A Mente
Instintiva é realmente a sede ou o lugar, onde na intimidade do homem, permanecem em estado latente as paixões,
emoções, sensações, os apetites, instintos, sentimentos, impulsos e desejos da
natureza grosseira e violenta, porque são provindos da época de sua formação
animal.
Cabe ao homem disciplinar e dominar essas forças
vivas que herdou da "fase animal" e lhe fazem pressão interior. Deve
examinar-lhes as ações intempestivas, os impulsos sub-reptícios e
submetê-los ao raciocínio superior, antes de agir.
Sem dúvida, já foram energias louváveis na
construção de sua animalidade, mas, podem se transformar em forças
prejudiciais, quando sobrepujam o domínio intelectual ou a razão.
É certo que a fome, a sede ou o desejo sexual animal
são anseios justos e imprescindíveis, que a Mente Instintiva transmite aos
homens para prosseguir ativos no plano físico. No entanto, apesar dessa
justificativa, angeliza-se mais cedo o homem frugal, abstêmio e de continência
sexual, porque tais práticas, além do limite fixado pelas necessidades humanas,
terminam por escravizar o homem aos grilhões da vida inferior animal.
No entanto, as coisas do mundo instintivo não devem
ser condenadas, porque todas são úteis e boas no seu devido tempo e lugar,
significando degraus benfeitores na escalonada do espírito, através das formas dos
mundos. O mal provém de o homem usar, exageradamente, ou fora de tempo, as
coisas já superadas da fase animal. Assim, a brutalidade, a malícia, a
violência, a desforra, a astúcia ou a voracidade, embora sejam qualidades
louváveis e necessárias à sobrevivência, ao crescimento e à proteção dos
animais sob a direção da Mente Instintiva, hão de ser um grande mal, quando a
serviço do homem que já possui o discernimento superior do raciocínio.
Daí, a curiosa identificação de alguns pecados com
certos tipos de animais, pois, a traição é instinto do tigre, a perfídia é da
cobra, o orgulho é do pavão, a glutonice é do porco, a crueldade é da hiena, o
egoísmo é do chacal, a libidinosidade é do macaco, a fúria é do touro, a
brutalidade é do elefante e a astúcia é da raposa.
PERGUNTA: — Como se formou a Mente Instintiva?
RAMATÍS: — A Mente Instintiva é considerada pelo ensino da Yoga a
manifestação Cósmica mais elementar operando nos mundos planetários, pois, a
sua primeira atuação é no reino mineral, onde dá forma aos cristais. Do reino
mineral, a sua atividade amplia-se para o reino vegetal, motivo por que as
plantas já demonstram uma instintiva inteligência, como nos fenômenos de
"tropismo", no processo de fecundação, germinação e crescimento.
Aliás, essa inteligência instintiva é perfeitamente visível
nas espécies vegetais carnívoras, que usam de processos e recursos hábeis,
armando ciladas mortais para os insetos que pretendem devorar.
Depois, em sentido cada vez mais ascendente, ela
elabora e coordena o reino animal, onde a sua interferência valiosa prepara os
rudimentos do equipo carnal para servir ao homem futuro. Em sua sabedoria
instintiva ela orienta e controla todos os atos humanos, que podem ser
executados sem a atenção do consciente, pois toda experiência ou conhecimento
acumulado é o resultado do desenvolvimento desde o reino mineral, vegetal e
animal, e transforma-se no alicerce para o homem firmar-se na conquista dos
planos superiores.
Quando a Mente Instintiva termina o seu trabalho,
principia a ação do Intelecto ou da Mente Intelectiva, surgindo a razão humana
ou o discernimento superior, a diferenciar o homem do animal irracional.
Então, ele adquire certa individualidade e se separa
da espécie global, mas ainda anda às apalpadelas, tentando reconhecer o seu
destino; pois se surpreende com as diferenças verificadas nas suas relações
exteriores.
Em conseqüência, a Mente Instintiva também é
utilíssima na fase inicial da Mente Intelectiva, porque é a base segura do
crescimento incessante da consciência do ser. Mas, é um campo de forças
criadoras de natureza inferior e torna-se bastante perturbador, quando
interfere facilmente na escala superior intelectiva.
É uma fase intermediária perigosa, em que o homem
desperta o raciocínio, podendo distinguir as realizações nobres e superiores,
mas, ainda pratica atos próprios da bagagem hereditária da Mente Instintiva, a
qual lhe desenvolveu a linhagem animal para a confecção do corpo carnal.
Ele, então, oscila no comando intelectivo, entre o
"demônio" dos impulsos atávicos da animalidade e o convite do
"anjo", pela voz silenciosa da Mente Espiritual.
PERGUNTA: — E como se processa a atuação ou orientação da
Mente Instintiva na estruturação das espécies inferiores?
