14.12.12

A PRIMEIRA E ÚLTIMA LIBERDADE - Krishnamurti


  • É extremamente difícil comunicarmos uns aos outros nossos pensamentos. As palavras que emprego podem ter para vós significação diferente da que têm para mim. Vem a compreensão quando nos encontramos no mesmo nível, ao mesmo tempo. Isso só pode acontecer quando há real afeição entre as pessoas, entre marido e mulher, entre amigos íntimos.

  • Protegemo-nos com nossos preconceitos, religiosos ou espirituais, psicológicos ou científicos, com nossas preocupações, desejos e temores de todos os dias. Tudo isso constitui uma cortina, atrás da qual escutamos as coisas. Por conseguinte, só estamos dando atenção a nossas próprias vozes e não ao que se está dizendo.

  • A compreensão vem com o conhecimento do que É. Conhecer exatamente o fato, sem interpretá-lo, sem condená-lo ou justificá-lo, tal é o começo da sabedoria.

  • A mente e o coração áridos não podem seguir com facilidade e rapidez aquilo que É.

  • Como apareceu esse sofrimento que nos aflige, tanto interiormente como exteriormente, este medo da guerra que ameaça explodir? Qual a sua causa? Ela pode ser encontrada na derrocada de todos os valores morais e espirituais e na glorificação dos valores sensuais, do valor das coisas feitas pela mão ou pela mente.

  • É um fato evidente que aquilo que sou, nas relações com meus semelhantes, cria a sociedade e que, se eu não me transformar radicalmente, não pode haver transformação alguma da sociedade.

  • Se somos mesquinhos, invejosos, vãos, gananciosos – isso é o que criamos ao redor de nós, isso é a sociedade em que vivemos.

  • Quanto mais uma pessoa se conhece, tanto mais clareza existe. O autoconhecimento é infinito; nunca se chega a um termo, nunca se chega a uma conclusão. É um rio sem fim. Estudando-o e penetrando-o mais e mais, encontramos a paz.

  • A sociedade funda-se na ganância, na inveja, na inveja ao superior. Quando o escriturário deseja tornar-se gerente, isso denota que não está interessado somente em ganhar seu sustento, em ter um meio de subsistência, mas em alcançar posição e prestígio. Tal atitude provoca, naturalmente, devastações na sociedade, nas relações. O escriturário, esforçando-se para chegar a gerente, transforma-se na criação da política de força, que produz a guerra. É, portanto, diretamente responsável pela guerra.

  • Em que estão baseadas nossas relações? Certamente, não no amor, embora falemos de amor. Nas relações há grande soma de malevolência, que assume a forma de respeito. Se fôssemos iguais, no pensamento, no sentimento, não haveria respeito, não haveria malevolência, porque seríamos dois indivíduos associados não como discípulo e mestre, não como marido escravizador da esposa, ou vice-versa. Havendo malevolência, há também o desejo de domínio, que suscita inveja, irritação, paixão.

  • Quando cremos em Deus, em idéias, num sistema social que separa o homem do homem, no nacionalismo etc., estamos sem dúvida atribuindo um falso valor à crença, o que denota estupidez, uma vez que a crença divide os homens, não une os homens.

  • Por que a sociedade está ruindo, desmoronando? Uma das razões fundamentais é que o indivíduo deixou de ser criador. Nós nos tornamos imitadores, estamos copiando, interiormente e exteriormente. Nossa educação, nossa estrutura social, nossa pretensa vida religiosa, está toda baseada na imitação. Quer dizer, estou ajustado a uma determinada fórmula social ou religiosa.

  • Já não notastes que, nos momentos criadores, nesses raros momentos felizes e de vital interesse, não há senso de repetição, não há senso de cópia? Esses momentos são sempre novos, fecundos, felizes. Uma das causas da desintegração da sociedade é o copiar, que significa: veneração da autoridade.

  • A compreensão do que somos, não importa como somos – feios, belos, perversos, malignos – a compreensão do que somos, sem disfarce, é o começo da virtude.

  • Se desejo compreender alguém, não devo condená-lo; devo observá-lo, estudá-lo. Devo amar a coisa que estou estudando. Se desejamos compreender uma criança, devemos amá-la e não condená-la. Devemos brincar com ela, observar-lhe os movimentos, as idiossincrasias, os modos de conduta; se apenas a condenamos, se lhe resistimos ou reprovamos, não pode haver compreensão da criança.

