26.3.17

DEZOITO SINAIS DO DESPERTAR DA KUNDALINÍ – Swami Vishnu Tirth

1. Quando o pulsar de muladhara começa, o corpo todo treme, kumbhaka involuntária começa sem controle, o ar é expelido dos pulmões, sem querer profundas inalação e exalação começam e o corpo se torna incontrolável, saiba então que a Kundaliní despertou. Você deve então relaxar e sentar-se observando o que acontece.
2. Quando seu corpo começa a tremer, o cabelo fica arrepiado, você ri ou começa a chorar sem querer, sua língua começa a exprimir sons deformados, você tem visões amedrontadoras, então a Kundaliní Shakti se tornou ativa.
3. Quando sua postura de meditação se tornou firme, uddiyana, jalandhara e mula bandhas acontecem involuntariamente, sua língua se volta para trás ou sobe em direção ao palato, e o corpo todo se torna tão ativo que você se sente incapaz de sentar-se quieto, suas mãos e pernas se estendem à força, saiba que o poder divino da Deusa Kundaliní entrou em ação.
4. Quando a visão é atraída para o ponto médio das sobrancelhas, os globos oculares começam a revirar-se, você consegue kewala-kumbhaka automaticamente, a respiração cessa sem esforço e a mente fica vazia, entenda que a Deusa Kundaliní entrou em ação.
5. Quando você sente correntes de prana subindo para seu cérebro, a repetição automática de Om começa e a mente experimenta ondas após ondas de abençoada beatitude, pense que a Mãe Universal Kundaliní entrou em ação.
6. Quando diferentes tipos de sons sutis se tornam audíveis, você experimenta vibrações em sua coluna espinhal, o sentimento de existência corpórea se perde, em outras palavras você sente que não tem corpo, tudo parece vazio, suas pálpebras se fecham e não abrem mesmo com esforço seu, correntes elétricas parecem subir e descer por seus nervos e você tem convulsões, saiba que Mahamaya Kundaliní entrou em ação.
7. Quando ao fechar as pálpebras seu corpo cai no chão, ou começa a girar como uma pedra de esmeril e a respiração não sai, o corpo sentado no chão de pernas cruzadas começa a pular de um lugar para outro como uma rã, ou fica deitado no chão como morto, e as mãos não podem ser levantadas mesmo querendo, você sente contrações nervosas, sente como se estivesse morrendo, o corpo tem contrações como um peixe fora dágua, saiba que aquela Yogamaya Kundaliní entrou em ação.
8. Quando sua mente fica influenciada espiritualmente como se um espírito tivesse se apossado de seu corpo e sob aquela influência diferentes posturas de yoga são involuntariamente executadas sem a menor dor ou fadiga e você sente cada vez mais flutuar, e ao mesmo tempo estranhos tipos de pranayamas começam, pense que o divino poder de Kundaliní entrou em ação.
9. Quando assim que você se senta com olhos fechados o corpo começa a esticar seus membros à força, sons deformados são pronunciados em alta voz, você começa a fazer sons como os de animais, pássaros e rãs, ou de um leão, ou como um chacal, um cão, um tigre, sons desagradáveis e amedrontadores, entenda que a Grande Deusa Kundaliní entrou em ação.
10. Quando você sente vibrações de prana em diferentes lugares dentro de seu corpo e sente seu fluir onde quer que dirija sua atenção, e seus nervos começam a ter sacudidas como se eletricidade estivesse passando por eles, saiba que a Deusa Kundaliní entrou em ação.

