Na
alvorada da consciência do «Eu», o Eu reconhece-se ainda mais
claramente e, além disso, está todo embebido de um sentimento e de
uma percepção da sua própria realidade, que antes lhe era
desconhecida. Esta percepção não é simples matéria de
raciocínio, é uma «consciência», da mesma forma como a
consciência física e mental, algo diferente de uma «convicção
intelectual».
É
um saber, e não um pensar ou uma crença. O «Eu» sabe que é real
— que tem as suas raízes na suprema realidade que forma a base do
universo, e sabe que participa da sua essência. Não sabe o que é
esta realidade, mas sabe que é real, e algo diferente de outra coisa
do mundo no nome, forma, número, tempo, espaço, causa e efeito —
algo transcendente e acima de toda a experiência humana.
Conhecendo
isto, sabe que não pode ser destruído nem ofendido; não pode
morrer, pois é imortal; e que há algo que é a verdadeira essência
do Bem atrás dele, abaixo e até nele. E nesta certeza e consciência
há paz, entendimento e poder. Quando ela vem na sua plenitude, caem
do homem a dúvida, o medo, o desassossego e o descontentamento, como
as vestimentas usadas que se tiram para não vestir mais; o homem
acha-se vestido de fé, que sabe ser coragem, sossego e satisfação.
Então é capaz de dizer com entendimento e compreensão: «EU SOU».
Esta
consciência do Eu vem a muitos como uma alvorada de conhecimento —
a luz que se eleva por detrás dos outeiros. A outros vem gradual e
lentamente, porém em abundância, e eles vivem agora na plena luz da
consciência. A outros veio como um raio ou uma visão — como uma
luz caindo do claro firmamento, ofuscando a princípio, mas
deixando-os transformados, como outros homens e mulheres, possuindo
algo que não pode ser descrito nem compreendido pelos que não o
experimentaram. Este último estado denomina-se «iluminação» numa
das suas formas.
O
homem que tem a consciência do Eu não pode compreender o enigma do
universo, nem é capaz de dar a resposta às grandes questões da
vida; mas cessou de se afligir por causa delas — não o perturbam
mais. Pode aplicar sobre elas o seu intelecto como anteriormente,
porém nunca com o sentimento como se a sua felicidade ou a paz da
mente dependessem da solução destas questões.
Ele
sabe que está com o pé em cima de uma sólida rocha e que não
corre perigo, ainda que as tempestades do mundo da matéria e força
se desencadeiem ao redor dele. Ele sabe isto e outras coisas mais.
Não pode prová-lo a outro, porque estas coisas não se deixam
demonstrar por argumento — ele mesmo não as adquiriu por este
caminho. E, por isso, fala pouco de tudo isso, mas vive sua vida como
se nada soubesse dessas coisas.
Interiormente,
porém, é um homem transformado; a sua vida é diferente da vida dos
seus irmãos porque, enquanto as almas destes se entregam ao sono e a
sonhos que os agitam e perturbam, a sua alma está desperta e
contempla o mundo com os olhos claros e sem medo.
É
verdade que nesta consciência há diferentes fases ou graus, assim
como os há nos planos inferiores de consciência. Alguns possuem-na
num pequeno grau, ao passo que outros a têm em abundância.
Há
um grau ainda mais alto do que este que acabamos de mencionar, mas
são muito poucos os homens da atual geração que o experimentaram.
Notícias sobre ele vêm de todos os tempos, de todas as raças, de
todos os países. Este estado foi denominado «consciência cósmica»
e designa-se como uma percepção da unidade de vida, isto é, a
consciência de que o universo está cheio de uma só vida; é uma
real percepção e clara compreensão do fato de que o universo é
cheio de vida, movimento e mente, e que não existe força cega nem
matéria morta, porque tudo vive, vibra e tem inteligência.
Esta
descrição, com efeito, é a do universo real, que é a essência ou
o fundamento do universo de matéria, energia e mente. Aqueles que
obtiveram vislumbres deste estado, dizem que vêem o universo como
Tudo sendo Mente — que Tudo, afinal, é Mente. Esta forma de
consciência foi experimentada por poucos homens, que, aqui e acolá,
em momento de «iluminação», declararam achar-se em contato com o
saber e a vida universais, sendo impossível de descrever, e que este
sentimento era acompanhado de uma alegria que não se pode
compreender.
