e perseverante o “Eu sou” de “isso” ou “aquilo”, e tente sentir o que significa “ser”, apenas “ser”, sem ser “isto” ou “aquilo”.

Deixe de lado todas as questões, exceto uma: “Quem sou eu?” Afinal, o único fato do qual está seguro é que “você é”. O “Eu sou” é certo. O “Eu sou isto” não é. Lute para descobrir quem você é na realidade.

Resultado de imagem para i am meditation

Apegue-se a uma coisa, à coisa que importa, apegue-se ao “Eu sou” e deixe de lado tudo o mais. Isso é sádhana. Na realização nada existe a que se agarrar e nada para esquecer. Tudo é conhecido, nada é lembrado. Apenas se lembre. “Eu sou” é suficiente para curar sua mente e leva-lo além. Apenas tenha confiança.

Pare de buscar e veja – está aqui e agora, é aquele “Eu sou” que você conhece tão bem. Você não pode realmente dizer “isto é o que eu sou”. Não faz nenhum sentido. “Eu sou” é conhecimento de primeira mão e não precisa de provas. Permaneça nesse conhecimento.
Fique satisfeito com aquilo do qual você tem certeza. E a única coisa de que você tem certeza é “Eu sou”. Permaneça nesse estado e rejeite tudo o mais. Isso é Yoga.

Volte para aquele estado de puro ser, onde o “Eu sou” ainda está em sua pureza antes de ser contaminado com “Eu sou isto” ou “Eu sou aquilo”. A carga da sua vida é devida a falsas auto-identificações – abandone-as todas.

Você não percebe que é sua própria busca por felicidade que o faz sofrer? Tente uma outra maneira: indiferença à dor e ao prazer, nem buscando nem recusando, coloque toda sua atenção no nível onde o “Eu sou” está eternamente presente. Logo você realizará que a paz e a felicidade estão em sua própria natureza e que é apenas por procura-las através de alguns canais particulares que perturba você. 

Dê seu coração e sua mente ao pensamento sobre o “Eu sou”, o que ele é, como ele é, qual é sua fonte, sua vida, seu significado. É bem parecido a cavar um poço. Você rejeita tudo que não é água, até alcançar a fonte da vida.

Resultado de imagem para i am meditation

O “Eu sou” que busca o prazer e evita a dor é falso; o “Eu sou” que vê que prazer e dor são inseparáveis vê corretamente. Aqueles que praticam o sádhana de concentrar suas mentes no “Eu sou” podem sentir-se relacionados a outros que têm seguido o mesmo sádhana e foram bem sucedidos.

Não se preocupe com suas preocupações. Apenas “seja”. Não tente aquietar a mente; não faça do “estar quieto” uma tarefa a ser realizada. Não fique inquieto sobre “estar quieto” nem fique infeliz sobre “ser feliz”. Apenas esteja consciente de quem você é e permaneça consciente. Não diga “Sim, eu sou; e agora?” Não há nada depois no “Eu sou”. É um estado atemporal.

A sensação “Eu sou” é algo minúsculo, um ponto, um átomo. A luz pela qual você vê o mundo, é este minúsculo ponto “Eu sou”, aparentemente tão pequeno, e ainda assim a primeira e última coisa em todo ato de conhecer e amar.

Sem o “Eu sou”, nada existe. Fora do Eu nada existe. Tudo é um e está contido no “Eu sou”. O “Eu sou” em movimento cria o mundo. O “Eu sou” em paz se torna o Absoluto. O “Eu sou” é o fato final; “Quem sou eu?” é a pergunta final para a qual todos devem encontrar uma resposta.

Você já experimentou tantas coisas, tudo se tornou nada. Apenas a sensação “Eu sou” persistiu, imutável. Permaneça com o que é imutável entre as coisas mutáveis, até que seja capaz de ir além.

Imagem relacionada

Existem muitos caminhos na vida espiritual – todos levam à mesma meta. Você pode começar com serviço inegoísta, abandonando os frutos da ação. Ou você pode eliminar os pensamentos ou os desejos. Ou pode agarrar-se ao pensamento-sentimento “Eu sou”. Todo tipo de experiência pode vir a você; permaneça firme no conhecimento de que tudo que se percebe com os sentidos é transitório, e que apenas o “Eu sou” permanece.

Vá para casa, cuide dos negócios de seu pai, cuide de seus pais em sua velhice. Case-se com a garota que o está esperando, seja leal, seja simples, seja humilde. Esconda sua virtude, viva silenciosamente. E que “Eu sou” seja seu grande mantra.


O NASCIMENTO DA TRADIÇÃO NATH – Swami Nirmalananda




Certa vez um jovem andava pelas montanhas dos Himalayas, na Índia. Havia algum tempo que ele não tinha visto ninguém, mas certo dia ouviu um fraco som de uma voz humana. Seguindo-o, viu à distância algumas pessoas sentadas perto de um rio. Entrando na água, começou a nadar em direção a elas no lado oposto do rio.

Naquele lado do rio, cresciam juncos e, assim, sem ser visto, ele se aproximou daquelas pessoas. E logo começou a entender o que estava sendo dito.

