HISTÓRIA
NARRADA POR SRI KRISHNA A UDDHAVA, SEU DEVOTO
Havia
em Avanti um brahmin imensamente rico, mas que levava uma vida
miserável, fazendo negócios; era cheio de cobiça, avaro e muito
irritável. Jamais saudava seus parentes e hóspedes, nem os tratava
com palavras agradáveis; e vivendo naquela casa abandonada por Deus,
nem sequer dava certos cuidados a seu próprio corpo.
Como
levava uma vida tão ímpia e desprezível, seus filhos e parentes
não gostavam dele. Sua esposa, filhos e serventes viviam tristes, e
não lhe faziam nenhum bem.
Como
seu único prazer era acumular dinheiro, e jamais se ocupava em
adquirir virtudes ou satisfazer prazeres legítimos, perdeu esta vida
e a próxima, e se desgostaram os cinco sócios de sua fortuna (os
devas, sábios, antepassados, homens e animais).
Como
não atendeu a estes sócios, seu mérito acumulado ficou vazio; e
aquela riqueza que havia juntado com tanto sacrifício também
desapareceu.
Ó
Uddhava, parte da fortuna daquele infeliz brahmin foi levada por seus
parentes e ladrões; outra parte ficou destruída por um acidente e
corroída pela ação do tempo; e o resto foi levada pelos homens e
pelos reis.
Quando,
dessa maneira, se foi toda sua fortuna, ele se encheu de ansiedade
pelo futuro, porque tinha descuidado de adquirir virtudes ou a
satisfação dos desejos legítimos.
Neste
momento era um homem sem um centavo , em condição lastimável; e ao
refletir profundamente sobre sua condição, sua palavra ficou
sufocada pelo arrependimento e foi atacado por um enorme desgosto
para com o mundo.
E
disse a si mesmo:
“Ai,
desgraçado de mim! Inutilmente torturei este corpo, correndo como
louco atrás da riqueza, desdenhando de adquirir as virtudes e da
satisfação dos legítimos desejos.
A
riqueza jamais traz alegria ao infeliz; somente causa a mortificação
do corpo enquanto se está vivo, e prepara o caminho para o inferno
depois da morte.
Um
pouco de avareza já é suficiente para destruir a pura reputação
de um homem. Durante a aquisição da riqueza ou depois de ter sido
conseguida, em seu aumento, em sua guarda, em seu desfrute, em sua
perda, o homem passa através de esforços, medo, ansiedades e
decepção.
Estes
são os males que se aderem ao homem, como resultado da riqueza: o
roubo, o prejuízo, a mentira, a luxúria, a ira, a vaidade, a
soberba, a discórdia, a inimizade, a má fé e as três classes de
excessos. Por isso, quem deseje seu bem-estar, deve recusar o mal
conhecido como riqueza.
Irmãos,
esposas, pais e amigos, que são tão queridos e estão muito perto
do coração, de repente se distanciam e se convertem em inimigos,
ainda que por uma quantia insignificante de dinheiro.
Ainda
a menor quantidade de dinheiro transtorna e inflama sua ira, e se
separam imediatamente; e de repente, abandonando toda cordialidade,
começam a ser rivais; mais ainda, se matam entre si.
O
homem, depois de ter conseguido este corpo, que é a porta da
liberação, fica apegado ao dinheiro, que é a origem do mal.
Ai,
eu estava enganado pela inútil busca da riqueza; e agora, esta
também se foi de mim, juntamente com minha idade e meu vigor. E o
que pode conseguir um homem decrépito como eu d'Aquele que ajuda os
homens de discernimento a lograr a liberação?
Estou
seguro de que o senhor Vishnu, que é a personificação de todos os
devas, está muito satisfeito comigo, porque Ele me trouxe esta
crise, na qual obtive o cansaço do mundo, que é como um bote para
a alma que está lutando.
Assim,
durante o resto de minha vida, mortificarei o corpo, ficarei
satisfeito apenas com minha alma, e buscarei tudo aquilo que conduz
ao verdadeiro bem-estar.
Que
os devas que governam os três mundos me bendigam nisso!”
E
Khattanga (era este seu nome) atingiu a esfera de Brahma em apenas 24
minutos.
E
com esta resolução em mente, o bom brahmin conseguiu desatar o nó
de seu coração (o egoísmo) e se tornou um monge calmo e
silencioso.
Controlando
sua mente, os órgãos e os pranas, vagava solitário pelo mundo. Só
ia às aldeias e cidades para pedir sua comida, e ninguém sabia quem
ele era. Vendo o velho monge, os malvados o insultavam e o tratavam
com desprezo.
Alguém
lhe tirou a bengala, outro lhe tirou seu pote de mendigar, a comida e
outro o pote de água; outro levou seu assento e outro o rosário de
sementes de rudraksha; ainda outro lhe levou os trapos com que se
cobria.
Enquanto
comia às margens do rio, os velhacos sujaram sua comida e cuspiram
sobre sua cabeça. Ele observava tudo em silêncio; mas queriam
obrigá-lo a falar, e ao não obter resposta, o encheram de
xingamentos.
Diziam:
“Este homem é um ladrão”. Outro o amarrou com uma corda, e
outros disseram: “Mate-o”. Outros disseram: “É um farsante que
usa a máscara de religioso. Como perdeu seus bens e foi expulso por
seus parentes, tomou esta profissão.”
“Oh,
ele é muito forte e firme como o Himalaia! Tem firmeza em seu
propósito, e busca conseguir seu propósito se mantendo em
silêncio.” Assim uns o ridicularizavam, outros lhe tratavam
vergonhosamente, e alguns o amarraram.
Mas,
qualquer que fosse a desgraça que lhe ocorria, ele a tomava como sendo
mandada pelo destino, e a suportava em silêncio, praticando a mais
pura forma de firmeza. E vagou pela terra como um monge, livre de
ansiedades.

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