11. Quando dia e noite você sente dentro de seu corpo alguma atividade de prana e quando concentra a mente, seu corpo começa a tremer ou tossir, e sua mente fica cheia de bem-aventurança e felicidade em todos os momentos, mesmo ao responder aos chamados da natureza, mesmo durante o sono você sente correntes de prana subindo até o sahasrara, e até mesmo em sonhos você experimenta a presença da Deusa, saiba que Kundaliní entrou em ação.
12. Quando ao sentar para fazer orações seu corpo começa a tremer e em êxtase de felicidade você começa a cantar doces melodias, cuja composição e poesia chegaram a você involuntariamente, e você pronuncia línguas que não conhece, mas cujo som leva o êxtase à mente, saiba que a Deusa da linguagem, Saraswati, despertou para a ação.
13. Quando você se sente intoxicado sem tomar qualquer droga, e enquanto caminha seus passos são dados majestosamente, e você gosta de permanecer calado e não gosta de falar com outros ou ouvi-los, e se sente como que bêbado da divindade, saiba que sua Atma Shakti Kundaliní, o poder do Ser, entrou em ação.
14. Quando, ao caminhar, sua mente se enche de um impulso de caminhar mais rápido e seus pés começam a correr, você sente seu corpo leve como ar e não se fadiga mesmo após caminhar muito tempo, você se sente levitar e se sente alegre, e nem em sonhos se sente infeliz, você mantém o equilíbrio de sua mente nos altos e baixos da vida, e adquire uma inesgotável energia para trabalhar, saiba que a Brahma Shakti Kundaliní entrou em ação.
15. Quando em meditação você tem visões divinas, sente fragrâncias divinas, vê figuras divinas, sente gostos divinos, ouve sons divinos e experimenta toques divinos e recebe instruções dos devas, então entenda que o poder divino da Kundaliní entrou em ação.
16. Quando em meditação o futuro revela seus segredos para você ou entende o significado oculto das escrituras, os Vedas e a Vedanta ficam compreensíveis, todas as dúvidas desaparecem, você adquire estranhos poderes de oratória e não sente necessidade de aproximar-se nem mesmo de Brahma, o próprio criador, para obter conhecimento, e você adquire autoconfiança, entenda que a Kundaliní entrou em ação.
17. Quando ao sentar em meditação sua visão se fixa entre as sobrancelhas, sua língua se levanta em khechari, a respiração para totalmente e a mente mergulha no oceano de bliss, shambhavi mudra entra em ação e você experimenta o prazer de savikalpa samadhi, saiba que o poder sutil de Kundaliní está em ação.
18. Quando no amanhecer e anoitecer automaticamente seu corpo fica carregado de influências divinas, e o prana, o corpo e a mente ficam dominados pela Deusa, saiba que a Deusa Kundaliní está corretamente funcionando.






25.3.17

CARIDADE E BOM SENSO – Alex Zarthu


Muita gente julga fazer caridade deixando que o mal ou o desequilíbrio façam estrago no ambiente. Dizem tratar-se de carinho e compreensão para com aqueles que erram. Pensam ser tolerantes com as falhas alheias e, por isso mesmo, comprometem o equilíbrio íntimo ou o da comunidade, com a conivência com os erros alheios.

Ser conivente com o mal sob o pretexto de estar sendo caridoso é prova de fraqueza e falta de bom senso. Essa atitude é por demais acanhada e merece profundas reflexões.

Acostumada a passar a mão sobre a cabeça das pessoas, muita gente deixa que atitudes e posicionamentos desequilibrados venham prejudicar o trabalho e o progresso.

Muitos que erram nem sempre o fazem acreditando acertar. Muitos erram sabendo o que fazem; outras vezes, assistidos por inteligências sombrias, aproveitam a imaturidade das pessoas para espalhar ideias absurdas, gerando situações constrangedoras.

O equilíbrio é necessário ao progresso. Nesses e em outros casos, é imperioso que se estabeleçam limites e que se faça ver o lado equilibrado e sadio. É urgente dar um basta na situação e parar com as atitudes permissivas, que apoiam, em nome da caridade, posturas equivocadas.

Silêncio: quietude ou desassossego?

O homem não precisa de que se lhe passe a mão na cabeça para que desperte para a vida espiritual. Não se ganha a confiança de ninguém sendo conivente com seus erros. Não se constrói um caráter sadio e equilibrado compactuando com o erro.

