28.9.16

A MENTE ESPIRITUAL – Ramacháraka


Apresentamos aqui os sete princípios do homem, tais como são conhecidos pela filosofia yogue:
7 — Espírito
6 — Mente Espiritual
5 — Intelecto
4 — Mente Instintiva
3 — Prana ou Força Vital
2 — Corpo Astral
1 — Corpo Físico

O sexto princípio, a mente espiritual, foi chamado por alguns escritores a mente supraconsciente.

Ainda que a existência efetiva da mente espiritual se tenha tornado manifesta somente a um limitado número de pessoas, há muitas que estão se tornando conscientes de um "algo interno" mais elevado, que as conduz a mais elevados e mais nobres pensamentos, desejos, aspirações e feitos. Existe ainda um número maior que recebe um fraco vislumbre da luz do espírito, e ainda que eles o ignorem, são mais ou menos influenciados por ele.

Em realidade, a raça inteira recebe algum de seus raios benéficos, ainda que, em alguns casos, a luz esteja tão obscurecida pelos densos obstáculos materiais que rodeiam o homem, que o seu amanhecer espiritual é quase igual à escuridão da noite. Mas o homem continua em ininterrupto desenvolvimento progressivo, abandonando envoltura após envoltura e aproximando-se lentamente de seu lar. A luz, a seu devido tempo, brilhará plenamente sobre todos.


Tudo quanto na mente humana julgamos bom, nobre e grande, emana da mente espiritual, e se desenvolve e cresce gradualmente na consciência ordinária. Tudo quanto tem chegado ao homem na sua evolução, que tende para a nobreza, verdadeiro sentimento religioso, bondade, humanidade, justiça, amor desinteressado, clemência, simpatia, etc., chegou a ele mediante o lento desenvolvimento de sua mente espiritual.

À proporção que o desenvolvimento vai sendo maior, a sua idéia de justiça se amplia, tem mais compaixão, aumenta o seu sentimento de fraternidade humana, cresce a sua idéia de amor e faz mais intensas todas as qualidades que os homens de todos os credos proclamam boas.

À medida que a consciência espiritual do homem começa a desenvolver-se, principia a ter uma sensação permanente da realidade da existência do supremo poder e, crescendo com ela, acha que a sensação da fraternidade humana — a humana identidade — se manifesta gradualmente em sua consciência. Essas coisas não se adquirem de sua mente instintiva, nem tampouco é o intelecto o que as faz sentir.

A mente espiritual não vai em direção contrária ao intelecto; simplesmente, vai além do intelecto. A mente espiritual transmite ao intelecto certas verdades que encontra em suas regiões próprias, e o intelecto raciocina sobre elas. Porém, essas verdades não têm sua origem no intelecto. O intelecto é frio, a consciência espiritual é cálida e vive de sentimentos elevados.

O crescimento do homem em direção a uma melhor e mais completa idéia do poder divino, não o recebe do intelecto, ainda que este raciocine sobre as impressões recebidas e procure exteriorizá-las em sistemas; credos, cultos, etc.

Não é o intelecto o que nos dá a nossa crescente sensação da relação entre homem e homem — a fraternidade do homem. O homem é agora mais bondoso que anteriormente para com a sua espécie e formas de vida inferiores a ele. Não é somente porque o intelecto lhe ensine o valor da bondade e do amor, pois o homem não se faz bondoso pelo frio raciocínio. Pelo contrário, o homem se torna bom e amoroso, porque nele nascem certos impulsos e desejos que procedem de algum lugar desconhecido que lhe tornam impossível ser de outro modo, sem sofrer mal-estar e dor. Esses impulsos são tão reais como outros desejos e impulsos; e, à proporção que o homem se desenvolve, esses impulsos chegam a ser mais numerosos e muito mais fortes.

Comparai o mundo de alguns séculos atrás com o de hoje; vereis quanto mais bondade e mais amor temos do que naqueles dias. Mas não nos envaideçamos por isso, porque aparecemos como simples selvagens aos olhos daqueles que virão depois de nós e que se assombrarão pela nossa falta de humanidade para com nossos irmãos.

