O trabalho principal do “guia espiritual”, em relação ao seu protegido encarnado, é o de livrá-lo, tanto quanto possível, das imprudências, das ilusões, dos atrativos do vício e das paixões perigosas do mundo material. Do “lado de cá”, a nossa maior preocupação é a de impedir que o amigo ou o discípulo encarnado termine escravizado às paixões animais que o cercearão em sua ascensão espiritual.
Quanto ao êxito desejado, nem sempre podemos consegui-lo a contento pois, em geral, a criatura encarnada foge à receptividade vibratória ao seu mentor e torna-se imune às suas inspirações superiores. Em geral, escuta apenas a voz da “sereia das sombras”, que termina conduzindo-a aos maiores ridículos e disparates!
Quando tal acontece, o seu guia ou protetor lança mão de recursos extraordinários e intervém tanto quanto possível a favor do seu pupilo, a fim de frear-lhe os desatinos e evitar em tempo os desvios perigosos que o conduzam à escravidão às entidades malfeitoras.
Quando falham todos os recursos no campo mental da inspiração superior, e o pupilo periclita na sua integridade espiritual, em geral os seus guias se socorrem do recurso eficiente da enfermidade ou mesmo de vicissitudes morais ou econômicas, através das quais possam neutralizar em tempo as causas principais dos desatinos e imprudências.
Quase todos os seres humanos são portadores de verdadeiras válvulas de segurança psíquica, embora se trate de deficiências cármicas provenientes das mazelas passadas, e servindo-se das quais os guias intervêm para cercear os desvios perigosos.
Há casos em que determinado protegido, até então regrado e amigo do lar, deixa-se fascinar por qualquer paixão mundana perigosa, que pouco a pouco o vai absorvendo e ameaçando de causar perturbação grave no seio amigo da família. Por vezes ele se torna refratário a qualquer intuição espiritual superior ou nega-se a cumprir as promessas feitas durante o sono, quando deixa o corpo físico no leito, preferindo obsidiar-se completamente pela mulher extravagante, parasita ou fescenina, ou então pelo álcool ou pelo jogo insidioso.
Quando menos espera, é lançado ao leito de dor ou, então, vê cessadas as facilidades ou recursos materiais que o sustentavam na imprudência condenável, ficando impedido de prosseguir no seu comportamento irregular.
Um outro exemplo pode ser o de um indivíduo saudável, forte, demasiadamente viril e dotado de um corpo avantajado, mas cujo espírito irascível e prepotente nega-se a abrandar o seu temperamento ou foge à intuição benfajeza do seu amigo desencarnado.
Avantajado de corpo e de forças, sempre reage com violência e atrevimento diante de qualquer conselho ou protesto alheio! Sumamente agressivo, usa suas mãos como vigorosas luvas de boxe, que esbofeteiam com facilidade e se movem ameaçadoras, sem quaisquer propósitos de tolerância e escusas. No lar, a sua irascibilidade semeia confrangimentos contínuos, pois é atrabiliário com a esposa, filhos e vizinhos; vive certo de não precisar de ninguém e sente-se bastante auto-suficiente para desprezar os favores do próximo!
Então, o seu guia espiritual só tem um recurso para domar o pseudo-“gigante” demasiadamente eufórico de sua estatura e do seu maciço de carne: é jogá-lo num leito de sofrimento cruciante e arrasá-lo até que reconheça a sua própria debilidade humana no seio da humanidade. Desse modo, cerceia-lhe a violência e o coloca a caminho da ternura e da humildade, sob o guante do sofrimento, demonstrando-lhe que não passa de um troglodita vestido à moderna, qual extravagante gladiador que abusa de sua robusta armadura de carne, nervos e ossos!
Lança-o por terra abatido por violenta e insidiosa enfermidade, fazendo-o entrever o limiar dos bastidores do “outro mundo”, o que lhe desanda tremendo susto e desperta o desejo de continuidade de vida para cuidar do socorro alheio!
Embora possam variar imensamente os recursos e os métodos empregados pelos guias, conforme as reações psicológicas de cada uma criatura em prova, a enfermidade ainda é a mais valiosa intervenção corretiva para coibir o abuso dos encarnados que se imaginam “donos do mundo” e pretendem viver completamente desligados de qualquer compromisso ou obrigação para com os seus amigos e mentores que os acompanham do mundo invisível.
O corpo físico é o banco escolar onde a alma se assenta para aprender o alfabeto espiritual e proceder à sua necessária renovação interior. Desde que esse aluno despreze as oportunidades do aprendizado espiritual e prefira entregar-se ao comando das paixões animais, é muito comum a enfermidade, como um efeito confrangedor das vidas passadas, assim como pode ocorrer a intervenção disciplinadora do Alto, se for necessária.
Assim, nosso exemplo, desamparado da musculatura vigorosa, terá que reconhecer o valor da comunhão da família e receber-lhe o auxilio para sobreviver! Antes, expulsava de sua presença até os humildes que desejavam servi-lo; depois, abatido e exangue, beberica o remédio pelas mãos de uma criança e sorve a sopa nutritiva sob a vigilância da esposa amiga!
Na melancolia do leito de sofrimento, sobrar-lhe-á tempo para avaliar os serviços que lhe prestam na hora angustiosa; compreenderá a inutilidade do orgulho e da irascibilidade baseados no fato de possuir um corpo excessivamente acolchoado de carne; suas novas reflexões lhe devem despertar um novo entendimento sobre a verdadeira natureza humana tão frágil, assim como guiar-lhe a visão egocêntrica para a vida real do espírito!
Muitas criaturas evitaram a agravação de suas situações cármicas na Terra, com prejuízos para esta e para as vidas futuras, porque seus protetores conseguiram algemá-las definitivamente a um leito de dor, ou privaram-nas dos meios econômicos que lhes permitiriam levar avante empreitadas perigosas para a sua integridade espiritual.

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