É preciso disciplinar os sentimentos e emoções, os atos, os pensamentos e cuidar para que, na pretensão de não ser desagradável, acabar aceitando o erro como verdade e o desequilíbrio como harmonia.

Muitas pessoas precisam ser detidas em suas atitudes de desequilíbrio e aprender que o sim e o não podem fazer parte de um sistema de harmonia coletiva. Dizer não na hora certa às vezes é mais proveitoso para o bem geral do que dizer sim indefinidamente.

Há necessidade de estabelecer limites, a fim de que ninguém confunda a verdade com a mentira e o certo com o errado. Deter a ação do mal e esclarecer as pessoas não é falta de caridade. Agir de modo contrário, permitindo a ignorância e o erro, não deve ser visto como forma ideal de comportamento.

Não se deve passar a mão na cabeça quando for necessário impedir que o mal prossiga sua ação destruidora. Tudo é questão de bom senso e de caridade com nós mesmos e com aquele que erra.

Contudo, não podemos esquecer o imperativo da fraternidade e da caridade para com aquele que erra. Deter a ação do mal não significa denegrir a pessoa humana. Impedir que o erro se dissemine não justifica os ataques pessoais ou as atitudes contrárias ao amor que de maneira comum se observam nos relacionamentos humanos competitivos.

Tudo deve ser realizado para o esclarecimento, mas é preciso considerar que aquele que erra nem sempre sabe que está errando, sendo merecedor do nosso carinho, atenção e dedicação. Podemos aborrecer o erro, mas é nosso dever amar aquele que erra.



MEU ENCONTRO COM NISARGADATTA MAHARAJ – Jean Dunn


Pergunta: Você começou sua vida espiritual através de Ramana Maharshi ou houve outras influências antes de Ramana?

Jean Dunn:  Bem, sim. Essa é uma longa história. Eu estava interessada em Joel Goldsmith.  Toda minha vida, parece que eu estava buscando algo. Todos nós buscamos, mas geralmente nos lugares errados, mas isso nos leva em frente.

Pergunta:  Joel mencionou o nome de Ramana Maharshi para você?

Jean:   Não.  Disseram-me que ele se preparava para visitar a Índia quando morreu.

Pergunta:  Quando você ouviu falar de Nisargadatta Maharaj pela primeira vez?

Jean:  Um ano antes de vê-lo. Eu estava em Sri Ramanasramam e alguns amigos iam regularmente ver Maharaj em Mumbai. Eu sentia que não havia necessidade de ver ninguém, porque considerava o Maharshi como meu mestre. Recusei-me a ir duas vezes. Na terceira vez, os amigos vieram e pediram que eu fosse, e concordei. E fui.

Pergunta:  Após ver Maharaj você voltou a Ramanasramam?

Jean:  Sim, continuei hospedada no ashram. Quando Maharaj ficou muito doente, durante os dois últimos anos de sua vida, mudei-me para Mumbai.

Pergunta:  Pode descrever brevemente o que acontecia no apartamento de Maharaj? Ele tinha uma rotina especial?

Jean:  De manhã cedo, às 6 horas, ele fazia o árati (oferenda de luzes) conosco. Após o árati eu saía para tomar café e voltava para ajudar Maharaj pendurar as guirlandas nas figuras de diferentes santos que havia nas paredes. Havia uma meditação de uma hora e depois músicas devocionais. Das 10:00 às 12:00 da tarde Maharaj respondia as perguntas dos visitantes. Quando os visitantes saíam, nós saíamos para comer algo. E Maharaj geralmente comprava algo para sua neta, ele era louco por ela. Quando Maharaj descansava na sala, eu me sentava ao seu lado. Havia outra reunião das 17 às 19 horas quando também se cantavam canções devocionais e depois Maharaj lia trechos de escrituras hindus, explicando seu significado.

