Após
Indra matar o dragão que mantinha as águas das chuvas cativas no
ventre, o rei dos deuses convocou Vishvakarman, deus das artes e
ofícios, ordenando-lhe que construísse um palácio digno de sua
posição. Mas à medida que o trabalho progredia, as exigências de
Indra tornavam-se cada vez maiores. Exigiu novos terraços,
pavilhões, piscinas e pomares. O artífice divino, em desespero,
decidiu buscar socorro com Brahma, o deus da criação.
Brahman
confortou-o:
- Logo
serás libertado desse encargo. Volta para casa em paz.
Brahma
então subiu à esfera de Vishnu, do qual ele era apenas um agente.
Vishnu escutou-o e o fez saber que sua vontade seria realizada. Na
manhã seguinte, um menino apareceu diante dos portões de Indra,
ordenando ao porteiro que anunciasse sua visita ao rei.
Indra
recebeu o menino, que aparentava uns dez anos de idade e do qual
irradiava o brilho da sabedoria. O rei curvou-se diante da criança
divina, que o abençoou alegremente.
Disse-lhe
Indra:
- Ó
venerável menino, diga-me qual é o propósito de tua visita.
A
criança respondeu em voz profunda e suave:
- Ó
rei dos deuses, ouvi falar do portentoso edifício que estais
construindo. Por isso queria saber quantos anos mais vão demorar
para terminar? Que outros feitos espera que Vishvakarman realize?
Nenhum Indra que vos antecedeu conseguiu terminar um palácio como
há de ser o vosso.
Indra
divertia-se com a pretensão do menino de querer saber o que ele
próprio ignorava, e com um sorriso paternal perguntou:
- Responde-me,
menino! São muitos os Indras que já viste ou pelo menos ouviste
falar?
O
menino balançou a cabeça tranquilo:
- Sim,
já vi muitos.
As
lentas palavras percorreram as veias de Indra como um calafrio.
-
Minha querida criança – prosseguiu o menino - , conheci vosso pai,
Kashiapa, progenitor de todas as criaturas da terra, e vosso avô,
Marichi, filho de Brahma. Também conheço Brahma, que Vishnu gerou
do cálice de lótus germinado no seu próprio umbigo. E o próprio
Vishnu, o Ser Supremo, a ele também conheço. Ó rei, conheci a
terrível dissolução do universo. Assisti repetidas vezes a
destruição de tudo, ao fim de cada ciclo. São tempos terríveis,
em que cada átomo se dissolve nas águas primordiais e puras da
eternidade.
Ah,
quem contará os universos que desaparecem ou as criações que
surgiram tantas vezes do abismo? Quem enumerará as eras do mundo,
que se sucedem ao infinito? Quem tentará contar um a um os
universos, cada um deles contendo seu Brahma, seu Vishnu e seu Shiva?
Quem contará a totalidade dos Indras que já reinaram em todos os
inumeráveis mundos, ou os outros que desapareceram antes deles? Ou
aqueles Indras que se sucederam em alguma dinastia, e um a um
desaparecendo? Rei dos deuses, pode haver entre vossos servos quem
sustente ser possível contar os grãos de areia da terra e as gotas
de chuva que caem do céu; contudo jamais ninguém conseguirá
enumerar todos os Indras.
A
vida e o reinado de um Indra duram 71 éons e, quando 28 Indras
tiverem morrido, um dia e uma noite de Brahma terão transcorrido (um dia e uma noite de Brahma = 4 bilhões e 320 milhões de anos humanos).
Mas a existência de um Brahma é de 108 anos. Brahma sucede a
Brahma, um submerge e outro emerge; a sucessão infinita não pode
ser medida.
Mas
aos universos quem poderá estimar-lhes o número? Além da visão
mais remota, constelando-se no espaço exterior, os universos surgem
e desaparecem, em hoste inumerável. Como frágeis barcos, flutuam
nas águas insondáveis e puras que formam o corpo de Vishnu. Em cada
poro desse corpo um universo floresce e fenece. Podereis enumerar os
deuses de todos estes mundos presentes e passados?
Uma
procissão de formigas apareceu no salão durante a fala do menino.
Em formação militar, numa coluna de quase quatro metros de largura,
a procissão desfilava pelo salão afora. O menino fez uma pausa,
admirando-as. De repente, soltou uma gargalhada estrondosa, e depois
aquietou-se num silêncio profundo.
-
Por que ris? - gaguejou Indra – Quem és tu, ser misterioso, sob
teu disfarce de menino?
Agora
estavam secos os lábios e a garganta do rei, cuja voz falhava.
- Quem
és tu, Oceano de Virtude?
O
magnífico menino continuou:
- Ri
por causa das formigas. A razão não pode ser contada. A semente
do infortúnio e o fruto da sabedoria estão contidos neste
segredo. Ele golpeia como um machado a árvore da vaidade humana,
corta-lhe as raízes e dispersa-lhe a copa.
Indra
fitava o menino, incapaz de mover-se:
- Ó
filho de um brahmane, não sei quem és – suplicou o rei agora
humilde. - Pareces ser a encarnação da sabedoria. Revela-me o
segredo das eras.
Então
o menino revelou a sabedoria secreta:
- Vi
as formigas, ó Indra, desfilando em longa procissão. Cada uma
delas já foi um Indra, certa vez. Como vós, cada um dos Indras,
por virtude de atos piedosos, um dia ascendeu à condição de rei
dos deuses. Mas agora, através de muitos renascimentos, cada um se
transformou novamente em formiga. Este é o exército dos que já
foram Indras. Devoção e grandes feitos elevam os habitantes do
mundo ao reino celestial, mas atos perversos os fazem mergulhar nos
mundos inferiores, em poços de dor e sofrimento. A nova encarnação
se dá entre pássaros e vermes, ou no ventre das porcas e animais
selvagens, ou em meio a árvores e insetos. É pelos seus feitos
que alguém atinge a qualidade de rei ou deus, de Indra ou Brahma.
E ainda, através dos feitos, contrai doenças, adquire beleza ou
deformidade, ou renasce sob a forma de um monstro.
O
rei dos deuses reduzira-se, aos próprios olhos, à insignificância.
O menino, que era o próprio Vishnu, desaparecera. Indra não
desejava mais ampliar seu palácio. Adquirira a sabedoria e seu único
desejo agora era ser livre. Assim Indra se libertou da ambição
excessiva e do orgulho, sendo conduzido ao conhecimento do papel que
lhe cabia nos ciclos da vida.

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