8.12.12

O MESTRE COMO EU O VI - Sister Nivedita

Este livro foi escrito por Sister Nivédita, discípula irlandesa de Swami Vivekananda: (os trechos com aspas são citações de Vivekananda)

- Éramos só quinze ou dezesseis pessoas convidadas, e ele sentava-se em meio a nós como alguém trazendo-nos notícias de uma terra distante com um curioso hábito de dizer de vez em quando: "Shiva! Shiva!" e com aquele olhar que combina gentileza e majestade que se vê nas faces daqueles que vivem muito em meditação.

Resistência era para ele o dever do cidadão, não-resistência o do monge. E isto porque para todos a suprema aquisição era a força. "Perdoe - ele dizia - quando você também pode trazer legiões de devas para uma fácil vitória". Enquanto a vitória era ainda duvidosa, entretanto, apenas um covarde, em seu modo de pensar, daria a outra face.

"O mundo precisa de caráter. Ele necessita daqueles cuja vida é um amor flamejante, inegoísta. O amor fará cada palavra sair como um raio."

"É o caráter que faz a verdade falar, o amor expressado que faz a ajuda ser bem sucedida, o grau de concentração atrás das palavras que lhes dá força."

Ele nos contou como tinha ansiado, quando no Ocidente, em ficar uma vez mais ao crepúsculo em algum pequeno caminho nas cercanias de um vilarejo indiano e ouvir de novo os chamados da tarde - o barulho de crianças cansando-se em seu jogo, os sinos do fim da tarde, os gritos dos pastores e o som de vozes meio veladas através do crepúsculo que passa rapidamente.

A morte ideal era deitar-se sobre a borda de uma rocha no meio das florestas do Himalaia e ouvir a correnteza abaixo, enquanto se abandona o corpo cantando eternamente: "Hara! Hara!" (Shiva! Shiva!).




A Índia era um mundo em que a concentração da mente era objeto de mais deliberado cultivo que mesmo os instintos de benevolência. O atingimento da posição impessoal era ousadamente proposto, em assuntos pessoais. "Seja a testemunha!" era uma ordem ouvida com mais frequência que aquela que nos solicita orar por nossos inimigos.

Se mesmo entre os grandes homens só poderiam ser encontradas duas das marcas de Shiva, Vivekananda tinha pelo menos dezesseis delas.

Quando alguém passava a seu lado numa tanga, ele se esquecia de tudo, naquela história da qual ele nunca se cansava, sobre Shiva, o Grande Deus (Mahadeva), silencioso, distante sobre as montanhas, nada pedindo aos homens senão solidão, e perdido numa eterna meditação!

"A vida social no Ocidente é como uma gargalhada, mas por baixo é um gemido. A diversão e frivolidade estão na superfície, mas ela está cheia de trágica intensidade. Agora, aqui (na Índia) ela é triste e escura do lado de fora, mas por baixo há despreocupação e alegria."

"Nós temos uma teoria de que o Universo é Ishvara (Deus Criador) manifestando a Si mesmo, apenas por diversão; que os avatares vieram e viveram aqui apenas por diversão. Por que Cristo foi crucificado? Foi mera brincadeira. E assim é a vida. Simplesmente brinque com o Senhor. Diga: "É tudo brincadeira, tudo brincadeira."

Na caverna de Amarnath, num lugar nunca alcançado pela luz do sol, brilhava o grande lingam de gelo. O swami observou cada rito da peregrinação. Passou seu rosário, jejuou e banhou-se nas águas frias como gelo de cinco riachos em sucessão (cinco é o número de Shiva).
E agora, ao entrar na caverna, parecia-lhe como se ele visse Shiva feito visível diante de si. Entre o barulho da multidão de peregrinos, ele ajoelhou-se e prostrou-se duas ou três vezes, sem ser notado, e então, temendo que alguma emoção pudesse dominá-lo, levantou-se e silenciosamente se retirou.
Ele disse depois que nestes breves momentos tinha recebido de Shiva a dádiva de Amarnath - não morrer, até que ele mesmo o desejasse.
A pureza e a brancura do pilar de gelo tinham estremecido e envolvido meu mestre. A caverna tinha se revelado a ele como o segredo de Kailas. E pelo resto de sua vida, ele conservou a lembrança de como tinha entrado numa caverna na montanha, e estado ali face a face com o próprio Senhor!

Aquele mundo de meditação em cujas cercanias moramos tinha Shiva como seu coração e centro, em êxtase e silencioso, "acima de todas as qualidades e além do alcance do pensamento". Ele é o Divino acessível internamente, e purificado de tudo que é externo. Esta personificação do Imanifestado é necessariamente seguida pela concepção oposta - o poder atrás de toda manifestação (a Divina Mãe). O Supremo deve ser Infinito Ser (Shiva) ou Infinito Poder (Kali).

