(relato de seu encontro
com Sri Rámana Maharshi)
Há alguns anos,
empreendi uma longa viagem através da Índia, terra calcinada pelo
sol causticante dos trópicos; percorri esse vasto continente na
esperança de encontrar os últimos vestígios desse Oriente místico,
do qual tantos ouviram falar e a tão poucos foi dado conhecer.
Durante minhas andanças,
encontrei um homem extraordinário, que imediatamente me inspirou
profundo respeito e foi alvo da minha humilde veneração. Embora
pertencesse, por tradição, à classe dos Grandes Sábios (Maha
Rishis), evitava por todos os meios revelar sua personalidade e
opunha-se a todos os esforços que viessem a dar-lhe publicidade.
O tempo se precipita como
impetuosa corrente, levando consigo a humanidade, porém este sábio
estava sentado à parte, tranquilamente firme na margem gramada, e
contemplava esse gigantesco espetáculo com o semblante iluminado por
um calmo sorriso de Buddha.
Tais homens, perdidos
aqui e acolá, vivem ocultos nos diversos retiros da Ásia e África,
mantendo, quais espectros, as tradições da mais antiga sabedoria.
São como espíritos guardiães, velando por seus tesouros. Essa raça
espectral vive apartada, mantendo vivos os divinos segredos que a
vida e o destino confiaram a seu cuidado.

A hora de nosso primeiro
encontro ficou gravada em minha alma e ainda persiste na memória.
Encontrei-o inesperadamente. Não esboçou nenhuma reação formal.
Por um instante seus olhos sibilinos mergulharam nos meus. Foi o
suficiente para ele ver todo o itinerário pecaminoso de meu passado
e as flores imaculadas que tenham começado a desabrochar-se em minha
alma.
Naquele ser, sentado à
minha frente, estava uma grande força impessoal, que lia todas as
etapas de minha vida num olhar mais lúcido do que eu jamais poderia
alcançar. Eu tinha dormido no leito perfumado de Afrodite – e ele
o sabia; eu tinha atraído o gênio de minha mente a explorar as
profundezas da alma em busca de estranhas e fascinantes descobertas –
e ele também o sabia.
Senti igualmente que se
pudesse segui-lo pelos misteriosos labirintos de seu pensamento,
todas minhas misérias se esvaneceriam e compreenderia enfim a vida
sem jamais revoltar-me contra ela. Ainda que sua sabedoria não fosse
dessas que se percebem facilmente ou se impõem, e apesar da reserva
austera que o envolvia, ele me inspirou profundo interesse.
Rompia seu silêncio
costumeiro apenas para responder às perguntas de ordem abstrata,
tais como a natureza da alma, o mistério de Deus, os poderes
estranhos ainda inexplorados mas latentes no homem, e assim por
diante.
Mas quando falava, eu
sentia estar cativo de um encanto escutando sua voz doce, imobilizado
sob o sol ardente ou a pálida lua crescente. Pois aquela voz calma
estava investida de autoridade e a inspiração cintilava em seus
olhos luminosos. Cada sentença que seus lábios pronunciavam parecia
conter algum precioso fragmento de verdade essencial.

Os teólogos de um século
insuficientemente arejado pregaram a doutrina do pecado original do
homem; mas este sábio ensinava a doutrina da bondade original do
homem.
Em presença desse ser
excepcional sentia-se segurança e paz interior. Sua irradiação
espiritual penetrava no âmago da alma. Em sua pessoa, aprendi a
considerar as verdades sublimes que ele ensinava, e a incrível
atmosfera de santidade que o envolvia me levava a prosternar-me em
veneração silenciosa.
Poderia eu ter tomado
notas das palavras do sábio, mas o elemento mais importante de suas
revelações, o perfume sutil e sereno de espiritualidade que dele
irradiava, jamais podem ser relatados.
É impossível esquecer
aquele semblante, aquele sorriso maravilhoso e profundo que revelava
sabedoria e paz conquistadas pelos sofrimentos e experiências
vividos. Era o ser humano mais compreensivo que jamais me fora dado
conhecer. Sempre se podia ter certeza de ouvir dele algumas palavras
que esclareciam o caminho e sempre elas correspondiam ao que nosso
mais íntimo sentimento nos havia sussurrado.
As palavras desse Sábio
brilham ainda em minha memória como luz de um holofote. Nossos mais
eminentes filósofos ocidentais estão muito longe de chegar a seus
pés.
Hoje, o corpo do sábio
não mais existe. Preparo-me para partir mais uma vez para o Oriente.
Almejo nada menos que atravessar a Ásia em toda sua extensão e o
propósito é a mesma antiga busca dos derradeiros expoentes vivos da
sabedoria e magia orientais.
Espero percorrer os
amarelentos desertos do Egito, travar relações com os mais
esclarecidos xeiques da Síria, misturar-me aos últimos faquires das
aldeias longínquas do Iraque, entrevistar os antigos místicos sufis
da Pérsia nas mesquitas de graciosas cúpulas e minaretes esguios,
testemunhar os milagres dos mágicos iogues à sombra violeta dos
templos hindus, palestrar com os lamas taumaturgos na fronteira do
Nepal e Tibete, sentar-me nos mosteiros budistas da Birmânia (hoje
Myanmar) e do Sri Lanka, e entregar-me às mudas conversações
telepáticas com os sábios de idade secular e manto amarelo no
continente chinês e no deserto de Gobi.
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