11.3.19

NITYANANDA, O SÁBIO DE GANESHPURI – Madhukarnath



Quando eu tinha nove anos de idade, fui convidado por meu tio, certo dia, para fazer uma visita ao grande sábio Nityananda, da cidade de Ganeshpuri.

Viajamos por quatro dias de trem e chegamos lá por volta das 11 horas, indo direto para a morada de Nityananda. Eu estava cansado, pois não tinha dormido bem, estava faminto, com uma leve dor de cabeça e já saudoso de minha família.

Disseram-nos para esperar numa fila. Havia pelo menos 50 pessoas esperando para ter o darshan (estar na sagrada presença) do sábio. Depois de meia hora, o portão se abriu e entramos na casa.

Numa poltrona estava sentado um homem amedrontador. Ele era grande, com uma pele escura, cabeça raspada e um rosto que parecia pequeno comparado ao resto do corpo, especialmente sua grande barriga. Tudo que usava era uma tanga, e estava descalço.

Imagem relacionada  Nityananda

Fiquei assustado, porque além de seu tamanho, ele parecia ser louco. Ficava murmurando alguma coisa para si mesmo numa linguagem incoerente, fazendo estranhos gestos com suas mãos e às vezes dava uma gargalhada sem razão aparente.

A fila de devotos passava por ele. Quando ficavam em sua frente, se prostravam, pediam sua bênção e iam embora. Ele tocava as cabeças de alguns, para outros apenas fazia um gesto com as mãos e ainda com outro gritou. Por um momento, pareceu-me que ia pular sobre o devoto, mas o momento passou e o próximo da fila se aproximou.

Quando chegou nossa vez, eu tremia de medo, apesar de meu tio segurar minha mão. Ao ficar de frente com Nityananda, que agora me parecia uma grande montanha, imitei os outros devotos e me prostrei.

Quando me levantei e olhei seu rosto, todo medo sumiu. Ele sorria com doçura, cheio de afeto e tocou em minha cabeça murmurando algo como “terá que escalar montanhas” (o que realmente ocorreu, quando parti em busca de meu guru nos Himalayas).

De repente, ele olhou para mim e deu-me um tapa na face direita. O tapa foi tão forte que caí de lado. Comecei a chorar e me levantei. Meu tio me levou em silêncio para fora, e me consolou dizendo: “É sua boa sorte. Isso foi uma bênção. Poucas pessoas conseguem essa bênção. Não se preocupe.”

Sequei minhas lágrimas com um lenço, mas não concordei com ele. Que tipo de bênção era aquela, dando um tapa numa inocente criança de nove anos? Fiquei convencido de que o sábio era completamente louco e que toda a viagem foi um erro.

Almoçamos no hotel e depois partimos de regresso. Meu tio ainda disse: “Não sei qual foi o significado do tapa, mas acho que você descobrirá o motivo mais tarde em sua vida”.

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Continuei a pensar no ocorrido como um ato desequilibrado de uma pessoa mentalmente doente até a idade de 16 anos, quando vim a entender que alguns seres muito evoluídos chamados avadhutas às vezes se comportam de maneira estranha para chegar a objetivos que nós mortais desconhecemos.

Talvez houve algum significado naquele tapa, pensei, mas qual era só vim a descobrir muitos anos depois, quando saí de casa e fui em busca de meu guru, Maheshwarnath.

Enquanto eu vivia numa caverna de Badrinath com meu guru, nos Himalayas, ele me ensinou uma certa técnica respiratória que purifica ida nadi, o canal sutil que começa no muladhara e termina na narina esquerda. Pratiquei essa técnica até chegar a executá-la com perfeição e meu guru se convenceu de que o caminho de ida nadi estava perfeitamente desimpedido.

Quando lhe perguntei se tinha de fazer o mesmo trabalho com pingala nadi, o canal que termina na narina direita, ele riu e disse: “Isso já foi feito há muito tempo atrás com o tapa de Nityananda em sua face direita. Pingala nadi está limpo e desobstruído agora e você não tem que se preocupar com ele. Sei que você pensou que ele era louco!”

São estranhos os caminhos de santos e sábios, frequentemente além do entendimento de nossos pequenos cérebros.

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