Por
suas prolongadas austeridades e práticas devocionais, Vishnu
apareceu no eremitério de Nârada para conceder-lhe sua graça, e
disse-lhe que ia conceder-lhe a realização de um desejo.
- Mostrai-me o poder mágico de sua Maya (a ilusão do universo material). - rogou Nârada.
O
deus respondeu:
- Eu o farei. Segue-me. - e pairou-lhe nos lábios de belas curvas um quase-sorriso.
Deixando
a sombra do bosque em que o eremita se abrigava, Vishnu o conduziu
por uma faixa de terra nua sob um sol abrasador. Não demorou muito
para que os dois ficassem sedentos. Viram à distância uma pequena
aldeia, e Vishnu perguntou:
- Queres ir até lá buscar-me um pouco de água?
- Decerto, meu senhor – respondeu o santo, correndo para o agrupamento de aldeias. O deus ficou descansando à sombra de um penhasco, aguardando-lhe a volta.
Chegando
ao povoado, Nârada bateu à primeira porta que encontrou. Veio
abri-la uma bonita donzela e o devoto foi tocado pelos olhos da moça,
que se assemelhavam aos de seu senhor. Pasmado, esqueceu o que viera
fazer. Doce e ingênua, ela lhe deu as boas-vindas. A parentela o
tratou com muito respeito, até parecendo ser um velho conhecido.
Nârada permaneceu em companhia deles, sentia-se como na sua própria
casa. Transcorrido algum tempo, pediu ao pai da moça permissão para
casar-se com ela; tornou-se membro da família e compartilhou os
prazeres e deveres de um lar camponês.
Doze anos se passaram, tinha
três filhos. Morrendo o sogro, tornou-se o chefe da família,
cuidando do gado e cultivando a terra. No décimo segundo ano a
estação das chuvas foi muito violenta: encheram os rios, torrentes
desceram montanha abaixo e uma enchente inundou, de repente, o
pequeno povoado. As choupanas de palha e o gado foram arrastados e
todos se puseram em fuga. Uma das mãos amparando a esposa, levando
com a outra dois dos filhos e conduzindo sobre os ombros o menor,
Nârada partiu a toda pressa.
A
carga era maior do que podia suportar e ele tropeçou, sendo o filho
tragado pela corrente brutal. Com um grito de desespero, largou os
filhos maiores para agarrá-lo, mas era tarde. Enquanto isso os
outros dois também foram levados pela água, e antes que percebesse,
também sua esposa lhe foi arrancada. As águas o atiraram
inconsciente numa praia, sobre uma pequena rocha. Ao voltar-lhe a
consciência, abriu os olhos e viu um vasto lençol de água
lamacenta. Chorou.
- - Filho! - aquela voz, que lhe soou familiar, quase lhe fez parar o coração. - Onde está a água que foste buscar para mim? Espero por ela há mais de meia hora.
- Nârada voltou-se. Em vez de água, o que viu foi um deserto a rebrilhar ao sol do meio-dia. Perto dele estava o deus. Ainda sorriam as curvas de sua boca fascinante, que se abriu para a pergunta amável:
- - Compreendes agora o segredo de minha Maya?

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