O
Eu Superior age em silêncio e segurança, e modifica a vida da
pessoa profundamente e sem teatralidade. Toma conta do homem sem
anúncios berrantes; as outras conversões são apenas turbações
emotivas. O divino age de maneira profunda.
Por
que não manifesta ele mais abertamente seu poder, não intervém com
mais clareza na vida do eu pessoal? É porque, sabendo-se imortal e
conhecendo a natureza efêmera da pessoa, pode permitir-se esperar
com maravilhosa paciência que cresça, amadureça e desapareça a
força do eu pessoal.
Isso
explica por que não podemos obrigar que a graça desça sobre nós.
Ela vem à sua hora, não à nossa; bruscamente, sem a esperarmos. A
vinda da graça é sentida de modo reconhecível, mas somente depois
que o homem foi humilhado e castigado, tornado modesto.
A
manifestação da graça, pois, não nos chega sem o preparo prévio,
sem a maturação dos esforços e sem a solicitação fervorosa. A
base da atração entre aquele que pede e o que dá, deve ser a fé e
o amor. O aspirante deve crer que o Eu Superior existe e que
alcançá-lo constitui a meta oculta de sua encarnação.

Precisamos
mudar de atitude e erguer os olhos com amor para o Eu Superior.
Devemos nos prender a ele mais que a qualquer outra coisa. Este poder
que dirige a vida universal pode igualmente dirigir a nossa vida, se
o deixamos que pense, sinta e aja através de nós.
Somente
a humildade ante este Eu Superior pode abrir as barreiras que trancam
o acesso a nosso centro espiritual no coração. Todo grito sincero
que lançamos, no curso de uma crise, no vazio aparente, é ouvido
pelo Eu Superior sempre presente. Não esqueçamos de ser sinceros,
isto é, que o anseio corresponda aos atos do homem, tanto quanto
seus pensamentos; que seja uma aspiração permanente e não
simplesmente um desejo momentâneo.
Quem
invoca a potência suprema não deve fazê-lo em vão, embora a
resposta possa tomar uma forma inesperada que nem sempre é de seu
gosto, e vá às vezes além de suas esperanças, agindo sempre em
seu benefício verdadeiro e não somente na aparência.
Perde-se
às vezes muito tempo em reclamar favores não merecidos. A sabedoria
prática e a sinceridade moral consistem em acolher no coração esta
verdade: arrependa-se e serás remido.
O
maior pecador pode receber o que não mereceu se deseja arrepender-se
sinceramente, corrigir-se em toda a medida do possível e voltar-se
para a sublime fé. Qualquer que tenha sido sua vida anterior,
mudando seus pensamentos e seus atos, poderá comungar com o Eu
Superior e fazer ouvir sua voz nesta região mais alta, donde é
sempre possível fazer surgir o dom da graça.

Ninguém
deve ser orgulhoso para não orar, e isto suscita a questão da
necessidade e da utilidade da oração. Ninguém tem o direito de
desdenhá-la. Enquanto formos imperfeitos, a oração nos é
indispensável. Somente o sábio que não nutre mais desejos pode
dispensar-se dela, embora a possa fazer em benefício dos outros, a
seu modo misterioso.
A
oração dirigida a um ser sobrenatural com o fim de libertar o
pedinte das aflições que mereceu poderá apenas ter o resultado de
consolá-lo. A oração, porém, que se combina com um esforço de
arrependimento para corrigir os defeitos que deram crescimento à
aflição e que completa uma tentativa real a reparar o mal
eventualmente causado a outrem, pode não ser vã.
O
arrependimento e a reparação são os fatores capitais para tornar
uma oração eficaz. Representam uma força que pode afetar o karma
pessoal, introduzindo no processo kármico um karma novo e favorável.
Quando
a oração exalta o homem acima das mesquinharias e cuidados
pessoais, ela é útil a seu aperfeiçoamento. Quando é puramente
material, torna-se um apelo hipócrita a uma entidade antropomórfica
e por isso resulta vã, tanto do ponto de vista espiritual quanto do
prático. A única maneira de fazer apelo contra os sofrimentos
infligidos pelo princípio do karma, não é orar mas transformar os
pensamentos.
A
oração produz sua floração mais luminosa quando pode exprimir-se
por estas palavras: “Que tua vontade, ó Deus, seja feita por mim,
e não para mim”. O efeito pode não ser momentâneo, mas neste
momento magnífico, a fórmula terá seu alcance verdadeiro e será
ouvida de mais alto.
Então,
e somente então, alguma coisa descerá no suplicante e aliviará seu
fardo de preocupação. O homem conhecerá a paz no instante em que,
sentindo a relação impalpável com Deus, aceita a colaboração na
ordem universal.
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