O CAMINHO CURTO E O CAMINHO LONGO - Paul Brunton
Todo
tipo de busca espiritual se divide em duas classes. O primeiro é
básico, elementar, o segundo para pessoas mais avançadas. O
primeiro para iniciantes é o Caminho Longo. Ele requer um longo
tempo para ter resultados, e muito trabalho tem de ser feito nele,
muito esforço é necessário. O segundo é o Caminho Curto. Os
resultados são conseguidos mais rapidamente, é um caminho mais
fácil, e requer menos trabalho.
Ao
Caminho Longo pertence a yoga metódica. Requer muito trabalho para
praticar diariamente: construir o caráter e remover as fraquezas e
dominar os erros, desenvolver concentração de atenção para parar
a distração da mente e controlar os pensamentos, fortalecer o poder
da vontade, e todas as atividades para os principiantes. Estes são
os estágios iniciais da meditação.
A
meditação tem duas partes. A inferior pertence ao Caminho Longo. As
religiões também são para os iniciantes e as massas populares.
Elas também pertencem ao Caminho Longo. Ao Caminho Curto pertencem a
Ciência Cristã, os ensinamentos de Ramana Maharshi, Vedanta, os
ensinamentos de Krishnamurti e o Zen. Todos estes dizem que Você é
DEUS. O Caminho Longo diz em vez disso: você é apenas um homem. Um
diz que você é um homem e o outro diz que você na verdade tem sua
raiz em Deus.
Caminho
Longo – aqui se trabalha através do ego. O estudante pensa que ele
é o ego e desenvolve concentração, aspira a se melhorar, ficar
mais e mais puro. Ele diz: “Estou fazendo este trabalho”. Ele
pensa que está se purificando e melhorando a qualidade do ego. Mas é
ainda o ego. Ele está subindo da parte inferior para a superior do
ego e se tornando um ego espiritualizado. Ele está buscando os
gurus.
Caminho
Curto – é diferente porque a ideia "ego" não aparece,
apenas o Eu Superior, não a ânsia (que pertence ao Caminho Longo),
mas a identificação, nem mesmo aspiração.
O
Caminho Longo tem a ver com progresso e leva tempo para isso, e
portanto significa mover-se no tempo, e é o ego que está
trabalhando.
O
Caminho Curto não se preocupa com o tempo e portanto nem com o
progresso. Pensa apenas no eterno Eu Superior. Nenhuma ideia de
progresso, nenhum desejo, isso não importa. O Verdadeiro Eu é
sempre imutável. Progresso implica mudança. Todas as perguntas e
problemas desaparecem porque ao intelecto curioso (ego) não se
permite estar ativo.

No
Caminho Longo, o aspirante quer o guru, procura um guru, depende
dele, e o guru o ajuda a progredir. No Caminho Curto o Eu Superior é
o guru e o aspirante depende diretamente apenas do Eu Superior. No
Caminho Curto a questão do guru não vem em consideração. O guru
está fora, mas Deus está dentro, no estágio do Caminho Curto. Os
aspirantes do Caminho Curto não precisam depender de um guru.
Intelectualmente o guru lhes dá liberdade. Se um guru morre ou
desaparece, eles não se preocupam com isso.
Uma
pergunta será feita: Por que todo professor não ensina o Caminho
Curto? A resposta é: Porque as pessoas não têm força de caráter
suficiente para abandonar o ego e não desejam voltar-se
imediatamente para a luz. É um sacrifício. Para tornar isto
possível, o Caminho Longo os ensina a tornar o ego mais fraco
gradualmente. No Caminho Longo o progresso vem para prepará-los a
alcançar um ponto onde fica mais fácil para abandonarem o ego. Esta
é uma das mais importantes razões. Ele torna o aspirante pronto
para se beneficiar do Caminho Curto; de outro modo ele não
conseguiria viajar nele.
A segunda razão é porque eles não têm a
força de concentração para manter a mente no Eu Superior. Podem
ser capazes de mantê-la por um ou dois minutos, mas depois caem de
volta. Portanto é necessário desenvolver o poder de concentração
continuada. Mesmo que a pessoa veja a Verdade, ela deve ter o poder
de permanecer na Verdade.
A
maior parte das pessoas tem fortes apegos e fortes desejos por coisas
mundanas. Estas ficam em seu caminho, obstruindo seu caminho para a
Realidade. Isto significa que elas desejam manter os apegos e desejos
que vêm do ego, que elas não querem perder. Portanto o professor dá
primeiro o Caminho Longo, porque a maior parte dos aspirantes não é
capaz de seguir o Caminho Curto. O Caminho Longo existe para
prepará-los para o Curto. Não adianta para eles seguir o Caminho
Curto se não têm a compreensão filosófica para praticá-lo. Mesmo
que a Verdade fosse mostrada a eles no Caminho Curto, se não
estiverem preparados pelo estudo e pensar filosófico, eles podem
falhar em reconhecê-la. Eles não aprenderam o que é a Verdade e
podem não valorizá-la. Eles não têm o conhecimento filosófico
para ver a diferença entre a Verdade ou Realidade e a ilusão ou
erro.

