8.12.12

A AMBIÇÃO DE INDRA (conto indiano)


Após Indra matar o dragão que mantinha as águas das chuvas cativas no ventre, o rei dos deuses convocou Vishvakarman, deus das artes e ofícios, ordenando-lhe que construísse um palácio digno de sua posição. Mas à medida que o trabalho progredia, as exigências de Indra tornavam-se cada vez maiores. Exigiu novos terraços, pavilhões, piscinas e pomares. O artífice divino, em desespero, decidiu buscar socorro com Brahma, o deus da criação.

Brahman confortou-o:

- Logo serás libertado desse encargo. Volta para casa em paz.

Brahma então subiu à esfera de Vishnu, do qual ele era apenas um agente. Vishnu escutou-o e o fez saber que sua vontade seria realizada. Na manhã seguinte, um menino apareceu diante dos portões de Indra, ordenando ao porteiro que anunciasse sua visita ao rei.

Indra recebeu o menino, que aparentava uns dez anos de idade e do qual irradiava o brilho da sabedoria. O rei curvou-se diante da criança divina, que o abençoou alegremente.


  Indra



Disse-lhe Indra:

- Ó venerável menino, diga-me qual é o propósito de tua visita.

A criança respondeu em voz profunda e suave:

- Ó rei dos deuses, ouvi falar do portentoso edifício que estais construindo. Por isso queria saber quantos anos mais vão demorar para terminar? Que outros feitos espera que Vishvakarman realize? Nenhum Indra que vos antecedeu conseguiu terminar um palácio como há de ser o vosso.

Indra divertia-se com a pretensão do menino de querer saber o que ele próprio ignorava, e com um sorriso paternal perguntou:

- Responde-me, menino! São muitos os Indras que já viste ou pelo menos ouviste falar?

O menino balançou a cabeça tranquilo:

- Sim, já vi muitos.

As lentas palavras percorreram as veias de Indra como um calafrio.

- Minha querida criança – prosseguiu o menino - , conheci vosso pai, Kashiapa, progenitor de todas as criaturas da terra, e vosso avô, Marichi, filho de Brahma. Também conheço Brahma, que Vishnu gerou do cálice de lótus germinado no seu próprio umbigo. E o próprio Vishnu, o Ser Supremo, a ele também conheço. Ó rei, conheci a terrível dissolução do universo. Assisti repetidas vezes a destruição de tudo, ao fim de cada ciclo. São tempos terríveis, em que cada átomo se dissolve nas águas primordiais e puras da eternidade.

Ah, quem contará os universos que desaparecem ou as criações que surgiram tantas vezes do abismo? Quem enumerará as eras do mundo, que se sucedem ao infinito? Quem tentará contar um a um os universos, cada um deles contendo seu Brahma, seu Vishnu e seu Shiva? Quem contará a totalidade dos Indras que já reinaram em todos os inumeráveis mundos, ou os outros que desapareceram antes deles? Ou aqueles Indras que se sucederam em alguma dinastia, e um a um desaparecendo? Rei dos deuses, pode haver entre vossos servos quem sustente ser possível contar os grãos de areia da terra e as gotas de chuva que caem do céu; contudo jamais ninguém conseguirá enumerar todos os Indras.

A vida e o reinado de um Indra duram 71 éons e, quando 28 Indras tiverem morrido, um dia e uma noite de Brahma terão transcorrido (um dia e uma noite de Brahma = 4 bilhões e 320 milhões de anos humanos). Mas a existência de um Brahma é de 108 anos. Brahma sucede a Brahma, um submerge e outro emerge; a sucessão infinita não pode ser medida.

Mas aos universos quem poderá estimar-lhes o número? Além da visão mais remota, constelando-se no espaço exterior, os universos surgem e desaparecem, em hoste inumerável. Como frágeis barcos, flutuam nas águas insondáveis e puras que formam o corpo de Vishnu. Em cada poro desse corpo um universo floresce e fenece. Podereis enumerar os deuses de todos estes mundos presentes e passados?

Uma procissão de formigas apareceu no salão durante a fala do menino. Em formação militar, numa coluna de quase quatro metros de largura, a procissão desfilava pelo salão afora. O menino fez uma pausa, admirando-as. De repente, soltou uma gargalhada estrondosa, e depois aquietou-se num silêncio profundo.

- Por que ris? - gaguejou Indra – Quem és tu, ser misterioso, sob teu disfarce de menino?

Agora estavam secos os lábios e a garganta do rei, cuja voz falhava.

- Quem és tu, Oceano de Virtude?

O magnífico menino continuou:

- Ri por causa das formigas. A razão não pode ser contada. A semente do infortúnio e o fruto da sabedoria estão contidos neste segredo. Ele golpeia como um machado a árvore da vaidade humana, corta-lhe as raízes e dispersa-lhe a copa.

Indra fitava o menino, incapaz de mover-se:

- Ó filho de um brahmane, não sei quem és – suplicou o rei agora humilde. - Pareces ser a encarnação da sabedoria. Revela-me o segredo das eras.

Então o menino revelou a sabedoria secreta:

- Vi as formigas, ó Indra, desfilando em longa procissão. Cada uma delas já foi um Indra, certa vez. Como vós, cada um dos Indras, por virtude de atos piedosos, um dia ascendeu à condição de rei dos deuses. Mas agora, através de muitos renascimentos, cada um se transformou novamente em formiga. Este é o exército dos que já foram Indras. Devoção e grandes feitos elevam os habitantes do mundo ao reino celestial, mas atos perversos os fazem mergulhar nos mundos inferiores, em poços de dor e sofrimento. A nova encarnação se dá entre pássaros e vermes, ou no ventre das porcas e animais selvagens, ou em meio a árvores e insetos. É pelos seus feitos que alguém atinge a qualidade de rei ou deus, de Indra ou Brahma. E ainda, através dos feitos, contrai doenças, adquire beleza ou deformidade, ou renasce sob a forma de um monstro.

O rei dos deuses reduzira-se, aos próprios olhos, à insignificância. O menino, que era o próprio Vishnu, desaparecera. Indra não desejava mais ampliar seu palácio. Adquirira a sabedoria e seu único desejo agora era ser livre. Assim Indra se libertou da ambição excessiva e do orgulho, sendo conduzido ao conhecimento do papel que lhe cabia nos ciclos da vida.

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