28.7.16

A VIDA ESPIRITUAL NA ÉPOCA DE BUDDHA - A Mãe, do Sri Aurobindo Ashram

Na época de Buddha, viver uma vida espiritual era uma alegria, uma beatitude, o estado mais feliz, que te libertava de todos os problemas do mundo, de todas as preocupações, e te fazia feliz, satisfeito, contente.

Foi o materialismo dos tempos modernos que transformou o esforço espiritual em dura luta e sacrifício, uma dolorosa renúncia às chamadas alegrias da vida. Essa insistência na exclusiva realidade do mundo físico, dos prazeres físicos, alegrias físicas, possessões físicas, é o resultado de toda a tendência materialista da civilização humana.

Nos tempos antigos, isso era impensável. Recolher-se, concentrar-se, libertar-se de toda preocupação material, consagrar-se à alegria espiritual, isso sim era felicidade. Desse ponto de vista, é evidente que a humanidade está longe de ter progredido; e aqueles nascidos neste mundo no centro da civilização material têm em seu subconsciente essa horrível noção de que apenas as realidades materiais são verdadeiras, e que preocupar-se com coisas que não são materiais representa um espírito de sacrifício, um esforço quase sublime.

Não estar preocupado, da aurora ao ocaso e do ocaso à aurora, com todas as pequenas satisfações físicas, prazeres físicos, sensações físicas, preocupações físicas, é a marca de um grande espírito.

Toda a civilização moderna foi construída sobre esse conceito: “O que você pode tocar é verdadeiro; o que pode ver é verdadeiro; mas o resto... não sabemos se são sonhos vãos, ou se estamos deixando o real pelo irreal, a substância pela sombra. Além do mais, o que iremos ganhar? Uns poucos sonhos! Mas se você tem algumas moedas em seu bolso, pode ter a certeza que elas estão ali!”

Tornar-se um pouco mais consciente de si mesmo, entrar em relação com a vida por trás das aparências, não mais parecem ser o maior bem. Mas se você se senta numa poltrona confortável defronte a uma bela refeição, quando enche seu estômago com belos pratos, isso lhe parece muito mais concreto e interessante.

E se você olha para o dia que passou e vê que teve alguma vantagem material, algum prazer ou satisfação física, você o considera um bom dia; mas se recebeu uma boa lição da vida, se a vida lhe deu um soco no nariz para lhe mostrar que é uma pessoa estúpida, você não agradece à Graça Divina; você diz: “Oh, a vida não é sempre diversão”.

Como estamos longe dos tempos em que um pastor, que não ia à escola e ficava vigiando seu rebanho à noite sob as estrelas, podia ler nas estrelas o que iria acontecer e entrava em comunhão com algo que se expressava através da Natureza, e tinha o sentimento da beleza profunda e da paz que uma vida simples traz!

Quando falo da vida interior, não me oponho às invenções modernas, mas como essas invenções nos têm tornado artificiais e estúpidos! Como perdemos o sentido da verdadeira beleza, como nos sobrecarregamos com necessidades inúteis!

Talvez tenha chegado o tempo de continuar a subida da curva da espiral evolucionária, e agora com tudo que este conhecimento da matéria nos tem trazido, seremos capazes de dar ao nosso progresso espiritual uma base mais sólida. Fortes com o que aprendemos dos segredos da Natureza material, seremos capazes de juntar os dois extremos e redescobrir a Suprema Realidade no coração do átomo.

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