8.7.16

O AMOR – Krishnamurti



Estranha coisa o amor, que se tornou tão respeitável: o amor a deus, o amor ao semelhante, o amor à família. Primorosamente demarcado como sacro e profano, como dever e responsabilidade, como disciplina e sacrifício, tanto os sacerdotes como os generais, ao planejarem as guerras, invocam o amor.

O ciúme e a inveja alimentam o amor, que serve de prisão a toda forma de relacionamento. Ele está nas telas do cinema, nas páginas das revistas, e cada estação de rádio e televisão o apregoa. Ao findar o objeto do amor, surge a foto emoldurada na parede, ou a imagem cultivada pela memória ou pela crença. Esses valores passam de geração a geração, sem que o sofrimento tenha fim.

A continuidade do amor resulta no prazer, sempre acompanhado da aflição; apegados ao prazer, lutamos para nos desvencilhar da dor. Através da continuidade se busca a permanência e a certeza nas relações.


Ao evitar-se qualquer mudança nas relações, fica-se enredado na sensação opressiva da segurança e na agonia do hábito. E, chamando de amor esse fluxo incessante de prazer e dor, tornamo-nos prisioneiros daquela obsessão. 

Para escapar ao tédio, buscamos refúgio na religião e no romantismo, variável de acordo com as pessoas, que em verdade é uma fuga eficaz perante o fato do prazer e da dor. Sem esquecer, é claro, deus, o maior apelo e a derradeira esperança da humanidade, e o qual se tornou tão respeitável e lucrativo.

Nada disto é amor. Não há continuidade no amor; ao contrário da memória, ele ignora o amanhã e o futuro. As recordações nascem das cinzas do passado, mas o amor é livre do jugo do tempo e desconhece a promessa, a esperança e o desespero.

O cérebro não pode conceber o amor pois este não pertence a nenhuma crença, símbolo ou sentimento. De sua eterna morte e ressurreição advém a destruição definitiva, o aniquilamento do conhecido, os quais são o próprio amor.

O DESEJO DO PODER – Krishnamurti



 
Como é estranho o desejo de poder, o poder do dinheiro, do prestígio, da capacidade, do conhecimento. Entretanto, uma vez alcançado, o poder acarreta conflito, confusão e sofrimento. 

Do eremita ao político, da dona-de-casa ao cientista, todos almejam o poder. E para alcançá-lo não hesitariam em matar ou destruir uns aos outros. O asceta conquista o poder por meio do sacrifício, do controle e da repressão; o político através de promessas, da capacidade de realização e da esperteza; o marido e a esposa mediante a dominação mútua; o sacerdote através do compromisso assumido com seu deus.

Todos anseiam pelo poder, seja ele mundano, seja espiritual, e a autoridade que dele emana gera conflito, desordem e sofrimento. Todos os que buscam ou detêm o poder da autoridade são por ele corrompidos.

O poder exercido pelo sacerdote, pela dona-de-casa, pelo líder, pelo eficiente administrador, pelo santo, ou pelo político local, é nocivo e prejudicial; quanto maior o poder, mais nefasta sua ação. O mal que ele produz contamina a quantos que, fascinados, passam a adorá-lo, apesar de trazer em seu bojo eterno conflito, dor e confusão. No entanto, ninguém ousa abandoná-lo.

Junto com o poder, vem a ambição, o desejo de fama e a crueldade, comportamento que a sociedade aprova e chega a incentivar. Esse comportamento, exaltado socialmente e até pela igreja, desvirtua e aniquila o amor.

Estimula-se a inveja e a competição, origem do medo, da guerra e do sofrimento, mas homem algum atreve-se a questionar aqueles valores.

A rejeição de qualquer forma de poder é o princípio da virtude e da lucidez, que elimina todo conflito e dor. O fim do sofrimento humano está na investigação e na compreensão do desejo e do pensamento, tarefa primordial de cada um de nós.

Devemos empreender esta tarefa sozinhos, sem ajuda de ninguém, sem seguir sistema algum, sem almejar recompensa, pois uma vez conscientes da estrutura de nosso ser, na percepção do que é, o fato se transforma.

Eliminado o desejo de poder, a confusão, o conflito e a dor, resta-nos aquilo que somos: um amontoado de memórias e uma crescente solidão. O desejo de poder e fama é uma fuga desta solidão, que emerge das cinzas da memória.

