27.9.16

A FORMAÇÃO DO CARÁTER – Ramacháraka


O caráter pode ser modificado, mudado e, às vezes, totalmente transformado por meio de uma inteligente aplicação das faculdades mentais subconscientes. A prática yogue de formação do caráter baseia-se no conhecimento das admiráveis forças do plano mental subconsciente. 
 
A extirpação dos traços característicos inconvenientes realiza-se quando o discípulo cultiva os traços que lhe são opostos. Por exemplo, se o discípulo quer vencer o medo, não se lhe ensina a concentrar-se sobre o medo com a ideia de o destruir, mas em vez disso ensina-se-lhe que deve mentalmente negar que tem medo e, depois, concentrar a sua atenção sobre o ideal de coragem. Quando estiver desenvolvida a coragem, o medo desaparece. O positivo vence sempre o negativo. 
 
O caráter de uma pessoa é grandemente o resultado da qualidade dos pensamentos tidos na mente e dos ideais ou imagens mentais que a pessoa traz consigo. 
 
Quem se vê e imagina sempre como infeliz e vencido, é muito capaz de aumentar as ideias das formas de pensamento destas coisas até que toda a sua natureza venha a ser dominada por elas, e todos os seus atos objetivam esses pensamentos, tomando-o realmente infeliz e fraco. Pelo contrário, o homem que nutre um ideal de sucesso e bom êxito, achará que a sua natureza mental inteira parece colaborar para a objetivação do seu ideal, tornando-o feliz e forte. E assim em relação a qualquer outro ideal. 
 
A pessoa que forma e alimenta em si uma ideia de ciúme, facilmente poderá objetivar e criar inconscientemente as condições que darão ao ciúme o alimento para se nutrir. A mente é elástica, para quem conhece o segredo de sua manipulação.
 
Cada um faz-se a si mesmo positiva ou negativamente. Negativamente, se se deixa modelar pelo pensamento e ideais de outros; e positivamente, se se modela a si mesmo. O homem fraco é aquele que se deixa modelar por outros: o forte é aquele que tem o processo da sua formação nas próprias mãos. 
 
O princípio que serve de base a toda teoria yogue da formação do caráter pelo intelecto subconsciente é que o Eu é o Senhor da mente, e que a mente é plástica para as ordens do Eu. O «Eu» do indivíduo é o seu único princípio real, permanente, imutável; a mente, como o corpo, está constantemente em mudança e movimento, cresce e morre. Da mesma maneira como o corpo pode ser desenvolvido e educado por meio de exercícios inteligentes, assim também a mente pode ser desenvolvida e educada pelo Eu, se se aplicarem métodos inteligentes. 
 
As causas do caráter são: 1) Resultado de experiências feitas nas vidas passadas; 2) Hereditariedade; 3) Ambiente; 4) Sugestão dada por outros; 5) Auto-sugestão. 
 
Porém, de qualquer modo que tenha sido formado o nosso caráter, ele pode ser modificado, modelado, mudado e melhorado. 
 
A ideia básica da auto-sugestão é o «querer» do indivíduo que se façam as mudanças na sua mente, sendo esta volição ajudada pelos métodos inteligentes e experimentados de criar o novo ideal ou forma de pensamento. A primeira condição necessária para realizar as mudanças é o «desejo» da mudança. Enquanto não desejardes realmente que haja tal mudança, não podeis levar a vontade à, tarefa. Há uma estreita conexão entre o desejo e a vontade. A vontade não costuma ser induzida a um objeto, senão quando é inspirada pelo desejo Algumas pessoas ligam a palavra desejo com as inclinações baixas, mas ela é igualmente aplicável às superiores. Se alguém combate uma inclinação ou um desejo inferior, faz isso também porque tem uma inclinação ou possui desejo superior. 
 
O desejo pode ser formado quando se permite à mente ocupar-se com o objeto até que comece a desejá-lo. Esta regra rege ambos os caminhos, como muitos acharam à sua tristeza e miséria. Pode-se tornar assim não só um desejo recomendável, como também repreensível. Um pouco de reflexão vos convence da verdade disto. Um jovem não tem desejo de se entregar aos excessos de uma vida «leviana». Algum tempo depois, porém, ouve ou lê alguma coisa sobre outros que levam a vida assim e começa a permitir à sua mente ocupar-se do assunto, pensando nele e examinando-o mentalmente, e saturando com ele a sua imaginação. 
 
Depois de algum tempo começa a sentir um desejo que se enraíza e desenvolve gradualmente. E se continuar a nutrir o objeto na sua imaginação, chega, por fim, a sentir em si uma inclinação nascente, que tentará com insistência exprimir-se em ação. 
 
