4.3.15

A PEREGRINAÇÃO DE VITHOBA (um conto da antiga Índia)

(Esta história ilustra como a força do destino se sobrepõe a nossos desejos pessoais)

Às margens do rio Godavari, vivia um brahmin chamado Govindpant, e sua esposa era Nirabai. Govindpant era inteligente e generoso, cumpria seus deveres mencionados nas escrituras e servia os renunciantes com grande amor, mas a falta de filhos o deixava triste.

O casal apelou à deidade adorada pela família, Vithoba (uma manifestação de Vishnu), que os abençoou com um filho. Quando este nasceu, colocaram-lhe o nome de Vithoba. Quando Vithoba chegou à adolescência, seus pais começaram a procurar uma noiva para ele. Entretanto ele tinha planos diferentes e pediu aos pais permissão para realizar uma peregrinação.

Seus pais lhe disseram: “Estamos surpresos que tu, que apenas entraste na adolescência, queiras escolher esse caminho da renúncia! Pedimos-te que sejas um chefe de família, para seres um protetor em nossa velhice.”

Vithoba respondeu, “Amados pais, ouvi falar sobre a natureza efêmera da vida, a natureza transitória das posses, que é como a escrita sobre a água. Também ouvi falar que a juventude é passageira, que a vida é curta e que a mente é instável. Ainda assim vocês pretendem me obrigar a uma vida de chefe de família! Nem sonho com os prazeres dos sentidos, muito menos em viver com uma mulher. Desejo buscar a Verdade e dedicar minha vida ao guru. Antes de me casar, gostaria primeiro de visitar e adorar os lugares sagrados do país, e aprender o exaltado conhecimento das almas nobres. Voltarei a vós em dois anos e então farei como quereis”.

Seus pais responderam, “Não nos oporemos a tua resolução, mas alegra nossos corações voltando para nós da tua peregrinação.”

Vithoba então partiu para visitar os lugares sagrados. Ao chegar em Alankavati, deu um mergulho no rio sagrado e fez japa. Ali também vivia um respeitável brahmin chamado Siddhopant, que era conhecido por sua hospitalidade. Ele levava os peregrinos para casa e os alimentava com grande amor.

Um dia, enquanto procurava um peregrino, encontrou Vithoba. Maravilhado com a piedade, beleza e humildade do jovem, ele o levou para casa e lhe serviu comida. Passaram o dia discutindo tópicos das escrituras.

Então Siddhopant pediu a Vithoba que ficasse mais alguns dias com ele. Ele gostava da companhia de Vithoba, conversando com ele sobre temas divinos.

Naquela noite o Senhor apareceu num sonho a Siddhopant e lhe ordenou que casasse sua filha com Vithoba no dia seguinte. Despertando do sonho, Siddhopant ficou surpreso. Ele pensou, “Meu desejo era casar minha filha com um rapaz de mente nobre. Será que o desejo de meu coração tomou a forma de um sonho ou verdadeiramente será a vontade divina do Senhor?”

Quando Vithoba acordou, Siddhopant lhe contou sobre o sonho dizendo, “O Senhor me instruiu no sonho para dar-te minha filha em casamento. Não ignores a ordem divina.”

Vithoba ficou terrificado e com um coração agitado respondeu, “Senhor! Nada sabes sobre mim ou minha família, e vens me fazer essa proposta. Foi para me arrastar à vida mundana que me trouxeste à sua casa e me alimentaste com boa comida? Por favor, não toques mais nesse assunto.”

Siddhopant disse, “É a graça do guru que fez que nós nos conhecêssemos. Tu és o marido ideal para minha filha.” E com grande alegria chamou sua mulher e lhe contou tudo.

Assustado com os acontecimentos Vithoba exclamou, “Ó Brahmin, é justo me pegar em tua armadilha quando tudo que desejo é renúncia?” E Siddhopant lhe respondeu, “Não se deve ignorar a ordem do Senhor. Por favor casa-te com minha filha ainda hoje e prossegue em tua peregrinação com tua esposa.”

Vithoba exclamou desesperado, “Por que o mesmo Senhor não me visitou em meu sonho?” E Siddhopant, “Ele certamente aparecerá a ti essa noite. Portanto, deves ficar aqui conosco a noite de hoje.”

Ao por-do-sol, eles se banharam no rio e completaram seu japa e orações. Voltaram para casa, alimentaram-se e passaram horas cantando hinos devocionais, antes de ir deitar-se. No meio da noite, o Senhor apareceu a Vithoba num sonho e lhe disse que casasse com a filha de Siddhopant, que era uma moça de pensamento nobre.

Ao acordar, Vithoba ficou perturbado. Ele pensou consigo mesmo, “O próprio Deus destruindo minha promessa de permanecer um renunciante. Será que a pessoa que provou néctar desejará provar veneno? Será que uma pessoa que é da família real desejará levar a vida de mendigo? Assim também, uma pessoa que sabe como é precioso o nascimento humano desejará desperdiçar sua vida em coisas fúteis?”

Assim pensando, Vithoba passou o resto da noite sem dormir. Decidindo fugir dali, caminhou quietamente para a rua, mas naquele momento Rukmabai, a filha de Siddhopant, que antes havia adorado a Mãe Divina para que lhe enviasse um marido nobre e sábio, ouviu os passos e pensou, “Desde o momento que meu pai decidiu que ele seria meu marido, comecei a considerá-lo como meu marido. Agora ele está me abandonando. Mesmo que ele não tenha tido a visão do Senhor, eu já o aceitei como meu marido e coloquei minha vida a seus pés. Sendo assim, como pode uma mulher fiel viver separada de seu amado?