Pergunta:  Havia algo em particular que Maharaj gostasse mais de ler?

Jean:  Não que eu saiba, nem nunca perguntei. Para mim não importava o que ele estava lendo.

Pergunta:  Maharaj não usava a terminologia vedântica para descrever o caminho para a Verdade. Você diria que esse era um dos aspectos únicos de seus ensinamentos?

Jean:  Para mim era. Ele era tão natural, e mesmo assim tinha consciência de que não era o corpo. Ele deixava aquele corpo fazer o que quisesse, não sei como explicar.

Pergunta:  Maharaj dava algum tipo de iniciação a aqueles que o aceitavam como mestre?

Jean:  Sim. Ele me deu um mantra.

Pergunta:  Maharaj reconhecia um relacionamento formal Guru-discípulo?

Jean:  Bem, você vê, não estamos separados. Não há separação; somos um. Ele dizia a mim e a outros lá, “Não imagine qualquer separação; somos um.”

Pergunta:  Acredito que as práticas espirituais de Maharaj se completaram em três anos aproximadamente. Ele admitia isso, falava sobre isso?

Jean:  Não.  Mas ao grupo que chegava mais cedo, ele contava histórias. Maharaj deixou tudo depois que seu guru morreu; ele decidiu ir aos Himalayas para ficar lá até conseguir a Auto-realização. No caminho ele seguia descalço numa região onde não havia nenhuma casa. Quando ficou com fome, percebeu fumaça vinda de uma casa à sua esquerda, e então aproximou-se para pedir comida aos moradores. Os moradores o alimentaram e lhe deram de beber. Quando ele voltou para a estrada e virou a cabeça para olhar para trás, para a casa onde tinha ido, não havia casa nenhuma. Mais tarde, nos Himalayas, encontrou um outro discípulo de seu mestre que o convenceu que era vantajoso espiritualmente voltar à vida mundana. Então ele voltou a Mumbai.

Pergunta:  Essa época em que Maharaj voltou a Mumbai, foi o período de suas práticas espirituais?

Jean:  Sim. Foi quando ele construiu o salão onde nós nos encontrávamos. Ele cuidava de seu comércio e suas horas de folga passava em meditação. Levou três anos, depois que seu guru morreu, para realizar sua verdadeira natureza.

Pergunta:  Houve algo que Maharaj disse ou fez especificamente que ajudou a transformar você espiritualmente?

Jean:  Foi simplesmente o que ele era. Estar em sua presença era a chave.

Pergunta:  Maurice Frydman disse que “simplicidade e humildade são as características da vida e ensinamentos de Maharaj.”  Como você resumiria sua mensagem para alguém que esteja lendo seus ensinamentos pela primeira vez?

Jean:  Se você está procurando a Verdade, então está no caminho certo. Mas a verdade não é algo que todos querem. A maioria quer algo para tornar sua vida melhor: dinheiro, uma casa melhor e assim por diante. A mensagem dele não tem nada a ver com o mundo. É por isso que amar um mestre ajuda tanto. Esse amor é seu próprio Ser.

Pergunta:  Não se encontra nos ensinamentos de Maharaj a integração de amor e sabedoria que se manifestavam nele. Você acha que esse entendimento pode estar faltando da parte do leitor?

Jean:  Sim, particularmente nos países ocidentais. Até você encontrar seu guru, ou tornar-se um com o guru interior, a compreensão é apenas intelectual. Maharaj disse que essa geração está pronta para este ensinamento. Houve uma época em que a devoção a uma divindade prevalecia; agora as pessoas querem a Verdade, e a busca se faz com o intelecto.

   Jean Dunn 



16.3.17

O EU INTERNO E O EGO – Paul Brunton


O homem é em si um universo em miniatura. Seu Eu interno constitui o sol e seu eu pessoal desempenha o papel de lua. Assim como a lua empresta sua luz do sol, assim sua personalidade empresta do Eu interno sua vitalidade e seus poderes de pensar e sentir.

