27.9.16

CONSCIÊNCIA DO EU E CONSCIÊNCIA CÓSMICA – Ramacháraka

 
Na alvorada da consciência do «Eu», o Eu reconhece-se ainda mais claramente e, além disso, está todo embebido de um sentimento e de uma percepção da sua própria realidade, que antes lhe era desconhecida. Esta percepção não é simples matéria de raciocínio, é uma «consciência», da mesma forma como a consciência física e mental, algo diferente de uma «convicção intelectual».
 
É um saber, e não um pensar ou uma crença. O «Eu» sabe que é real — que tem as suas raízes na suprema realidade que forma a base do universo, e sabe que participa da sua essência. Não sabe o que é esta realidade, mas sabe que é real, e algo diferente de outra coisa do mundo no nome, forma, número, tempo, espaço, causa e efeito — algo transcendente e acima de toda a experiência humana. 
 
Conhecendo isto, sabe que não pode ser destruído nem ofendido; não pode morrer, pois é imortal; e que há algo que é a verdadeira essência do Bem atrás dele, abaixo e até nele. E nesta certeza e consciência há paz, entendimento e poder. Quando ela vem na sua plenitude, caem do homem a dúvida, o medo, o desassossego e o descontentamento, como as vestimentas usadas que se tiram para não vestir mais; o homem acha-se vestido de fé, que sabe ser coragem, sossego e satisfação. Então é capaz de dizer com entendimento e compreensão: «EU SOU». 
 
Esta consciência do Eu vem a muitos como uma alvorada de conhecimento — a luz que se eleva por detrás dos outeiros. A outros vem gradual e lentamente, porém em abundância, e eles vivem agora na plena luz da consciência. A outros veio como um raio ou uma visão — como uma luz caindo do claro firmamento, ofuscando a princípio, mas deixando-os transformados, como outros homens e mulheres, possuindo algo que não pode ser descrito nem compreendido pelos que não o experimentaram. Este último estado denomina-se «iluminação» numa das suas formas. 
 
O homem que tem a consciência do Eu não pode compreender o enigma do universo, nem é capaz de dar a resposta às grandes questões da vida; mas cessou de se afligir por causa delas — não o perturbam mais. Pode aplicar sobre elas o seu intelecto como anteriormente, porém nunca com o sentimento como se a sua felicidade ou a paz da mente dependessem da solução destas questões. 
  
Ele sabe que está com o pé em cima de uma sólida rocha e que não corre perigo, ainda que as tempestades do mundo da matéria e força se desencadeiem ao redor dele. Ele sabe isto e outras coisas mais. Não pode prová-lo a outro, porque estas coisas não se deixam demonstrar por argumento — ele mesmo não as adquiriu por este caminho. E, por isso, fala pouco de tudo isso, mas vive sua vida como se nada soubesse dessas coisas. 
 
Interiormente, porém, é um homem transformado; a sua vida é diferente da vida dos seus irmãos porque, enquanto as almas destes se entregam ao sono e a sonhos que os agitam e perturbam, a sua alma está desperta e contempla o mundo com os olhos claros e sem medo. 
 
É verdade que nesta consciência há diferentes fases ou graus, assim como os há nos planos inferiores de consciência. Alguns possuem-na num pequeno grau, ao passo que outros a têm em abundância. 
 
Há um grau ainda mais alto do que este que acabamos de mencionar, mas são muito poucos os homens da atual geração que o experimentaram. Notícias sobre ele vêm de todos os tempos, de todas as raças, de todos os países. Este estado foi denominado «consciência cósmica» e designa-se como uma percepção da unidade de vida, isto é, a consciência de que o universo está cheio de uma só vida; é uma real percepção e clara compreensão do fato de que o universo é cheio de vida, movimento e mente, e que não existe força cega nem matéria morta, porque tudo vive, vibra e tem inteligência. 
 
Esta descrição, com efeito, é a do universo real, que é a essência ou o fundamento do universo de matéria, energia e mente. Aqueles que obtiveram vislumbres deste estado, dizem que vêem o universo como Tudo sendo Mente — que Tudo, afinal, é Mente. Esta forma de consciência foi experimentada por poucos homens, que, aqui e acolá, em momento de «iluminação», declararam achar-se em contato com o saber e a vida universais, sendo impossível de descrever, e que este sentimento era acompanhado de uma alegria que não se pode compreender. 
 
