Um
guerreiro mesquinho, conhecido por sua implacável crueldade,
presenciando a fuga de suas tropas que deixavam o campo em carreira
impetuosa, teve também de fugir para não cair nas garras de seu
rival.
Depois
de tirar o uniforme e envergar a roupa azul de um camponês
grosseiramente tecida em casa, correu como louco para as montanhas.
Faminto e cansado, seguiu adiante, tão depressa quanto seu esgotado
cavalo pôde levá-lo.
Ao
chegar a segunda noite, sentiu-se bastante a salvo para passá-la num
eremitério próximo da estrada. Descobrindo que os únicos
habitantes eram um idoso lama mongólico e um rapazinho que ali
trabalhava, agiu com brutal truculência, forçando-os a encher suas
sacolas vazias com todas as coisas portáteis de valor que o
eremitério continha. Roubar seus hospedeiros era, afinal, sua forma
habitual de pagar a hospitalidade, pois a única função dos civis
era permitir que os heróis vivessem bem.
Como
as celas dos monges eram pequenas e sem conforto, ordenou que
colocassem um divã na sala do santuário e ali, sem ficar perturbado
pela luz de duas velas votivas que iluminavam uma estátua do
Compassivo Kuan Yin, mergulhou num sono espasmódico.
Com
pena de seu grosseiro perseguidor, o velho lama se esgueirou até o
divã e, sentado de pernas cruzadas sobre as lajes, num local
sombrio, começou a repetir o mantra OM MANI PADME HUM, num murmúrio
que durou a noite toda; a não ser quando via o guerreiro agitar-se
no sono, então verbalizava as sílabas silenciosamente, temendo
perturbar o adormecido.
Não
havia ressentimento no coração do velho, nenhum lamento pela perda
dos valores, sem importância para ele, apenas o compassivo desejo de
salvar o hóspede das conseqüências de sua loucura.
Durante
a noite inteira, o guerreiro sonhou. Quadros e mais quadros surgiram
em sua mente, de alegrias sentidas em vidas anteriores; neles, sempre
havia alguém que o havia tratado com amor — a mãe, a irmã, algum
amigo querido e assim por diante — mas todos esses episódios eram
seguidos por outros, dilacerantes, nos quais ele via uma das pessoas
queridas na aparência de uma de suas incontáveis vítimas; muitas e
muitas vezes teve de suportar a dor de reviver seus atos de tortura,
assassinato ou decapitação de alguém que reconhecia ser um
generoso benfeitor em vida anterior.
Era
insuportável, era horrível, ver-se como um feliz garoto sendo
acarinhado por sua mãe que o adorava e depois como o brutal violador
e executante da mesma pessoa amada noutra aparência facilmente
reconhecível; fossem quais fossem as lágrimas e lamentações, ele
não podia suster sua mão.
Despertou
com a primeira luz da madrugada, o corpo banhado em suor, a mente
enevoada pelo desprezo de si mesmo. De joelhos, caiu ante a imagem da Compassiva Kuan Yin e bateu sua cabeça nas lajes, num frenesi de
remorso.
Entretanto,
seguindo as instruções dadas na noite anterior, o rapazinho havia
tirado o cavalo do estábulo e colocado nele os alforjes com os
valores roubados. Tendo feito isso, ajudou o velho lama a levar para
o hóspede uma refeição com chá quente, oferecendo-lhe o parco
alimento de que dispunham naquele pobre lugar.
Depois,
com grande espanto do rapazinho, o guerreiro, antes tão truculento,
inclinou-se até o chão ante o lama e implorou para ser aceito como
discípulo. "Não", foi a resposta. "A vida monástica
não é para você. Continue o seu caminho. Se em qualquer tempo sua
sorte melhorar, use seu poder e sua riqueza para o bem-estar dos
oprimidos, lembrando que qualquer um deles pode ter sido seu pai, sua
mãe ou seu amigo numa das vidas anteriores, pois as vidas de todos
os seres sensíveis se interligam no passado durante eras
inumeráveis."
Pasmo
diante dessa íntima conexão entre aquelas palavras e seu pesadelo
recente, o guerreiro implorou ao lama que lhe desse algo a que se
apegasse nos anos futuros, ao que o velho respondeu: "Nada há
no universo mais forte que o poder da compaixão. Apegue-se apenas a
isso. Se os seus esforços, alguma vez, falharem, devido à carga do
karma criminoso, que as palavras do mantra de Kuan Yin, OM MANI PADME
HUM sejam o sinete do seu pacto para nunca mais ceder à crueldade e
à avareza."
Assim
o guerreiro, depois de devolver o roubo, partiu envergonhado. Dizem
que, anos depois, alguns de seus antigos subordinados o encontraram
ganhando seu arroz como arrieiro, empregado numa comunidade de monges
em remoto mosteiro do cume oriental do Wu T'ai.
Os
não-iniciados usam o Mani muitas vezes como feitiço protetor contra
toda espécie de má sorte, seja do próprio indivíduo ou de outrem.
Ele é pronunciado em momentos de perigo, entoado suavemente quando
se conforta alguém em aflição e recitado mentalmente ou alto, em
repetição infindável, pelos que buscam nascimento na Terra da
Pureza. Inúmeros tibetanos morrem tendo nos lábios o Mani.

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