  • A aceitação de uma crença, política ou religiosa, é uma das maneiras de encobrirmos nosso temor – o temor de sermos nada, de estarmos vazios. Uma taça só tem utilidade quando vazia e a mente que anda cheia de crenças, de dogmas, de asserções, de citações, é estéril, é apenas mente repetitiva, maquinal. A crença impede a compreensão de nós mesmos.

  • Os indivíduos mais ponderados, mais despertos, mais alertas, são talvez os que menos creem. Pois a crença limita, isola.

  • A alegria e a felicidade não resultam de esforço. Há criação pelo esforço, ou só há criação com a cessação do esforço? Quando é que escreveis, pintais ou cantais? Quando é que criais? Sem dúvida, quando não há esforço, quando estais completamente abertos, quando em todos os níveis há comunhão completa entre vós, completa integração. Há então alegria, e começais a cantar, ou a escrever um poema, ou a modelar alguma coisa. O momento criador não nasce da luta.

  • Estou cônscio de minha insuficiência, de minha pobreza interior, e luto para dela fugir ou preenchê-la. Esta fuga, este esforço para evitar, para tapar o vazio, acarreta luta, agitação, desgaste. Se não fazemos esforço para fugir, o que acontece? Ficamos 'vivendo com aquela solidão', com aquele vazio; e no aceitar esse vazio, surge um estado criador que nada tem a ver com a luta, com o esforço.

  • O 'eu' é egotista; suas atividades, por mais nobres que sejam, são separativas e geram isolamento. Conhecemos também aqueles momentos extraordinários em que o 'eu' é inexistente, em que não há tendência para esforço ou luta, e que ocorrem quando existe o amor.

  • Um homem virtuoso é um homem muito austero, e um homem muito austero não pode compreender o que é a verdade, porque no seu caso a virtude é um disfarce do 'eu', um meio de fortalecer o 'eu', já que ele está cultivando a virtude. Eis por que é tão importante ser pobre, não só das coisas do mundo, mas também da crença e do conhecimento. O homem cheio de riquezas ou de saber jamais conhecerá nada, a não ser a escuridão, e será um foco de malefícios e tribulações.

  • Quando há amor, não há 'eu'.

  • Como ser simples, eis o problema; porque a simplicidade nos torna mais e mais sensíveis. A mente sensível, o coração sensível, é essencial, porque capaz de rápido percebimento, rápida receptividade.

  • O homem religioso não é aquele que veste um manto simples ou só toma uma refeição por dia, nem aquele que fez votos para ser isto ou aquilo. O homem religioso é aquele que é interiormente simples, e não está interessado em 'vir a ser' alguma coisa.

  • A mente que se impõe humildade já não é humilde. É só quando temos humildade, não humildade cultivada, que somos capazes de enfrentar as premências da vida.

  • Se desejo compreender-vos, tenho de manter-me passivamente vigilante e começais, então, a revelar-me vosso retrato.

  • A vida é um processo de relação; e para compreender as relações, que não são estáticas, é necessária uma percepção flexível, vigilantemente passiva, e não agressivamente ativa.

  • As relações são um espelho em que posso ver a mim mesmo. Sem relações não existimos. Ser é estar em relação.

  • Cada um procura o poder, uma posição de domínio, seja no lar, seja no escritório, e o desejo de poder é causador de isolamento. Um homem afetuoso, benevolente, não tem espírito de poderio e portanto não está ligado a nacionalidade nem a bandeira alguma.

  • Pode-se viver no mundo sem o desejo de poder, de posição, de autoridade? Vivemos assim quando nos identificamos com uma coisa 'maior' – o partido, a pátria, a religião, Deus. Porque sois vazios, embotados, sois fracos, gostais de identificar-vos com algo maior.

  • Será possível viver neste mundo e ser 'nada'? Só então podemos estar livres de toda ilusão, porque só então a mente não buscará uma resposta satisfatória, não procurará forma alguma de justificação, a mente não estará buscando segurança em nenhuma espécie de relação.

  • A cooperação só é possível quando vós e eu não desejamos ser alguma coisa.
  • Outros poderão ter experimentado a Realidade; mas se vós não a experimentastes que vantagem há em especulardes a seu respeito, ou em imaginardes que sois, essencialmente, algo real, imortal, divino?

