28.1.17

SOBRE O AMOR – J. Krishnamurti


O que é o amor, para a maioria de nós? Quando dizemos que amamos uma pessoa, o que queremos dizer? Queremos dizer que possuímos a pessoa. Da posse nasce o ciúme, porque se eu o perder ou a perder, o que acontecerá? Eu me sentirei vazio, perdido. Ora, posse não é amor, é?

O amor, por certo, não é um sentimento. Ser sentimental, ser emotivo, não é indício de amor, porque a sentimentalidade e a emoção não passam de meras sensações. A pessoa religiosa que chora por Jesus, por Krishna, por seu guru ou por outro qualquer, é apenas sentimental, emotiva. Está-se deixando dominar pela sensação, que é um processo de pensamento, e o pensamento não é amor.

Estar cheio de emoção não é amor, porque uma pessoa sentimental pode ser cruel, quando seus sentimentos não são correspondidos, quando não pode dar expansão aos sentimentos. Uma pessoa emotiva pode ser incitada ao ódio, à guerra, ao morticínio. O homem sentimental, lacrimosamente religioso, esse homem por certo não tem amor.

Por certo não há amor, quando não há verdadeiro respeito, quando não respeitamos nossos semelhantes, seja nosso criado ou nosso amigo. Já notastes que não sabeis respeitar, que não sabeis ser benevolentes e generosos para com vossos criados, para com as pessoas ditas subalternas?

Tendes respeito pelos que estão acima, pelo patrão, pelo milionário, pelo homem que tem uma suntuosa residência e um título, pelo homem que pode dar-vos uma posição melhor, um emprego melhor, de quem podeis ganhar alguma coisa. Mas tratais a pontapés os que estão abaixo de vós; para estes tendes uma linguagem especial.

Por conseguinte, onde não há respeito, não existe amor. Onde não há compaixão, caridade, benevolência, não há amor. Só conhecereis o amor quando não possuirdes, quando não fordes emocionalmente devotado a um objeto. Tal devoção é súplica, é busca de alguma coisa, de maneira diferente.

O homem que reza não conhece o amor. Visto que tendes inclinação para a posse, visto que buscais um fim, um resultado, pela devoção, pela oração, que vos faz sentimental, emotivo, não existe naturalmente amor.

Podeis dizer que tendes respeito, mas vosso respeito é pelo superior, simples respeito inspirado pelo desejo de alguma coisa, ou o respeito do temor. Se sentísseis respeito, realmente, seríeis tão respeitoso para com os mais humildes como para os chamados superiores. Como não temos esse respeito, não temos amor.

Quão poucos de nós são generosos, indulgentes, caridosos! Sois generoso, quando isso vos compensa; sois caridoso quando esperais alguma retribuição. Quando essas coisas desaparecerem e deixarem de ocupar vossas mentes, então haverá amor. E só o amor pode transformar a loucura, a insânia que vai pelo mundo hoje em dia – e não os sistemas, nem as teorias, quer da esquerda, quer da direita.

Só amais realmente quando não possuís, quando não sois invejoso, ávido, quando sois respeitoso, quando tendes compaixão e caridade, quando tendes consideração para com vossa esposa, vossos filhos, vosso vizinho, vossos pobres criados.

O amor não pode ser pensado, o amor não pode ser cultivado, o amor não pode ser exercitado. A prática do amor, o exercitar da fraternidade está ainda dentro da esfera da mente e por conseguinte não é amor. Quando tudo isso tiver cessado, então nascerá o amor, sabereis então o que é amar. O amor não é então quantitativo, mas qualitativo.

Só quando houver amor, poderão todos os problemas ser resolvidos, e conheceremos então sua bem-aventurança, sua felicidade.


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