Os homens que vivem apenas em função da sabedoria de seu eu pessoal, assemelham-se aos homens que trabalham à noite sob a luz lunar, por não haver sol. Os homens que vivem em função da sabedoria do Eu interno, podem também apreciar a contribuição da personalidade, porém atribuem-lhe um valor secundário.

Uma vez que tenhais vos colocado nas mãos do Eu interno, vossa vida começará a fluir serena e docemente. Internamente ela se assemelhará a uma tranqüila corrente, mesmo que lá fora rujam as tormentas. Vosso zelo pelo exato resultado de vossos assuntos não poderá ser maior do que o Eu interno tem por vós.

Quando empunhais as rédeas, vossa orientação é constantemente ignorante e insensata; mas quando a divindade interna as empunha, sereis serenamente conduzidos acertadamente, pois ela é mais sábia que vós. Ofertai-lhe vossa irrestrita e espontânea submissão.

O Eu divino é infinitamente paciente e estará pronto para dar-vos sua assistência em vossa própria senda, quando estiverdes preparado para invocar sua presença.

Pouco a pouco, imperceptivelmente, vossos esforços diários de meditação abrirão um novo canal ao longo das sinuosas convoluções de vosso cérebro, o que vos facilitará a aproximação da esfera sob a influência do Eu divino.

A prática da auto-investigação (vichara) coloca vossa consciência em contato com o Eu divino, cuja proteção a envolve. Isolar-se instantaneamente nesta busca do eu espiritual, quando subitamente se defronte com um mau acontecimento é neutralizar-lhe o poder de perturbar a mente. Então, qualquer ação seguida será sábia e correta, por estar inspirada pelo Eu divino.

Ao surgir uma contrariedade, o homem deve recusar-se a aceitar as sugestões do desespero ou dúvida que lhe assaltam a mente. Em lugar disso, deve acalmar sua respiração e inquirir: “Quem sou eu que passa por essa dificuldade?”

Cabe ao estudante cultivar o hábito de recorrer imediatamente ao Eu interno, quando em conflito com as circunstâncias que o envolvam. Se o fizer lealmente, dele se apossará uma maravilhosa sensação de paz e segurança, e sua mente passará sem fricções através da ocorrência; as coisas externas começarão a perder seu poder de afetá-lo.

O estudante será capaz de eliminar influências maléficas, que provenham de outras pessoas ou dos ambientes circundantes, que se apresentem sob a forma de moléstias ou circunstâncias incômodas.

Não nos há de surpreender a obtenção de resultados tão admiráveis, se nos lembrarmos que o ser humano é divino em essência. É o nosso reconhecimento mental de nossa própria divindade o que traz a cura em suas asas e interiormente nos liberta do poder maléfico das circunstâncias adversas.

Todos os que se entregam ao Poder Superior recebem sua ajuda protetora. Aprecio a leal declaração do cacique dos índios vermelhos que queriam atacar a igreja dos quackers da cidade de Easton, em Nova York, no ano de 1775, numa radiante manhã de verão.

Índios vem casa homem branco – disse ele apontando para a colônia com o dedo – índios quer matar homem branco, um, dois, três, seis, todos”, e enfiou seu machado de guerra no cinto com ar agressivo. “Índios chega, vê homem branco sentado na casa; nenhuma arma de fogo, nenhuma flecha, nenhuma faca; todos quietos, todos parados, adorando o Grande Espírito. Grande Espírito dentro de índio também – ele apontou para seu peito – então Grande Espírito diz: Índios, não matar eles!”

A força vital do Eu divino flui continuamente em cada elétron dos átomos que formam o corpo. É o Eu divino que realmente dá vida aos nossos corpos e os sustenta. Sem sua presença invisível, nossos corpos cairiam mortos instantaneamente.

