8.12.12

AOS PÉS DE BHAGAVAN - Ramana Maharshi



Em  Skandasramam um pavão seguia  Bhagavan em todo lugar. Um dia uma grande cobra negra apareceu no Ashram e o pavão a atacou ferozmente. A cobra esticou seu capuz e os dois inimigos naturais estavam prontos para uma batalha até a morte, quando Bhagavan aproximou-se da cobra e disse: “ Por que você veio aqui? O pavão vai matá-la. É melhor ir embora agora.” A cobra imediatamente abaixou seu capuz e arrastou-se para longe.

Meu segundo filho era preguiçoso e não ia bem na escola. O momento para os exames finais se aproximava e a única preparação do garoto foi a compra de uma nova caneta! Ele a trouxe a Bhagavan e pediu-lhe para abençoar a caneta com seu toque para que ela escrevesse bem nos papéis do exame. Bhagavan conhecia seu jeito preguiçoso e disse que tendo estudado pouco, ele não poderia esperar passar. Meu filho replicou que as bênçãos de  Bhagavan eram mais efetivas que os estudos. Bhagavan riu, escreveu algumas palavras com a caneta e a deu de volta a ele. E o garoto passou, o que foi realmente um milagre!

Foi nas primeiras horas da manhã no salão de Sri Bhagavan. Ele tinha tomado seu banho e depois foi para o canto do salão para pegar sua toalha que estava colocada num bambu disposto na horizontal, e numa ponta deste um pardal tinha construído seu ninho e posto ali três ou quatro ovos. Ao pegar a toalha, a mão de Sri Bhagavan esbarrou no ninho e um dos ovos caiu e quebrou. Sri Bhagavan se surpreendeu, horrorizado. Ele gritou a Madhavan, o atendente pessoal. “Olhe, olhe o que fiz hoje!” Dizendo isso, ele tomou o ovo quebrado em sua mão, olhou para ele com seus olhos ternos e exclamou: “Oh, a pobre mãe ficará tão desolada, talvez irada comigo também, por causar a destruição de seu esperado filhote! Pode o ovo quebrado ser remendado novamente? Vamos tentar!”

Assim dizendo, ele pegou um pedaço de tecido, molhou, enrolou ao redor do ovo quebrado, e o pôs de volta no ninho da mãe. A cada três horas ele pegava o ovo quebrado, removia o tecido, colocava o ovo em sua palma rosada, e o observava com seus ternos olhos durante alguns minutos. O que realmente ele estava fazendo desta vez? Como podemos saber? Estaria enviando, com aqueles maravilhosos olhares de Graça, gentis raios que dão vida dentro do ovo quebrado, colocando sempre novo calor e vida dentro dele? Isto é um mistério que ninguém pode desvendar. E ele continuou dizendo: “Que a rachadura seja sanada! Será que agora este não pode ser chocado? Que o filhote venha deste ovo quebrado!”
Esta ansiosa preocupação e ternura de Sri Maharshi continuaram todos os dias por uma semana. Assim o afortunado ovo ficou no ninho com sua tira molhada, apenas para ser acariciado por Sri Maharshi com toque divino e olhar benigno. No sétimo dia, ele tirou o ovo, e com a admiração de um estudante anunciou: “Olhe que maravilha! A rachadura fechou, e agora a mãe ficará feliz e chocará seu ovo apesar de tudo! Meu Deus me livrou do pecado de causar a perda de uma vida. Vamos esperar pacientemente pela saída do abençoado filhote!”

Mais uns dias se passaram, e finalmente numa bela manhã Bhagavan descobre que o ovo foi chocado e o pequeno pássaro saiu. Com uma face sorridente e alegre e com sua luz usual, ele pega o filhote em sua mão, o acaricia com seus lábios, passando nele sua suave mão, e passa aos que se encontram perto para que admirem. Ele o recebe de volta finalmente em suas próprias mãos, e fica tão feliz que um pequeno germe de vida tenha sido capaz de evoluir apesar do infeliz acidente com ele no embrião.

Ah, que preocupação com a mais insignificante criatura! Não é o coração de um verdadeiro Buddha que derrama primeiro lágrimas de ansiedade ao quebrar um ovo e depois lágrimas de alegria no nascimento de um pequenino?

Certa manhã K. estava tirando os cocos maduros dos coqueiros, enquanto Bhagavan retornava do estábulo. Bhagavan perguntou a K. que vara ele estava usando para apanhar os cocos, se ela tinha um pedaço de bambu colocado no fim ou uma ponta de ferro.  K. disse que era apenas uma foice de ferro. Bhagavan perguntou: “As árvores não serão machucadas com esta ponta de ferro? Uma vara com um pedaço de bambu no fim não serviria?” E Bhagavan não esperou pela resposta.

K. continuou com seu trabalho, e também não mudou sua vara, mas continuou a usar a foice de ferro toda a manhã. Uma semana mais tarde, à mesma hora da ocasião anterior, enquanto K. cortava cocos dos coqueiros, um caiu em sua testa e atingiu seu nariz causando muita dor. A notícia foi levada a Bhagavan. Ao expressar pena do homem, Bhagavan também disse: “Agora ele vai saber o que é ser ferido, e também quanto sua foice de ferro deve ter ferido as árvores que não sabem reclamar.”

