Existiu
certa vez um grande sábio, de nome Saubhari que, como todos os
grandes sábios da Índia, era iniciado nos Vedas e dedicado apenas à
virtude suprema. Por isso, ele tinha passado anos imerso na água,
longe do mundo dos homens.
Não
havia nenhum homem, rei, mulher ou inimigo que conseguisse trazê-lo
de volta a este mundo ilusório, mas apenas certo peixe de
considerável tamanho, que habitava as mesmas águas do santo. Com
sua numerosa progênie de filhos e netos à volta, o peixe vivia
muito feliz entre eles, brincando com eles dia e noite.
E
Saubhari, o sábio, ao ser perturbado em sua concentração pelos
respingos, percebeu a felicidade patriarcal do monarca do lago e
permitiu-se pensar: "Que invejável é esta criatura que, embora
nascida em tão modesta situação, brinca alegremente com seus
filhos e netos! Ele desperta em minha mente o desejo de participar de
tal prazer, divertindo-me assim com meus filhos".
E,
decidido, Saubhari saiu da água e foi até o palácio de um poderoso
rei chamado Mandhatri, pedir em casamento uma de suas filhas. O rei,
informado da chegada do santo, levantou-se do trono para oferecer-lhe
a hospitalidade usual, tratando-o com profundo respeito, e Saubhari
então disse ao rei: "Decidi-me, ó Rei, a casar. Concedei-me,
portanto, uma de vossas filhas. Não é prática dos príncipes de
vossa linhagem recusar os desejos daqueles que vem a eles em busca de
ajuda e sei, por isso, que não me desapontareis. Outros reis vivem
na terra, a quem foram concedidas filhas, mas vossa família é,
acima de todas, reconhecida pela sua generosidade. Tendes cinqüenta
filhas. Concedei-me apenas uma".

E o
rei, considerando a pessoa do sábio, enfraquecido pela austeridade e
idade avançada, sentiu-se disposto a recusar; mas temendo provocar a
ira e a imprecação do santo homem, ficou perplexo e, baixando a
cabeça, permaneceu absorto por um momento em seus próprios
pensamentos.
Em
seguida, o sábio, observando sua hesitação, disse: "Sobre o
quê, ó Rajá, meditais? O que foi que pedi que não possa ser
prontamente concedido? Ademais, se eu ficar satisfeito com a filha
que ora deveis me dar, nada haverá no mundo que possais desejar sem
conseguir". Mas o rei, com muito medo de desagradá-lo,
respondeu-lhe: "Respeitável senhor, é costume desta casa que
nossas filhas escolham, elas mesmas, entre os pretendentes de posição
apropriada, e como seu pedido ainda não é conhecido de minhas
filhas, não posso dizer se ele será tão bem-vindo a elas quanto o
é a mim. Essa é a razão de minha reflexão; não sei o que fazer".
O
sábio compreendeu. "Isso", ele pensou, "é um mero
artifício do rei para esquivar-se de mim. Ele vê que sou velho, não
tenho atrativos para as mulheres e provavelmente não serei escolhido
por nenhuma de suas filhas. Bem, assim seja! Agirei da mesma forma
que ele."
E
disse: "Já que esse, ó Majestade, é o costume de vossa casa,
ordenai que eu seja conduzido ao harém. Se alguma de vossas filhas
quiser tomar-me como esposo, eu a tomarei como esposa, e se nenhuma
quiser, deixemos que a culpa recaia sobre os anos que tenho e apenas
sobre eles".
Mandhatri,
com muito temor dele, foi assim obrigado a ordenar que o eunuco o
conduzisse aos aposentos interiores, onde o sábio, enquanto
adentrava, assumiu uma forma de tal beleza que de longe excedia a de
qualquer mortal, e até mesmo os encantos dos seres celestiais.
E o
eunuco disse: "Vosso pai manda-vos este sábio devoto, jovens
damas, que veio a ele em busca de uma noiva. E o rei prometeu-lhe que
não lhe recusará nenhuma que o escolher para marido".
As
jovens, ao vê-lo e ouvir tal proclamação, ficaram imediatamente
tomadas de desejo e, como uma manada de fêmeas elefantes disputando
os favores de seu dono, alvoroçaram-se e empurraram-se mutuamente:
"Fora, irmã, fora!" "Ele é meu escolhido." "Ele
é meu." "Ele não é para ti." "Ele foi criado
por Brahma para mim e eu para ele." "Fui eu quem o viu
primeiro." "Tu não podes colocar-te entre nós."
De
maneira que surgiu uma violenta contenda e, enquanto o "inocente"
sábio era disputado pelas princesas aos gritos, o eunuco retornou ao
rei e com a cabeça baixa relatou-lhe a rixa. O rei ficou surpreso.
"O que!" exclamou. "Não é possível! O que devo
fazer agora? O que é que eu fui prometer?"
E
para cumprir com sua promessa ele teria que conceder ao velho
visitante as cinqüenta. E assim, depois de desposar legalmente as
cinqüenta filhas do rei, o sábio foi com elas para sua floresta,
onde fez o mestre artesão dos deuses, o próprio Vishvakarman,
construir-lhe cinqüenta palácios, um para cada uma de suas esposas,
provendo cada um com luxuosos leitos, elegantes poltronas e outros
móveis, jardins, agradáveis arvoredos e reservatórios d'água,
onde o pato selvagem e outras aves aquáticas podiam brincar entre os
lótus.

