Quando
eu tinha nove anos de idade, fui convidado por meu tio, certo dia, para fazer
uma visita ao grande sábio Nityananda, da cidade de Ganeshpuri.
Viajamos
por quatro dias de trem e chegamos lá por volta das 11 horas, indo direto para
a morada de Nityananda. Eu estava cansado, pois não tinha dormido bem, estava
faminto, com uma leve dor de cabeça e já saudoso de minha família.
Disseram-nos
para esperar numa fila. Havia pelo menos 50 pessoas esperando para ter o
darshan (estar na sagrada presença) do sábio. Depois de meia hora, o portão se
abriu e entramos na casa.
Numa
poltrona estava sentado um homem amedrontador. Ele era grande, com uma pele
escura, cabeça raspada e um rosto que parecia pequeno comparado ao resto do
corpo, especialmente sua grande barriga. Tudo que usava
era uma tanga, e estava descalço.
Fiquei
assustado, porque além de seu tamanho, ele parecia ser louco. Ficava murmurando
alguma coisa para si mesmo numa linguagem incoerente, fazendo estranhos gestos
com suas mãos e às vezes dava uma gargalhada sem razão aparente.
A
fila de devotos passava por ele. Quando ficavam em sua frente, se prostravam,
pediam sua bênção e iam embora. Ele tocava as cabeças de alguns, para outros
apenas fazia um gesto com as mãos e ainda com outro gritou. Por um momento,
pareceu-me que ia pular sobre o devoto, mas o momento passou e o próximo da
fila se aproximou.
Quando
chegou nossa vez, eu tremia de medo, apesar de meu tio segurar minha mão. Ao
ficar de frente com Nityananda, que agora me parecia uma grande montanha,
imitei os outros devotos e me prostrei.
Quando
me levantei e olhei seu rosto, todo medo sumiu. Ele sorria com doçura, cheio de
afeto e tocou em minha cabeça murmurando algo como “terá que escalar montanhas”
(o que realmente ocorreu, quando parti em busca de meu guru nos Himalayas).
De
repente, ele olhou para mim e deu-me um tapa na face direita. O tapa foi tão
forte que caí de lado. Comecei a chorar e me levantei. Meu tio me levou em
silêncio para fora, e me consolou dizendo: “É sua boa sorte. Isso foi uma
bênção. Poucas pessoas conseguem essa bênção. Não se preocupe.”
Sequei
minhas lágrimas com um lenço, mas não concordei com ele. Que tipo de bênção era
aquela, dando um tapa numa inocente criança de nove anos? Fiquei convencido de
que o sábio era completamente louco e que toda a viagem foi um erro.
Almoçamos
no hotel e depois partimos de regresso. Meu tio ainda disse: “Não sei qual foi
o significado do tapa, mas acho que você descobrirá o motivo mais tarde em sua
vida”.

Continuei
a pensar no ocorrido como um ato desequilibrado de uma pessoa mentalmente
doente até a idade de 16 anos, quando vim a entender que alguns seres muito
evoluídos chamados avadhutas às vezes se comportam de maneira estranha para
chegar a objetivos que nós mortais desconhecemos.
Talvez
houve algum significado naquele tapa, pensei, mas qual era só vim a descobrir
muitos anos depois, quando saí de casa e fui em busca de meu guru, Maheshwarnath.
Enquanto
eu vivia numa caverna de Badrinath com meu guru, nos Himalayas, ele me ensinou
uma certa técnica respiratória que purifica ida nadi, o canal sutil que começa
no muladhara e termina na narina esquerda. Pratiquei essa técnica até chegar a
executá-la com perfeição e meu guru se convenceu de que o caminho de ida nadi
estava perfeitamente desimpedido.
Quando
lhe perguntei se tinha de fazer o mesmo trabalho com pingala nadi, o canal que
termina na narina direita, ele riu e disse: “Isso já foi feito há muito tempo
atrás com o tapa de Nityananda em sua face direita. Pingala nadi está limpo e
desobstruído agora e você não tem que se preocupar com ele. Sei que você pensou
que ele era louco!”
São
estranhos os caminhos de santos e sábios, frequentemente além do entendimento
de nossos pequenos cérebros.
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