O poder do Eu divino está convosco aqui e agora; nada pode privar-vos de sua operação, a não ser vossa voluntária negligência e dúvida. Segui o caminho da auto-indagação e apropriai-vos daquilo que já é vosso.

Todavia o homem não pode ditar à Inteligência Criadora que governa o mundo e impregna sua vida, sobre a exata forma de ajuda que receberá, nem pode pedir sempre satisfação de suas necessidades pessoais, sem outras considerações superiores.

Se a realização espiritual nem sempre pode afastar de seu caminho as sombras da pobreza, doenças ou infortúnios, ela o dotará de coragem para enfrentar a pobreza, paciência para suportar as doenças e sabedoria para arrostar o infortúnio.

O homem que se integre cada vez mais ao Eu divino se sentirá cada vez menos inclinado a importunar os poderes, seja para seu êxito, suas necessidades materiais ou suas inclinações pessoais. Em vez disso, ele sentirá a força protetora deste Eu; se algo lhe pedir, será mais sabedoria, mais amor. Possuindo essas coisas, ele sabe que pode deixar com segurança o resto para a divindade interna, que depois acudirá infalivelmente a suas reais necessidades, na hora precisa.

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A AÇÃO INSPIRADA – Paul Brunton


O homem que escolhe a vida superior da meditação não anula por isso seus talentos humanos. Mesmo que se torne humilde e amoroso como São Francisco de Assis, poderá ainda ser tão intelectual quanto Bernard Shaw, tão corajoso quanto Guilherme Tell e tão talentoso quanto Galileu.

É falso supor que, por ele extrair sua sabedoria de uma fonte mais profunda por meio de sua percepção direta, lhe seja necessário perder a habilidade de pensar logicamente, manobrar com homens e negócios e tomar seu lugar no mundo ativo.

Numa recente mensagem à Associação Britânica, Sir J. A. Thompson mencionou que a solução de alguns de seus mais intrincados problemas científicos lhe vinha quando ele esvaziava sua mente dos problemas e a deixava permanecer tranqüila e parada durante certo tempo.

Poucos sabem que o falecido Lorde Leverhulme, que instalou a maior organização industrial de sua espécie no mundo, poderia relaxar à vontade em qualquer lugar e colocar-se num sereno estado de devaneio. Em meio das mais gigantescas tarefas, ele frequentemente se valia desta faculdade.


Muito se enganam os que supõem que a meditação feita corretamente é apenas uma forma de idealismo sentimental ou pensamento abstrato. Tal meditação libera gradativamente no homem uma energia anímica de que ele antes não se apercebera, e que por fim se torna a maior inspiradora de suas atividades.

Homens como Oliver Cromwell, Abraham Lincoln e o imperador Marco Aurélio, no Ocidente, ou como o príncipe Shivaji, o imperador Akbar e o rei Asoka, no Oriente, creram na meditação e com ela agiram e triunfaram.

Se o estudante pratica regularmente a meditação, se procura concentrar seus pensamentos na busca do Eu divino, ele progressivamente se aperceberá de sua natureza espiritual. Digo progressivamente porque a sabedoria a ninguém chega num dia determinado; ela desponta como o alvorecer.

Uma vez estabelecido o hábito da meditação matinal, torna-se uma coisa muito natural prosseguir nas atividades do dia dentro da corrente espiritual assim acionada. Seu trabalho se desenvolverá cada vez mais dentro desta corrente de espiritualidade; toda sua atitude será mudada com a presença da corrente, mas sem precisar negligenciar seus deveres.

E época chegará em que ele minguará suas meditações, pois toda sua vida terá se tornado uma longa meditação. E todavia ele estará mais ativo do que nunca. Se nos submetemos aos mandatos do Eu interno, principiaremos a trilhar a senda de nosso verdadeiro destino, de nossa verdadeira vida.