E
finalmente, em cada um havia uma despensa e um tesouro inesgotáveis
para que as princesas pudessem entreter seus hóspedes e criadas com
suas bebidas preferidas e alimentos de todos os tipos. Passado um
tempo, o rei Mandhatri, com saudades das filhas e preocupado em saber
como passavam, partiu para uma visita ao eremitério de Saubhari.
E
quando chegou, viu diante de si uma galáxia de palácios de cristal,
brilhando enfileirados tão intensamente quanto cinqüenta sóis,
entre jardins esplendorosos e reservatórios de águas transparentes.
Ao entrar em um, ele encontrou e abraçou efusivamente uma de suas
filhas. "Querida filha", disse com lágrimas nos olhos,
"dize-me como estás? Estás feliz? O grande sábio trata-te
bem? Ou sentes saudades de teu primeiro lar?"
E
ela respondeu: "Pai, tu próprio vês em que maravilhoso palácio
estou vivendo, cercado de jardins e lagos encantadores onde o lótus
floresce e os gansos selvagens grasnam. Tenho a comida mais
deliciosa, os ungüentos mais raros, ornamentos preciosos e belas
roupas, camas macias e todos os prazeres que a riqueza pode
proporcionar. Por que então deveria sentir falta do palácio onde
nasci? A ti devo tudo o que possuo. Entretanto, tenho apenas um
problema, que é o seguinte: como meu marido jamais se ausenta do meu
palácio, está sempre comigo, jamais pode ir ter com minhas irmãs.
Estou preocupada com elas, devem sentir-se mortificadas por sua
negligência. Esta é a única coisa que me preocupa".
O
rei continuou a visitar uma por uma de suas filhas, abraçando-as,
sentando-se com elas e fazendo a mesma pergunta — à qual todas
deram a mesma resposta. E o rei, com o coração transbordando de
felicidade, dirigiu-se então ao sábio Saubhari, que encontrou
sozinho. Inclinou-se diante do sábio e agradecido dirigiu-se a ele,
"Ó santo sábio, vi a maravilhosa evidência de seu grande
poder: semelhantes faculdades miraculosas jamais vi ninguém possuir.
Que grande recompensa por suas austeridades devotas!"
O
rei, saudado respeitosamente pelo sábio, permaneceu com ele por
algum tempo, compartilhando abundantemente dos prazeres daquele
maravilhoso refúgio, e depois retornou, satisfeito, para seu
palácio. As filhas tiveram, com o tempo, três vezes cinqüenta
filhos, e a cada dia o amor de Saubhari por seus filhos aumentava, de
maneira que seu coração ficou totalmente ocupado com o sentimento
do eu.
"Estes
meus filhos", ele adorava pensar, "encantam-me com suas
conversas infantis. Eles aprenderão a caminhar. Eles crescerão e
tornar-se-ão jovens e depois homens. Eu os verei casados e com
filhos. E depois verei os filhos desses filhos."
Ele
percebeu, entretanto, que a cada dia suas expectativas superavam o
transcorrer do tempo; de maneira que, por fim, pensou: "Que
louco! Não há fim para meus desejos. Mesmo que em dez mil anos ou
cem mil anos, tudo o que desejo se realizasse, haveria ainda novos
desejos surgindo em minha mente. Pois agora já vi meus filhos
caminharem, assisti a sua juventude, maturidade, casamentos e
progênie, e no entanto as expectativas continuam surgindo e minha
alma anseia por ver a progênie de sua progênie. Assim que a vir, um
novo desejo surgirá e quando se realizar, como posso prevenir o
surgimento de ainda outros desejos? Finalmente descobri que não há
fim para a esperança a não ser com a morte e que a mente
perpetuamente ocupada com expectativas não pode unir-se ao espírito
supremo. Minhas devoções, quando vivia imerso na água, foram
interrompidas pelo envolvimento com meu amigo peixe. O resultado
dessa relação foi meu casamento e o resultado de minha vida de
casado o desejo insaciável. [...] A separação do mundo é o único
caminho do sábio para a libertação final; da relação com o mundo
podem surgir apenas inumeráveis erros. Agora, portanto, devo
empenhar-me na salvação de minha alma".

E
tendo assim dialogado consigo mesmo, Saubhari deixou os filhos, a
casa com todo seu esplendor e, acompanhado de suas esposas, foi viver
na floresta, onde diariamente praticava as observâncias prescritas
aos chefes de família, até ter abandonado todos os apegos.
Então,
quando sua inteligência atingiu a maturidade, concentrou em seu
espírito os fogos sagrados e se tornou um mendicante devoto. Depois
disso, dedicando todos seus atos ao supremo, ele alcançou a condição
de Firmeza (acyuta), que não conhece nenhuma mudança e não está
sujeita às vicissitudes de nascimento, transmigração e morte.
A
moral é obviamente que para o verdadeiro indiano o mundo não basta
— mesmo o melhor que há no mundo, mesmo além do melhor. Seu
objetivo supremo, portanto, está além deste mundo. E no entanto, as
criaturas e os feitos do mundo têm para ele certos fascínios, que
se apossam de suas faculdades em forma de ciladas.
A
floresta, por isso, é o primeiro refúgio de seu coração anelante.
Mas mesmo a floresta mostra seus encantos. Conseqüentemente, as
portas dos próprios sentidos têm que ser fechadas. Contudo, no
interior, também a respiração dá prazer. E mais fundo no
interior? Sigamos, portanto, o iogue em sua busca da chama.
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