Ele contou-nos a história de Vasishta e Viswamitra, dos cem filhos mortos de Vasishta, e o rei que ficou só, sem terra e sem coroa, para sobreviver. Então ele descreveu a cabana ao luar, entre as árvores, e Vasishta e sua esposa dentro. Ele está com os olhos fixos sobre algumas páginas preciosas, escritas por seu grande rival, quando ela se aproxima e se debruça sobre ele por um momento, dizendo: "Olha como a lua está brilhante esta noite!", e ele sem olhar para cima: "Mas dez mil vezes mais brilhante, meu amor, é o intelecto de Viswamitra!" Tudo esquecido - a morte de seus filhos, seus próprios erros, seus sofrimentos, e seu coração perdido em admiração pelo gênio de seu inimigo.

Kali - a mão direita erguida em bênção, a esquerda segurando a espada. "Sua maldição é bênção!" , dizia o swami. Era sua própria luta constantemente banir o medo e a fraqueza de sua consciência e aprender a reconhecer a Mãe no mal, no terror, na dor e destruição, assim como na doçura e alegria.

"Há egoísmo sob a adoração a Deus gentil e consolador, sem um coração para Deus no terremoto ou no vulcão. Deus se manifesta através do bem e do mal; a alma deve ter determinação, procurar a morte, não a vida; jogar-se sobre a ponta da espada, tornar-se um com a Terrível para sempre."

"Acredito que existe em algum lugar um grande Poder que pensa em Si mesma como feminina, e chamado Kali, e Mãe. E acredito em Brahman também. Mas não é o grande número de células no corpo que dá forma à personalidade, os muitos centros cerebrais que produzem consciência? Unidade na complexidade. E por que seria diferente com Brahman? É Brahman - e ainda assim são os deuses também! Estes deuses não são meramente símbolos! São formas que os devotos têm visto!"

"Kali, a Mãe, deverá ser o culto da futura Índia. Em Seu nome, seus filhos acharão possível sondar muitas experiências em suas profundezas."

"Sim, quanto mais envelheço, mais tudo me parece repousar na virilidade. Este é meu novo evangelho."

Ele falou que quem fosse grande deve sofrer, e que alguns estavam destinados a ver cada gozo dos sentidos transformado em cinzas. E disse: "Nunca esqueça os versos da canção: O leão, quando ferido no coração, solta seu mais poderoso rugido. Quando golpeada na cabeça, a cobra levanta seu capuz. E a majestade da alma apenas se mostra quando um homem é ferido em suas profundezas."

"A vontade não é fortalecida pela mudança. É enfraquecida e escravizada por ela. Mas precisamos estar sempre absorvendo. A vontade se fortalece pela absorção. E consciente ou inconscientemente, a vontade é a única coisa no mundo que admiramos."

"Lute sempre. Lute e continue lutando, ainda que sempre derrotado. Este é o ideal. Este é o ideal."

O swami contou como os monges que falharam às vezes nascem para um trono, para satisfazer aquele desejo particular que levou à sua queda. Akbar (imperador indiano da Idade Média) se considerava um brahmacharin (o qual faz voto de castidade) que falhara em seus votos. Mas ele renasceria em condições mais favoráveis, e desta vez ele seria bem sucedido. 

O swami disse: "Quando eu tinha apenas dois anos, costumava brincar com meu criado de ser um vairágui (asceta renunciante), coberto de cinzas e usando uma tanga. Eu sentia que também era aquilo e que por algum mal tive de ser mandado longe de Shiva. Quando eu fazia alguma travessura, meus familiares diziam: "Tantas austeridades, e mesmo assim Shiva nos mandou este demônio, em vez de uma alma boa!" Ou quando eu era muito rebelde, eles esvaziavam uma caneca de água sobre mim, dizendo: "Shiva! Shiva!" E então eu ficava bem, sempre. Mesmo agora, quando me sinto malévolo, aquela palavra me põe na linha. "Não!" digo a mim mesmo, "não desta vez!"

"Você nunca pensou nos corações dos heróis? Como são grandes, grandes, grandes, e suaves como manteiga?"

Diz o Dhammapada, 'Vá adiante sem um caminho! Nada temendo, com nada se importando; viaje sozinho como o rinoceronte! Assim como o leão, não tremendo com barulhos.'

Força, força, força, era a única qualidade que ele requeria, na mulher como no homem. (força espiritual)

"Brahmacharya deve ser um fogo queimante dentro das veias."

"Por que um homem deve ser moral e puro? Porque isto fortalece sua vontade. Tudo o que fortalece a vontade é moral. Tudo o que faz o contrário é imoral."

"Mesmo o perdão, se fraco e passivo, não é verdadeiro; a luta é melhor."

"Não perturbe a fé de ninguém. Religião não está em doutrinas. Religião está em ser e tornar-se."



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