Estranha
coisa o amor, que se tornou tão respeitável: o amor a deus, o amor ao
semelhante, o amor à família. Primorosamente demarcado como sacro e profano,
como dever e responsabilidade, como disciplina e sacrifício, tanto os
sacerdotes como os generais, ao planejarem as guerras, invocam o amor.
O
ciúme e a inveja alimentam o amor, que serve de prisão a toda forma de
relacionamento. Ele está nas telas do cinema, nas páginas das revistas, e cada
estação de rádio e televisão o apregoa. Ao findar o objeto do amor, surge a
foto emoldurada na parede, ou a imagem cultivada pela memória ou pela crença.
Esses valores passam de geração a geração, sem que o sofrimento tenha fim.
A
continuidade do amor resulta no prazer, sempre acompanhado da aflição; apegados
ao prazer, lutamos para nos desvencilhar da dor. Através da continuidade se
busca a permanência e a certeza nas relações.
Ao
evitar-se qualquer mudança nas relações, fica-se enredado na sensação opressiva
da segurança e na agonia do hábito. E, chamando de amor esse fluxo incessante
de prazer e dor, tornamo-nos prisioneiros daquela obsessão.
Para
escapar ao tédio, buscamos refúgio na religião e no romantismo, variável de
acordo com as pessoas, que em verdade é uma fuga eficaz perante o fato do
prazer e da dor. Sem esquecer, é claro, deus, o maior apelo e a derradeira
esperança da humanidade, e o qual se tornou tão respeitável e lucrativo.
Nada
disto é amor. Não há continuidade no amor; ao contrário da memória, ele ignora
o amanhã e o futuro. As recordações nascem das cinzas do passado, mas o amor é
livre do jugo do tempo e desconhece a promessa, a esperança e o desespero.
O
cérebro não pode conceber o amor pois este não pertence a nenhuma crença,
símbolo ou sentimento. De sua eterna morte e ressurreição advém a destruição
definitiva, o aniquilamento do conhecido, os quais são o próprio amor.

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