Para que se revele a verdade contida na solidão e nas cinzas da memória, deve ser espontâneo e absoluto o abandono do desejo de poder e fama. Da passiva observação do fato, sem escolha, nasce uma realidade nova.

Somente o amor torna possível o convívio, nunca o apego. Necessitamos de uma tremenda energia para convivermos com as ruínas da solidão e esta energia só pode nascer quando já não existir o temor.

Das cinzas da solidão surge o movimento original do estar só, livre de influências, de pressões, de toda forma de busca ou realização. É a morte do passado. Inicia-se então a viagem sem fim pelo desconhecido. E do que é imensurável nasce a força pura da criação.

A VIRTUDE – Krishnamurti




Somente na humildade floresce a virtude. Tampouco é virtude a moralidade social, sendo mero ajustamento a um variável padrão de ambiente ou conduta. A moral vigente, aceita pela sociedade e pela igreja, que tornam respeitável esse modelo, também nega a virtude.

Enraizada no conformismo e no desejo de recompensa ou medo à punição, esta moralidade pode ser ensinada e praticada, modelando a sociedade, através da influência e da propaganda, responsável por inúmeros padrões de conduta.

Mas a virtude não é produto do tempo ou de circunstâncias. Ela não pode ser cultivada, e não admite controle ou disciplina. Espontânea e gratuita, é impossível conceder-lhe a marca da respeitabilidade, ou dividi-la em bondade, caridade, amor fraternal e assim por diante. 

A virtude não é produto do ambiente, da riqueza, ou da pobreza, da abstinência ou de algum dogma. Ela não nasce da astúcia nem do pensamento ou da emoção. Tampouco resulta da revolta contra a moral social; sendo uma reação do pensamento, a revolta é mera continuidade modificada do que foi.

Se cultivada, torna-se a humildade orgulho disfarçado, na ânsia de tornar-se respeitável. Assim como é impossível o amor transformar-se em ódio, a vaidade jamais se tornará humildade. 

Pelo ideal da não-violência não se elimina a violência; esta simplesmente tem de findar. A humildade não é um ideal por alcançar, pois todos os ideais são falsos, sendo o fato a única verdade.

A humildade não é o oposto do orgulho; ela simplesmente não tem oposto. Todos os opostos se inter-relacionam, mas nada há de comum entre humildade e orgulho. O orgulho cessa não por ato voluntário, mediante a disciplina ou o desejo de lucro, mas na chama da atenção.

Termina o orgulho ao compreendermos toda sua atividade. Essa compreensão vem com a passiva observação dos mínimos movimentos do orgulho. Tal observação é do presente e não pode ser exercitada ou praticada, pois nesse caso seria uma astúcia do pensamento, incapaz de suscitar a humildade.

A atenção origina-se do silêncio e da extrema sensibilidade e imobilidade do cérebro. Desse estado brotam a humildade e a virtude que dão nascimento à bondade e à caridade. Não há virtude sem humildade.

OS LIMITES DO CÉREBRO – Krishnamurti



 
Como é limitado o cérebro, por mais cultivado ou requintado que seja! Nada dissipa sua mediocridade. Ainda que o cérebro vá à lua, explore o universo ou as profundezas da terra, projete e monte o mais complexo maquinismo, inclusive computadores capazes de inventar novos computadores, e mesmo que ele venha a causar sua própria destruição e ressurreição, nada disso o livrará da mediocridade.

O cérebro só é capaz de funcionar no tempo e no espaço, toda filosofia é limitada por seu próprio condicionamento e as teorias e especulações são urdidas por sua astúcia.

É inútil qualquer tentativa de fuga de si mesmo. Seus deuses e redentores, seus mestres e líderes têm a medida de sua própria mediocridade. Em seu esforço para superar a estupidez, a eficácia é determinada pelo grau de sua astúcia. Ora buscando, ora pressionado, o cérebro vive na sombra de seu próprio sofrimento, incapaz de transcender sua futilidade.

A incessante atividade do cérebro, na busca de suas projeções, é inação. As reformas postas em prática estão sempre precisando de novas reformas. Acorrentado ao círculo vicioso da ação e da inação, o pensamento é o desdobramento de seus sonhos.



Ativo ou inerte, nobre ou ignóbil, é infinita sua superficialidade. Incapaz de escapar de si mesmo, vive na sordidez de sua virtude e moralidade. Só lhe resta permanecer completamente imóvel, o que não deve ser confundido com inércia ou indolência. Esta imobilidade é a única maneira de se preservar a sensibilidade do cérebro.

