2.7.17

O YOGUE SAUBHARI – Joseph Campbell


Existiu certa vez um grande sábio, de nome Saubhari que, como todos os grandes sábios da Índia, era iniciado nos Vedas e dedicado apenas à virtude suprema. Por isso, ele tinha passado anos imerso na água, longe do mundo dos homens.

Não havia nenhum homem, rei, mulher ou inimigo que conseguisse trazê-lo de volta a este mundo ilusório, mas apenas certo peixe de considerável tamanho, que habitava as mesmas águas do santo. Com sua numerosa progênie de filhos e netos à volta, o peixe vivia muito feliz entre eles, brincando com eles dia e noite.

E Saubhari, o sábio, ao ser perturbado em sua concentração pelos respingos, percebeu a felicidade patriarcal do monarca do lago e permitiu-se pensar: "Que invejável é esta criatura que, embora nascida em tão modesta situação, brinca alegremente com seus filhos e netos! Ele desperta em minha mente o desejo de participar de tal prazer, divertindo-me assim com meus filhos".

E, decidido, Saubhari saiu da água e foi até o palácio de um poderoso rei chamado Mandhatri, pedir em casamento uma de suas filhas. O rei, informado da chegada do santo, levantou-se do trono para oferecer-lhe a hospitalidade usual, tratando-o com profundo respeito, e Saubhari então disse ao rei: "Decidi-me, ó Rei, a casar. Concedei-me, portanto, uma de vossas filhas. Não é prática dos príncipes de vossa linhagem recusar os desejos daqueles que vem a eles em busca de ajuda e sei, por isso, que não me desapontareis. Outros reis vivem na terra, a quem foram concedidas filhas, mas vossa família é, acima de todas, reconhecida pela sua generosidade. Tendes cinqüenta filhas. Concedei-me apenas uma".

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E o rei, considerando a pessoa do sábio, enfraquecido pela austeridade e idade avançada, sentiu-se disposto a recusar; mas temendo provocar a ira e a imprecação do santo homem, ficou perplexo e, baixando a cabeça, permaneceu absorto por um momento em seus próprios pensamentos.

Em seguida, o sábio, observando sua hesitação, disse: "Sobre o quê, ó Rajá, meditais? O que foi que pedi que não possa ser prontamente concedido? Ademais, se eu ficar satisfeito com a filha que ora deveis me dar, nada haverá no mundo que possais desejar sem conseguir". Mas o rei, com muito medo de desagradá-lo, respondeu-lhe: "Respeitável senhor, é costume desta casa que nossas filhas escolham, elas mesmas, entre os pretendentes de posição apropriada, e como seu pedido ainda não é conhecido de minhas filhas, não posso dizer se ele será tão bem-vindo a elas quanto o é a mim. Essa é a razão de minha reflexão; não sei o que fazer".

O sábio compreendeu. "Isso", ele pensou, "é um mero artifício do rei para esquivar-se de mim. Ele vê que sou velho, não tenho atrativos para as mulheres e provavelmente não serei escolhido por nenhuma de suas filhas. Bem, assim seja! Agirei da mesma forma que ele."

E disse: "Já que esse, ó Majestade, é o costume de vossa casa, ordenai que eu seja conduzido ao harém. Se alguma de vossas filhas quiser tomar-me como esposo, eu a tomarei como esposa, e se nenhuma quiser, deixemos que a culpa recaia sobre os anos que tenho e apenas sobre eles".

Mandhatri, com muito temor dele, foi assim obrigado a ordenar que o eunuco o conduzisse aos aposentos interiores, onde o sábio, enquanto adentrava, assumiu uma forma de tal beleza que de longe excedia a de qualquer mortal, e até mesmo os encantos dos seres celestiais.

E o eunuco disse: "Vosso pai manda-vos este sábio devoto, jovens damas, que veio a ele em busca de uma noiva. E o rei prometeu-lhe que não lhe recusará nenhuma que o escolher para marido".

As jovens, ao vê-lo e ouvir tal proclamação, ficaram imediatamente tomadas de desejo e, como uma manada de fêmeas elefantes disputando os favores de seu dono, alvoroçaram-se e empurraram-se mutuamente: "Fora, irmã, fora!" "Ele é meu escolhido." "Ele é meu." "Ele não é para ti." "Ele foi criado por Brahma para mim e eu para ele." "Fui eu quem o viu primeiro." "Tu não podes colocar-te entre nós."

De maneira que surgiu uma violenta contenda e, enquanto o "inocente" sábio era disputado pelas princesas aos gritos, o eunuco retornou ao rei e com a cabeça baixa relatou-lhe a rixa. O rei ficou surpreso. "O que!" exclamou. "Não é possível! O que devo fazer agora? O que é que eu fui prometer?"

E para cumprir com sua promessa ele teria que conceder ao velho visitante as cinqüenta. E assim, depois de desposar legalmente as cinqüenta filhas do rei, o sábio foi com elas para sua floresta, onde fez o mestre artesão dos deuses, o próprio Vishvakarman, construir-lhe cinqüenta palácios, um para cada uma de suas esposas, provendo cada um com luxuosos leitos, elegantes poltronas e outros móveis, jardins, agradáveis arvoredos e reservatórios d'água, onde o pato selvagem e outras aves aquáticas podiam brincar entre os lótus.

