21.2.17

DIANTE DE UM SÁBIO DO ORIENTE – Paul Brunton


(relato de seu encontro com Sri Rámana Maharshi)

Há alguns anos, empreendi uma longa viagem através da Índia, terra calcinada pelo sol causticante dos trópicos; percorri esse vasto continente na esperança de encontrar os últimos vestígios desse Oriente místico, do qual tantos ouviram falar e a tão poucos foi dado conhecer.

Durante minhas andanças, encontrei um homem extraordinário, que imediatamente me inspirou profundo respeito e foi alvo da minha humilde veneração. Embora pertencesse, por tradição, à classe dos Grandes Sábios (Maha Rishis), evitava por todos os meios revelar sua personalidade e opunha-se a todos os esforços que viessem a dar-lhe publicidade.

O tempo se precipita como impetuosa corrente, levando consigo a humanidade, porém este sábio estava sentado à parte, tranquilamente firme na margem gramada, e contemplava esse gigantesco espetáculo com o semblante iluminado por um calmo sorriso de Buddha.

Tais homens, perdidos aqui e acolá, vivem ocultos nos diversos retiros da Ásia e África, mantendo, quais espectros, as tradições da mais antiga sabedoria. São como espíritos guardiães, velando por seus tesouros. Essa raça espectral vive apartada, mantendo vivos os divinos segredos que a vida e o destino confiaram a seu cuidado.

The Meeting of Paul Brunton and Ramana Maharshi Changed the Course ...

A hora de nosso primeiro encontro ficou gravada em minha alma e ainda persiste na memória. Encontrei-o inesperadamente. Não esboçou nenhuma reação formal. Por um instante seus olhos sibilinos mergulharam nos meus. Foi o suficiente para ele ver todo o itinerário pecaminoso de meu passado e as flores imaculadas que tenham começado a desabrochar-se em minha alma.

Naquele ser, sentado à minha frente, estava uma grande força impessoal, que lia todas as etapas de minha vida num olhar mais lúcido do que eu jamais poderia alcançar. Eu tinha dormido no leito perfumado de Afrodite – e ele o sabia; eu tinha atraído o gênio de minha mente a explorar as profundezas da alma em busca de estranhas e fascinantes descobertas – e ele também o sabia.

Senti igualmente que se pudesse segui-lo pelos misteriosos labirintos de seu pensamento, todas minhas misérias se esvaneceriam e compreenderia enfim a vida sem jamais revoltar-me contra ela. Ainda que sua sabedoria não fosse dessas que se percebem facilmente ou se impõem, e apesar da reserva austera que o envolvia, ele me inspirou profundo interesse.

Rompia seu silêncio costumeiro apenas para responder às perguntas de ordem abstrata, tais como a natureza da alma, o mistério de Deus, os poderes estranhos ainda inexplorados mas latentes no homem, e assim por diante.

Mas quando falava, eu sentia estar cativo de um encanto escutando sua voz doce, imobilizado sob o sol ardente ou a pálida lua crescente. Pois aquela voz calma estava investida de autoridade e a inspiração cintilava em seus olhos luminosos. Cada sentença que seus lábios pronunciavam parecia conter algum precioso fragmento de verdade essencial.

Devotos de Bhagavan Sri Ramana Maharshi: 2018

Os teólogos de um século insuficientemente arejado pregaram a doutrina do pecado original do homem; mas este sábio ensinava a doutrina da bondade original do homem.

Em presença desse ser excepcional sentia-se segurança e paz interior. Sua irradiação espiritual penetrava no âmago da alma. Em sua pessoa, aprendi a considerar as verdades sublimes que ele ensinava, e a incrível atmosfera de santidade que o envolvia me levava a prosternar-me em veneração silenciosa.

Poderia eu ter tomado notas das palavras do sábio, mas o elemento mais importante de suas revelações, o perfume sutil e sereno de espiritualidade que dele irradiava, jamais podem ser relatados.

É impossível esquecer aquele semblante, aquele sorriso maravilhoso e profundo que revelava sabedoria e paz conquistadas pelos sofrimentos e experiências vividos. Era o ser humano mais compreensivo que jamais me fora dado conhecer. Sempre se podia ter certeza de ouvir dele algumas palavras que esclareciam o caminho e sempre elas correspondiam ao que nosso mais íntimo sentimento nos havia sussurrado.

As palavras desse Sábio brilham ainda em minha memória como luz de um holofote. Nossos mais eminentes filósofos ocidentais estão muito longe de chegar a seus pés.

Hoje, o corpo do sábio não mais existe. Preparo-me para partir mais uma vez para o Oriente. Almejo nada menos que atravessar a Ásia em toda sua extensão e o propósito é a mesma antiga busca dos derradeiros expoentes vivos da sabedoria e magia orientais.

Espero percorrer os amarelentos desertos do Egito, travar relações com os mais esclarecidos xeiques da Síria, misturar-me aos últimos faquires das aldeias longínquas do Iraque, entrevistar os antigos místicos sufis da Pérsia nas mesquitas de graciosas cúpulas e minaretes esguios, testemunhar os milagres dos mágicos iogues à sombra violeta dos templos hindus, palestrar com os lamas taumaturgos na fronteira do Nepal e Tibete, sentar-me nos mosteiros budistas da Birmânia (hoje Myanmar) e do Sri Lanka, e entregar-me às mudas conversações telepáticas com os sábios de idade secular e manto amarelo no continente chinês e no deserto de Gobi.


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