Sri Mahadeva Iyer, um devoto de Sri Bhagavan, estava doente em Madras, sofrendo de um persistente soluço por quase um mês. Sua filha escreveu a Sri Bhagavan, apelando a Ele para abençoar seu pai e lhe dar alívio. Ao receber esta carta, Sri Maharshi disse-me para escrever a  Sri Mahadeva Iyer que uma pasta de açúcar mascavo e gengibre em pó curaria imediatamente seu problema. 

Então, voltando-se para Madhavan, Seu atendente pessoal, Sri Bhagavan disse: “Nós tínhamos um pouco desta pasta; pode encontrá-la?” Madhavan imediatamente a trouxe. Bhagavan tomou uma dose dela e distribuiu a mesma pasta entre aqueles que estavam a seu redor. Ele olhou para mim e disse que eu poderia escrever a Sri Mahadeva Iyer e postar a carta naquela tarde mesmo. 

Eu disse brincando: “Bhagavan, Mahadevan já está curado. Bhagavan tomou o remédio por ele!” E Bhagavan deu uma larga risada. O sentido de unidade de Sri Bhagavan era tão intenso que Ele nunca aceitaria o que não fosse partilhado com outros. Provando primeiro o remédio que Ele ia mandar a seu devoto de Madras, Ele o santificou como Prasad. Eu escrevi a Sri Mahadeva Iyer, mas o correio do dia seguinte trouxe uma carta de sua filha para dizer que seu pai estava curado de sua doença à uma hora da tarde do dia anterior. Foi exatamente a hora em que Sri Maharshi tomou a pasta de açúcar.

Sri Rangaswamy Iyengar era um homem de negócios de Madras que frequentava Sri Bhagavan muito antes de 1906. Quando Sri Bhagavan estava no templo de Pachaiamman durante os dias da grande praga em Tiruvannamalai, Sri Iyengar um dia chegou de trem à uma da tarde, no sol queimante. Sri Bhagavan o recebeu com seu usual rosto brilhante e sorrindo. Os devotos pediram a Sri Iyengar que se banhasse no poço próximo e ele deixou a presença de Sri Bhagavan para se banhar lá em frente ao templo. O local estava muito solitário. De repente Sri Bhagavan, que estava sentado dentro do templo, deixou o lugar. As pessoas próximas pensaram que ele saía para alguma necessidade física. 

Quando Ele chegou lá, viu um leopardo vir ao tanque para saciar sua sede no lado norte. Bhagavan disse baixo ao animal: “Vai agora, e volte mais tarde; ele se assustaria,” referindo-se ao homem que se banhava próximo. A estas palavras de Sri Bhagavan, o animal foi embora. Sri Bhagavan então foi até o banhista, que já tinha terminado seu banho, e disse a ele: “Não devíamos vir aqui nesta parte do dia, animais selvagens vêm a esta hora para saciar sua sede.” Ele não acrescentou que um animal selvagem na verdade tinha vindo ali, para que o homem não se assustasse.


Devoto: Dizem que o Mahatma considera a todos com a mesma amabilidade. Por que então eles recebem uns com afeto, respondem a uns e a outros não, quando perguntados, gritam com uns e mostram indiferença para com outros?

Bhagavan: Sim. Todos os filhos são o mesmo para o pai. Ele quer bem a todos. Por isso que ele os trata com amor ou ira, de acordo com suas tendências, e assim lhes dá treinamento. Filhos que são gentis, ficam à distância com medo e não pedem nada, devem ser lisonjeados com amor e afeto e pegar o que quiserem. Aqueles que são audazes, pedem e levam o que querem. Aqueles que são vagabundos devem ser repreendidos e mantidos em seus lugares apropriados. Aqueles que são obtusos devem ser negligenciados e deixados para se arranjarem sozinhos. Da mesma maneira os  Mahatmas têm de ser amorosos ou severos de acordo com os méritos dos devotos.”

A vichara não significa arguir ou dizer que não sou isto ou aquilo; significa concentração no sentido puro do ser, o puro eu-sou em mim. Também não é uma prática mental, pois o Maharshi nos disse para não nos concentrar na cabeça ao fazê-la, mas no coração. Mas com isso ele não quis dizer o coração físico do lado esquerdo do peito, mas o coração espiritual à direita. Este não é um órgão físico e nem um chakra, mas sim o centro de nosso sentido de ser.

 Após um pouco de prática se estabelece uma corrente de consciência que pode na verdade ser sentida fisicamente. No início é sentida no coração, às vezes no coração e na cabeça conectando-os. Mais tarde ela impregna e transcende o corpo. Talvez se pudesse dizer que esta corrente seja a ‘resposta’ à pergunta ‘Quem sou eu?’, uma vez que é a experiência sem palavras do sentido do eu. 

Como Bhagavan explicou: “A meditação requer um objeto no qual meditar, enquanto que na vichara há apenas o sujeito e nenhum objeto”. No começo muito tempo e esforço podem ser necessários antes que a corrente de consciência seja sentida; mais tarde ela começa a despertar mais e mais facilmente. 


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