Deusa-mãe, iniciadora,
origem de toda vida, fonte de prazer, caminho para a transcendência: a mulher e
seus mistérios estão no coração do Tantra, são a essência de sua mensagem
milenar.
O Kaulavati Tantra diz: “É
preciso prosternar-se ante toda mulher, seja jovem em seu esplendor juvenil ou
seja velha, seja formosa ou feia, boa ou má. Jamais se deve abusar dela,
maldizê-la ou causar-lhe dano, jamais se deve golpeá-la. Tais atos tornam
impossível todo progresso espiritual”.
O culto que o Tantra
dedica à mulher supera, de longe, tudo que os movimentos de liberação feminina
reclamam. Para o Tantra, é essencial antes de tudo que a Mulher emerja da
mulher, que ela compreenda o que ela verdadeiramente é.
Para o tântrico, toda
mulher encarna a Shakti, a Deusa. Para ele, ela não é um objeto sensual que se
deve cortejar para obter seus favores. Com ele, a mulher nada tem a temer:
estará segura, será livre para comportar-se como quiser. Respeitada, em nenhum momento
será importunada.
No tantrismo, a mulher
deve converter-se na “verdadeira Mulher” que se atreve a explorar as
profundezas de seu ser para descobrir ali seus fundamentos últimos.
Ela é a deusa, isto é, a
encarnação da energia cósmica última, viva e presente, ainda que não estejamos
conscientes disso. Para o homem, o mistério da mulher é sua natureza
fantástica, irracional, imprevisível, que a faz impossível de capturar. Seu
verdadeiro mistério é o mistério da Vida, pois a vida pessoal começa no ventre da
mãe.
A mãe é infinitamente mais
que uma incubadora ambulante, ainda que seu pequeno eu consciente não pense
nisso. Seu mistério é a força criadora que nela existe. O tântrico percebe que,
no ventre da mulher, aquilo que produz o óvulo é o poder criador último. É ali,
na obscuridade cálida de seu ventre, onde as forças cósmicas primordiais surgem,
seja o óvulo fecundado ou não.
Captar o que atua
verdadeiramente no útero é compreender o mistério do universo. Este fantástico
dinamismo criador que suscita os átomos e as galáxias, que faz germinar o trigo
e proliferar as bactérias, está presente e ativo a todo momento, não apenas
durante a gravidez, em toda mulher, em toda fêmea.

Acaso o homem não leva também metade do capital genético? Não atuam nele as mesmas forças que atuam na mulher? Não fabrica a cada dia milhões desses torpedos da hereditariedade que são os espermatozoides? Sim, mas o plano básico de toda espécie, inclusive a humana, é feminino, biologicamente falando. O macho só foi “inventado” para disseminar os genes.
A Mulher foi a primeira
religião do homem, a primeira divindade foi a deusa-mãe. Ela é Shakti, a
energia primordial, de onde emerge o universo manifestado. Quem diz religião da
mulher, também diz sacerdotisa e maga, isto é, intermediária cósmica.
O mistério da mulher não
está limitado a seu sexo: impregna todo seu ser e seu psiquismo. A mulher é
intuitiva porque é sensitiva e segue os ritmos cósmicos que capta. Conhece os
segredos da vida e da saúde, das plantas e das flores. Compreende as
profundezas da alma humana: através de seu inconsciente está em relação direta
com as grandes correntes psíquicas que nos levam e nos trazem.
Na natureza, a mulher é o
lar: para os gatinhos que mamam ronronando, pouco lhes importa o macho que os gerou. No sistema patriarcal, o macho se impõe
graças a seus músculos. Mas biologicamente, o sexo dominante é a mulher, e não
o homem.
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