Há muita verdade nas palavras do poeta:
«O vicio é tão feio que, visto à luz,
Só nojo e ódio ao homem bom produz.
Mas se o vê frequentemente, o nojo passa,
o homem aceita-o e, por fim o abraça». 
 
E as loucuras e crimes de muitos homens devem-se ao crescimento de um desejo na sua mente; eles plantaram a semente, regaram-na e cuidaram dela, para que crescesse: — o desejo cresceu. Lembrai-vos sempre, porém, de que a força que conduz para baixo pode ser transmutada e usada para conduzir para cima. 
 
É tão fácil plantar e fazer crescer desejos sãos e úteis, como maus. Se tendes a consciência de certos defeitos e deficiências no vosso caráter (e quem não os tem?) e achais que não possuís ainda o desejo bastante forte para fazerdes a necessária mudança, deveis começar por plantar a semente do desejo e deixá-la crescer sob vosso cuidado e constante atenção. Deveis fazer-vos à imagem das vantagens da aquisição dos traços de caráter que desejais ter. Deveis frequentemente pensar neles, imaginando que já os possuís. Assim achareis que o desejo crescente aumenta e que, a pouco e pouco, sentis cada vez mais a necessidade de possuir aqueles traços de caráter. E quando começardes a sentir esta necessidade com bastante força achareis que também experimentais na vossa consciência um sentimento de possuirdes força de vontade suficiente para realizar o desejo: a vontade segue depois do desejo. Cultivai um desejo e achareis depois a vontade para o realizar. Sob a pressão de um fortíssimo desejo praticaram, alguns homens, atos semelhantes a milagres. 
 
Se achais que possuís desejos que vos são prejudiciais, podeis livrar-vos deles deixando-os morrer por falta de alimento e, ao mesmo tempo, fazendo crescer desejos opostos. Recusando-vos a pensar nos desejos inconvenientes, tirai-lhes o alimento mental necessário à sua existência. Da mesma forma que morrerá uma planta a que tirais o solo e a água que a nutrem, assim também morrerá um desejo inconveniente, se vos recusais a dar-lhe alimento mental. Não permitais à mente ocupar-se de tais desejos, e desviai resolutamente a atenção e sobretudo a imaginação do objeto.
 
E enquanto vos recusais a entreter o hóspede desagradável, haveis de fazer crescer com firmeza um desejo de natureza totalmente oposta — um desejo diretamente oposto ao que estais a eliminar. Fazei a imagem do desejo oposto, e pensai nela amiúde. Fazei com que a vossa mente pouse nela com agrado e que a imaginação ajude a dar-lhe forma. Pensai nas vantagens que vos trará a sua plena possessão e fazei na vossa imaginação um quadro em que vos vejais possuidor da qualidade almejada e como esta vos dá nova força vital e novo vigor. 
 
Tudo isto vos levará gradualmente ao ponto em que delibereis «querer» possuir tal força. Em seguida, preparai-vos para dar o primeiro passo para diante, que é a «fé» ou «expectação confiante». 
 
Muitas pessoas são incapazes de ter fé ou esperar com confiança, quando precisam; em tais casos, devem adquirir a fé gradualmente. Quanto mais fé ou confiança tiverdes no bom êxito do trabalho da formação do caráter, tanto maior será o vosso sucesso. Desejo forte e fé ou expectativa: eis os primeiros dois passos. O terceiro é a força de vontade. 
 
Com a palavra «força de vontade» não pensamos naquela coisa que cerra os punhos e franze as sobrancelhas — a que alguns dão, falsamente, o nome de «vontade». A vontade não se manifesta deste modo. A verdadeira vontade aparece quando reconhecemos o nosso «Eu» e pronunciamos a palavra de mando daquele centro de poder e força. É a voz do «Eu». E é necessária, nesta operação de formação de caráter. 
 
Agora estais, pois, pronto para operar, possuindo: 1) um desejo forte; 2) fé ou expectativa confiante; e 3) a força de vontade. Com esta tríplice arma, alcançareis o sucesso. 
 
Em seguida, vem o trabalho mesmo. Os nossos caracteres são formados de hábitos que herdamos ou que adquirimos. Refleti sobre isto e achareis que é assim. Fazeis certas coisas sem nelas pensar, porque adquiristes o hábito de as fazer. Agis em certas direções, porque constituístes o hábito. Estais habituados a ser fiéis, verdadeiros, honestos, virtuosos, porque adquiristes e firmastes o hábito de sê-lo. A formação do caráter é formação de hábitos. E mudar o caráter é mudar os hábitos. 
 
E lembrai-vos que o hábito pertence quase inteiramente à mentalidade subconsciente. É verdade que os hábitos se originam na mente consciente, mas quando estão estabelecidos, caem nas profundidades da mentalidade subconsciente e transformam-se na «segunda natureza» que, muitas vezes, é mais poderosa que a natureza original da pessoa. 
 