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E finalmente, em cada um havia uma despensa e um tesouro inesgotáveis para que as princesas pudessem entreter seus hóspedes e criadas com suas bebidas preferidas e alimentos de todos os tipos. Passado um tempo, o rei Mandhatri, com saudades das filhas e preocupado em saber como passavam, partiu para uma visita ao eremitério de Saubhari.

E quando chegou, viu diante de si uma galáxia de palácios de cristal, brilhando enfileirados tão intensamente quanto cinqüenta sóis, entre jardins esplendorosos e reservatórios de águas transparentes. Ao entrar em um, ele encontrou e abraçou efusivamente uma de suas filhas. "Querida filha", disse com lágrimas nos olhos, "dize-me como estás? Estás feliz? O grande sábio trata-te bem? Ou sentes saudades de teu primeiro lar?"

E ela respondeu: "Pai, tu próprio vês em que maravilhoso palácio estou vivendo, cercado de jardins e lagos encantadores onde o lótus floresce e os gansos selvagens grasnam. Tenho a comida mais deliciosa, os ungüentos mais raros, ornamentos preciosos e belas roupas, camas macias e todos os prazeres que a riqueza pode proporcionar. Por que então deveria sentir falta do palácio onde nasci? A ti devo tudo o que possuo. Entretanto, tenho apenas um problema, que é o seguinte: como meu marido jamais se ausenta do meu palácio, está sempre comigo, jamais pode ir ter com minhas irmãs. Estou preocupada com elas, devem sentir-se mortificadas por sua negligência. Esta é a única coisa que me preocupa".

O rei continuou a visitar uma por uma de suas filhas, abraçando-as, sentando-se com elas e fazendo a mesma pergunta — à qual todas deram a mesma resposta. E o rei, com o coração transbordando de felicidade, dirigiu-se então ao sábio Saubhari, que encontrou sozinho. Inclinou-se diante do sábio e agradecido dirigiu-se a ele, "Ó santo sábio, vi a maravilhosa evidência de seu grande poder: semelhantes faculdades miraculosas jamais vi ninguém possuir. Que grande recompensa por suas austeridades devotas!"

O rei, saudado respeitosamente pelo sábio, permaneceu com ele por algum tempo, compartilhando abundantemente dos prazeres daquele maravilhoso refúgio, e depois retornou, satisfeito, para seu palácio. As filhas tiveram, com o tempo, três vezes cinqüenta filhos, e a cada dia o amor de Saubhari por seus filhos aumentava, de maneira que seu coração ficou totalmente ocupado com o sentimento do eu.

"Estes meus filhos", ele adorava pensar, "encantam-me com suas conversas infantis. Eles aprenderão a caminhar. Eles crescerão e tornar-se-ão jovens e depois homens. Eu os verei casados e com filhos. E depois verei os filhos desses filhos."

Ele percebeu, entretanto, que a cada dia suas expectativas superavam o transcorrer do tempo; de maneira que, por fim, pensou: "Que louco! Não há fim para meus desejos. Mesmo que em dez mil anos ou cem mil anos, tudo o que desejo se realizasse, haveria ainda novos desejos surgindo em minha mente. Pois agora já vi meus filhos caminharem, assisti a sua juventude, maturidade, casamentos e progênie, e no entanto as expectativas continuam surgindo e minha alma anseia por ver a progênie de sua progênie. Assim que a vir, um novo desejo surgirá e quando se realizar, como posso prevenir o surgimento de ainda outros desejos? Finalmente descobri que não há fim para a esperança a não ser com a morte e que a mente perpetuamente ocupada com expectativas não pode unir-se ao espírito supremo. Minhas devoções, quando vivia imerso na água, foram interrompidas pelo envolvimento com meu amigo peixe. O resultado dessa relação foi meu casamento e o resultado de minha vida de casado o desejo insaciável. [...] A separação do mundo é o único caminho do sábio para a libertação final; da relação com o mundo podem surgir apenas inumeráveis erros. Agora, portanto, devo empenhar-me na salvação de minha alma".

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E tendo assim dialogado consigo mesmo, Saubhari deixou os filhos, a casa com todo seu esplendor e, acompanhado de suas esposas, foi viver na floresta, onde diariamente praticava as observâncias prescritas aos chefes de família, até ter abandonado todos os apegos.

Então, quando sua inteligência atingiu a maturidade, concentrou em seu espírito os fogos sagrados e se tornou um mendicante devoto. Depois disso, dedicando todos seus atos ao supremo, ele alcançou a condição de Firmeza (acyuta), que não conhece nenhuma mudança e não está sujeita às vicissitudes de nascimento, transmigração e morte.

A moral é obviamente que para o verdadeiro indiano o mundo não basta — mesmo o melhor que há no mundo, mesmo além do melhor. Seu objetivo supremo, portanto, está além deste mundo. E no entanto, as criaturas e os feitos do mundo têm para ele certos fascínios, que se apossam de suas faculdades em forma de ciladas.

A floresta, por isso, é o primeiro refúgio de seu coração anelante. Mas mesmo a floresta mostra seus encantos. Conseqüentemente, as portas dos próprios sentidos têm que ser fechadas. Contudo, no interior, também a respiração dá prazer. E mais fundo no interior? Sigamos, portanto, o iogue em sua busca da chama.



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