A
respeito desta «consciência cósmica», diremos que é mais que uma
crença ou reconhecimento dos fatos, pois uma verdadeira visão e
consciência destas coisas veio no momento da iluminação. Alguns
outros relatam que têm um profundo e persistente sentimento da
realidade dos fatos descritos pelos iluminados, mas não chegaram a
ter a referida «visão» ou «êxtase».
O
Dr. Maurice Bucke escreveu um livro com o título «Consciência
Cósmica», onde relata um número destes casos, inclusive o seu
próprio, o de Walt Whitman e de outros; ele opina que este grau de
consciência está diante da humanidade e lhe pertencerá no futuro,
tornando-se gradualmente mais geral.
Ele
julga que as manifestações desta consciência cósmica que foi
percebida por alguns poucos, como acima dissemos, não são senão os
primeiros arrebóis do sol, a nós dirigidos, os quais apenas
profetizam a aparência do grande corpo luminoso mesmo.
Não
nos ocuparemos aqui longamente dos testemunhos de certos grandes
personagens religiosos do passado que, em momentos de grande
exaltação espiritual se tornaram conscientes de «estar em presença
do Absoluto» ou, talvez, no raio da «luz da Sua face». Estes
conflitos e contradições provêm de que as mentes daqueles que
tiveram esses vislumbres de consciência não estavam preparadas e
treinadas para compreender plenamente a natureza dos fenômenos. Eles
se acharam na presença espiritual de algo assombrosamente grande e
de alta espiritualidade, cuja visão os ofuscou e perturbou
completamente.
Não conheciam a natureza do Absoluto e, quando
voltaram a seu estado ordinário, relataram que tinham estado «na
presença de Deus» — designando com a palavra «Deus» a sua
particular concepção de deidade, quer dizer, a concepção que seu
particular credo religioso ou sua seita atribui à deidade. A única
razão por que eles identificaram esse algo com a sua particular
concepção da deidade foi a ideia que tinham de que «isso havia de
ser Deus»; e não conhecendo outro Deus a não ser a concepção de
«Deus» como imaginavam que havia de ser. E as suas descrições
foram conformes com isto. Assim as narrações de todas as religiões
estão cheias de casos a que se chamam milagrosos.
O
santo católico diz que «viu raios de luz da face de Deus» e o
católico afirma que viu a Deus assim como o conhece. O maometano diz
que Alá lhe permitiu ver a Sua face por um instante e o budista
conta-nos que viu o Buda debaixo da árvore. O bramanista olhou a
face de Brama e as diferentes seitas hindus têm seus próprios
testemunhos a respeito das visões das suas deidades particulares.
Encontramos narrações análogas entre os persas e até entre
antigos egípcios. É por causa destas divergências que julgamos não
compreender a natureza deste fenômeno, julgando que é «só
imaginação» e fantasia, senão engano e impostura.
Mas
os yogues sabem que todas estas narrações variantes têm um fundo
comum de verdade que aparece a quem investiga a matéria. Sabem que
todas estas narrações (exceto algumas que .são
fraudulenta imitação do fenômeno real) se baseiam em verdades e
que só sofreram modificação devido às diferentes concepções dos
observadores. Sabem que estas pessoas se elevaram temporariamente
acima do ordinário plano de consciência e perceberam a existência
de um Ser ou Seres mais altos que os mortais. Disto não se segue que
viram a «Deus» ou o Absoluto, porque há inúmeros Seres
espiritualmente muito desenvolvidos, que a um simples mortal parecem
como um verdadeiro Deus.
A
doutrina católica sobre os anjos e arcanjos é confirmada pelos
yogues que entraram «para o outro lado do véu» e nos dão a
descrição dos «Devas» e outros seres adiantados. Assim, o yogue
aceita estas narrações e testemunhos dos diferentes místicos,
santos e homens inspirados e explica-os por leis que são
perfeitamente naturais para os estudantes da Filosofia Yoga, mas que
parecem sobrenaturais aos que não estudaram estas coisas.
Não
é por meio do intelecto que o homem chega a esta consciência de
«alguma coisa além»; ela é o vislumbre da luz que vem dos centros
mais altos do «Eu». O homem nota estes raios de luz, mas não os
compreendendo, põe-se a elaborar estruturas teológicas e credos
para os explicar; isto, porém, é obra do intelecto, a que sempre
falta aquele «sentimento» que só a intuição mesma possui. A
verdadeira religião, qualquer que seja o nome sob que está
mascarada, vem do «coração» e não é corroborada ou satisfeita
com essas explanações intelectuais, e disto provém aquele
desassossego e a procura de satisfações que se nota no homem que
começa a romper o véu.

Nenhum comentário:
Postar um comentário