Outra
questão importante referente ao Caminho Longo: quando as pessoas
seguem o Caminho Longo e passam anos trabalhando nele, muitas dessas
pessoas após muitos anos descobrem que não fizeram o progresso que
esperavam. No começo elas têm entusiasmo. Esperam experiências
internas que lhes deem poder, conhecimento e autocontrole; mas após
muitos anos elas não ganham estas coisas. Ao contrário, vêm
testes, provações difíceis da vida, morte na família, mudanças
na vida exterior, e assim por diante. Elas ficam desapontadas e
dizem: “Por que Deus me escolheu para sofrer se eu sigo o Caminho?"
Elas ficam desencorajadas. Neste ponto uma de três coisas pode
acontecer:
1)
Elas podem abandonar a Busca totalmente, por um ano ou muitos anos,
ou toda a vida, e voltar-se à vida materialista.
(2)
Elas podem pensar que tomaram o caminho errado, ou que estão usando
métodos errados, ou têm o professor errado, e procuram outro
professor e outro caminho. Mas com o novo professor os resultados são
os mesmos porque elas estão ainda dentro do círculo do ego. O ego
as impede de aprofundar suficientemente seu estado de luz e
sabedoria.
(3)
Uma terceira possibilidade pode lhes acontecer. Quando elas já
tentaram com grande esforço e não tiveram sucesso e se sentem muito
cansadas mentalmente e exaustas emocionalmente, elas deixam de tentar
mas não abandonam a Busca. Elas apenas se sentam passivamente e
esperam. As pessoas que estão nesta última categoria estão
completamente prontas para entrar no Caminho Curto.
Contradições
entre os dois Caminhos: um é o ego e o outro o Eu Superior sem o
ego. O Caminho Curto é sem planejamento, intuitivo. No Caminho Longo
as pessoas buscam passo a passo sair da escuridão de sua ignorância.
No Caminho Longo muitos estudantes querem experiências – místicas,
ocultas, psíquicas. É o ego que as quer, com a satisfação do
progresso. O ego se sente importante. No Caminho Curto não há
desejo por experiências interiores de qualquer tipo. Quando você já
está no Real, não há mais desejo. Pois as experiências vêm e
vão, mas o Real não.
A
respeito da Iluminação, ela não vem do autoesforço, mas é
questão de Graça. É como o vento que vem e você não sabe de
onde; e vai e você não sabe para onde. No fim temos de ser como
criancinhas e deixar nossa Iluminação ao Pai e entregar nossas
vidas a ele. No Caminho Longo o aspirante tenta se melhorar. Ele
experimenta sucessos e fracassos, altos e baixos. Quando está
desapontado, fica melancólico. No Caminho Curto esta situação não
aparece, porque ele tem fé como uma criancinha. Ele deixou seu
futuro aos cuidados do Eu Superior e tem fé suficiente para
confiá-lo a Ele. Ele sabe que tomou a decisão certa e portanto está
sempre feliz. O que vier, será o melhor. Ele sempre confia no Eu
Superior e tem sua alegria nEle.

O
Caminho Curto é um Caminho alegre, um Caminho de felicidade. Antes
que ele comece, o aspirante pode experimentar a Noite Escura da Alma.
Ele se sente totalmente desamparado, sem nenhum sentimento de
Realidade espiritual. É um tempo melancólico – sem sentir
espiritualidade ou desejá-la. Ele não é mundano nem espiritual.
Ele se sente só e abandonado e separado por um muro de seu guru. Ele
sente que Deus o esqueceu. Esta noite escura pode durar pouco tempo
ou longos anos. Ele é incapaz de ler coisas espirituais ou pensar
nelas. Não há desejos por coisas comuns também. Ele se sente
triste e desapontado e pode até mesmo tentar o suicídio. Nesta
infelicidade até mesmo aqueles que o amam não podem lhe dar
conforto. Há um ditado: a noite é mais escura logo antes do
amanhecer. Ele está no ponto mais baixo. Após isso, o Caminho Curto
traz de volta a Alegria – assim como nuvens se distanciando do Sol.
No
Caminho Curto existem geralmente muito menos exercícios para
praticar. Não é necessário se sentar especialmente para meditar,
mas tentar estar sempre em meditação. Quando você está ocupado
exteriormente, a meditação naturalmente toma uma forma diferente do
que a que se tem sentado. Durante a parte ativa do dia, a meditação
toma a forma da lembrança, sempre tentando lembrar o Eu Superior:
ELE É (isto é suficiente).
Paul Brunton
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