15.2.17

A ARTE DA MEDITAÇÃO – Paul Brunton


Primeiramente devemos corrigir o pensamento; segundo, corrigir a atividade prática; terceiro, corrigir o sentimento. Obtém-se o primeiro, com reflexões metafísicas de caráter mentalista. Realiza-se o segundo, renunciando à vontade pessoal. O terceiro se alcança por uma educação da atenção, graças a exercícios regulares de meditação ou yoga.

Quem já não se perdeu em algum devaneio agradável, ou não se absorveu completamente em algum trabalho intelectual? Quem não perdeu o sentido do tempo, esqueceu seu ambiente ou então abandonou suas preocupações e, às vezes, cessou de perceber uma dor física?

É muito grande o número de pessoas que já fizeram estas experiências, o que indica que já praticavam a meditação sem o saber. Isso é verdadeiramente o começo de uma experiência do yoga. A chave do sucesso no yoga se constitui, em parte, pela capacidade natural de concentração que nela se emprega, e em parte, pela energia com a qual nos entregamos ao exercício regular.

Quando se fazem os exercícios do yoga corretamente, mesmo que seja durante seis meses somente, obtêm-se resultados excelentes e cada vez mais numerosos. Mas para meditar é preciso que se tenha lugar e tempo disponíveis. É preciso traçar um programa quotidiano e executá-lo. O hábito governa a vida do homem.



A maioria das pessoas está presa a uma rede de prazeres e atividades, da qual lhes é muito difícil desembaraçar-se. Alguns prazeres e atividades são essenciais, mas não todos.
No começo, os exercícios devem ser feitos num mesmo lugar e à mesma hora, mas a regra pode ser mais livre, quando progressos sensíveis forem alcançados; então os exercícios poderão ser realizados em qualquer lugar e a qualquer hora. Um quarto onde possamos ficar a sós, durante meia hora, pela manhã ou à tarde, convém perfeitamente.

Certos obstáculos físicos devem ser eliminados, porque perturbam a atenção. O barulho, por exemplo, não pode ser permitido; todo ruído é amplificado durante a calma interior da meditação. É preciso, pois, escolher um lugar suficientemente silencioso.

Outro obstáculo é o movimento e as intrusões repentinas de outras pessoas. É preciso que ninguém nos incomode e o melhor é fechar-nos à chave durante a meditação.

O terceiro obstáculo é apresentado pelos movimentos nervosos ou irregulares do corpo. É preferível conservar a espinha dorsal ereta. O aluno pode apoiar as costas na parede, se estiver no chão, ou no espaldar da cadeira, se ficar assentado. A espinha ereta favorece uma respiração ampla e intensa, para que a força vital latente nos órgãos genitais suba ao longo da coluna vertebral até a extremidade da cabeça para sublimá-la e espiritualizá-la.

Uma saúde má é o quarto obstáculo. As dores, as perturbações físicas, o mau funcionamento do corpo podem distrair a atenção e tornar a meditação impossível. É necessário tratar-se com a medicina disponível, sem esquecer que é uma região em que o karma pessoal é particularmente ativo. Ao mesmo tempo, há casos em que o excesso de tempo criado por uma enfermidade favoreceram a meditação, bem como casos em que o desgosto do corpo provocado pela enfermidade tornou a mente meditativa pela primeira vez.

Há ainda os obstáculos emotivos. As depressões morais, as perturbações emotivas, as paixões, as amarguras, imaginações descontroladas, podem interferir. Assim, o aluno deve no começo esforçar-se por afastar todo pensamento relativo a negócios pessoais, excluir todas as lembranças dolorosas ou agradáveis, desprender sua atenção dos trabalhos ou interesses do dia.

Um obstáculo freqüente é a fadiga mental que provém da agitação e do barulho do dia. Mas a meditação mesma traz o repouso e o relaxamento necessários. Um bom meio de se restabelecer consiste em estender-se, estirar-se durante alguns minutos sobre um tapete e manter os membros distendidos, respirando regularmente. Não se empregue nenhum suporte para a cabeça.

A impaciência é outro obstáculo psíquico. Cada estudante deve impregnar seu espírito da esperança de que, se os exercícios forem feitos assiduamente e com atenção profunda, haverá certamente bons resultados. Com o tempo, os exercícios se tornam agradáveis e interessantes.

A perfeita concentração da atenção é uma das chaves para o sucesso. Se o pensamento e o sentimento não são dirigidos para os canais definidos, são comparáveis ao vapor que se escapa inutilmente no ar em lugar de mover uma locomotiva de cem toneladas. O exercício de concentração será um fracasso enquanto o interesse não for despertado. É vão escolher um exercício, somente porque agradou a outra pessoa ou lhe ofereceu resultados particulares. O aluno deverá escolher aqueles que solicitam mais seu interesse e sua imaginação; e assim se sentirá espontaneamente absorvido pelo assunto.

Pode começar por concentrar sua atenção sobre um objeto, uma ideia ou simplesmente voltá-la para o interior de si mesmo. Será necessário reconduzir o pensamento sem trégua quando se afasta, e para isso são necessárias a destreza e a perseverança.

A meditação deve constantemente tender a orientar-se mais alto para qualquer coisa de mais divino, para um ato final de comunhão sagrada com seu Eu Superior. É preciso dirigir toda a potência da atenção para o interior de seu ser. É somente persistindo nessa direção, resistindo à atração contrária da vida ambiente, que o estudante conseguirá penetrar o reduto místico da consciência do Eu.

Uma concentração levada a bom resultado toma dois minutos e meio, durante os quais a mente fica absolutamente fixa sobre uma só idéia. Uma contemplação bem feita toma mais ou menos vinte e seis minutos. Quanto à meditação não é possível determinar uma duração particular.

A paz e o desapego que um homem pode colher dos momentos que consagra ao exercício lhe são preciosos. O mundo ocidental moderno é vítima da concepção desequilibrada, segundo a qual a vida não é senão ação.

Uma sociedade produzida em série, enervada, que perdeu o senso das proporções, achando que é suficiente o ribombar das máquinas ou o clamor das cidades superpovoadas, recusando-se com impaciência a escutar a voz tranquila de seu Eu interior ou a música mais profunda da vida, orquestrada por artistas inspirados, ou ainda a rica harmonia das clareiras nas florestas majestosas, uma tal sociedade constitui um deplorável caso patológico.

A salvação da sociedade ocidental pode provir unicamente do restabelecimento da integridade perdida. É preciso que se recorra à técnica da meditação para restaurar o equilíbrio.

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