Com esses pensamentos, Rukmabai correu atrás dele na rua e caiu a seus pés dizendo, “Ó meu senhor, por que foges? Se não queres ficar aqui, podemos ir viver onde desejares. Conseguirei a permissão de meu pai.”

Tocado pela beleza cativante da moça, Vithoba perguntou, “Ó jovem, quem és tu?” Ela respondeu, “Meu pai decidiu casar-me contigo. Ele dorme sem saber que estás fugindo. Vim para levar-te de volta para casa.”

Vithoba disse, “Até que uma garota esteja legitimamente casada, não é apropriado que ela converse sozinha com um homem. É assim que age uma mulher virtuosa. Se um homem se casa com tal mulher indecente, a porta do inferno se abre para ele. Sendo assim, não acredito que tu serás uma esposa respeitável. Vá embora.”

Vithoba começou a andar mais apressado, mas Rukmabai se colocou em seu caminho dizendo, “Senhor de minha vida, amado de minha vida, meu coração foi dado a ti, que é meu tudo. Este é o verdadeiro voto do casamento, não qualquer cerimônia formal. É o estado da mente que importa. Tu achas que o casamento formal é o verdadeiro casamento? Se partires daqui sem meus pais saberem, seguirei teus passos. Se me rejeitares e me empurrares violentamente, deixarei aqui minha vida a teus pés.”

Assustado com o curso dos acontecimentos, Vithoba disse, “Vá depressa para casa. Sou um peregrino, além disso não tenho interesse no matrimônio. Uma moça decente não deve forçar seu casamento com um homem que deseja se tornar um renunciante. Tu pareces ser louca!”

Em resposta, ela disse, “Ó meu mestre, após aceitar alguém como marido, se a mente da mulher se dirige a outro, ainda que em sonho, ela é pior que um asno. Como posso afastar-me de ti, se te considero como o parceiro da minha vida? Não tenho uma mente pecaminosa para pensar em qualquer outro, que não seja tu.”

Vithoba replicou, “Ó mulher, é estranho que você prefira fugir com um estranho, traindo seus pais que te criaram com tanto amor. É um crime até mesmo falar contigo. Saia da minha frente!”

Rukmabai disse, “Está destinado que nos tornemos marido e mulher, por isso Deus apareceu no sonho de meu pai. O Senhor deve ter aparecido a ti também. Aquele que desafia a vontade do Senhor não pode ser feliz. Ó mestre de minha vida, teste-me. Podes maltratar-me que suportarei feliz, porque sou tua, pertenço a ti. Tens o direito de tratar-me como desejares.”

Vithoba disse a ela novamente, “Ó nobre mulher, não mereço tua beleza. Não ficas envergonhada de desejar um homem comum como eu? Não devias preferir um homem feio como eu, nem em sonhos. Teu pai parece ser pouco inteligente, mas tu és o bastante para notar este absurdo.”

Rukmabai, ignorando suas palavras, disse, “Uma mulher casta não se desvia de seu amor nem deseja outro, mesmo que seu marido seja pobre, doente, feio ou pouco inteligente. Ela não prefere nem mesmo Kama (o deus do amor). Ó senhor, por que me humilhas assim?”

Ouvindo a discussão que vinha de fora, Siddhopant e sua esposa se dirigiram para lá. Siddhopant disse, “Ó jovem, tu conheces o código da conduta correta. Por que chamaste essa moça sozinha à noite para conversar? Isso trará vergonha sobre nós.”

Dominado pela aflição Vithoba disse, “Deus é minha testemunha! Se desejei esta mulher, que um destino terrível caia sobre mim. Não estás satisfeito com todo o problema que me causaste? Por favor, deixe-me seguir meu caminho.”

Siddhopant dirigindo-se a Rukmabai disse, “Ó jóia entre as mulheres castas, tu me salvaste de uma grande angústia não o deixando ir embora. Eu o convencerei agora; por favor volta para casa.” A Vithoba, ele disse, “Ó jovem, o Senhor não apareceu em seu sonho?”

Vithoba: “Mesmo que o Senhor me ordenar, não me tornarei um chefe de família! Estou preparado até mesmo para morrer, mas não concordo em casar.”

Siddhopant: “Tu estás me causando grande preocupação, já que minha filha seguramente morrerá, se tu a abandonares. Após cometer o pecado de ser a causa da morte de uma mulher, que tipo de mérito pretendes ganhar em tuas austeridades?”

Sentindo-se incomodado, Vithoba lamentou-se em voz alta, “Ó Deus! Vós que sois o mais puro dos puros e a compaixão encarnada! Olhai este brahmin, como ele obstrui meu caminho, como ele me amaldiçoa! Ó Senhor dos senhores, rogo que me liberteis dessa situação!”

Naquele mesmo instante, uma voz etérea surgiu do nada, “Ó Vithoba, quero que tu desposes a filha deste nobre homem imediatamente e vivas feliz.”

Enquanto Vithoba estava atordoado, Siddhopant pulava de alegria dizendo, “Sou com certeza um homem de sorte em ter este grande homem como meu genro e minha filha é três vezes abençoada.”

Então o casamento entre Vithoba e Rukmabai se realizou. Após visitarem mais alguns lugares de peregrinação, Vithoba, sua esposa e os pais desta foram até a casa dos pais de Vithoba. Ao chegar em casa, Vithoba prostrou-se a seus pais e os informou sobre os acontecimentos durante sua peregrinação.

Siddhopant e sua filha também se prostraram a eles com reverência. Govindpant and Nirabai estavam emocionados por estarem juntos a seu filho novamente. Sua alegria era muito grande ao saber de seu casamento.

Nirabai ficou impressionada com a beleza e humildade de sua nora. Abraçando Siddhopant com gratidão, Govindpant o agradeceu por fazer de seu filho um chefe de família.


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