A impressão dada à mentalidade subconsciente aprofunda e alarga-se durante o intervalo de descanso. O melhor método é fazer frequentes e fortes impressões e, depois, dar razoáveis períodos de descanso para que a mentalidade subconsciente possa fazer o seu trabalho. Com o termo «fortes impressões», pensamos impressões dadas sob forte atenção. 
 
Um escritor disse, com toda a razão: «Semeai um ato, colhereis um hábito; semeai um hábito, colhereis um caráter; semeai um caráter, colhereis um destino», reconhecendo, assim, que o hábito é a fonte do caráter. 
 
Assim, vemos que a modelação, modificação, e formação do caráter dependem, em grande parte, da criação de hábito. Qual o melhor método de criar hábitos, será a questão mais próxima. A resposta do yogue é: «Formai uma imagem mental e depois assentai o vosso hábito em torno dela». E nesta sentença condensou um sistema inteiro.
 
Tudo que vemos que tem forma, é construído sobre a base de uma imagem mental. Esta é a regra do universo e, na formação de um caráter, seguindo simplesmente uma casa, pensamos primeiro na «casa» de um modo geral. Depois começaremos a pensar na «espécie» de casa. Em seguida, vamos aos pormenores. Depois consultamos um arquiteto e ele faz-nos um plano; este plano é sua imagem, sugestionada por nossa imagem mental. Em seguida, aceito o plano, consultamos o construtor e, por fim, a casa está construída, — uma imagem mental objetivada. E assim é com todos os objetos criados ou produzidos — tudo é manifestação de uma imagem mental. 


 
E assim, quando desejamos criar um traço de caráter, havemos de formar uma clara e distinta imagem mental do que queremos. Formai uma imagem clara e distinta, e segurai-a na vossa mente. Depois começai a construir em torno dela. Deixai os vossos pensamentos pousarem nessa imagem mental. Fazei com que a vossa imaginação vos veja como possuindo o referido traço de caráter e ponde-o em ação. Ponde-o em ação na vossa imaginação, repetidas vezes, tantas quantas forem possíveis, perseverando e continuamente vendo-os manifestar o dito característico numa variedade de circunstâncias e condições. A medida que fordes fazendo assim, achareis que, gradualmente, começais a exprimir o pensamento em ação — objetivar a imagem mental subjetiva. Tornar-se-á «natural» agirdes de acordo com a vossa imagem mental, até que, por fim, o novo hábito estará firmemente fixo no vosso ânimo e virá a ser o vosso natural modo de ação e expressão. 
 
Desta maneira, não só podemos elevar o nosso caráter moral, como também modelar o nosso eu inferior para se conformar melhor às necessidades do ambiente e da ocupação. Se alguém tem falta de perseverança, pode-a adquirir; se está cheio de medo, pode substituí-lo por coragem; se lhe falta a confiança em si mesmo, pode obtê-la. Com efeito, não há traço que não possa ser desenvolvido desta maneira. Há pessoas que se transformaram totalmente, seguindo este método de formação do caráter. 
 
Há pessoas com falta de confiança em si próprio — incapacidade de conservar o próprio valor na presença de outras pessoas —incapacidade de dizer «Não» — sentimento de inferioridade com os que tinha contacto. 
 
Pensamento preliminar: Deveis fixar firmemente na vossa mentalidade o fato de que sois igual a qualquer pessoa. Viestes da mesma fonte. Sois uma expressão da mesma Vida Una. Aos olhos do Absoluto, sois igual a qualquer pessoa, ainda que seja a que ocupa a mais alta posição do país. 
 
A verdade é: «As coisas como Deus as vê» — e, em verdade, vós e qualquer homem (ou mulher) sois iguais e, enfim, sois Um. Todos os sentimentos de inferioridade são ilusões, erros e mentiras, e não têm existência verdadeira. 
 
Quando estiverdes em companhia de outros, lembrai-vos deste fato e reconhecei que o Princípio da Vida em vós fala ao Principio de Vida neles. Deixai o Princípio de Vida fluir através de vós, e esforçai-vos por ver o mesmo Principio de Vida atrás e além da personalidade da pessoa em cuja presença estais. Ela (esta pessoa) oculta sob o véu da personalidade o Principio de Vida, da mesma forma que vós o fazeis. Nada mais, nada menos! Vós ambos sois Um na verdade. Deixai irradiar a consciência do «Eu» e sentireis enlevo e coragem, e o outro sentirá a mesma coisa. Tendes em vós mesmo a fonte da coragem moral e física e não tendes nada a temer; intrepidez é a vossa herança divina; apossai-vos dela. 
 