Na renúncia de si mesmo e na rejeição de suas atividades, cessam suas habituais e defensivas reações, bem como o vício de julgar, condenar ou justificar. E é nessa renúncia que a mediocridade desaparece e cessa o movimento do vir-a-ser, do desejo do preenchimento.

Revela-se então o que é: trata-se de um instrumento mecânico, inventivo, calculista, funcional, cuja perfeição é assombrosa. Como toda máquina, o cérebro é passível de desgaste e morte; torna-se medíocre ao tentar penetrar no insondável mistério do desconhecido, do imensurável. O conhecido é seu elemento, e lhe é vedado atuar no incognoscível.

Suas criações pertencem ao campo do conhecido, mas nem a palavra nem as imagens podem captar o mistério da criação. Jamais ele conhecerá esta beleza, pois a imensidão do indescritível somente aflora na completa imobilidade do cérebro.


5.7.16

O SUCESSO – Krishnamurti



 
O sucesso é brutal. Tanto no campo político quanto no religioso, como na arte ou no mundo dos negócios. A conquista do sucesso conduz à ausência de compaixão.

O poder emana da ação, do status, da virtude, da dominação etc. São maléficas todas estas formas de poder. Corrompem e pervertem. O uso do dinheiro, do talento, da habilidade para obter o poder, ou o poder que disso emana, são sempre danosos.


Existe porém um poder inteiramente diferente dessa força nociva. Ele não se adquire com sacrifício, virtude, boas ações ou crenças, nem tampouco mediante a adoração, as preces e meditações que visem ao auto-esquecimento ou à autodestruição. Todo esforço para ser ou para vir a ser alguém deve cessar naturalmente. Só assim poderá existir aquela força que não representa o mal. Não a força desenvolvida pela vontade e pelo desejo, mas a existente num rio, numa montanha, numa árvore. 

O homem adquire essa energia ao libertar-se de toda forma de desejo e de vontade; isso não tem valor, não traz lucro ao ser humano, mas sem ela o homem nada significa, nem a árvore. É a essência da vida.
  

A POSSE – Krishnamurti



 
Amor não é apego. O amor não gera sofrimento. Ele desconhece o desespero ou a esperança. É impossível tornar o amor respeitável ou ajustá-lo ao esquema social. Em sua ausência, toda forma de agonia se instala.

Possuir e ser possuído são consideradas formas de amor. A ânsia de possuir uma pessoa ou um objeto não é apenas uma das exigências sociais e das circunstâncias, mas brota de uma fonte bem mais profunda. Surge das profundezas da solidão. Cada um procura preencher esta solidão de diferentes modos: bebendo, seguindo uma religião, adotando uma crença ou exercendo uma atividade qualquer. Apesar dessas fugas, a solidão permanece.

Entretanto, nada possuir, nem mesmo uma idéia e muito menos uma pessoa ou uma coisa, é um estado extraordinário. Sempre que a idéia ou o pensamento criam raízes, existe a posse; e daí nasce a luta pela libertação. Mas essa liberdade não é liberdade nenhuma, mas sim mera reação.




O CÉREBRO – Krishnamurti



O cérebro deixou de ser primitivo, mas ainda que refinado, inteligente ou técnico, permanecerá sempre dentro dos limites do tempo e do espaço.

Ser anônimo é ser humilde; não consiste isso na mudança de nome ou de vestuário, nem na identificação com o que pode ser anônimo, com um ideal, um ato heróico, a pátria etc. – esse anonimato foi criado pelo cérebro, é um anonimato consciente. Existe, porém, o anonimato que surge com a percepção do absoluto. O absoluto nunca se encontra na área do cérebro ou da idéia.



Reformas sociais ou econômicas acarretam mudanças superficiais de maior ou menor alcance, mas sempre dentro do limitado campo do pensamento. Para que ocorra a revolução total, o cérebro tem de renunciar à sua íntima e secreta estrutura de autoridade, de inveja, do medo e assim por diante.

O controle, sob qualquer forma, prejudica a compreensão global. O conformismo é a conseqüência de uma existência disciplinada; e ele jamais nos liberta do medo. O hábito destrói a liberdade; o hábito de pensar, de beber e outros mais, conduzem a uma vida superficial e enfadonha. A religião organizada, com suas crenças, dogmas e rituais, impede o livre ingresso na vastidão da mente. É esta penetração que purifica o cérebro e dele elimina a noção do tempo e do espaço.