  • Quando pensais em Deus, vosso Deus é projeção do próprio pensamento, o resultado de influências sociais. Deus, ou a verdade, é impensável. Se pensais na verdade, isto não é a verdade.

  • A mente superficial pode forçar-se, fazer-se tranquila, mas esta tranquilidade é a tranquilidade da deterioração, da morte; incapaz de adaptação, flexibilidade, sensibilidade.

  • O que acontece quando disciplinais a mente, disciplinais vosso modo de viver? A mente se torna muito rígida, não é verdade? - inflexível, sem ligeireza, inajustável. Nas pessoas que se disciplinam, existe um conflito interior que se oculta, mas que continua vivo, ardente.

  • A mente que funciona na rotina de determinada ação está embotada, é inflexível, e o percebimento requer constante flexibilidade e vigilância. Isso não é difícil. É o que se faz quanto temos interesse numa coisa, quando interessadamente observamos nosso filho, nossa esposa, as plantas, as árvores, os pássaros. Observamos sem censura, sem identificação. Por conseguinte, nesta observação há comunhão completa; o observador e o objeto observado estão em completa comunhão. Isso acontece, com efeito, quando nos interessamos a fundo numa coisa. (…) Tudo então tem um movimento, uma significação; nada é velho, nada requentado, repetido, porque o que É nunca é velho.

  • Em que se baseiam geralmente as relações? Na chamada interdependência, na assistência mútua? É o que dizemos, mas na realidade, abstraindo das palavras, elas se baseiam na satisfação mútua. Se não vos agrado, vós vos livrais de mim; se vos agrado, vós me aceitais, como esposo, como vizinho, como amigo. (…) Na vossa família, nas relações entre esposo e esposa, há comunhão? Há liberdade para nos compreendermos, para nos comunicarmos? Talvez haja comunhão fisicamente, mas isso não são relações. Vós e vossa esposa estais vivendo em lados opostos de uma muralha de isolamento. Tendes vossos interesses e ambições pessoais, e ela tem os seus. Vez por outra vos olhais por cima da muralha, a isso chamais estar em relação.

  • Se há verdadeiras relações entre duas pessoas, não há isolamento; há amor, não responsabilidade ou dever. O homem que ama não fala em responsabilidade: ama. Por conseguinte, divide com o outro suas alegrias, seus sofrimentos, seu dinheiro.

  • A guerra é a projeção da vida de nosso dia a dia, é uma manifestação de nosso estado interior. Por conseguinte, somos responsáveis pela guerra. Há alguns anos, durante a guerra, fui procurado por uma senhora americana, que me disse ter perdido um filho e que desejava salvar seu outro filho, de 16 anos. Sugeri-lhe que para salvar o filho deixasse de ser americana, deixasse de ser ambiciosa, de acumular riquezas, de aspirar ao poder e ao domínio, que se tornasse moralmente simples, não apenas em relação ao vestuário e coisas exteriores, mas simples nos pensamentos e sentimentos, simples nas relações. Respondeu-me ela: “Isto é demais. O senhor me pede o impossível. Isto não posso fazer porque as circunstâncias são demasiado poderosas e não posso alterá-las.” Portanto, ela era responsável pela destruição do filho.

  • A causa da guerra é o desejo de poder, posição, prestígio, dinheiro; também a doença chamada nacionalismo, o culto de uma bandeira, e a doença da religião organizada, o culto de um dogma. Se vós, como indivíduos, pertenceis a uma religião organizada, se sois ávido de poder, se sois invejoso, produzireis uma sociedade fadada à destruição.

  • Vós e eu podemos falar sobre a paz, promover conferências, sentar-nos em torno de uma mesa, para discutir, mas interiormente queremos poder, queremos posição, somos impulsionados pela avidez. Somos nacionalistas, escravos das crenças, pelas quais estamos prontos a morrer e entredestruir-nos. Pensais que homens assim podem ter paz no mundo?(...) Só virá a paz quando fordes pacíficos, quando viverdes em paz com vosso próximo.

