15.7.19

A MULHER NO TANTRA – André Van Lysebeth



Deusa-mãe, iniciadora, origem de toda vida, fonte de prazer, caminho para a transcendência: a mulher e seus mistérios estão no coração do Tantra, são a essência de sua mensagem milenar.

O Kaulavati Tantra diz: “É preciso prosternar-se ante toda mulher, seja jovem em seu esplendor juvenil ou seja velha, seja formosa ou feia, boa ou má. Jamais se deve abusar dela, maldizê-la ou causar-lhe dano, jamais se deve golpeá-la. Tais atos tornam impossível todo progresso espiritual”.

O culto que o Tantra dedica à mulher supera, de longe, tudo que os movimentos de liberação feminina reclamam. Para o Tantra, é essencial antes de tudo que a Mulher emerja da mulher, que ela compreenda o que ela verdadeiramente é.

Para o tântrico, toda mulher encarna a Shakti, a Deusa. Para ele, ela não é um objeto sensual que se deve cortejar para obter seus favores. Com ele, a mulher nada tem a temer: estará segura, será livre para comportar-se como quiser. Respeitada, em nenhum momento será importunada.

No tantrismo, a mulher deve converter-se na “verdadeira Mulher” que se atreve a explorar as profundezas de seu ser para descobrir ali seus fundamentos últimos.

Ela é a deusa, isto é, a encarnação da energia cósmica última, viva e presente, ainda que não estejamos conscientes disso. Para o homem, o mistério da mulher é sua natureza fantástica, irracional, imprevisível, que a faz impossível de capturar. Seu verdadeiro mistério é o mistério da Vida, pois a vida pessoal começa no ventre da mãe.

A mãe é infinitamente mais que uma incubadora ambulante, ainda que seu pequeno eu consciente não pense nisso. Seu mistério é a força criadora que nela existe. O tântrico percebe que, no ventre da mulher, aquilo que produz o óvulo é o poder criador último. É ali, na obscuridade cálida de seu ventre, onde as forças cósmicas primordiais surgem, seja o óvulo fecundado ou não.

Captar o que atua verdadeiramente no útero é compreender o mistério do universo. Este fantástico dinamismo criador que suscita os átomos e as galáxias, que faz germinar o trigo e proliferar as bactérias, está presente e ativo a todo momento, não apenas durante a gravidez, em toda mulher, em toda fêmea.

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Acaso o homem não leva também metade do capital genético? Não atuam nele as mesmas forças que atuam na mulher? Não fabrica a cada dia milhões desses torpedos da hereditariedade que são os espermatozoides? Sim, mas o plano básico de toda espécie, inclusive a humana, é feminino, biologicamente falando. O macho só foi “inventado” para disseminar os genes.

A Mulher foi a primeira religião do homem, a primeira divindade foi a deusa-mãe. Ela é Shakti, a energia primordial, de onde emerge o universo manifestado. Quem diz religião da mulher, também diz sacerdotisa e maga, isto é, intermediária cósmica.

O mistério da mulher não está limitado a seu sexo: impregna todo seu ser e seu psiquismo. A mulher é intuitiva porque é sensitiva e segue os ritmos cósmicos que capta. Conhece os segredos da vida e da saúde, das plantas e das flores. Compreende as profundezas da alma humana: através de seu inconsciente está em relação direta com as grandes correntes psíquicas que nos levam e nos trazem.

Na natureza, a mulher é o lar: para os gatinhos que mamam ronronando, pouco lhes importa o macho que os gerou. No sistema patriarcal, o macho se impõe graças a seus músculos. Mas biologicamente, o sexo dominante é a mulher, e não o homem.

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