17.6.19

BUDISMO E CELIBATO – Mary Talbot



Sendo celibatária budista, sempre ouço de amigos e colegas, incluindo alguns budistas, que provavelmente ainda estou abalada pelo fim de meu casamento (que acabou há sete anos atrás), que mudarei de ideia sobre o celibato, que não sei que irresistível ligação romântica o futuro pode me trazer, que estou silenciando meus reais sentimentos.

Abster-se de toda atividade sexual é um dos oito preceitos seguidos por budistas leigos durante certos dias do ciclo lunar, ou por dedicados monges, afiliados a monastérios, que querem devotar toda sua energia para meditação e estudo.
Seguir estes preceitos parece algo aberrante às pessoas. A maior parte de nós opera com a ideia de que devemos viver a dois  para sermos felizes. A palavra celibato, de fato, significa “estar só”, e solidão é algo que buscamos evitar.
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Em nenhum lugar nos ensinamentos de Buddha, ele proíbe as pessoas leigas de terem sexo, ou lhes diz que o celibato é um pré-requisito para a iluminação. Ao contrário, os ensinamentos estão cheios de histórias sobre os benefícios da prática sexual dentro dos limites de um relacionamento estável e respeitável.
O mestre tailandês Ajahn Maha Boowa comparou o sexo conjugal ao fogo da cozinha: “Ambos são necessários para estabelecer e manter uma família bem-sucedida,” ele disse. “O casamento é necessariamente uma parceria sexual, enquanto o fogo da cozinha é indispensável para preparar o alimento da família. Se ambos são usados com cuidado, podem preencher as necessidades básicas das pessoas na vida.”
Mas se Buddha deixou as pessoas leigas fazerem suas próprias escolhas no campo do sexo e do romance, sua visão do celibato para os monásticos era clara. Ele ensinou que a atividade sexual era parte do desejo sensual, que é uma das causas do sofrimento e do apego, um obstáculo à meditação e à liberação.
Potaliya Sutta, por exemplo, usa uma série de analogias para descrever a frustração de buscar felicidade confiável no prazer sensório. “Suponha um cão esfomeado entrando num açougue, e ali lhe dão alguns ossos, sem nenhuma carne. O cão poderá satisfazer sua fome?” Porque aqueles ossos não oferecem nenhum alimento, assim como os prazeres sensórios, o cão não satisfará sua fome.
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Do mesmo modo, eu percebi que viver solteira e sem sexo me faria mais feliz que qualquer relacionamento romântico que pudesse ter. Eliminar o sexo e o romance, e principalmente o pensamento e a busca dessas coisas, de minha lista de preocupações abriu tremendo espaço mental em mim, espaço que era usado para planejar, analisar, lamentar e agonizar.
Fui inspirada por monges e monjas que conheço, e pela promessa de Buddha, que embora uma vida celibatária possa parecer drasticamente reduzida vista pelo exterior, a vida interior do renunciante floresce e se expande exponencialmente. Minha existência como mãe que trabalha e mora numa cidade me impede de fazer a maior parte do que monges e monjas fazem durante um dia num monastério, mas o celibato é um pedaço da vida monástica, juntamente com a meditação, que posso praticar na privacidade de meu próprio lar.
Tive relacionamentos, lícitos e não lícitos; tive dois filhos a quem amo; e nunca pensei seriamente no celibato até passar por algumas experiências na vida.Quando eu era mais jovem, ficar bêbada, matar insetos, trazer para casa objetos do escritório, dizer mentiras e dormir com pessoas que nada tinham a ver comigo faziam parte de minha vida.
Até mesmo o casamento foi acompanhado de segredos, traição, ressentimento e insatisfação. Achei que podia adotar os preceitos budistas intelectualmente e segui-los quando fosse conveniente.
Levei muito tempo para ver como eu causava sofrimento a mim mesma, e estava arrastando as pessoas que amo comigo. Eu meditava mas não via resultados. Finalmente, comecei a prestar atenção no chicote que cortava minha carne. Seguir os preceitos requer constante automonitoramento, discernimento e esforço. Mas com o tempo, violar os preceitos é que se torna difícil.
O celibato, no budismo, é descrito como levando à “libertação do perigo, da inimizade e opressão.” Desde que me tornei celibatária, tenho experimentado um sentimento de leveza e conforto que não conhecia antes. Minha concentração se tornou mais estável e algo da energia em meu corpo parece ter se transformado numa vitalidade mais luminosa e profunda.
Nossa sociedade celebra o ideal do prazer sexual como superior a toda forma de gratificação – é a máquina feroz da cultura do consumismo e permeia todo aspecto da produção cultural. Nesse contexto, o celibato tem principalmente um significado ruim. É certo que a desilusão e a repressão gostam de se disfarçar de castidade.
Quando um professor budista examina se um estudante deve ou não se tornar celibatário, ele o adverte para examinar sua intenção com cuidado. “É algo para o qual está preparado? Ou está usando isso para se distanciar de algo doloroso?”
Às vezes me pergunto se o celibato vai me parecer diferente quando meus filhos saírem de casa e eu não tiver o constante calor de sua presença, e minha atenção não mais for atraída para o dia-a-dia de suas vidas.
Com ou sem celibato, a felicidade vem e se vai. Meu mundo do lar ainda acena. A panela espera na pia. As crianças têm seus deveres de escola, seus estresses e demandas. Meu aluguel está vencido. Mas o futuro, minha mente e minha respiração são totalmente meus.


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