Como
é limitado o cérebro, por mais cultivado ou requintado que seja! Nada dissipa
sua mediocridade. Ainda que o cérebro vá à lua, explore o universo ou as
profundezas da terra, projete e monte o mais complexo maquinismo, inclusive
computadores capazes de inventar novos computadores, e mesmo que ele venha a
causar sua própria destruição e ressurreição, nada disso o livrará da
mediocridade.
O
cérebro só é capaz de funcionar no tempo e no espaço, toda filosofia é limitada
por seu próprio condicionamento e as teorias e especulações são urdidas por sua
astúcia.
É
inútil qualquer tentativa de fuga de si mesmo. Seus deuses e redentores, seus
mestres e líderes têm a medida de sua própria mediocridade. Em seu esforço para
superar a estupidez, a eficácia é determinada pelo grau de sua astúcia. Ora
buscando, ora pressionado, o cérebro vive na sombra de seu próprio sofrimento,
incapaz de transcender sua futilidade.
A
incessante atividade do cérebro, na busca de suas projeções, é inação. As
reformas postas em prática estão sempre precisando de novas reformas.
Acorrentado ao círculo vicioso da ação e da inação, o pensamento é o
desdobramento de seus sonhos.
Ativo
ou inerte, nobre ou ignóbil, é infinita sua superficialidade. Incapaz de
escapar de si mesmo, vive na sordidez de sua virtude e moralidade. Só lhe resta
permanecer completamente imóvel, o que não deve ser confundido com inércia ou
indolência. Esta imobilidade é a única maneira de se preservar a sensibilidade
do cérebro.
Na
renúncia de si mesmo e na rejeição de suas atividades, cessam suas habituais e
defensivas reações, bem como o vício de julgar, condenar ou justificar. E é
nessa renúncia que a mediocridade desaparece e cessa o movimento do vir-a-ser,
do desejo do preenchimento.
Revela-se
então o que é: trata-se de um instrumento mecânico, inventivo, calculista,
funcional, cuja perfeição é assombrosa. Como toda máquina, o cérebro é passível
de desgaste e morte; torna-se medíocre ao tentar penetrar no insondável
mistério do desconhecido, do imensurável. O conhecido é seu elemento, e lhe é
vedado atuar no incognoscível.
Suas
criações pertencem ao campo do conhecido, mas nem a palavra nem as imagens
podem captar o mistério da criação. Jamais ele conhecerá esta beleza, pois a
imensidão do indescritível somente aflora na completa imobilidade do cérebro.

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