(Esta história ilustra como a força do destino se sobrepõe a nossos desejos pessoais)
Às
margens do rio Godavari, vivia um brahmin chamado Govindpant, e sua
esposa era Nirabai. Govindpant era inteligente e generoso, cumpria
seus deveres mencionados nas escrituras e servia os renunciantes com
grande amor, mas a falta de filhos o deixava triste.
O
casal apelou à deidade adorada pela família, Vithoba (uma manifestação de Vishnu), que os
abençoou com um filho. Quando este nasceu, colocaram-lhe o nome de
Vithoba. Quando Vithoba chegou à adolescência, seus pais começaram
a procurar uma noiva para ele. Entretanto ele tinha planos diferentes
e pediu aos pais permissão para realizar uma peregrinação.
Seus
pais lhe disseram: “Estamos surpresos que tu, que apenas entraste
na adolescência, queiras escolher esse caminho da renúncia!
Pedimos-te que sejas um chefe de família, para seres um protetor em
nossa velhice.”
Vithoba
respondeu, “Amados pais, ouvi falar sobre a natureza efêmera da
vida, a natureza transitória das posses, que é como a escrita sobre
a água. Também ouvi falar que a juventude é passageira, que a vida
é curta e que a mente é instável. Ainda assim vocês pretendem me
obrigar a uma vida de chefe de família! Nem sonho com os prazeres
dos sentidos, muito menos em viver com uma mulher. Desejo buscar a
Verdade e dedicar minha vida ao guru. Antes de me casar, gostaria
primeiro de visitar e adorar os lugares sagrados do país, e aprender
o exaltado conhecimento das almas nobres. Voltarei a vós em dois
anos e então farei como quereis”.
Seus
pais responderam, “Não nos oporemos a tua resolução, mas alegra
nossos corações voltando para nós da tua peregrinação.”
Vithoba
então partiu para visitar os lugares sagrados. Ao chegar em
Alankavati, deu um mergulho no rio sagrado e fez japa. Ali também
vivia um respeitável brahmin chamado Siddhopant, que era conhecido
por sua hospitalidade. Ele levava os peregrinos para casa e os
alimentava com grande amor.
Um
dia, enquanto procurava um peregrino, encontrou Vithoba. Maravilhado
com a piedade, beleza e humildade do jovem, ele o levou para casa e
lhe serviu comida. Passaram o dia discutindo tópicos das escrituras.
Então
Siddhopant pediu a Vithoba que ficasse mais alguns dias com ele. Ele
gostava da companhia de Vithoba, conversando com ele sobre temas
divinos.
Naquela
noite o Senhor apareceu num sonho a Siddhopant e lhe ordenou que
casasse sua filha com Vithoba no dia seguinte. Despertando do sonho,
Siddhopant ficou surpreso. Ele pensou, “Meu desejo era casar minha
filha com um rapaz de mente nobre. Será que o desejo de meu coração
tomou a forma de um sonho ou verdadeiramente será a vontade divina
do Senhor?”
Quando
Vithoba acordou, Siddhopant lhe contou sobre o sonho dizendo, “O
Senhor me instruiu no sonho para dar-te minha filha em casamento. Não
ignores a ordem divina.”
Vithoba
ficou terrificado e com um coração agitado respondeu, “Senhor!
Nada sabes sobre mim ou minha família, e vens me fazer essa
proposta. Foi para me arrastar à vida mundana que me trouxeste à
sua casa e me alimentaste com boa comida? Por favor, não toques mais
nesse assunto.”
Siddhopant
disse, “É a graça do guru que fez que nós nos conhecêssemos. Tu
és o marido ideal para minha filha.” E com grande alegria chamou
sua mulher e lhe contou tudo.
Assustado
com os acontecimentos Vithoba exclamou, “Ó Brahmin, é justo me
pegar em tua armadilha quando tudo que desejo é renúncia?” E
Siddhopant lhe respondeu, “Não se deve ignorar a ordem do Senhor.