Tempo chegará em que o homem passará a ver cada coisa, cada objeto, acontecimento e pessoa, como uma manifestação do Divino; em que descobrirá que não pode haver para ele maior missão do que expressar seu Eu interno em tudo que fizer e com todos os que encontrar.


Este é o único evangelho compatível com o Ocidente prático: o evangelho da ação inspirada. Então atacaremos os problemas do mundo da pobreza, guerra, doenças e ignorância com um novo sabor e melhor sucesso, sem nos esquecermos de prestar nossas homenagens diárias à Divindade dadivosa de paz e enobrecedora da alma que mora nos corações dos homens.


O CAMINHO DA BELEZA DIVINA – Paul Brunton


Para certos temperamentos, é quase impossível tomar a senda da análise introspectiva (vichara). Suas mentes não foram constituídas de uma maneira que lhes permita fixarem seus pensamentos neste tema. O que então lhes cabe fazer?

A maneira do estudante sair desta dificuldade é principiar por se ajustar ao ritmo de inspiradas obras artísticas, ou por cultivar emoções elevadas induzidas ante a beleza da Natureza.

Um quadro pintado por uma mão genial, um poema de alguém sensível ao aspecto natural da vida, o tocar de um violino por um mestre como Kreisler, um passeio através dos bosques de outono, uma contemplação do brilho do sol sobre as plantas, ou a visão de uma antiga igreja à luz do sol no ocaso: tudo isto pode lhe despertar delicados sentimentos, que em regra jamais o poderiam fazer as atividades comuns da vida cotidiana.

Nestes momentos há um poder espiritual de que nos recordamos muito tempo após haverem passado. Inteligentemente utilizados, podem tornar-se como a escada de Jacó, estendendo-se da terra ao céu.

Hoje em dia, o artista inspirado faz as vezes do sacerdote, tornando-se o instrumento daquele aspecto do Poder Superior que se revela no homem como beleza.

O artista, o escritor e o músico se encarnam em sua obra, e se ele for abençoado com inspirações elevadas, se ele se sentar aos pés da divina beleza ou verdadeira sabedoria, então no grau em que puderdes submeter-vos à sua influência, partilhareis com ele destas inspirações.

Salmo 45 – palavras de beleza e louvor ao casamento real ...

Em presença de alguma grande cena da Natureza, o ser humano é inconscientemente levado a recordar-se de seu verdadeiro lar espiritual. Ele se deleita com as brilhantes nuvens do céu, os prados pacíficos e os lagos plácidos, pois lhe recordam sua origem espiritual.

Às vezes, ao ouvir uma música de profunda inspiração, as nobres melodias de Bach ou as árias puras de Mozart, ou detendo seu olhar nalguma cena de montanha, o homem recebe insinuações de uma vida superior. A música, sendo a mais direta de todas as artes, propicia o meio mais autêntico de expressão espiritual.

Aqueles que procuram recolher em suas mentes a colheita mundial de beleza e sabedoria impressas, sentem-se movidos a isso por um instinto que vem de eras remotas. Quando nossos olhos contemplam uma página escrita com gosto literário e cintilante de áureos pensamentos espirituais, percebemos um misterioso sentimento confirmando o que lemos.

O estudante que se sinta empolgado pela grande literatura deveria escolher um livro, ou algumas passagens de determinado livro, que lhe façam um profundo apelo ou pareçam trazer em si um sopro de inspiração; que sobre ele exerçam um efeito exaltador, que lhe chegue com a força de uma mensagem das regiões superiores.

Se preferir a grande poesia e aurir seu poder, poderá sentir esta inspiração em algum poema de Francis Thompson, num soneto de Shelley ou composição lírica de Keats, e em alguns dos cintilantes versos de George Russel.

Bouddhist priest (com imagens) | Monge budista

Se optar pela prosa, há escritores que acendem a centelha divina da arte criadora e inflamam a chama da imaginação humana. O ensaio de Emerson sobre a autoconfiança, por exemplo, apresenta, pelo menos, uma centena de sentenças notáveis. Passai uma hora com Emerson e estareis em companhia dos grandes.