À proporção que o homem se desenvolve espiritualmente, sente a sua relação com todo o gênero humano e começa a amar os seus semelhantes cada vez mais. É-lhe doloroso ver os outros sofrer, e quando a sua dor é muita, procura fazer alguma coisa para remediá-la.

À proporção que o tempo passa e o homem se desenvolve, o terrível sofrimento de que hoje padecem muitos seres humanos será impossível, pela razão de que o desenvolvimento da consciência espiritual da raça fará que a dor seja tão violentamente sentida por todos e que, não sendo capazes de suportá-la, farão o possível em procurar o remédio.

Do mais recôndito da alma eleva-se um protesto contra as práticas da natureza inferior animal e ainda que possamos fazer-nos de surdos por algum tempo, esse protesto se fará mais e mais persistente, até que nos vejamos obrigados a atendê-lo.

A antiga história de que cada pessoa tem dois conselheiros, um em cada ouvido: — um aconselhando a seguir os mais elevados ensinamentos e o outro tentando-a para que prossiga na senda inferior — se vê praticamente certa, segundo o demonstram os ensinamentos ocultos a respeito dos três princípios mentais. O intelecto representa a consciência do Eu do termo médio das pessoas. Este Eu tem de um lado a mente instintiva, enviando-lhe os velhos desejos do seu antigo ser, os impulsos da vida menos evoluída do animal ou homem inferior, cujos desejos foram todos bons no estado inferior do desenvolvimento, mas são indignos do homem que se adianta.

Por outro lado, a mente espiritual envia os seus impulsos de progresso ao intelecto e se esforça em atrair a consciência para si, a fim de ajudar o desenvolvimento do homem, para que possa dirigir e controlar a sua natureza inferior.

O Ego está num estado de transição de consciência, e a luta é muito dolorosa algumas vezes, mas, ao crescer o homem, ao seu devido tempo, eleva-se sobre a atração de sua natureza inferior e o despertar da consciência espiritual torna-o capaz de compreender o verdadeiro estado de seus assuntos, e o ajuda a exercer o seu domínio sobre o Eu inferior e a assumir uma atitude positiva para com ele, enquanto que, ao mesmo tempo, se abre à luz da mente espiritual mantendo uma atitude receptiva para ela, não se opondo ao seu poder.

A mente espiritual é também a origem da inspiração que certos poetas, pintores, escultores, escritores, pregadores, oradores e outros, têm recebido em todo o tempo e ainda hoje recebem. Essa é a fonte da qual o vidente obtém a sua visão — o profeta, as suas profecias. Muitos se têm concentrado sobre elevados ideais e têm recebido raros conhecimentos dessa origem, atribuindo-os a seres de outro mundo — a espíritos, anjos e a Deus mesmo; porém tudo isso têm-no recebido do seu interior — foi a voz do seu Eu superior que lhes falou.

Não queremos dizer que não existam comunicações vindas ao homem de outras inteligências — muito longe disso, sabemos que inteligências elevadas se comunicam freqüentemente com o homem pelo canal de sua mente espiritual — porém muito daquilo que o homem tem atribuído a inteligências exteriores, realmente têm-no recebido de si mesmos.

Quando o homem fica inteirado da existência da sua mente espiritual e começa a reconhecer as suas inspirações e ensinamentos, fortalece o seu laço de comunicação com ela e conseqüentemente recebe luz mais intensa. Quando aprendemos a confiar no espírito, este responde enviando os mais freqüentes resplendores de iluminação e sabedoria.

À proporção que o homem adquire maior grau de consciência espiritual, tem mais confiança nesta voz interna, e é capaz de distingui-la mais facilmente dos impulsos dos planos inferiores da mente. Aprende a seguir os impulsos do espírito e aceita com alegria a mão guiadora que lhe estende.

Muitos dentre nós têm aprendido a conhecer a realidade de que são conduzidos pelo espírito. Aqueles que têm experimentado essa condução não precisam que lhes digamos mais, porque reconhecerão exatamente o que queremos dizer. Aqueles que não a experimentaram ainda, deverão esperar até que o tempo chegue para eles, porque não podemos descrevê-lo, pois não há palavras para expressar aquelas coisas que estão além das palavras.


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