A respeito desta «consciência cósmica», diremos que é mais que uma crença ou reconhecimento dos fatos, pois uma verdadeira visão e consciência destas coisas veio no momento da iluminação. Alguns outros relatam que têm um profundo e persistente sentimento da realidade dos fatos descritos pelos iluminados, mas não chegaram a ter a referida «visão» ou «êxtase». 
 
O Dr. Maurice Bucke escreveu um livro com o título «Consciência Cósmica», onde relata um número destes casos, inclusive o seu próprio, o de Walt Whitman e de outros; ele opina que este grau de consciência está diante da humanidade e lhe pertencerá no futuro, tornando-se gradualmente mais geral. 
 
Ele julga que as manifestações desta consciência cósmica que foi percebida por alguns poucos, como acima dissemos, não são senão os primeiros arrebóis do sol, a nós dirigidos, os quais apenas profetizam a aparência do grande corpo luminoso mesmo. 
 
Não nos ocuparemos aqui longamente dos testemunhos de certos grandes personagens religiosos do passado que, em momentos de grande exaltação espiritual se tornaram conscientes de «estar em presença do Absoluto» ou, talvez, no raio da «luz da Sua face». Estes conflitos e contradições provêm de que as mentes daqueles que tiveram esses vislumbres de consciência não estavam preparadas e treinadas para compreender plenamente a natureza dos fenômenos. Eles se acharam na presença espiritual de algo assombrosamente grande e de alta espiritualidade, cuja visão os ofuscou e perturbou completamente. 

Não conheciam a natureza do Absoluto e, quando voltaram a seu estado ordinário, relataram que tinham estado «na presença de Deus» — designando com a palavra «Deus» a sua particular concepção de deidade, quer dizer, a concepção que seu particular credo religioso ou sua seita atribui à deidade. A única razão por que eles identificaram esse algo com a sua particular concepção da deidade foi a ideia que tinham de que «isso havia de ser Deus»; e não conhecendo outro Deus a não ser a concepção de «Deus» como imaginavam que havia de ser. E as suas descrições foram conformes com isto. Assim as narrações de todas as religiões estão cheias de casos a que se chamam milagrosos. 
 
O santo católico diz que «viu raios de luz da face de Deus» e o católico afirma que viu a Deus assim como o conhece. O maometano diz que Alá lhe permitiu ver a Sua face por um instante e o budista conta-nos que viu o Buda debaixo da árvore. O bramanista olhou a face de Brama e as diferentes seitas hindus têm seus próprios testemunhos a respeito das visões das suas deidades particulares. Encontramos narrações análogas entre os persas e até entre antigos egípcios. É por causa destas divergências que julgamos não compreender a natureza deste fenômeno, julgando que é «só imaginação» e fantasia, senão engano e impostura. 


Mas os yogues sabem que todas estas narrações variantes têm um fundo comum de verdade que aparece a quem investiga a matéria. Sabem que todas estas narrações (exceto algumas que .são fraudulenta imitação do fenômeno real) se baseiam em verdades e que só sofreram modificação devido às diferentes concepções dos observadores. Sabem que estas pessoas se elevaram temporariamente acima do ordinário plano de consciência e perceberam a existência de um Ser ou Seres mais altos que os mortais. Disto não se segue que viram a «Deus» ou o Absoluto, porque há inúmeros Seres espiritualmente muito desenvolvidos, que a um simples mortal parecem como um verdadeiro Deus. 
 
A doutrina católica sobre os anjos e arcanjos é confirmada pelos yogues que entraram «para o outro lado do véu» e nos dão a descrição dos «Devas» e outros seres adiantados. Assim, o yogue aceita estas narrações e testemunhos dos diferentes místicos, santos e homens inspirados e explica-os por leis que são perfeitamente naturais para os estudantes da Filosofia Yoga, mas que parecem sobrenaturais aos que não estudaram estas coisas. 
 
Não é por meio do intelecto que o homem chega a esta consciência de «alguma coisa além»; ela é o vislumbre da luz que vem dos centros mais altos do «Eu». O homem nota estes raios de luz, mas não os compreendendo, põe-se a elaborar estruturas teológicas e credos para os explicar; isto, porém, é obra do intelecto, a que sempre falta aquele «sentimento» que só a intuição mesma possui. A verdadeira religião, qualquer que seja o nome sob que está mascarada, vem do «coração» e não é corroborada ou satisfeita com essas explanações intelectuais, e disto provém aquele desassossego e a procura de satisfações que se nota no homem que começa a romper o véu. 
 

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