2.7.17

UMA HISTÓRIA DE COMPAIXÃO – Joseph Campbell


Um guerreiro mesquinho, conhecido por sua implacável crueldade, presenciando a fuga de suas tropas que deixavam o campo em carreira impetuosa, teve também de fugir para não cair nas garras de seu rival.

Depois de tirar o uniforme e envergar a roupa azul de um camponês grosseiramente tecida em casa, correu como louco para as montanhas. Faminto e cansado, seguiu adiante, tão depressa quanto seu esgotado cavalo pôde levá-lo.

Ao chegar a segunda noite, sentiu-se bastante a salvo para passá-la num eremitério próximo da estrada. Descobrindo que os únicos habitantes eram um idoso lama mongólico e um rapazinho que ali trabalhava, agiu com brutal truculência, forçando-os a encher suas sacolas vazias com todas as coisas portáteis de valor que o eremitério continha. Roubar seus hospedeiros era, afinal, sua forma habitual de pagar a hospitalidade, pois a única função dos civis era permitir que os heróis vivessem bem.

Como as celas dos monges eram pequenas e sem conforto, ordenou que colocassem um divã na sala do santuário e ali, sem ficar perturbado pela luz de duas velas votivas que iluminavam uma estátua do Compassivo Kuan Yin, mergulhou num sono espasmódico.

Com pena de seu grosseiro perseguidor, o velho lama se esgueirou até o divã e, sentado de pernas cruzadas sobre as lajes, num local sombrio, começou a repetir o mantra OM MANI PADME HUM, num murmúrio que durou a noite toda; a não ser quando via o guerreiro agitar-se no sono, então verbalizava as sílabas silenciosamente, temendo perturbar o adormecido.

Não havia ressentimento no coração do velho, nenhum lamento pela perda dos valores, sem importância para ele, apenas o compassivo desejo de salvar o hóspede das conseqüências de sua loucura.

Durante a noite inteira, o guerreiro sonhou. Quadros e mais quadros surgiram em sua mente, de alegrias sentidas em vidas anteriores; neles, sempre havia alguém que o havia tratado com amor — a mãe, a irmã, algum amigo querido e assim por diante — mas todos esses episódios eram seguidos por outros, dilacerantes, nos quais ele via uma das pessoas queridas na aparência de uma de suas incontáveis vítimas; muitas e muitas vezes teve de suportar a dor de reviver seus atos de tortura, assassinato ou decapitação de alguém que reconhecia ser um generoso benfeitor em vida anterior.

Era insuportável, era horrível, ver-se como um feliz garoto sendo acarinhado por sua mãe que o adorava e depois como o brutal violador e executante da mesma pessoa amada noutra aparência facilmente reconhecível; fossem quais fossem as lágrimas e lamentações, ele não podia suster sua mão.



Despertou com a primeira luz da madrugada, o corpo banhado em suor, a mente enevoada pelo desprezo de si mesmo. De joelhos, caiu ante a imagem da Compassiva Kuan Yin e bateu sua cabeça nas lajes, num frenesi de remorso.

Entretanto, seguindo as instruções dadas na noite anterior, o rapazinho havia tirado o cavalo do estábulo e colocado nele os alforjes com os valores roubados. Tendo feito isso, ajudou o velho lama a levar para o hóspede uma refeição com chá quente, oferecendo-lhe o parco alimento de que dispunham naquele pobre lugar.

Depois, com grande espanto do rapazinho, o guerreiro, antes tão truculento, inclinou-se até o chão ante o lama e implorou para ser aceito como discípulo. "Não", foi a resposta. "A vida monástica não é para você. Continue o seu caminho. Se em qualquer tempo sua sorte melhorar, use seu poder e sua riqueza para o bem-estar dos oprimidos, lembrando que qualquer um deles pode ter sido seu pai, sua mãe ou seu amigo numa das vidas anteriores, pois as vidas de todos os seres sensíveis se interligam no passado durante eras inumeráveis."

Pasmo diante dessa íntima conexão entre aquelas palavras e seu pesadelo recente, o guerreiro implorou ao lama que lhe desse algo a que se apegasse nos anos futuros, ao que o velho respondeu: "Nada há no universo mais forte que o poder da compaixão. Apegue-se apenas a isso. Se os seus esforços, alguma vez, falharem, devido à carga do karma criminoso, que as palavras do mantra de Kuan Yin, OM MANI PADME HUM sejam o sinete do seu pacto para nunca mais ceder à crueldade e à avareza."

Assim o guerreiro, depois de devolver o roubo, partiu envergonhado. Dizem que, anos depois, alguns de seus antigos subordinados o encontraram ganhando seu arroz como arrieiro, empregado numa comunidade de monges em remoto mosteiro do cume oriental do Wu T'ai.

Os não-iniciados usam o Mani muitas vezes como feitiço protetor contra toda espécie de má sorte, seja do próprio indivíduo ou de outrem. Ele é pronunciado em momentos de perigo, entoado suavemente quando se conforta alguém em aflição e recitado mentalmente ou alto, em repetição infindável, pelos que buscam nascimento na Terra da Pureza. Inúmeros tibetanos morrem tendo nos lábios o Mani.



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