RAMATÍS: — À medida que os animais progridem na sua escala evolutiva,
precisam saber, ou fazer, certas coisas indispensáveis à sua sobrevivência no
cenário do mundo físico. A Mente Instintiva, ou inteligência subconsciente,
então, age no animal e orienta-lhe a experiência nos planos inferiores,
fazendo-o realizar inúmeras coisas que lhe garantem a proteção, a vivência e o
progresso ordeiro, sem a necessidade de mobilizar qualquer raciocínio.
Desse modo, tanto o animal selvagem como o pássaro,
apesar de nascerem em ambientes tão impróprios e hostis, sobrevivem e se armam
de poderes instintivos, que os adestram na luta e na defesa, e lhes desenvolvem a prudência e a astúcia.
É a Mente Instintiva que também propicia aos
animais, insetos e aves o admirável recurso de "mimetismo", verdadeira camuflagem para os proteger, disfarçando-os na
própria semelhança com o meio ou terreno onde atuam.
Essa sabedoria instintiva também ensina as aves a
construírem seus ninhos, a emigrarem em vésperas de tempestades ou a fugirem, a
tempo, do inverno rigoroso; também instrui o tatu a construir sua toca; e o
joão-de-barro a edificar sua casa, protegida das tormentas; orienta o elefante
a buscar vegetação medicinal para se vacinar contra as epidemias dos trópicos;
o cão, a nutrir-se com ervas curativas de indigestão e reencontrar seu lar,
depois de abandonados a quilômetros de distancia.
Ainda guia as abelhas, na confecção matemática dos
favos de mel; auxilia as aranhas a tecer as teias admiráveis, as formigas a se
organizarem de modo ordeiro e a abandonarem os formigueiros, à margem dos rios,
em vésperas de inundações.
Depois que a Mente Instintiva ensina as espécies
animais a fazerem as coisas necessárias para a sua sobrevivência e progresso,
transforma essas experiências vividas em ações autômatas, e as arquiva, como
"tarefas-modelos" para, mais tarde, servirem ao homem sem necessidade
de consultar o intelecto ou gastar as energias do raciocínio. Por isso, o homem
não precisa pensar para andar, respirar, digerir ou crescer, nem para outras
múltiplas atividades do organismo, como produção e reparação de células, de lesões
orgânicas, defesas contra vírus, obliteração de vasos sangüíneos ou formação de
cicatrizes protetoras.
Graças à inteligência milenária da Mente Instintiva,
o recém-nascido ingere leite branquíssimo por alguns meses e, no entanto,
crescem-lhe cabelos louros, castanhos ou pretos, os olhos ficam negros, pardos
ou azuis, o sangue vermelho, a bílis esverdeada, a pele rosada, os dentes
brancos e o fígado num tom vinhoso.
Isso tudo acontece tão naturalmente porque, à medida
que o homem supera a memória consciente, transfere os seus conhecimentos
adquiridos para a Mente Instintiva, a qual, então, os arquiva para que sejam
usados no momento oportuno.
PERGUNTA: Poderíeis dar-nos alguns exemplos?
RAMATÍS: — Os pintores, músicos, escultores, datilógrafos ou motoristas
aprendem a desempenhar sua função mediante o intelecto, mas é evidente que se fatigariam
imensamente, caso tivessem de "pensar" ou "rememorar" tais
coisas, todas as vezes que delas necessitassem.
A Mente Instintiva se encarrega de arquivar as
experiências do homem no processo de pintar, tocar, dirigir, escrever à máquina
ou aprender qualquer outra coisa, e esse arquivo pode ser usado quando tais
aquisições devem ser evocadas e usadas.
Mas, quando a Mente Espiritual principia a influir
no homem, ele não demora a reconhecer em si que ainda é joguete dos impulsos
animais, pois, logo se arrepende de suas precipitações ou decisões egoístas, coléricas
ou hostis. Isso já é meio caminho andado para o seu crescimento espiritual,
pois, os instintos inferiores são como feras que moram em nossa própria
intimidade espiritual. O que ainda é legítimo para o animal, há de ser ilícito
e ilegítimo para o homem.
Não deveis desprezar as coisas da Mente Instintiva,
porque ela vos serviu e vos serve, continuamente, para o vosso bem. Mas, assim
como o homem consegue dominar o leão, o elefante, o lobo ou o cavalo selvagem
e, depois, os aproveita em benefício da existência humana, também precisa transformar
as forças violentas e agressivas da bagagem desenvolvida pela mente instintiva
em energias dóceis e benfeitoras, à disposição do raciocínio superior.
O instinto de violência, por exemplo, pode ser
graduado na forma de uma energia que, depois, alimenta uma arte ou um ideal
digno; o orgulho disciplinado estimula o heroísmo, a vaidade controlada desenvolve
o bom gosto pela limpeza e o capricho pessoal; a avareza esclarecida pode
nortear o princípio de segurança econômica para o futuro e a astúcia, a serviço
do intelecto, pode transformar-se em elevado instinto de precaução.
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