Por favor casa-te com minha filha ainda hoje e prossegue em tua
peregrinação com tua esposa.”
Vithoba
exclamou desesperado, “Por que o mesmo Senhor não me visitou em
meu sonho?” E Siddhopant, “Ele certamente aparecerá a ti essa
noite. Portanto, deves ficar aqui conosco a noite de hoje.”
Ao
por-do-sol, eles se banharam no rio e completaram seu japa e orações.
Voltaram para casa, alimentaram-se e passaram horas cantando hinos
devocionais, antes de ir deitar-se. No meio da noite, o Senhor
apareceu a Vithoba num sonho e lhe disse que casasse com a filha de
Siddhopant, que era uma moça de pensamento nobre.
Ao
acordar, Vithoba ficou perturbado. Ele pensou consigo mesmo, “O
próprio Deus destruindo minha promessa de permanecer um renunciante.
Será que a pessoa que provou néctar desejará provar veneno? Será
que uma pessoa que é da família real desejará levar a vida de
mendigo? Assim também, uma pessoa que sabe como é precioso o
nascimento humano desejará desperdiçar sua vida em coisas fúteis?”
Assim
pensando, Vithoba passou o resto da noite sem dormir. Decidindo fugir
dali, caminhou quietamente para a rua, mas naquele momento Rukmabai,
a filha de Siddhopant, que antes havia adorado a Mãe Divina para que
lhe enviasse um marido nobre e sábio, ouviu os passos e pensou,
“Desde o momento que meu pai decidiu que ele seria meu marido,
comecei a considerá-lo como meu marido. Agora ele está me
abandonando. Mesmo que ele não tenha tido a visão do Senhor, eu já
o aceitei como meu marido e coloquei minha vida a seus pés. Sendo
assim, como pode uma mulher fiel viver separada de seu amado?
Com
esses pensamentos, Rukmabai correu atrás dele na rua e caiu a seus
pés dizendo, “Ó meu senhor, por que foges? Se não queres ficar
aqui, podemos ir viver onde desejares. Conseguirei a permissão de
meu pai.”
Tocado
pela beleza cativante da moça, Vithoba perguntou, “Ó jovem, quem
és tu?” Ela respondeu, “Meu pai decidiu casar-me contigo. Ele
dorme sem saber que estás fugindo. Vim para levar-te de volta para
casa.”
Vithoba
disse, “Até que uma garota esteja legitimamente casada, não é
apropriado que ela converse sozinha com um homem. É assim que age
uma mulher virtuosa. Se um homem se casa com tal mulher indecente, a
porta do inferno se abre para ele. Sendo assim, não acredito que tu
serás uma esposa respeitável. Vá
embora.”
Vithoba
começou a andar mais apressado, mas Rukmabai se colocou em seu
caminho dizendo, “Senhor de minha vida, amado de minha vida, meu
coração foi dado a ti, que é meu tudo. Este é o verdadeiro voto
do casamento, não qualquer cerimônia formal. É o estado da mente
que importa. Tu achas que o casamento formal é o verdadeiro
casamento? Se partires daqui sem meus pais saberem, seguirei teus
passos. Se me rejeitares e me empurrares violentamente, deixarei aqui
minha vida a teus pés.”
Assustado
com o curso dos acontecimentos, Vithoba disse, “Vá depressa para
casa. Sou um peregrino, além disso não tenho interesse no
matrimônio. Uma moça decente não deve forçar seu casamento com um
homem que deseja se tornar um renunciante. Tu pareces ser louca!”
Em
resposta, ela disse, “Ó meu mestre, após aceitar alguém como
marido, se a mente da mulher se dirige a outro, ainda que em sonho,
ela é pior que um asno. Como posso afastar-me de ti, se te considero
como o parceiro da minha vida? Não tenho uma mente pecaminosa para
pensar em qualquer outro, que não seja tu.”