Que o estudante selecione um parágrafo ou fragmento de qualquer livro antigo ou moderno que mais lhe fale no íntimo, e rumine-o mentalmente, procurando reverentemente aurir seu significado e penetrar no ritmo espiritual ou na onda de longitude mental que lhe transmita. Faça-o com a máxima lentidão, com a máxima concentração que lhe for possível, mantendo o coração e a mente integrados no trecho escolhido, enquanto as palavras lhe vibram na alma.

O estudante também pode despertar a intuição por outras vias. Cabe-lhe escolher o meio que sinta ser o mais forte para si. Poderia obter o mesmo resultado ouvindo músicas compostas por verdadeiros gênios. Uns lograrão este estado interno através de um livro, outros através da música, e assim por diante.

14.3.17

PARA DESPERTAR A INTUIÇÃO – Paul Brunton


Após praticar pranayama moderada e suavemente, confortavelmente sentado ou deitado, o estudante deve dirigir um pergunta à misteriosa escuridão que envolve sua mente:
- Quem sou eu?
- Quem é este ser, que habita dentro deste corpo?

Que o estudante dirija essas perguntas a si próprio, lentamente, e com intensa concentração de alma. Depois aguarde uns minutos, meditando silenciosamente e sem esforço nessas perguntas.

A seguir, que faça um silencioso e humilde pedido, uma meia-prece se o prefere, dirigido ao Eu interno no próprio centro de seu ser, para que lhe revele sua existência. As palavras deste pedido podem ser suas próprias, mas têm de ser simples, breves e diretas. “Pedi e vos será dado”, foi a indicação de Jesus a seus ouvintes.

Havendo feito o pedido ou prece, que pare e aguarde confiantemente uma resposta, embora com humildade. Humildade é o primeiro passo na senda secreta – e também será o último. Porque, antes de a Divindade começar a instruí-lo através de sua auto-revelação, o estudante tem de se tornar instruível, isto é, humilde.

A instrução intelectual é uma coisa admirável, mas o orgulho intelectual levanta uma forte barreira entre ele e a vida superior que está sempre chamando por ele, embora silenciosamente. Os intelectuais orgulhosos se sentam em seus débeis pedestais e esperam ser adorados, quando existe a todo tempo uma Divindade habitando nas profundezas de seus corações, e que é a única digna de adorações.

Durante essa pausa, que se segue à sua indagação silenciosa, ele deve suspender seus pensamentos para poder adotar uma atitude de “escutar” uma resposta. Depois de esperar uns dois minutos, ele pode repetir sua indagação e depois parar de novo. Após mais outro período, pode repetir pela terceira e última vez.

Então deve esperar com paciência e expectativa, durante uma período de cerca de cinco minutos, com seu corpo parado, sua respiração lenta e calma, e sua mente serena. Este é o final de sua meditação.

A chave para uma correta compreensão desta etapa está em lembrar que o que mais importa agora é a reação subconsciente ao esforço consciente do estudante. É como tocar a campainha de uma porta; agora o estudante deve aguardar que o subconsciente apareça.

O estudante pode passar um período em que não venha nenhuma resposta, em que apenas o “vazio” reine supremo dentro de sua alma. Mas essa fase passará, é importante a paciência. Devemos aguardar humildemente a revelação do Infinito que está dentro de nós.
Daqui em diante, deve o estudante atentar cuidadosamente para os primeiros sinais e indícios confirmatórios de que ele está no caminho certo. Esses sinais são mostrados pela alma, mas muitas vezes são mal interpretados ou passam desapercebidos.


A voz do Super-Eu sopra num sussurro discreto e temos de escutá-la atentamente se quisermos ouvi-la. A resposta da intuição despertando tanto pode vir no decorrer do primeiro exercício que se faça, como só depois de semanas ou meses de prática diária.

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