  • Como compreendeis vosso filho? Observando-o, não é verdade? Observando-o quando brinca, ou estudando-lhe as diferentes disposições de ânimo; abstendo-vos de projetar vossa opinião sobre ele. Não dizeis que ele deveria ser isto ou aquilo. Estais muito vigilante, então talvez comeceis a compreender a criança. Se estais constantemente a criticá-la, a injetar-lhe vossa própria personalidade, vossas opiniões, determinando como ele deve ser ou como não deve ser, etc, criais uma barreira nessas relações. Dá-nos certo prazer moldar uma coisa – as relações com o marido, com o filho ou quem quer que seja. Vem-nos daí uma sensação de força, sois vós “quem manda”, e nisso há imensa satisfação.

  • Credes porque isso vos dá satisfação, consolo, esperança, e dizeis que essas coisas dão sentido à vida. Na realidade vossa crença tem muito pouca significação, porque credes e explorais, credes e matais, credes em um Deus universal e vos assassinais mutuamente. O rico também crê em Deus; explora impiedosamente, acumula dinheiro, e depois manda construir uma igreja ou se torna filantropo. (…) Vossa crença em Deus é apenas uma fuga do vosso viver monótono, estúpido e cruel.

  • O que é a realidade, o que é Deus? Deus não é a palavra; a palavra não é a coisa. Para conhecer aquilo que é imensurável e independente do tempo, a mente deve estar livre de todo pensamento, de todas as idéias relativas a Deus. O que sabeis de Deus ou da verdade? De fato, nada sabeis daquela realidade.

  • Quando fazeis uma oração para pedir alguma coisa, ela geralmente se realiza. Quando pedis, recebeis, mas o que recebeis não criará ordem, pois o que recebeis não traz luz, não traz compreensão. Só pode dar satisfação, prazer, mas não traz compreensão, porque quando pedis recebeis aquilo que vós mesmos projetais. Como pode a realidade, Deus, atender vosso pedido especial? Pode o imensurável, o inefável, estar interessado em insignificantes preocupações, tribulações, confusões, criadas por nós mesmos? Mas quem é que responde? Quando oramos, estamos relativamente silenciosos, em estado de receptividade; então nosso próprio subconsciente produz uma clareza momentânea, o inconsciente se projeta na mente e tendes a resposta desejada; a voz tranquila e suave que lhe dá orientação não é o real, mas apenas a resposta do inconsciente.

  • A mente é superficial, e levamos nossa vida inteira cultivando-a, tornando-a cada vez mais engenhosa, mais sutil, mais desonesta e tortuosa. A natureza da mente é ser desonesta, tortuosa, incapaz de enfrentar os fatos, e eis aí o fator que cria os problemas.

  • O ato sexual não é problema, assim como o comer não é problema para vós; mas se pensais no comer, ou noutra coisa qualquer, o dia inteiro, porque nada mais tendes em que pensar, o comer também se transforma em problema para vós. Por que pensais a este respeito? Por que criais este pensamento, como de fato o fazeis? O cinema, as revistas, os romances, as modas femininas, tudo está contribuindo para formar vosso pensamento sobre o sexo.

  • O sexo tem o lugar que lhe compete; não é uma coisa pura nem uma coisa impura. Quando a mente lhe atribui lugar predominante, o sexo se torna um problema. Fazeis do sexo um problema, só porque em vós não existe amor.

  • Temos respeito pelos que estão de cima, pelo patrão, pelo milionário, pelo homem que pode dar-nos uma posição melhor, um emprego melhor. Mas tratamos a pontapé os que estão abaixo; para estes temos uma linguagem especial. Por conseguinte, onde não há respeito não há amor; onde não há compaixão, caridade, benevolência, não há amor.

  • Ser novo é ser criador e ser criador é ser feliz. O homem feliz não se preocupa em ser rico ou em ser pobre, não lhe importa o nível social, a casta ou a nação a que pertença. Ele não tem guias, nem deuses, nem templos, nem igrejas, e portanto não tem disputas nem inimizades.

  • Dar nome é maneira muito conveniente de nos desembaraçarmos das coisas e das pessoas – dizendo que são alemães, japoneses, americanos, hindus, colocais etiquetas. Se não colocais etiquetas nas pessoas, sois forçados a dar-lhes atenção, e então é muito mais difícil matar alguém.

  • Porque não temos amor, desejamos uma finalidade para a vida. Quando há amor, que é sua própria eternidade, não há mais a busca de Deus, porque o amor é Deus.

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