Vithoba
replicou, “Ó mulher, é estranho que você prefira fugir com um
estranho, traindo seus pais que te criaram com tanto amor. É um
crime até mesmo falar contigo. Saia da minha frente!”
Rukmabai
disse, “Está destinado que nos tornemos marido e mulher, por isso
Deus apareceu no sonho de meu pai. O Senhor deve ter aparecido a ti
também. Aquele que desafia a vontade do Senhor não pode ser feliz.
Ó mestre de minha vida, teste-me. Podes maltratar-me que suportarei
feliz, porque sou tua, pertenço a ti. Tens o direito de tratar-me
como desejares.”
Vithoba
disse a ela novamente, “Ó nobre mulher, não mereço tua beleza.
Não ficas envergonhada de desejar um homem comum como eu? Não
devias preferir um homem feio como eu, nem em sonhos. Teu pai parece
ser pouco inteligente, mas tu és o bastante para notar este
absurdo.”
Rukmabai,
ignorando suas palavras, disse, “Uma mulher casta não se desvia de
seu amor nem deseja outro, mesmo que seu marido seja pobre, doente,
feio ou pouco inteligente. Ela não prefere nem mesmo Kama (o deus do
amor). Ó senhor, por que me humilhas assim?”
Ouvindo
a discussão que vinha de fora, Siddhopant e sua esposa se dirigiram
para lá. Siddhopant disse, “Ó jovem, tu conheces o código da
conduta correta. Por que chamaste essa moça sozinha à noite para
conversar? Isso trará vergonha sobre nós.”
Dominado
pela aflição Vithoba disse, “Deus é minha testemunha! Se desejei
esta mulher, que um destino terrível caia sobre mim. Não estás
satisfeito com todo o problema que me causaste? Por favor, deixe-me
seguir meu caminho.”
Siddhopant
dirigindo-se a Rukmabai disse, “Ó jóia entre as mulheres castas,
tu me salvaste de uma grande angústia não o deixando ir embora. Eu
o convencerei agora; por favor volta para casa.” A Vithoba, ele
disse, “Ó jovem, o Senhor não apareceu em seu sonho?”
Vithoba:
“Mesmo que o Senhor me ordenar, não me tornarei um chefe de
família! Estou preparado até mesmo para morrer, mas não concordo
em casar.”
Siddhopant:
“Tu estás me causando grande preocupação, já que minha filha
seguramente morrerá, se tu a abandonares. Após cometer o pecado de
ser a causa da morte de uma mulher, que tipo de mérito pretendes
ganhar em tuas austeridades?”
Sentindo-se
incomodado, Vithoba lamentou-se em voz alta, “Ó Deus! Vós que
sois o mais puro dos puros e a compaixão encarnada! Olhai este
brahmin, como ele obstrui meu caminho, como ele me amaldiçoa! Ó
Senhor dos senhores, rogo que me liberteis dessa situação!”
Naquele
mesmo instante, uma voz etérea surgiu do nada, “Ó Vithoba, quero
que tu desposes a filha deste nobre homem imediatamente e vivas
feliz.”
Enquanto
Vithoba estava atordoado, Siddhopant pulava de alegria dizendo, “Sou
com certeza um homem de sorte em ter este grande homem como meu genro
e minha filha é três vezes abençoada.”
Então
o casamento entre Vithoba e Rukmabai se realizou. Após visitarem
mais alguns lugares de peregrinação, Vithoba, sua esposa e os pais
desta foram até a casa dos pais de Vithoba. Ao chegar em casa,
Vithoba prostrou-se a seus pais e os informou sobre os acontecimentos
durante sua peregrinação.
Siddhopant
e sua filha também se prostraram a eles com reverência. Govindpant
and Nirabai estavam emocionados por estarem juntos a seu filho
novamente. Sua alegria era muito grande ao saber de seu casamento.
Nirabai
ficou impressionada com a beleza e humildade de sua nora. Abraçando
Siddhopant com gratidão, Govindpant o agradeceu por fazer de seu
filho um chefe de família.
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