Tendes a consciência de vós mesmo; o vosso «Eu» não é limitado à mesquinha personalidade; tende confiança nesse «Eu» real. Penetrai no vosso interior, até sentirdes a presença do «Eu», e então tereis uma confiança em vós mesmo que nada pode abalar nem perturbar. 
 
E quando tiverdes atingido a consciência permanente do «Eu», estareis em equilíbrio. Uma vez que tenhais reconhecido que sois um centro de poder, não vos será difícil dizer: «Não!» quando convier dizê-lo. Uma vez que tenhais reconhecido a vossa verdadeira natureza — o vosso «Eu» Real — perdereis todo o sentimento de inferioridade e sabereis que sois uma manifestação da Vida Una e que tendes por vós a força, o poder e a grandeza do Cosmos. 
 
Sugerimo-vos algumas palavras que cristalizem a ideia principal e que deveis segurar na mente. Estas palavras são: «Eu Sou», coragem, confiança, equilíbrio, firmeza, igualdade. Gravai-as na memória e depois esforçai-vos por fixar na vossa mente uma clara concepção do significado de cada uma dessas palavras, de maneira que cada uma represente uma ideia viva, quando as pronunciardes. Tende cuidado em não as repetir sem pensar, como papagaios. O significado de cada palavra deve estar claro diante de vós para o sentirdes, quando disserdes a palavra. Repeti essas palavras frequentemente, quando se apresenta a oportunidade, e, em breve, começareis a notar que agem sobre vós como um forte tônico mental, produzindo um efeito fortificante. E todas as vezes que repetirdes essas palavras, com entendimento, tereis feito alguma coisa para clarificar o caminho mental pelo qual desejais viajar. 
 
Prática — Quando não tiverdes que fazer e vos puderdes entregar aos «sonhos de dia», sem prejuízo dos vossos negócios e deveres, evocai a vossa imaginação e esforçai-vos por fazer uma imagem de vós mesmo como possuindo as qualidades indicadas pelas palavras acima dadas. Imaginai que estais em circunstâncias muito tentadoras e fazeis uso das qualidades desejadas e que as manifestais plenamente. Esforçai-vos por fazer uma imagem mental de vós mesmos desempenhando bem o vosso papel e exibindo as qualidades desejadas. Escolhei bem o papel que deveis representar — o caráter que desejais possuir — e, depois, fixando-o bem na vossa mente, praticai, praticai, praticai. Conservai o vosso ideal sempre diante de vós e esforçai-vos por crescer até ele. Se vos exercitardes em paciência e perseverança, tereis bom êxito. 
 
Alguma coisa mais. Não limiteis a vossa prática apenas a ensaios particulares. Precisareis de ensaiar também em público. Por isso, quando vedes que já estais preparado, passai a exercitar os vossos crescentes hábitos, destinados a formar o vosso caráter, na vossa vida quotidiana. Escolhei primeiro os casos mais fáceis e experimentai-os. Achareis que sereis capaz de vos tornar senhor de condições que outrora vos causavam grandes dificuldades. Tornar-vos-eis conscientes de uma força e de um poder que vêm do vosso interior, e reconhecereis que realmente sois uma pessoa transformada. 
 
Deixai o vosso pensamento expressar-se em ação, sempre que for conveniente. Mas não tenteis forçar o sucesso para experimentar a vossa força. Não obrigueis, por exemplo, as pessoas a pedir-vos favores, para poderdes dizer: «Não!» Encontrareis muitíssimos casos e ocasiões próprias, sem as provocar. Acostumai-vos a olhar as pessoas nos olhos e a sentir o poder que está detrás e dentro de vós. Em breve, podereis ver através das personalidades e reconhecer que não são senão uma parte da Vida Una, olhando outra parte e que não há motivo de se assustar. 
 
O reconhecimento do vosso «Eu» real tornar-vos-á capaz de manter o equilíbrio em qualquer circunstância, por mais tentadora que seja, se abandonardes a vossa falsa ideia a respeito da vossa personalidade. Tudo o que vos tem afligido não é mais que pequenos acidentes da vida pessoal que são reconhecidos como ilusões, do ponto de vista da Vida Universal. 
 
Enchei a vossa alma com o forte desejo de cultivar aqueles hábitos mentais que vos tornam fortes. É plano da natureza produzir fortes expressões individuais de si mesma, e com gosto vos ajudará para vos tornardes forte. O homem que deseja fortificar-se encontrará sempre grandes forças a seu lado que o auxiliarão, porque está realizando um plano favorito da natureza, que ela vai elaborando já desde há séculos. Tudo o que vos leva a reconhecer e manifestar o vosso poder, tende a fortalecer-vos e põe à vossa disposição o auxílio da natureza. 
 
Podeis testemunhá-lo todos os dias: a natureza parece gostar de indivíduos fortes e deleita-se em ajudá-los a avançar. 

 

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