Fascinado pelas palavras do orador, chegou tão perto quanto pôde e durante longo tempo permaneceu absorto nas coisas maravilhosas que estavam sendo faladas. A ciência do yoga estava sendo exposta pelo mestre a seus discípulos.

Então ouviu o mestre dizer: “Há um ‘peixe’ nos juncos ali, ouvindo tudo que estou dizendo. Por que ele não vem e se junta a nós?” Ele fez como sugerido e se tornou um residente no ashram do mestre, aprendendo filosofia e yoga.

 Imagem relacionada O Ganges nos Himalayas

Após diligente prática de meditação por algum tempo, o mestre lhe pediu para voltar às planícies e ensinar o yoga a quem desejasse aprender. Ele recebeu um novo nome, Matsyendranath. (Matsyendra é composta de duas palavras: matsya que significa peixe e Indra que é o rei dos seres celestiais. Nath significa mestre).

Não se sabe qual era o nome do mestre. Matsyendranath e seus discípulos apenas referiam-se a ele como Adi Nath (o Primeiro Mestre). Alguns creem que Adi Nath era o próprio Shiva ensinando yoga, ou talvez o grande e antigo mestre Sanatkumara.

Matsyendra andou por toda a Índia, ensinando aqueles que estavam despertos o suficiente para desejar e compreender o caminho do yoga.

 Imagem relacionada  Matsyendranath

Um dia, em suas andanças, chegou numa casa onde a esposa do proprietário lhe deu algo para comer e lhe fez um pedido: que ele a abençoasse para ter um filho. Então ele a abençoou e lhe deu um pouco de cinzas de uma fogueira sagrada, dizendo-lhe que engolisse.

Depois disso, partiu. A mulher seguiu suas instruções e logo concebeu e deu à luz a uma criança do sexo masculino. Vários anos mais tarde Matsyendra voltou lá novamente e viu o garotinho próximo à casa. Ele lhe disse que fosse chamar sua mãe, e quando ela veio lhe perguntou se ela se lembrava dele, recebendo sim como resposta.

Apontando o garoto, ele disse: “Este é meu filho. Vim busca-lo.” A mulher concordou e Matsyendra partiu com o garoto, a quem chamou de Gorakhsha (guardião da luz).

Goraksha com o tempo se tornou Gorakshanath – comumente chamado Gorakhnath – o maior yogue da história da Índia. Em toda parte do país há histórias falando sobre sua permanência naquelas áreas. Ele também viveu no Nepal, Tibet, Ladakh e Bhutan.

 Resultado de imagem para gorakhnath  Gorakhnath

Há santuários e templos dedicados a ele em todos esses países. Seu maior templo fica em Gorakhpur, cidade onde nasceu Paramahansa Yogananda.

Considerando-se todo o folclore a seu respeito, Gorakhnath deve ter vivido pelo menos duzentos a trezentos anos, e muitos declaram que ele nunca deixou o corpo, e que está vivendo nesse momento nos Himalayas.

Gorakhnath teve muitos discípulos, e muitos deles atingiram a iluminação. Eles foram os primeiros membros da Nath Yogi Sampradaya (tradição dos yogues Nath). Essa tradição com o tempo contou entre seus membros com o grande sábio Patânjali, fundador da filosofia do yoga e autor dos Yoga Sutras, e com Jesus de Nazareth (chamado de Sri Ishanath enquanto esteve na Índia dos treze aos trinta anos de idade).

Durante muitos séculos, a maioria dos monges da Índia eram NathYogues, mas no século 19 houve um grande declínio em seu número, o qual continua ainda hoje a diminuir. Entretanto existem vários grupos de “Nath Panthis” que seguem a filosofia e o yoga de Matsyendranath e Gorakhnath, e portanto estão envolvidos com o mantra Soham como o centro de suas práticas espirituais.

Soham significa: Eu Sou Aquele. É a vibração natural do Eu eterno, que ocorre espontaneamente com a inspiração e expiração durante a respiração. Tornando-se consciente disso através da repetição mental acompanhando a respiração (So quando inala e Ham quando exala), o yogue experimenta a identidade entre seu Eu individual e o Eu Supremo.

 Resultado de imagem para soham meditation

De acordo com os Nath yogues, Soham existiu dentro das profundidades da Divindade desde a eternidade; e o mesmo é verdadeiro com relação a cada ser vivo. Soham, portanto, revela nosso ser interior. Meditando em Soham descobrimos nosso Eu interior que é eterno. A simples entonação de Soham juntamente com a respiração, com o passar do tempo, fará tudo no desenvolvimento da consciência espiritual do yogue.

A prática é muito simples e os resultados muito profundos. Soham Yoga pode acontecer a todo momento, não apenas durante a meditação, se nos dedicarmos a esse mantra. A vida toda se torna uma corrente contínua de prática liberadora.

Quando repetimos Soham juntamente com a respiração, naturalmente, sem força-la, estamos invocando nosso ser eterno. Por isso precisamos apenas ouvir nosso canto mental de Soham acompanhando a respiração, que em si mesma é Soham.

O mais importante é que Soham Yoga realmente funciona. Apenas é necessário perseverança.